segunda-feira, 11 de setembro de 2017

O Estado de S. Paulo – A capital da energia solar

Primeiro parque solar do País tem capacidade para abastecer 166 mil domicílios


Renée Pereira / TEXTOS Daniel



Às margens do Rio São Francisco, Bom Jesus da Lapa, na Bahia, abriga a primeira grande usina solar do País. Ali são produzidos 158 megawatts com o calor do sol, o suficiente para abastecer uma cidade de 166 mil casas.



O sol forte que sempre castigou o sertanejo agora é cobiçado por investidores bilionários que começam a mudar a cara do semiárido baiano. O movimento transformou a pequena Bom Jesus da Lapa, até então conhecida pelo turismo religioso e suas grandes romarias, na capital da energia solar. A cidade, de 63 mil habitantes, localizada à beira do Rio São Francisco, abriga hoje a primeira grande usina solar do Brasil.



Ali, onde o sol nasce antes de o relógio marcar seis horas da manhã e a temperatura quase sempre beira os 35 graus, já estão sendo produzidos 158 megawatts (MW) com o calor do sol. É energia suficiente para abastecer uma cidade de 166 mil residências – Bom Jesus da Lapa, por exemplo, tem 16 mil domicílios. Mais importante que isso, no entanto, é que o projeto representa o primeiro passo para o desenvolvimento de uma indústria bilionária que não para de crescer no mundo – no ano passado, avançou 50%.



Só em Bom Jesus da Lapa, a italiana Enel Green Power, dona do empreendimento, investiu US$ 175 milhões, algo em torno de R$ 542 milhões. Em pouco mais de um ano, 500 mil painéis solares passaram a cobrir uma área de 330 hectares, o equivalente a 462 campos de futebol. Nesse período, a cidade sertaneja, acostumada com o vaivém dos fiéis e com cifras bem mais modestas, passou a conviver com uma mistura de idiomas.



Como a cadeia de produção no Brasil ainda é incipiente, os equipamentos para montar o parque solar vieram de várias partes do mundo. Os painéis que captam o calor do sol foram fabricados na China; os conversores para transformar a energia solar na eletricidade que chega à casa dos consumidores vieram da Itália; e a montagem da estrutura que permite a movimentação dos painéis na direção do sol foi feita por espanhóis.



No auge da obra, foram contratados mais de mil trabalhadores para o empreendimento. Por estar ao lado da cidade, não houve necessidade de construir alojamentos, como ocorre em grandes projetos. Além disso, a estrutura de hotéis existente para os fiéis que visitam o santuário de Bom Jesus da Lapa ajudou muito na acomodação dos operários. Ainda assim, novos hotéis e restaurantes foram inaugurados para atender à demanda, que deverá continuar firme por mais algum tempo.



Desenvolvimento. O prefeito do município, Eures Ribeiro (PSD), comemora a descoberta da região pelos grandes investidores. Até a chegada do parque da Enel, a economia local era baseada na produção de banana – o município é o maior produtor da fruta no Brasil – e no comércio voltado ao fiéis. O entorno da gruta que abriga o santuário da cidade e atrai milhares de romeiros é lotado de hotéis, lojas e barracas de lembrancinhas, como chaveiros, camisetas e outros objetos.



A economia local, no entanto, não é suficiente para absorver a mão de obra da cidade. Quase dois terços dos moradores têm idade entre 15 e 59 anos e sofrem com o desemprego e a falta de qualificação. Esse foi um dos temas trabalhados com a Enel como compensação social pelo empreendimento. As comunidades quilombolas que ficam próximas do projeto foram beneficiadas com cursos de pedreiro, eletricista e corte e costura. “Também reivindicamos a construção de uma sede para a comunidade”, afirma Amilton Vitorino Gonzaga, da comunidade Araçá Volta, onde há 240 residências.



Quase todos da comunidade vivem do Bolsa Família e da agricultura de subsistência. Mas, por causa da falta de chuva, as plantações nem sempre sobrevivem. “O sol sempre foi sinônimo de pobreza, que afastava a população da cidade para os grandes centros. Hoje é sinônimo de riqueza e de desenvolvimento”, afirma o prefeito da cidade.


Pelas contas dele, há cerca de dez empresas com projetos na cidade para começar logo. “Nossa expectativa é que a arrecadação de ICMS (por causa da venda de energia) aumente 300% em cinco anos.” Além da insolação, a atração dos investidores também tem contado com um incentivo da prefeitura, que reduziu o Imposto sobre Serviços (ISS) do projeto.


O presidente da Enel no Brasil, Carlo Zorzoli, diz que a vantagem do sertão nordestino, além do sol forte, é a abundância de terras que não competem com o agronegócio. Além do parque de Bom Jesus da Lapa, a empresa detém outros três projetos na região: Ituverava (254 MW) e Horizonte (103 MW), na Bahia, e Nova Olinda (292 MW), no Piauí. Os três entram em operação até o fim deste ano, colocando a empresa na liderança da produção solar no País, com 807 MW instalados.



