sexta-feira, 3 de março de 2023

Propaganda ambiental? Zero lamenta "práticas perversas" de multinacionais

 

Propaganda ambiental? Zero lamenta "práticas perversas" de multinacionais

A associação ambientalista Zero lamentou hoje que grandes multinacionais usem "práticas perversas" de publicidade que pretende dar uma imagem de que são responsáveis em termos ambientais, quando são poluidoras ('greenwashing'), e pediu intervenção dos governos.

 

20:10 - 13/02/23 POR LUSA

PAÍS AMBIENTE

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Em comunicado, a Zero - Associação Sistema Terrestre Sustentável refere, citando o relatório mais recente, de 2023, sobre a responsabilidade climática das grandes empresas, que nenhuma das 24 companhias analisadas recebeu a pontuação correspondente a "alta integridade" ambiental.

Apenas uma multinacional, a Maersk, recebeu a pontuação abaixo, a de "integridade razoável". A Apple, a Arcelor Mittal, a Google, o Grupo H&M, a Holcim, a Microsoft, a Stellantis e a Thyssenkrupp obtiveram a pontuação de "integridade moderada" e outras 15 empresas tiveram "baixa ou muito baixa integridade".

Segundo a Zero, as 24 empresas avaliadas pelo NewClimate Institute e pela organização Carbon Market Watch, da qual faz parte, "são não só as maiores a nível mundial, como também alegam ser líderes na ação climática devido à sua associação à campanha 'Race to Zero', patrocinada pelas Nações Unidas", que visa "zero" emissões de gases poluentes.

Contudo, de acordo com a associação ambientalista, "a maioria das empresas avaliadas esconde a sua inação climática atrás dos seus aparentes planos verdes de neutralidade climática", ao reduzir apenas as suas "emissões reais" em 15% em 2030 e em 26% em 2050.

As empresas em causa estão ligadas aos setores automóvel, moda, supermercados, alimentação e agricultura, tecnologia e eletrónica, transportes marítimos e aéreos e aço e cimento, sendo "responsáveis por cerca de 4% das emissões a nível global".

A Zero entende que os governos devem criar legislação que proteja melhor os consumidores destas práticas publicitárias.

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Pesquisadores defendem proteção integral de áreas úmidas do Cerrado, atualmente exploradas por grandes produtores rurais

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Pesquisadores defendem proteção integral de áreas úmidas do Cerrado, atualmente exploradas por grandes produtores rurais

Pesquisadores defendem proteção integral de áreas úmidas do Cerrado, atualmente exploradas por grandes produtores rurais

*Por José Tadeu Arantes

Cerrado é o mais ameaçado dos grandes biomas do território brasileiro. E uma parte especialmente vulnerável dele são suas áreas úmidas, que garantem a existência de rios perenes e abastecem nada menos do que oito bacias hidrográficas. O Xingu, o Tocantins, o Araguaia, o São Francisco, o Parnaíba, o Jequitinhonha, o Paraná e o Paraguai, entre outros rios importantes, nascem no Cerrado. A destruição de áreas úmidas não ameaça apenas a biodiversidade e a extraordinária beleza das paisagens cerratenses. Põe em risco ainda a segurança hídrica e energética do país.

Além disso, as áreas úmidas são também um extraordinário repositório de carbono (CO2), estocando mais de 200 toneladas por hectare. E alterações em seu equilíbrio cíclico tendem a liberar metano (CH4) para a atmosfera, um dos principais gases de efeito estufa (GEE).

O problema é que a própria definição de áreas úmidas é confusa. E essa confusão tem sido explorada por grandes produtores rurais que, não contentes em converter descontroladamente áreas secas do Cerrado em terras agriculturáveis, cogitam também drenar as áreas úmidas, para estender as lavouras de soja até o fundo das veredas. Se não fosse por outros motivos, até mesmo do ponto de vista estrito do interesse econômico isso equivaleria a erguer uma pedra para deixá-la cair sobre os próprios pés, pois a possibilidade de irrigação depende da sobrevivência dos mananciais.

