segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Falta de água pode causar escassez de alimentos no Brasil, diz chefe da FAO

Rota 2014 - Blog do José Tomaz

João Fellet BBC Brasil


crise hídrica que o Brasil atravessa põe em risco não só o abastecimento de suas cidades, mas também a oferta de alimentos nos mercados do país, diz o brasileiro José Graziano da Silva, diretor-geral da agência da ONU para agricultura e segurança alimentar (FAO).

"Estamos tendo uma quebra enorme da safra de todos os produtos", diz Graziano. Segundo ele, a estiagem deve resultar em preços mais altos nas prateleiras nos próximos meses.

Em entrevista à BBC Brasil, o chefe da FAO afirma ainda que o Brasil terá de ampliar seus estoques de alimentos e privilegiar culturas mais resistentes a secas, fenômeno que deve se tornar cada vez mais frequente por causa das mudanças climáticas.

Leia abaixo os principais trechos da entrevista, concedida durante a última cúpula da Comunidade dos Estados Latino-americanos e Caribenhos (Celac), na Costa Rica, na semana passada.

BBC Brasil - A crise hídrica que o Brasil atravessa pode afetar a segurança alimentar do país?

José Graziano - Sem dúvida. Tenho desde 1987 uma pequena chácara perto de Campinas (SP) e nunca meu poço tinha secado. Cheguei a perder árvores frutíferas.

É um exemplo de como o Brasil, que não faz uso da irrigação em grande escala e se beneficia muito de um sistema de chuvas regulares, tem sua produção afetada por uma seca como essa.

BBC Brasil - A seca é um efeito das mudanças climáticas?

Graziano - Na FAO, a nossa avaliação é que neste ano o impacto do El Niño (superaquecimento das águas do Pacífico que esquenta a atmosfera) foi muito maior que o esperado. Nunca havia chegado ao ponto de ameaçar o abastecimento urbano, como estamos vendo em São Paulo.

Estamos atravessando o período das águas no Brasil e deveria estar chovendo muito mais do que está. Tivemos deficiência hídrica de praticamente um metro d'água na região centro-sul do Brasil.

Espera-se a normalização das chuvas no próximo ano agrícola, que começa em setembro, mas até lá vamos enfrentar resíduos da falta de água e todos os agravantes que isso tem.

Estiagem prolongada prejudica a agricultura e expõe deficiência no planejamento de grandes cidades do Sudeste

BBC Brasil - Quais agravantes?

Graziano -
 Estamos tendo uma quebra enorme da safra de todos os produtos. Até mesmo da cana de açúcar, que é bastante insensível ao regime de chuvas. Isso vai resultar em aumento de preços.


Aliás, estamos vendo muita oscilação de preços resultante do impacto das mudanças climáticas. Há uma irregularidade da produção. Situações de seca, que antes se repetiam a cada cem anos, agora ocorrem a cada 20 anos.

O jeito é ter estoques. O Brasil tem alguns estoques bons, como o de milho, fruto da boa colheita do ano passado, mas não tem em outras áreas. Precisa até importar trigo.

BBC Brasil - Como reduzir os impactos das mudanças climáticas na produção agrícola?

Graziano - Estamos trabalhando muito com a adaptação de culturas à seca. A Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, estatal ligada ao Ministério da Agricultura) já tomou essa iniciativa e está desenvolvendo variedades até de arroz adaptado à seca.

Também devemos substituir culturas. A quinoa demanda muito menos água que o arroz e tem um valor nutritivo muito maior. Estamos promovendo a substituição do trigo nas regiões tropicais e a recuperação de produtos tradicionais.

A mandioca, por exemplo, que tinha sido abandonada, hoje está em alta no Caribe, onde está sendo adicionada à confecção do pão para reduzir a dependência da importação do trigo. Outra possibilidade é expandir a irrigação para evitar crises de abastecimento.

BBC Brasil - Aumentar a irrigação não é incompatível com o cenário atual, com reservatórios cada vez mais vazios?

Graziano - Temos menos água armazenada em São Paulo, mas na Cantareira. A (represa) Billings está cheia. Precisa haver um sistema de integração dessas bacias, porque a distribuição das chuvas é muito errática. Essa prática é muito usada na Ásia.