“Aqui tem espaço de sobra sem precisar desmatar para construir as usinas”, diz o executivo. Mas, apesar de área disponível, a construção dos parques já começa a inflacionar o preço da terra na região. Em Bom Jesus da Lapa, o valor de um hectare de terra saiu de R$ 2 mil para R$ 20 mil, diz o prefeito da cidade. Por isso, as empresas têm procurado arrendar as áreas para os projetos, em vez de comprar. A medida traz renda fixa para os proprietários durante, pelo menos, 20 anos.
Desenvolvimento



“O sol sempre foi sinônimo de pobreza, que afastava a população da cidade para os grandes centros. Hoje, é sinônimo de riqueza.”


Eures Ribeiro



PREFEITO DE BOM JESUS DA LAPA

O Estado de S. Paulo – 'Não somos líderes, mas saímos da lanterninha'

Até dezembro, o País terá o seu primeiro gigawatt (GW) vindo da energia solar
       
Renée Pereira

O ano de 2017 será um marco para a energia solar no Brasil. Até dezembro, o País terá o seu primeiro gigawatt (GW) vindo da energia solar. Isso significa quase uma hidrelétrica de Sobradinho, na Bahia, cuja represa está no menor nível da história. “Há hoje no mundo entre 25 e 30 países com essa capacidade instalada. Estamos longe da liderança, mas saímos da lanterninha”, afirma o presidente da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar), Rodrigo Sauaia.


Para chegar a essa marca, foram investidos cerca de R$ 5 bilhões em toda a cadeia produtiva. Hoje, o País tem 282 MW instalados de energia solar – muito pouco para o potencial brasileiro, que é da ordem de 28.500 GW, diz Sauaia. Para se ter ideia do que isso significa, o potencial hídrico do Brasil é de 172 GW e o eólico, de 440 GW.


Efeito dos leilões realizados pelo governo nos últimos anos, o setor chegará a 2018 com 3,3 GW de potência instalada. “Se todos os projetos forem entregues na data prevista, teremos um salto importante.” Daí para a frente, no entanto, é preciso aguardar novos leilões. Em dezembro, o governo vai realizar uma disputa para contratar energia que será entregue em quatro anos, e a solar poderá participar.


Mas a crise econômica, que reduziu o consumo de eletricidade no País, atrasou a expansão da fonte, que vinha em ascensão. O dólar mais alto encareceu o preço dos equipamentos e tirou a viabilidade de alguns projetos, a ponto de serem devolvidos para o governo federal. “Mas essa foi uma decisão de poucos investidores. A maioria manteve seu plano de investimento”, diz Sauaia. No total, 250 MW (ou 0,25 GW) foram devolvidos. Nos primeiros leilões, o preço da energia solar ficou entre R$ 200 e R$ 300 o MWh. 


Sauaia diz que, em alguns países, a solar já é mais barata que a eólica. Isso é resultado do avanço tecnológico, que dá mais eficiência e torna os equipamentos mais baratos. Só no ano passado, houve um incremento de 75 GW na matriz mundial, que conta com capacidade de 305 GW – o dobro de toda a matriz brasileira.


Desafio. Por aqui, um dos principais desafios do setor é desenvolver a cadeia produtiva de forma a baratear o custo da energia, como ocorreu com a energia eólica. O presidente da Absolar diz que o cenário vem mudando e que já há cerca de 20 fabricantes no País. O difícil, no entanto, é competir com o preço dos chineses.


Apesar dos desafios, o presidente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE), Luiz Augusto Barroso, diz que o futuro elétrico está na energia renovável. “Daqui para a frente, não vamos ter uma expansão de geração por meio de hidrelétricas de grande porte, como ocorreu até agora.” Nesse vácuo, as novas fontes vão ganhar espaço, especialmente a eólica e a solar. “Todas tiveram um período de maturação das tecnologias que culminaram na redução de custos.”


De acordo com o Plano Decenal de Energia 2021-2026, a fonte solar deverá alcançar cerca de 7 GW no período. Barroso explica que, assim como a eólica, a solar é complementar às demais fontes, com o benefício de produzir mais no horário de pico. Mas, como são fontes intermitentes, que não produzem o tempo todo, haverá necessidade de elevar a participação das térmicas a gás na matriz elétrica para dar segurança ao sistema. “Teremos uma matriz bem mais diversificada e robusta.”

Agências Internacionais / Valor Econômico - China estuda banir carros a combustão


O crescente movimento para acabar com os veículos movidos a combustíveis fósseis ganhou um significativo impulso ontem com o anúncio de que a China - maior mercado mundial de carros - está estudando seguir o exemplo de países como Reino Unido e França - que recentemente anunciaram que vão proibir carros movidos a diesel e gasolina até 2040.