Para dirimir a confusão e fornecer aos tomadores de decisão sólidos critérios científicos, um grupo de pesquisadores acaba de produzir um artigo contemplando os múltiplos ecossistemas englobados pelo conceito de áreas úmidas. Trata-se de Cerrado wetlands: multiple ecosystems deserving legal protection as a unique and irreplaceable treasure, publicado no periódico Perspectives in Ecology and Conservation.

“A falta de definições precisas tem embaralhado a regulamentação, deixando importantes segmentos do Cerrado desprotegidos. Nosso objetivo foi esclarecer o que são áreas úmidas; que ecossistemas podem ser abarcados por esse nome; que dinâmicas eles apresentam; e o que devemos fazer para protegê-los”, diz à Agência FAPESP a pesquisadora Giselda Durigan, primeira autora do artigo.

Durigan é pesquisadora do Instituto de Pesquisas Ambientais do Estado de São Paulo (IPA) e professora nos programas de pós-graduação da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Estuda o Cerrado há mais de 35 anos.

“Um exemplo do grave risco que a falta de definições precisas e as ambiguidades na interpretação da lei podem acarretar foi a Resolução número 45, de 31 de agosto de 2022, aprovada pelo Conselho do Meio Ambiente de Mato Grosso (Consema). Desrespeitando decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ), essa norma regulamentou o ‘licenciamento ambiental de atividades e empreendimentos localizados em áreas úmidas’ no âmbito estadual. Por trás dos eufemismos do texto, a resolução, de fato, libera a destruição”, denuncia Durigan.

A pesquisadora define: “Áreas úmidas são porções de terras continentais que estão sujeitas, periódica ou permanentemente, a encharcamento do solo ou inundação. Dada a sua fragilidade e extrema importância para o armazenamento e a filtragem da água, são globalmente protegidas, desde a convenção intergovernamental realizada em Ramsar, no Irã, em 1971. O Brasil é signatário da convenção de Ramsar desde 1996, mas até hoje não atendeu ao compromisso de mapear todas as suas áreas úmidas”.

No país, há exemplos de áreas úmidas em faixas costeiras, onde os pulsos de inundação resultam da oscilação das marés, de modo que a água se apresenta salgada ou salobra. E também longe da costa, compondo dois grandes tipos, hidrologicamente distintos: terras que são periodicamente alagadas pelo transbordamento dos leitos dos rios (várzeas e pantanais) e terras que ficam encharcadas ou até alagadas pela elevação periódica do lençol freático.

“As áreas úmidas do Cerrado geralmente se enquadram no último tipo. As chuvas abundantes, que caem nos meses de verão, infiltram-se lenta e profundamente no solo, recarregando o lençol freático e acumulando-se nas áreas úmidas, de onde brotam os pequenos riachos que nunca secam e alimentam os grandes rios do Brasil, mesmo nos períodos de estiagem. Diferentemente, aliás, das outras grandes savanas do mundo, cujos grandes rios secam de todo durante boa parte do ano”, informa Durigan.

Proteção integral às areas úmidas do Cerrado

Segundo a pesquisadora, a confusão que embaralha a regulamentação deve-se ao fato de que, dentro das áreas úmidas do Cerrado, existem diversos tipos de vegetação, que resultam em múltiplas denominações regionais. São campos úmidos, campos de murundus, turfeiras, veredas, palmeirais, buritizais, matas de galeria, matas de brejo e por aí vai. Às vezes, em uma única área úmida, existem dois ou mais tipos de vegetação, desde campos limpos até florestas densas, o que tem dificultado seu entendimento, delimitação e proteção.

“A lei, às vezes, refere-se a apenas um dos tipos, como é o caso das veredas na Lei de Proteção da Vegetação Nativa (12.651), de 2012, deixando os demais tipos desprotegidos. Outras vezes, a lei protege apenas uma parte da área úmida, deixando trechos inteiros sem cobertura legal”, ressalta Durigan.

Ela conta que o artigo em pauta resultou de um esforço multidisciplinar, envolvendo especialistas em vegetação, hidrologia, ecofisiologia, conservação, restauração e legislação ambiental, que utilizaram seus conhecimentos e experiências práticas para unificar e disseminar sua compreensão sobre o assunto. O grupo teve apoio da FAPESP por meio de três projetos (19/07773-120/09257-8 e 20/01378-0).