E temos de ter a capacidade de absorver a água da chuva. Na minha chácara, por exemplo, comprei cisternas plásticas e hoje tenho capacidade de armazenar pelo menos 20 mil litros de água da chuva.

BBC Brasil - A crise hídrica e a instabilidade na produção de alimentos gerada pelas mudanças climáticas indicam a necessidade de repensar o modelo agrícola do país, hoje muito voltado a commodities para exportação, como a soja?

Graziano - Eu diria que se trata mais de pensar em mudanças tecnológicas. No passado, utilizamos intensivamente a mecanização. Hoje estamos promovendo o cultivo mínimo, que significa não arar o solo e manter a vegetação que o cobre. Isso facilita a absorção da água e preserva a matéria orgânica.

A Argentina tem hoje mais de 90% de suas áreas de soja e milho baseadas em cultivo mínimo e tem aumentado a produtividade mesmo na seca.




Estudo climático coloca a humanidade em “zona de perigo”








 






As mudanças no clima e o alto número de animais e plantas em extinção estão empurrado a Terra a uma “zona de perigo” para a humanidade. Esta é a conclusão de um estudo científico feito por 18 especialistas internacionais, grupo liderado por Will Steffen da Australian National University, que acaba de ser publicado no renomado jornal Science.


De acordo com o Daily Mail, os pesquisadores pretendiam ampliar um relatório semelhante desenvolvido em 2009 sobre “fronteiras planetárias” para o uso seguro de seres humanos.


A investigação mostra gráficos que comparam a “grande aceleração” da atividade humana desde o início da revolução industrial (em 1750) até 2010 com as consequentes alterações na Terra – nos níveis de gases de efeito estufa, da acidificação do oceano, do desmatamento e da degradação da biodiversidade, por exemplo.


“Fica difícil estimar a escala e a velocidade dessas mudanças. Em uma única vida, a humanidade se tornou uma força geológica em escala planetária. Eu não acho que nós quebramos o planeta, mas estamos criando um mundo muito mais difícil. Quatro limites foram cruzados, colocando a humanidade em uma zona de perigo”, explicou Steffen à publicação.


Os limites ultrapassados citados por ele foram em mudanças climáticas, perda de espécies, uso da terra e poluição por fertilizantes. Entre 9 limites avaliados, uso de água limpa, acidificação do oceano e esgotamento do ozônio foram considerados dentro dos limites seguros. Outras, como níveis de poluição de carbono, ainda estão sendo analisadas.


FONTE:


Crise da Água - Seca ameaça 40 milhões de pessoas

24 de Agosto, 2014 - 15:37 ( Brasília )


Levantamento da Agência Nacional de Águas revela que seis bacias hidrográficas sofrem com a escassez de chuva; índice está 20% abaixo da média histórica

Reservatório do Sistema Cantareira , um cenário nordestino.
 

Cleide Carvalho
São Paulo, Propriá (SE)


A seca na Região Sudeste não esvazia apenas os reservatórios paulistas. Um levantamento feito pela Agência Nacional de Águas (ANA) a pedido do GLOBO mostra que seis das principais bacias hidrográficas brasileiras enfrentam problemas, ameaçando moradores de nove estados e do Distrito Federal. São cerca de 40 milhões de pessoas afetadas — o equivalente a 20% da população brasileira. 

 Os principais rios atingidos têm, em comum, a dependência das chuvas que caem em Minas Gerais, estado que é uma espécie de divisor das águas que correm pelo Brasil. Os rios São Francisco, Grande, Doce, Paraíba do Sul, Paraná e Jequitinhonha enfrentam problemas em maior ou menor grau. Em geral, chove cerca de 1.400 milímetros na Região Sudeste durante o ano hidrológico, que termina em setembro. Até agora, choveu metade disso. Segundo dados da Administração Oceânica e Atmosférica Nacional dos Estados Unidos (NOAA, em inglês), as chuvas que caíram no Brasil foram 20% menores do que a média. No Sul de Minas e no Oeste paulista, choveu 60% menos.