"Alguns países fizeram um cronograma para acabar com a produção e venda de carros de combustíveis tradicionais", disse o vice-ministro de Indústria, Xin Guobin, segundo reportou ontem a agência estatal Xinhua. 


"O Ministério também iniciou uma pesquisa relevante e fará um cronograma semelhante com os departamentos relevantes. Essas medidas certamente vão trazer profundas mudanças para o desenvolvimento de nossa indústria automotiva", disse Xin, que prevê tempos "turbulentos" pela frente nesse setor.


Pequim vê o carro elétrico como uma forma de superar as grandes montadoras e garantir maior participação global para as fabricantes chinesas. Graça a uma política de subsídios generosos, as chinesas vêm dominando o mercado doméstico de carros elétricos e híbridos. 


A BYD, que tem entre seus investidores o americano Warren Buffett, liderou as vendas nos sete primeiros meses do ano, com a entrega de 46.855 carros elétricos e híbridos, segundo a Associação de Carros de Passeio da China. A General Motors vendeu apenas 738 unidades desde que lançou seu modelo híbrido Velite 5 na feira de Xangai em abril.

Associated Press / Folha de S. Paulo - Parques temáticos tentam proteger animais do furacão Irma na Flórida


A passagem do furacão Irma pelo Estado americano da Flórida, neste fim de semana, levou parques e reservas naturais a adotarem medidas de segurança para proteger os animais e impedir a fuga de alguns deles, como jacarés.


O parque Gatorland, em Orlando, removeu todos os animais, de cobras venenosas a guaxinins, para ambientes fechados. Quanto aos 2.000 jacarés da reserva, porém, a melhor coisa é deixá-los onde estão.


"Jacarés e crocodilos, eles nem ligam", disse o diretor do parque, Mike Hileman, ao jornal local "Orlando Sentinel". "Isso não é algo novo para eles. Se ficar realmente feio, eles tomam um fôlego e vão para o fundo da água."


O presidente do parque, Mark McHugh, gravou um vídeo na sexta-feira (8) para tranquilizar a comunidade, afirmando que nenhum jacaré irá escapar devido ao furacão.


Segundo o diretor do Gatorland, o parque conta com um largo perímetro de cercas ao redor de toda a propriedade, com altura de 2,4 metros. A reserva tem ainda um sistema de bombeamento de água e terá uma equipe para monitorar os jacarés durante a passagem do furacão, que mudou de trajetória e não deve passar por Orlando, que fica no centro da Flórida.


As medidas de segurança tentam evitar a repetição de cenas vistas há duas semanas em Houston (Texas) após o furacão Harvey, onde alagamentos provocaram a fuga de 30 jacarés do parque Gator Country.


No zoológico de Miami, flamingos e pássaros exóticos foram levados para um abrigo neste sábado (9).


O Sea World Orlando, que ficará fechado até terça-feira (12), e o Busch Gardens, em Tampa, terão funcionários no local para monitorar os animais. O Sea World recebeu cinco golfinhos de um parque temático nas ilhas Florida Keys, no extremo sul do Estado.


Na região de Palm Beach, na costa leste da Flórida, o curador do safári Lion Country, Brian Dowling, afirma que "vivemos em uma área propensa a furacões, então nossas instalações precisam ser desenhadas pensando nisso". "Obviamente", pondera ele, "nem tudo pode ser à prova de furacão".


O parque conta com leões, chimpanzés, rinocerontes, entre outros animais. Parte deles foi levada para abrigos especiais, projetados para se manter de pé ainda que prédios vizinhos sejam perdidos em tempestades. Outros foram mantidos em ambientes mais parecidos com o seu habitat do dia a dia, até mesmo com portões abertos.


Segundo o curador do parque, os animais sentem quando as coisas estão para dar errado, e aumentar o nível de estresse ao deixá-los trancados só piora a situação.


"Nós deixamos que esses animais decidam para onde querem ir", diz Dowling. "Os instintos deles dizem como sobreviver à tempestade."

Folha de S. Paulo – Temperatura no oceano está ligada a furacões / Análise


Gabriel Alves De São Paulo

O surgimento de furacões devastadores como o Irma –que chegou aos Estados Unidos neste domingo (10) depois de uma passagem arrasadora pelo Caribe– está cada vez mais frequente, e esse fenômeno pode estar diretamente associado ao aquecimento global.


A lógica por trás disso, explica o físico Paulo Artaxo, professor da USP e um dos principais nomes da área de mudanças climáticas, não é difícil de entender.


A energia para a formação dos furacões advém principalmente da temperatura da superfície do oceano. No caso, o oceano Atlântico está 4°C acima da média histórica. Outro fator que contribui é a temperatura da atmosfera, que também tem aumentado. Com mais energia acumulada no sistema, os furacões surgem como uma forma de dissipá-la.