“Para nós, todas as áreas úmidas devem ser igualmente e integralmente protegidas por lei, garantindo-se que não sejam convertidas para cultivo e que seus pulsos naturais de encharcamento ou inundação não sejam afetados pelo uso da terra ao redor. Práticas de exploração sustentável, como a apicultura e o extrativismo, por exemplo, podem ser admitidas, mas precisam ser validadas e regulamentadas”, enfatiza Durigan.

E sua ênfase se justifica, pois as ameaças às áreas úmidas são muitas no Cerrado, destacando-se barramento dos córregos, drenagem das terras brejosas, expansão de áreas urbanizadas, obras de infraestrutura, extração descontrolada de água de poços para irrigação e plantação de árvores, principalmente de eucalipto, em bacias hidrográficas inteiras, onde a vegetação original não era floresta.

“Todas essas atividades são altamente impactantes. Reduzem o nível do lençol freático ou podem até mesmo exauri-lo localmente, pondo em risco a segurança hídrica e os serviços ecossistêmicos do Cerrado. É algo que precisa ser urgentemente impedido por meio de legislação competente e da aplicação efetiva da lei”, afirma a pesquisadora.

Durigan comenta que a Lei de Proteção à Vegetação Nativa trata de maneira bastante confusa as áreas úmidas, deixando uma parte delas como Áreas de Preservação Permanente (APP) e outra parte como Áreas de Uso Restrito (AUR). Mas que alguns tipos de áreas úmidas do Cerrado não se encaixam nas definições dos tipos mencionados, o que tem gerado imprecisão na aplicação da lei, com conflitos jurídicos, sociais e políticos.

“Buscando pacificar a situação, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) decidiu que, dada a sua inquestionável importância ambiental, todas as áreas úmidas devem ser entendidas como protegidas, sejam como APPs, sejam como AURs, independentemente da nomenclatura. Foi essa decisão que a resolução do Consema do Estado de Mato Grosso desrespeitou”, sublinha a pesquisadora.

A boa notícia é que existe, no momento, um grande grupo de técnicos e cientistas, representativos de diferentes regiões do Brasil, empenhados em realizar o Inventário Nacional de Áreas Úmidas, sob a liderança dos especialistas Wolfgang Junk, do INCT Áreas Úmidas (Inau), para dar suporte ao Ministério do Meio Ambiente. O trabalho conta com a participação de Cátia Nunes da Cunha, professora da UFMT.

“A Plataforma MapBiomas incluiu recentemente a legenda ‘Áreas Úmidas’ em seus mapas, o que se constitui em grande avanço. Porém, demarcar as áreas úmidas em campo, na escala de uma propriedade rural, não é uma tarefa fácil e isso atrapalha a aplicação das leis. Nosso artigo propõe critérios objetivos, baseados no solo hidromórfico, na flora endêmica e na elevação máxima do lençol freático para facilitar a delimitação de áreas úmidas em escala local”, conclui Durigan.

O artigo Cerrado wetlands: multiple ecosystems deserving legal protection as a unique and irreplaceable treasure pode ser acessado neste link.

*Texto publicado originalmente em 06/12/22 no site da Agência Fapesp da Notícias

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Foto de abertura: Rafael Oliveira/chuveirinho (Paepalanthus urbanianus) em campo úmido, Chapada dos Veadeiros, Goiás

Cientistas apontam o desmatamento como causa da redução de chuvas na Amazônia

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Cientistas apontam o desmatamento como causa da redução de chuvas na Amazônia

Cientistas apontam o desmatamento como causa da redução de chuvas na Amazônia

Não é de hoje que cientistas sabem que florestas são essenciais para o equilíbrio do ciclo hidrológico e a precipitação de chuvas. Através de um mecanismo chamado de evapotranspiração, a umidade das folhas é liberada na atmosfera. Foi no Brasil que surgiu, por exemplo, o conceito dos “rios voadores”.

O termo, hoje largamente utilizado nas pesquisas ambientais, descreve o fenômeno formado por imensos volumes de vapor de água, produzidos pelas árvores da floresta, e levados pelos ventos, muitas vezes, acompanhados por nuvens. Apesar de não os enxergarmos, esses rios têm cerca de três quilômetros de altura e milhares de quilômetros de extensão, e são responsáveis por levar chuva para outras áreas.