— A seca fez com que São Paulo ficasse em uma situação semelhante à do Nordeste — resume o professor Augusto José Pereira Filho, do Departamento de Ciências Atmosféricas do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo. Se a seca transforma cenários em São Paulo, piora ainda mais a situação do Rio São Francisco, o principal do Nordeste. Com nascentes na Serra da Canastra, em Minas, o Velho Chico já não chega ao mar. A água salgada adentra 25 km de seu leito e, a 85 km de sua foz, entre Alagoas e Sergipe, já se pesca peixe do mar, algo comum apenas nas áreas mais próximas ao oceano.


— O rio está ficando fraco, e o mar, mais forte. Não sabemos até quando o rio vai aguentar — diz Maria Izaltina Silva Santos, líder da comunidade de Brejão dos Negros (SE), que vive da pesca e da cultura de arroz no Baixo São Francisco, último trecho do rio, após as barragens de hidrelétricas. No Rio Grande, a vazão de água em julho foi de 33 metros cúbicos por segundo, a pior em 84 anos.

No Paraíba do Sul, seu maior reservatório, o de Paraibuna, baixou a 12,23% de sua capacidade, levando à redução de 5 mil litros por segundo na vazão de água que chega à barragem de Santa Cecília, onde é feita a transposição para o Rio de Janeiro. O Rio Doce, que em dezembro transbordou e causou enchentes no Espírito Santo, baixou drasticamente nos últimos meses: em locais onde o nível de água ultrapassou nove metros, hoje ela não passa de dois metros. 


O Rio Paraná, por sua vez, baixou a ponto de interromper o transporte por hidrovia. Mas são as águas do Velho Chico que refletem conflitos comuns a vários setores no Brasil: uma mistura de política, grandes negócios e uma população ainda impotente diante de seu futuro. No Brejão dos Negros, a água salobra é realidade, mas até a altura de Penedo (AL), a 40 km da foz, a cunha salina se faz presente.

No assentamento Borda da Mata, 85 km rio adentro, já há siris. Os peixes de rio estão menores e mais raros. Boa parte desapareceu. Não há mais surubim, piaba ou mandim. Em trechos do rio onde a profundidade chegava a 15 metros, agora é possível cruzar a pé. Em 2006, um estudo da Universidade Federal de Alagoas detectou intrusão salina numa distância de 6 km da foz do São Francisco. Na época, a vazão média no Baixo São Francisco era de 2.041 metros cúbicos por segundo, quase o dobro da atual.

Este ano, com a seca, a vazão na barragem de Sobradinho foi reduzida, para 1.100 metros cúbicos por segundo, 15% menor do que a mínima estabelecida pelo Ibama, de 1.300 metros cúbicos por segundo. No projeto Jaíba, no norte de Minas Gerais, o maior projeto de irrigação do país, o clima é de intranquilidade.


— Quando a vazão foi reduzida no reservatório de Três Marias, a orientação foi não aumentar os plantios. A vazão do rio aqui está em 190 metros cúbicos por segundo, menos da metade do normal. Nunca aconteceu isso nesta área. É diferente e assustador — diz Marcos Medrado, gerente da etapa 1 do projeto Jaíba, que reúne cerca de 1.800 pequenos agricultores, responsáveis por cerca da metade da produção de sementes de hortifrútis do país.

— Temos uma seca de gestão. Há aumento desordenado de demandas hídricas, uma festa de outorgas. Temos uso excessivo, desperdício e até contaminação por agrotóxico. Falta cuidado da União e dos estados nas ações de recuperação hidroambiental — diz Luiz Alberto Rodrigues Dourado, do Comitê da Bacia do Rio São Francisco. O GLOBO procurou o Ministério do Meio Ambiente e a Agência Nacional de Águas (ANA) para discutir os problemas causados pela seca e a gestão de recursos hídricos no país, mas eles não concederam entrevistas.

Brasil-Sem autoridade e Sem rumo!! Por Rachel Sheherazade

Governo pagou R$ 549 milhões de auxílio-reclusão para familiares de presos em 2014.E para voce, que não é criminoso, pagou quanto?






Governo pagou R$ 549 milhões de auxílio-reclusão para familiares de presos em 2014





Publicado por Revolta Brasil em 31 janeiro,

Foram exatamente 549,2 milhões para beneficiar familiares de 45,1 mil presos, estes foram os dados divulgados pelo site Contas Abertas, sobre quanto o brasileiro arcou para bancar familiares de presos com o auxílio-reclusão, que é um benefício pago pelo governo para familiares de presos durante a estadia de seus “chefes de família” nos presídios do país.

