25/09/2014 08h21
- Atualizado em
25/09/2014 08h39
Candidata do PSB quer órgão para verificar gasto e dar transparência fiscal.
No Bom Dia Brasil, ela falou de subsídios, agronegócio e negou fragilidade.
A candidata do PSB à Presidência, Marina Silva, afirmou que, para a
economia brasileira voltar a crescer com baixa inflação, é necessário um
governo que não vá se "aventurar" na política econômica e corte gastos
que geram "desperdício" de recursos públicos. Só assim o país teria
credibilidade para atrair investimentos, disse a candidata em entrevista
realizada nesta quarta e exibida nesta quinta-feira (25) no Bom Dia
Brasil.
(Veja a íntegra da entrevista e leia a transcrição da entrevista em "Bom Dia Brasil entrevista Marina Silva".)
"Nós vamos fazer com que o Brasil volte a crescer. Uma boa parte do
capital que o Brasil precisa não é tangível, é intangível. É confiança,
credibilidade, respeito a contrato, criar um ambiente que favoreça os
investidores a voltar a investir no Brasil. Isso só será possível com um
governo que tenha legitimidade e que, de antemão, estabeleça o
seguinte: nós não vamos nos aventurar em política econômica, não vamos
inventar a roda", afirmou Marina.
A candidata disse que a política econômica vinha dando certo desde o
governo de Itamar Franco, passando pelas gestões de Fernando Henrique
Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva, mas foi interrompida por Dilma
Rousseff, que, segundo ela, "se aventurou". "Agora nós temos o nosso
país com baixa credibilidade, pouco investimento, juros altos que
favorecem o baixo investimento".
Marina disse ter compromisso com o chamado "tripé econômico", receita
criada na década de 90 que combina responsabilidade fiscal, câmbio
flutuante e regime de metas de inflação. Ela também propôs a criação de
um "conselho de responsabilidade fiscal", novo órgão que teria
independência para verificar as contas do governo e dar mais
transparência aos gastos públicos, de modo a evitar a "ineficiência" e o
"desperdício".
"Nós temos um compromisso de que nós não vamos elevar o gasto público
acima do crescimento do PIB e o conselho de responsabilidade fiscal tem
que fazer com que o governo dê conta dos investimentos estratégicos na
área social e, ao mesmo tempo, não vá pelo caminho da ineficiência, que é
o que acontece hoje. Hoje o governo gasta de forma ineficiente. Você
tem projetos que começam com R$ 6 bilhões, vão sendo reajustados para
10, 20, 30... E, se nós tivéssemos um conselho de responsabilidade
fiscal, o governo seria cobrado para evitar este tipo de desperdício",
afirmou.
Questionada sobre a inflação, Marina disse que manterá a meta em 4,5%
ao ano, e não uma diminuição deste patamar, como havia proposto
Eduardo Campos,
que era o candidato do PSB até agosto, quando morreu num acidente
aéreo. Indagada sobre o que faria com os preços regulados pelo governo,
como energia e gasolina, a candidata disse que Dilma deveria resolver a
questão.
Segundo ela, a presidente está “manipulando os preços administrados
para ter bons resultados no que concerne a inflação – e mesmo assim ela
está alta – para ganhar dividendos políticos”.
Subsídios e bancos públicos
Marina foi questionada sobre o papel que os bancos públicos – BNDES,
Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal – teriam seu governo. Ela
disse que eles continuarão com finalidade social, para por exemplo
financiar a agricultura e o programa habitacional Minha Casa, Minha
Vida, negando que vá enfraquecê-los.
"O que enfraquece os bancos é pegar o dinheiro do BNDES e dar para meia
dúzia de empresários; uma parte deles falida, alguns que deram, enfim,
um sumiço em bilhões de reais do nosso dinheiro... Esses sim, nós vamos
parar com o mau uso".
Antes, Marina também foi indagada se manteria os incentivos para
setores da indústria, com redução de tributos. Ela disse que vai
“qualificar” essa ajuda, de modo que o governo exija "contrapartidas"
dos beneficiários.
"Há necessidade de incentivos para que a indústria e o emprego possam
ser protegidos. Isso aconteceu em 2008 naquele momento de fragilidade. O
problema é que a continuação do remédio mesmo quando o paciente já
deveria ir se preparando para ter autonomia cria situação de
dependência", afirmou.
Ela disse que vai enviar, no primeiro mês de governo, uma proposta de
reforma tributária que busque justiça, transparência e simplificação no
pagamento. Na questão trabalhista, disse que não vai eliminar direitos e
benefícios, mas que vai ampliar a formalidade no mercado de trabalho.
Agronegócio e transgênicos
A candidata também foi questionada se tenderia a ficar ao lado de
ambientalistas em detrimento da infraestrutura ou do agronegócio. Ela
respondeu que as áreas não são “incompatíveis” e disse que conflitos
podem ser “manejados”. “Não há esse dilema para produzir e proteger, as
duas coisas são inteiramente possíveis”, disse, ao defender maior
produtividade em áreas menores.
“O problema do agronegócio não é proteção do meio ambiente, não são
índios e quilombolas. É a falta de infraestrutura, de hidrovias, de
ferrovias, de termos estradas adequadas para o transporte, armazenagem e
portos”. Ela rebateu críticas por “travar licenciamentos ambientais”,
dizendo que, em sua gestão como ministra do Meio Ambiente, foram feitas
aquelas “mais complexas”.
Na questão dos grãos transgênicos, Marina disse que sempre defendeu um
“modelo de coexistência”, com culturas modificadas geneticamente e
naturais.
Fragilidade
Marina também comentou sobre o fato de ter chorado ao falar sobre Lula
após uma recente entrevista. Ela negou tratar-se de fragilidade e sim
que é uma pessoa “sensível”. Atribuiu o episódio ao “pesar” de suas
filhas, que se vestiam de vermelho quando crianças por simpatia ao PT e
que agora não têm mais orgulho do partido.
“Ter enfrentado cinco malárias, três hepatites, uma leishmaniose,
perder a mãe aos 14 anos, ter sido alfabetizada aos 16 anos, ter
passado o que eu passei, vir me dizer que isso é fragilidade e não me
pedir para não ter emoções, sinceramente... Já vi tantos líderes
chorando e não é por isso que são mais fracos ou menos fracos”, disse,
lembrando do próprio Lula, que “caiu no choro” quando tomou posse na
Presidência.
“Eu sou uma pessoa sensível, mas não se pode confundir sensibilidade
com fraqueza. As pessoas que não se deixam emocionar, essas sim podem
ser muito fracas”, completou.