Agora, um novo estudo comprova e quantifica o impacto do desmatamento sobre a produção de chuvas, ou melhor, sobre a redução delas, em florestas tropicais, na América do Sul (Amazônia), Congo e sudeste da Ásia.

Pesquisadores da Universidade de Leeds, no Reino Unido, analisaram imagens de satélite e dados de precipitação entre 2003 e 2017. Durante esse período, eles compararam o volume de chuvas em áreas desmatadas, sem cobertura vegetal, com o de outras que não sofreram deflorestamento.

Eles perceberam que a perda de cobertura arbórea causou reduções nas chuvas ao longo do ano todo, incluindo na estação seca, quando qualquer seca adicional terá maior impacto nos ecossistemas de plantas e animais.

Todavia, o mais alarmante é que o maior declínio absoluto na precipitação foi observado na estação chuvosa, com uma diminuição de até 0,6 mm por mês para cada ponto percentual de perda de cobertura florestal. O que o estudo mostra é que quanto maior a área desmatada, maior será a queda nas chuvas.

Segundo previsão dos cientistas britânicos, no caso do Congo, se o ritmo atual de desmatamento continuar, até o final deste século a pluviosidade na região poderá ser reduzida entre 8% e 12%, com grande impacto na biodiversidade e na agricultura. O rendimento das colheitas diminui 0,5% para cada 1% de redução nas chuvas.

Os pesquisadores lembram ainda que as florestas do Congo estão entre as maiores reservas de carbono do planeta (além de produzir chuvas, árvores têm um papel fundamental em absorver o dióxido de carbono, o gás CO2 da atmosfera, apontado como o principal responsável pelo aquecimento global).

Para Callum Smith, principal autor do estudo, a análise oferece evidências incontestáveis sobre a necessidade da proteção das florestas e do combate ao desmatamento descontrolado.

“As florestas tropicais desempenham um papel crítico no ciclo hidrológico, ajudando a manter os padrões de chuva locais e regionais. A redução das chuvas causada pelo desmatamento tropical afetará as pessoas que vivem nas proximidades por meio do aumento da escassez de água e da diminuição do rendimento das colheitas”, alerta o pesquisador. “As próprias florestas tropicais dependem da umidade para sobreviver e as áreas remanescentes de floresta serão afetadas por um clima mais seco”.

Além do desmatamento, as mudanças climáticas também contribuem para um clima cada vez mais seco e propício ao aumento de incêndios florestais.

“Os moradores locais que vivem perto de regiões desmatadas relatam um clima mais quente e seco depois que as florestas são derrubadas. Mas até agora esse efeito não havia sido visto em observações de chuva”, destaca Dominick Spracklen, professor da School of Earth and Environment da Universidade de Leeds e supervisor do projeto. ”Embora tenha havido esforços para deter o desmatamento, a perda de cobertura florestal nos trópicos continua. É preciso renovar os esforços para impedir a perda de florestas e regenerar áreas perdidas e degradadas”.

O estudo Tropical deforestation causes large reductions in observed precipitation foi publicado na revista Nature.

*Com informações da área de comunicação da Universidade de Leeds

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Foto de abertura: Christian Braga / Greenpeace Brasil

quinta-feira, 2 de março de 2023

Em Barranquilla, na Colômbia, parques urbanos revitalizaram uma cidade em decadência

Em Barranquilla, na Colômbia, parques urbanos revitalizaram uma cidade em decadência

17 Jan 2023 Por Anne Maassen Foto: WRI Ross Center for Sustainable Cities

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Samira Perez, uma antiga moradora da cidade de Barranquilla, na Colômbia, costumava gastar tempo e dinheiro com táxis para levar seus filhos aos shoppings locais depois da escola e aos finais de semana. Lá, eles passavam o tempo admirando vitrines de lojas sofisticadas, assistindo a shows e fazendo refeições nos restaurantes.

https://youtu.be/6QMw1GrjB4g

A presença do shopping na vida da família de Perez é comum em cidades latino-americanas que têm passado por um rápido processo de urbanização, no qual, diante da ausência de alternativas acessíveis ao ar livre, os shoppings costumam oferecer espaços de convivência seguros e limpos. Em Barranquilla, onde os shoppings são onipresentes, uma pesquisa de percepção realizada em 2009 mostrou que 90% dos moradores estavam insatisfeitos com as áreas verdes e públicas da cidade.