Cada família recebe cerca de R$ 1.015,00, contudo, ele difere de acordo com o histórico previdenciário de cada preso, com o quanto contribuía quando em liberdade, fazendo com que o benefício varie de um salário mínimo, de R$ 788, ao teto, de R$ 4.663,75.

Foram R$ 32 milhões a mais gastos com o auxílio reclusão em 2014 em comparação com o ano anterior.

Deputada propõe fim do auxílio-reclusão e criação auxílio para família de vítimas de crimes. 
O fim do auxílio-reclusão está previsto em Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 304/13, da deputada federal não reeleita Antônia Lúcia (PSC-AC). Além de acabar com o benefício, os recursos usados para seu pagamento seriam destinados às vítimas dos crimes, quando sobreviverem, ou para as famílias, em caso de morte.

Veja mais detalhes sobre este projeto >>>Deputada quer acabar com auxílio-reclusão e criar benefício para vítimas de crimes (matéria com quase 400 mil compartilhamentos)


Desmatamento na Amazônia afeta chuvas em todo o país

terça-feira, 27 de janeiro de 2015


Desmatamento na Amazônia afeta chuvas em todo o país

Ana_Cotta / Flickr

Desmatamento da floresta amazônica causa desequilíbro e afeta regime de chuvas no resto do país
Maria Guimarães - Revista Pesquisa FAPESP


Amazônia é 'bomba de água' para toda a América do Sul e seca que afeta parte do Brasil estaria relacionada a alterações neste bioma; pesquisadores veem risco de que floresta não consiga produzir chuva para suprir as próprias necessidades

A Amazônia não é apenas a maior floresta tropical que restou no mundo. Este sem-fim de verde entrecortado por rios serpenteantes de tamanhos e cores variadas também não se limita a ser a morada de uma incrível diversidade de animais e plantas. A floresta amazônica é também um motor capaz de alterar o sentido dos ventos e uma bomba que suga água do ar sobre o oceano Atlântico e do solo e a faz circular pela América do Sul, causando em regiões distantes as chuvas pelas quais os paulistas hoje anseiam. Mas o funcionamento dessa bomba depende da manutenção da floresta, cuja porção brasileira, até 2013, perdeu 763 mil quilômetros quadrados de sua área original, o equivalente a três estados de São Paulo.

Antonio Donato Nobre, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), não aponta o dedo para culpados. O que importa para ele é reverter esse processo e não apenas zerar o desmatamento, mas recuperar a floresta. No relatório “O futuro climático da Amazônia”, divulgado em outubro de 2014, ele deixa claro que o único motivo para não se tomarem providências imediatas para reduzir o desmatamento é desconhecer o que a ciência sabe. Para ele, o caminho é conscientizar a população. “Agora é um bom momento porque as torneiras estão secando”, afirma.

No relatório, elaborado a partir da análise de cerca de 200 trabalhos científicos, ele mostra que a cada dia a floresta da bacia amazônica transpira 20 bilhões de toneladas de água (20 trilhões de litros). É mais do que os 17 bilhões de toneladas que o rio Amazonas despeja no Atlântico por dia. Esse rio vertical é que alimenta as nuvens e ajuda a alterar a rota dos ventos. Nobre explica que os mapas de ventos sobre o Atlântico mostram que, no hemisfério Sul e a baixas altitudes, o ar se move para noroeste na direção do equador. “Na Amazônia a floresta desvia essa ordem”, diz. “Em parte do ano, os ventos alísios carregados de umidade vêm do hemisfério Norte e convergem para oeste/sudoeste, adentrando a América do Sul.”

Essa circulação viola um paradigma meteorológico que diz que os ventos deveriam soprar das regiões com superfícies mais frias para aquelas com superfícies mais quentes. “Na Amazônia, o ano todo eles vão do quente, o Atlântico equatorial, para o frio, a floresta”, explica.




Uma parceria com os russos Anastasia Makarieva e Victor Gorshkov, do Instituto de Física Nuclear de Petersburgo, tem ajudado a explicar do ponto de vista físico os fenômenos meteorológicos da Amazônia. Em artigo publicado em fevereiro de 2014 no Journal of Hydrometeorology, eles afirmam, com base em análises teóricas confirmadas por observações empíricas, que o desmatamento altera os padrões de pressão e pode causar o declínio dos ventos carregados de umidade que vêm do oceano para o continente.