Mas as coisas mudaram em 2016. O Parque Los Andes, próximo de onde Samira vive, é um dos 258 espaços públicos transformados por meio do programa municipal de renovação de parques, Todos al Parque. Antes associado ao tráfico e ao crime e negligenciado pelo setor público, o parque é hoje um local de encontro para as famílias, com playgrounds e campos de futebol bem iluminados e bem cuidados.

Também é um caso emblemático de uma história mais ampla: a do renascimento de Barranquilla.

O projeto Todos al Parque é o vencedor da edição 2021-2022 do WRI Ross Center Prize for Cities (informação atualizada em 3 de fevereiro de 2023), um exemplo de como investimentos inclusivos em espaços públicos verdes podem ser uma estratégia efetiva para desenvolver a economia, empoderar grupos marginalizados e renovar a confiança nas instituições públicas.

Começando por onde a mudança era mais necessária

Nos anos 1970, a outrora poderosa indústria naval de Barranquilla estava em decadência, as florestas da cidade vinham sendo desmatadas e os bairros passavam por diversas mudanças – para pior. Assentamentos informais se espalhavam enquanto qualidade de vida, saúde, segurança e oportunidades econômicas decaíam. No final dos anos 2000, o índice de espaço público por habitante era menos que 10% do mínimo recomendado pela Organização Mundial da Saúde. Bairros com parques e espaços públicos negligenciados registravam taxas mais altas de criminalidade, além de maior incidência de asma, obesidade e outros problemas de saúde.

Em 2011, a gestão da então nova prefeita, Elsa Noguera, criou um programa para recuperar 60 parques localizados nas áreas mais desassistidas da cidade. O Todos al Parque priorizou as necessidades de grupos vulneráveis e desfavorecidos, incluindo crianças, mulheres, pessoas com deficiência e idosos. O eixo central do programa era a participação dos moradores no redesenho dos parques.

Desde o início, o programa tinha o objetivo de promover uma distribuição mais social e espacialmente equitativa das áreas verdes da cidade. Começando pelas áreas mais desassistidas, na região sudeste de Barranquilla, e espalhando os benefícios por toda a cidade ao longo do tempo.


Jogadores fazem um intervalo em uma partida de futebol no Parque Sagrado Corazon. Durante o planejamento de cada parque, moradores da comunidade local foram convidados a sugerir melhorias que gostariam de incluir no espaço, como campos de futebol (foto: WRI Ross Center for Sustainable Cities)

No planejamento de cada parque, arquitetos e lideranças comunitárias debateram necessidades e ideias de desenho. Em seguida, representantes do poder público se reuniam com os moradores da comunidade onde o parque seria construído ou renovado. Nessas ocasiões, as pessoas faziam recomendações que seriam posteriormente incorporadas ao projeto – como mudar a superfície do campo de futebol (de areia para grama sintética), aumentar o tamanho do playground e criar uma área dedicada a receber programações infantis. Antes do início da construção de cada parque, foi realizada uma cerimônia simbólica de assinatura para que os moradores pudessem aprovar a versão final do projeto.

Hoje, 93% dos moradores de Barranquilla possuem acesso a um espaço público verde a oito minutos de caminhada de suas casas. O Todos al Parque está presente nos 188 bairros da cidade.

Como esse trabalho foi feito?

Depois do lançamento do programa, em 2011, uma pequena equipe nomeada pelo gabinete da prefeita reuniu-se com especialistas locais, avaliou os parques da cidade e pesquisou as melhores práticas internacionais. Uma inspiração foi Tampa, na Flórida (EUA), cidade-irmã de Barranquilla. Na época, Tampa ostentava 44m² de área verde por habitante, em comparação com os 0,86m² de Barranquilla. Durante um estudo de campo em Tampa, a equipe aprendeu sobre infraestrutura, técnicas de cocriação e aspectos práticos sobre como diferentes departamentos e construtoras da cidade podem trabalhar em conjunto.