O grupo analisou os dados de 28 estações meteorológicas em duas áreas do Brasil e viu que os ventos que vêm da floresta amazônica carregam mais água e estão associados a maiores índices de chuvas do que ventos que partem de áreas sem floresta e chegam à mesma estação.

Isso acontece, segundo os pesquisadores, por causa da bomba biótica de umidade, uma teoria proposta pela dupla russa em 2007 para explicar a dinâmica de ventos impulsionada por florestas.

Essa ideia completa a descrição feita pelo climatologista José Antonio Marengo, à época pesquisador do Inpe, de como a Amazônia exporta chuvas para regiões mais meridionais da América do Sul. A teoria da bomba biótica aplica uma física não usual à meteorologia e postula que a condensação da água, favorecida pela transpiração da floresta, reduz a pressão atmosférica que suga do mar para a terra as correntes de ar carregadas de água.




Os fundamentos da influência da condensação sobre os ventos foram apresentados em artigo publicado em 2013 por Anastasia e Gorshkov, em parceria com Nobre e outros colaboradores, na Atmospheric Chemistry and Physics, uma das revistas mais importantes da área. Por meio de uma série de equações, eles mostram que o vapor de água lançado à atmosfera pela transpiração da floresta gera, ao condensar, um fluxo capaz de propelir os ventos a grandes distâncias.


De acordo com Nobre, a nova física da condensação proposta por eles gerou, ainda durante a revisão do artigo, uma controvérsia com meteorologistas, que debateram o assunto furiosamente em blogs científicos com a intenção de derrubar a principal equação do trabalho.


Não conseguiram e o trabalho foi publicado. O pesquisador do Inpe explica a polêmica. “É uma física que atribui à condensação, um fenômeno básico e central do funcionamento atmosférico, um efeito oposto ao que se acreditava”, diz. “Será necessário reescrever os livros didáticos da área.”



Para dar a dimensão da dificuldade de diálogo entre físicos teóricos e meteorologistas, Nobre lembra que a física desenvolve um entendimento dos fenômenos atmosféricos a partir de leis fundamentais da natureza, enquanto a meteorologia o faz, em grande parte, com base na observação de padrões do clima do passado, cuja estatística é absorvida em modelos matemáticos. Tais modelos representam bem as flutuações climáticas observadas, mas apresentam falhas quando há alterações significativas no padrão.

É o caso agora, quando um novo contexto – ocasionado por desmatamento, mudanças globais no clima ou outros fatores – gera fenômenos climáticos inesperados para certas regiões, como chuvas mais torrenciais e secas mais extensas. A teoria física acerta onde extrapolações do passado erram, por isso é preciso, segundo ele, construir novos modelos climatológicos que recoloquem a física no centro dos esforços da meteorologia.



O momento agora é crucial porque o clima amazônico vem mudando. Secas importantes nessa região marcaram os anos de 2005 e 2010. “Antes a Amazônia tinha a estação úmida e a mais úmida, agora há uma estação seca”, diz Nobre. Os danos dessas secas na floresta não foram aniquiladores porque ela consegue se regenerar, mas o acúmulo dos danos aos poucos erode essa capacidade. Um efeito importante que já se observa, previsto há 20 anos por modelos climáticos, é um prolongamento da estação seca, que tem prejudicado a produção agrícola em porções do estado do Mato Grosso. 



A grande preocupação é que se chegue a um ponto de não retorno, em que a floresta já não consiga produzir chuva suficiente para suprir nem a si própria. Trabalhos de modelagem que levam em conta clima e vegetação indicam que esse ponto será atingido quando 40% da área original de floresta for perdida, um número que não é unânime. Segundo o relatório de Nobre, 20% da floresta já foi cortada e outros 20%, alterados a ponto de terem perdido parte de suas propriedades.



Se a teoria da bomba biótica estiver correta, os efeitos desse ponto de não retorno devem ser mais graves do que a savanização proposta pelo climatologista Carlos Nobre, irmão mais velho de Antonio. “Se a floresta perder a capacidade de trazer a umidade do oceano, a chuva na região pode cessar por completo”, diz o Nobre caçula. Sem água para sustentar uma savana, o resultado poderia ser uma desertificação na Amazônia. Se isso ocorrer, o cenário que ele infere para o Sul e o Sudeste do país poderia ser semelhante ao de outras regiões na mesma latitude: tornar-se um deserto.
Antonio Nobre não se arrisca a falar muito sobre São Paulo. “Meu relatório é sobre a Amazônia.”

Mas ele acredita que a seca por aqui não independe do que acontece no Norte. Em sua opinião, foi possível devastar boa parte da mata atlântica sem sentir uma redução nas chuvas porque a Amazônia era capaz de suprir a falta de água na atmosfera local. Mas isso já não parece acontecer mais. Ele aproveita o ensejo para sugerir que não apenas a floresta amazônica, mas também a que acompanhava a costa de quase todo o Brasil precisa ser recuperada imediatamente. Se não for por outro motivo, o esgotamento a que chegaram as represas que alimentam boa parte da população paulista deveria bastar como argumento.

A exportação de água desde a Amazônia para outras regiões do Brasil, sobretudo o Sudeste e o Sul, é uma realidade, por meio do fenômeno conhecido como rios voadores. Um indício dessa linha direta foram as intensas chuvas no sudoeste da Amazônia no início de 2014, praticamente o dobro do volume habitual, ao mesmo tempo que São Paulo passava pelo pior momento de uma seca histórica.

“A chuva ficou presa em Rondônia, no Acre e na Bolívia por causa de um bloqueio atmosférico, algo como uma bolha de ar que impedia a passagem da umidade. Isso criou uma estabilidade atmosférica, inibiu a formação de chuvas e elevou as temperaturas”, conta Marengo, agora pesquisador do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden). Ele é coautor de um artigo liderado por Jhan Carlo Espinoza, do Instituto Geofísico do Peru, que está em processo de publicação pela Environmental Research Letters e é parte dos resultados do programa Green Ocean (GO) Amazon, que tem apoio da FAPESP.

Não é possível, porém, afirmar o quanto essa relação determina a estiagem paulista. “Ainda não se sabe calcular quanto das chuvas do Sudeste vem da Amazônia nem quanto chega aqui trazido por frentes frias vindas do Sul, pela umidade carregada por brisas marinhas ou pela evaporação local”, diz. Para ele, o desmatamento pode ter um impacto no longo prazo, mas ainda é impossível dizer se ele está relacionado com a seca atual.


 “O Sudeste pode não virar um deserto”, pondera, “mas os extremos climáticos podem se tornar mais intensos”. Estudos usando modelos climáticos criados pelo grupo de Marengo já previam uma redistribuição do total das chuvas, com um volume muito grande em poucos dias e estiagens mais prolongadas, algo que já tem sido observado no Sudeste e no Sul do país nos últimos 50 anos.

Além desse efeito a distância, em escala nacional, a relação entre vegetação e recursos hídricos também se dá numa escala mais local, de acordo com o engenheiro agrônomo Walter de Paula Lima, professor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da Universidade de São Paulo (USP) e coordenador científico do Programa Cooperativo de Monitoramento Ambiental em Microbacias (Promab) do Instituto de Pesquisas e Estudos Florestais.


Em seus estudos sobre o efeito das florestas (ou sua remoção) em microbacias hidrográficas, ele mostrou que a mata ciliar, que acompanha os cursos de água, ajuda a manter a boa saúde de pequenos rios. “O sistema Cantareira, que abastece São Paulo, é formado por milhares de microbacias”, conta. “As que estão mais degradadas não contribuem para o manancial.”

Essa avaliação, porém, carece de dados experimentais concretos. Segundo Lima, para se saber exatamente o efeito das matas ciliares nos mananciais seria necessário estudar uma microbacia experimental em que se possa medir propriedades dos cursos d’água com e sem a proteção de floresta, sem que haja outros fatores envolvidos. Um quadro praticamente inatingível.

O Brasil à beira do apagão: Furnas e Três Marias caminham para a paralisação



É claro que o Brasil está à beira do apagão, que pode ser chamado, eufemisticamente, de “racionalização de energia”. Aliás, caso o ministro Eduardo Braga decidisse pôr em prática o que ele mesmo anunciou, medidas de contenção de consumo teriam de ser postas em prática já. Por quê? 