A equipe de Barranquilla colocou as lições em prática em projetos-pilotos ao longo de 2013. A prefeita, então, instaurou um Comitê de parques, sob coordenação da Agência Distrital de Infraestrutura, que incluía representantes dos departamentos de obras, lazer, trânsito, segurança viária, iluminação pública e segurança pública.


Aula de dança ao ar livre. Os parques de Barranquilla sediam eventos públicos, como festivais, aulas de ginástica, campanhas de vacinação e feiras para promover a saúde pública e fortalecer os laços comunitários (foto: WRI Ross Center for Sustainable Cities)

A primeira fase de implementação do programa, em 2014, foi tão bem recebida que a cidade deu continuidade ao programa por mais seis fases consecutivas que acontecem até hoje. O Todos al Parque, hoje, inclui diversas parcerias público-privadas que realizam o plantio de árvores (Siembra Barranquilla), a manutenção da infraestrutura (Puerta de Oro) e projetos para a iluminação (APBAQ). O governo municipal adotou uma abordagem participativa para promover a participação popular nas atividades da gestão e, atualmente, repete a mesma abordagem na elaboração de planos de desenvolvimento para os bairros.

Colocando as pessoas no centro das políticas públicas

O programa Todos al Parque trouxe benefícios inquestionáveis para os moradores de Barranquilla. E, em alguns casos, chegou a transformar por completo a vida das pessoas.

Sete anos atrás, Ricardo Antonio Cueto Gonzalez perdeu o emprego, a casa e acabou sucumbindo ao uso de drogas. Por dois ou três anos, ele dormiu nos parques abandonados de Barranquilla. “Eu estava em uma situação muito séria, porque havia perdido meu emprego e, ao mesmo tempo, era um sem-teto”, relatou Gonzalez. “Realmente não quero que isso aconteça com outras pessoas.”


Ricardo Antonio Cueto Gonzalez, guarda do parque (foto: WRI Ross Center for Sustainable Cities)

Antes da renovação, ele foi testemunha do tráfico e dos crimes que aconteciam em muitos dos parques. Um dia, a diretora de um abrigo local o ajudou a mudar sua vida ao apresentá-lo ao coordenador do programa municipal de parques, Alberto Salah.

“Ela [a diretora do abrigo] me ajudou muito”, diz Cueto. “Graças a meu bom comportamento, ela me ajudou a me tornar um guarda do parque. O coordenador, Dr. Alberto, me entrevistou, e consegui o emprego no parque. Eu não sabia quase nada sobre jardinagem, mas aprendi com o tempo”. Como guarda, trabalhando em diferentes parques da cidade, Cueto participa da manutenção diária dos espaços, incluindo rega, cuidados com a vegetação, remoção do solo, poda e limpeza.

Sempre que possível, o Todos al Parque tenta melhorar a vida dos moradores de rua, vendedores informais e demais habitantes da cidade, fomentando entre as pessoas o sentimento de pertencimento e orgulho dos espaços públicos de sua cidade.

Mais do que um parque

Em 2018, uma universidade local mostrou que 98% dos moradores de Barranquilla concordavam que a recuperação e construção de parques aumentou o bem-estar de suas famílias. Mas os benefícios foram além dos ganhos individuais, melhorando a saúde pública, as finanças da cidade, os empregos, a resiliência climática e a erosão do solo.

Até hoje, o Todos al Parque já criou quase 1,5 milhão de metros quadrados de área verde. Nos bairros com parques recuperados, foi registrado um aumento das taxas de conformidade fiscal, com um efeito positivo na arrecadação da cidade. Também diminuíram as ocorrências de roubos em um raio de até 100 metros dos espaços renovados. Durante a pandemia de Covid-19, os parques serviram como mercados improvisados, locais de teste e vacinação, além de receberem atividades como aulas de ginástica ao ar livre, a fim de contribuir para a saúde de 39.400 pessoas.


Encontro da comunidade em um parque de Barranquilla para a iniciativa Asi Vivo Mi Barrio, que usa a abordagem de design participativo pioneira do programa Todos al Parque para envolver os moradores no planejamento de seu bairro (foto: WRI Ross Center for Sustainable Cities)

Para além de Barranquilla, o programa inspirou o governador do Departamento Atlântico a lançar um programa semelhante em 2020. O projeto Parques para la Gente busca recuperar 311 mil metros quadrados de parques e espaços públicos em 23 cidades do estado. E, em 2021, prefeitos de oito cidades latino-americanas – no Brasil, Argentina, Uruguai, Peru e Colômbia – assinaram a Declaração de Barranquilla, criando uma rede regional de “biodivercidades” para promover investimentos em infraestruturas e espaços públicos verdes. A iniciativa conta com o apoio da CAF, o banco de desenvolvimento da América Latina.

Enquanto isso, em Barranquilla, os parques estão criando uma nova cidade – não apenas para as atuais gerações, mas também para o futuro.

“Para mim, esse parque [Parque los Andes] significa muito”, afirma Samira Perez. “Gosto muito dos espaços infantis, da natureza e das áreas verdes, que não tínhamos antes. É algo que vai estar aqui no futuro, para meus filhos e netos. Esse parque mudou minha vida. Me deu um senso de pertencimento, para mim e para a comunidade.”


A edição 2021-2022 do WRI Ross Prize for Cities reconheceu projetos e iniciativas que mostram como viver e prosperar em tempos difíceis. 


Este artigo foi publicado originalmente no Insights.


https://anunciogratis.online/tempo-pode-ser-revertido-no-sistema-quantico-segundo-cientistas/ 

Tempo pode ser revertido no sistema quântico, segundo cientistas

 


fev 27 2023

Tempo pode ser revertido no sistema quântico, segundo cientistas

    

Contudo, eles não imaginam rejuvenescendo um ser humano

Uma equipe internacional de cientistas afirma ter encontrado maneira de acelerar, desacelerar e até reverter o relógio de um determinado sistema, aproveitando as propriedades incomuns do mundo quântico, relata o El País.

Em série de seis artigos, a equipe da Academia Austríaca de Ciências e da Universidade de Viena, na Áustria, detalhou suas descobertas. As leis familiares da física não mapeiam intuitivamente o mundo subatômico, composto de partículas quânticas chamadas qubits que podem existir tecnicamente em mais de um estado simultaneamente, fenômeno conhecido como emaranhamento quântico.

Agora, os pesquisadores dizem que descobriram como girar os relógios dessas partículas quânticas para frente e para trás.

Em um teatro, [física clássica], um filme é projetado do começo ao fim, independentemente do que o público queira. Mas, em casa [o mundo quântico], temos o controle remoto para manipular o filme. Podemos retroceder para uma cena anterior ou pular várias cenas à frente.Miguel Navascués, pesquisador do Instituto de Óptica Quântica e Informação Quântica da Academia Austríaca de Ciências

“Nós transformamos a ficção científica em realidade!” exclamou o pesquisador.

Ao desenvolver um “protocolo de retrocesso”, a equipe diz que conseguiu reverter um elétron a um estado anterior. Em experimentos, eles dizem que conseguiram demonstrar o uso de um interruptor quântico para reverter um fóton ao seu estado original antes de passar por um cristal.

Embora seja uma perspectiva empolgante, ampliar a técnica pode ser extremamente difícil, se não impossível.

Se pudéssemos trancar uma pessoa em uma caixa com zero influências externas, isso seria teoricamente possível. Mas com nossos protocolos atualmente disponíveis, a probabilidade de sucesso seria muito, muito baixa.Miguel Navascués, pesquisador do Instituto de Óptica Quântica e Informação Quântica da Academia Austríaca de Ciências

“Além disso, o tempo necessário para concluir o processo depende da quantidade de informações que o sistema pode armazenar”, acrescentou Navascués. “Um ser humano é um sistema físico que contém uma quantidade enorme de informações. Levaria milhões de anos para rejuvenescer uma pessoa em menos de um segundo, então não faz sentido.”

Além disso, o sistema só é capaz de reverter o estado de uma determinada partícula. Para acelerar o tempo, porém, os pesquisadores têm um “ás na manga”.

“Descobrimos que você pode transferir o tempo evolutivo entre sistemas físicos idênticos”, explicou Navascués. “Em um experimento de um ano com dez sistemas, você pode roubar um ano de cada um dos primeiros nove sistemas e dar todos eles para o décimo.”