Segundo ele disse, se os reservatórios das usinas chegassem a 10%, seria preciso deflagrar a operação. Chegaram. Nesta quarta-feira, informa o Estadão, a Hidrelétrica Três Marias, no rio São Francisco, chegou a 10,34%, e Furnas, no rio Grande (MG), a 9,87%. Atenção! A capacidade de geração da primeira usina é de 396 megawatts (MW). Com apenas uma das seis turbinas em funcionamento, está gerando menos de um décimo: 36 MW. Furnas, com capacidade de 1.216 MW, ainda tem em operação seis das oito turbinas, mas a expectativa é que vá haver redução.


Por que a situação é ainda mais dramática do que parece? Porque esse é o período chuvoso. Para comparar: em janeiro do ano passado, informa o Estadão, Três Marias contava com 28% de sua capacidade; chegou a outubro com 2,89%; Furnas tinha 47% e chegou a 11,64% em novembro. Caso não chova muito acima de qualquer expectativa, as duas usinas caminham para a paralisação.


O mais impressionante é que, até agora, por motivos meramente políticos, o governo federal se nega a fazer o óbvio: uma campanha nacional em favor da economia de energia. E a única responsável por mais essa decisão equivocada é Dilma Rousseff, a mesma que decidiu baixar na marra a tarifa de energia e antecipar as concessões do setor elétrico, o que, na prática, quebrou a área, que teve de ser socorrido com empréstimos bilionários.


Nesta quinta, o ministro Eduardo Braga afirmou que o governo negocia com um grupo de bancos o alongamento do pagamento da dívida das distribuidoras, que é de R$ 17,8 bilhões. Quer elevar o prazo de 24 para 48 meses.


Impressionante, não é? Petróleo e energia elétrica eram as duas áreas sob os cuidados de Dilma, aquela supergerentona, lembram-se? Ela ganhou as eleições de 2010 com essa conversa. E teve seu mandato renovado em 2014. A Petrobras está na pindaíba, e o Brasil à beira do apagão. Não é um amador qualquer que produz uma obra desse vulto. É preciso ser muito incompetente.


Por Reinaldo Azevedo

Sobre este assunto, leia, por favor: 

http://associacaoparkwayresidencial.blogspot.com.ar/2015/02/desmatamento-na-amazonia-afeta-chuvas.html

Venina depõe contra Graça Foster.


segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015


(O Globo) A 13ª Vara da Justiça Federal de Curitiba começa a ouvir nesta segunda-feira 13 testemunhas de acusação arroladas pelo Ministério Público Federal em seis ações relativas ao escândalo da Petrobras.

No grupo, o destaque é a geóloga e ex-diretora da estatal Venina Velosa, que acusa a presidente da empresa, Graça Foster, de ter sido avisada sobre os casos de corrupção. Sua audiência está marcada para amanhã. Além dela, a Justiça também ouvirá os empresários Augusto Mendonça Neto, do Grupo Toyo Setal, e Júlio Camargo, da Camargo Corrêa, o ex-diretor de Abastecimento da estatal Paulo Roberto Costa e o doleiro Alberto Youssef.

Os demais depoentes são o doleiro Leonardo Meirelles, a contadora Meire Poza, Carlos Alberto Pereira da Costa, que foi sócio de Youssef, e Marcelino Guedes Ferreira Mosqueira Gomes, ex-presidente da refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco. Mauro Grecco, funcionário do setor jurídico da Camargo Corrêa, declinou de ser testemunha pelo vínculo empregatício com a construtora, mas ainda não é certo que não comparecerá.

As outras três testemunhas trabalharam na investigação. São o delegado Márcio Adriano Anselmo e dois funcionários da Petrobras que trabalharam nas Comissões Internas de Apuração da estatal, Gerson Luiz Gonçalves e Pedro Aramis de Lima Arruda.

Ontem, diante de entrevista concedida por Leonardo Meirelles à “Folha de S.Paulo”, o procurador Deltan Dallagnol disse que, se ficar provado que Youssef não listou todos seus bens na delação premiada, como sugere Meirelles, há risco de ser declarada quebra de acordo e serem reduzidos benefícios que ele obteve. As provas, porém, seguiriam válidas.