Em vez de recriar os eventos do filme “De Volta para o Futuro”, os pesquisadores veem aplicações práticas mais mundanas de sua descoberta. Por exemplo, os estados de qubit de um processador quântico podem ser revertidos, permitindo efetivamente que os pesquisadores desfaçam erros durante seu desenvolvimento.

Com informações de Futurism

 

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2023

Amazônia tem recorde de desmatamento em fevereiro; base do Ibama é atacada por garimpeiros

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Amazônia tem recorde de desmatamento em fevereiro; base do Ibama é atacada por garimpeiros


Amazônia tem recorde de desmatamento em fevereiro; base do Ibama é atacada por garimpeiros

A guerra contra o garimpo ilegal e seus criminosos está longe de acabar na Amazônia. Na madrugada da quinta-feira (23/02), uma base do Instituto Federal do Meio Ambiente e Recursos Naturais (Ibama) instalada há duas semanas na aldeia Palimiú, na Terra Indígena Yanomami, em Roraima, foi alvo de um atentado.

Segundo nota divulgada pelo Ibama, garimpeiros armados furaram o bloqueio montado no rio Uraricoera e atiraram contra agentes do instituto que tinham abordado uma de sete embarcações, carregadas com cassiterita (minério do qual é extraído o estanho, metal com alta demanda no mercado internacional).

Durante o tiroteio um dos criminosos ficou ferido e acabou sendo preso pela Polícia Federal. Desde o final de janeiro, quando o presidente Lula determinou o bloqueio do tráfego de aviões e barcos de garimpeiros na Terra Indígena Yanomami, servidores do Ibama e da Polícia Federal têm apreendido o minério roubado e destruído aeronaves, barcos, maquinário e instalações usadas pelos garimpeiros.

O rio Uraricoera é o principal acesso aos garimpos da Terra Indígena Yanomami. Junto com uma equipe da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), servidores do Ibama instalaram um cabo de aço de 240 metros atravessa o leito do rio para fazer com que as embarcações que deixam o garimpo parem na base de operação e sejam revistadas. 

Além disso, duas balsas no meio do rio e drones fazem a fiscalização da área 24 horas por dia. Foi justamente através da imagem de drones que o ataque desta semana foi identificado.

A segurança da base na aldeia Palimiú é realizada por agentes da Força Nacional de Segurança Pública, da Polícia Rodoviária Federal e do Ibama, mas um reforço com mais homens já foi pedido para o local.

Ontem no final do dia, seis homens foram presos suspeitos de atirar contra policiais militares próximo ao rio Uraricoera, não se sabe se eles têm ligação com a ação realizada durante a madrugada.

Amazônia tem recorde de desmatamento em fevereiro; base do Ibama é atacada por garimpeiros

Barreira instalada no meio do rio para evitar a passagem de garimpeiros
(Foto: divulgação Ibama)

Alta no desmatamento da Amazônia em fevereiro

Enquanto os garimpeiros ainda resistem à retirada forçada da Terra Indígena Yanomami, dados do Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe) revelam que fevereiro nem chegou ao fim ainda, mas já foi registrado um recorde nos alertas de desmatamento para a Amazônia para este mês.

Segundo o monitoramento feito por satélite, até o dia 17 tinham sido destruídos 209 km² de floresta, a maior taxa observada para fevereiro desde que começaram a ser feitas essas medições em 2015.

Os números vão na contra-mão do que aconteceu em janeiro, quando houve uma queda de 61% nos alertas de desmatamento na Amazônia.

“O aumento da área desmatada nos primeiros dias de fevereiro deve ser interpretado com cautela. Tivemos um aumento de nuvens em janeiro e o Deter [sistema do Inpe utilizado para o monitoramento] pode estar detectando em fevereiro desmatamentos que ocorreram no mês passado”, alertou Daniel Silva, especialista em Conservação do WWF-Brasil, em entrevista ao portal de notícias G1.

Os números completos sobre o desmatamento de fevereiro só serão divulgados pelo instituto em 3 de março. Até este momento, Mato Grosso (129 km²), Pará (34 km²) e Amazonas (23 km²) aparecem como os estados que mais devastaram o bioma.

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Foto de abertura: divulgação assessoria de comunicação do Ibama/Fotos Públicas