Para a agência do governo americano Noaa, que monitora os oceanos e a atmosfera, ainda seria prematuro concluir que alguma atividade humana provoca diretamente o aumento da frequência de furacões, mas, "isto posto, as atividades humanas podem já ter causado mudanças que não são detectáveis tanto devido à pequena magnitude quanto por limitações observacionais".


No entanto, também segundo a agência, "o aquecimento antropogênico [causado pelo homem] no final do século 21 provavelmente vai gerar ciclones tropicais em média mais intensos".


"Se a temperatura continuar aumentando, esses eventos serão cada vez mais comuns e de maior intensidade", afirma Artaxo –o Irma chegou ao Estado americano da Flórida com ventos de 215 km/h, antes de perder força.


Para o especialista, pensar em políticas para evitar ou atenuar esses eventos, além de uma questão científica, é uma questão geopolítica. "Vários países caribenhos vão acabar se inviabilizando como nação –não dá para reconstruir um país por todo ano."


O Caribe e os Estados Unidos, no final de agosto, foram atingidos pelo furacão Harvey, de categoria 4 em uma escala que vai até 5, feita pelo Centro Nacional de Furacões dos EUA.
O prejuízo estimado é de mais de US$ 70 bilhões. Algumas contas já indicam que o Irma, que também atingiu a categoria 5 mas foi rebaixado para 2 neste domingo, pode causar danos que superam os US$ 100 bilhões.


Com recursos dessa mesma ordem de grandeza, diz Artaxo, seria possível dar um bom pontapé inicial para a modernização da matriz energética americana, caminhando para se livrar de combustíveis menos amigáveis ao ambiente, como o carvão e os derivados de petróleo.


Esses setores da economia vêm sendo privilegiados pelo governo do republicano Donald Trump, que escolheu Rex Tillerson, ex-CEO da petroleira Exxon-Mobil, para ser seu secretário de Estado, um dos postos de maior prestígio do governo.


Ao menos outros dois movimentos de Trump desagradaram ambientalistas. Um deles foi a indicação de Scott Pruitt para a agência de proteção ambiental do governo. Pruitt já disse não acreditar que o dióxido de carbono (CO2) seja uma das causas do aquecimento global –algo que é consenso entre os cientistas da área.


Mas o que causou maior repercussão ambientalmente negativa foi a manifestação do desejo, por parte de Trump, de retirar os EUA do Acordo de Paris sobre o clima, que visa limitar o aquecimento global a 1,5°C acima da média do século 20 –evitando consequências mais drásticas para o planeta.


Para Artaxo, a conduta de Trump não indica que ele não entende de ciência climática. Só mostra que ele está disposto a retribuir o apoio da indústria petrolífera e do carvão à sua eleição. "Ele está apenas pagando pelo que recebeu. Nesse sentido, não é muito diferente do que vemos acontecendo no Brasil."

Uma visão otimista para o futuro do Cerrado

Por Rafael Loyola
O cerradão protegido no Parque Nacional das Emas: Foto: Katia Kopp/Wikiparques.
O cerradão protegido no Parque Nacional das Emas: Foto: Katia Kopp/Wikiparques.

Esse ano, o governo federal divulgou dados do monitoramento por satélite realizado pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). O Cerrado perdeu 1,9 milhão de hectares nos últimos dois anos (de 2013 a 2015). Pouco menos de 50% do bioma ainda existe e esse 1,9 milhão representa quase 2% de sua vegetação nativa remanescente. Fez as contas? Estamos perdendo o Cerrado a uma taxa de 1% ao ano, o que é cinco vezes mais rápido que o observado para o mesmo período na Amazônia.


Poderia escrever a coluna inteira sobre as razões, os problemas e as consequências dessa perda para a natureza e para as pessoas que vivem e dependem do Cerrado. E poderia discorrer sobre as implicações de tudo isso para os diferentes setores da nossa sociedade (economia, agricultura, cidades, indústria, etc.). Mas hoje é dia de comemoração, certo?


De fato, os cientistas da conservação e os ambientalistas de forma geral tendem a chamar atenção para os problemas. Talvez porque a própria ciência da conservação tenha sido criada como uma “ciência de crise”, talvez porque há um senso de urgência diante de tantas alterações que vêm acontecendo em escala planetária (p. ex., mudanças climáticas), ou talvez só porque temos uma curiosidade pela desventura alheia – basta ler os jornais todos os dias.


Mas, o foco nos problemas e suas consequências catastróficas tem um lado ruim: pode gerar um sentimento de impotência e desânimo. O que podemos fazer, se agora mudamos até a composição da atmosfera da Terra? O que fazer se a diminuição dos estoques pesqueiros é inevitável? O que fazer se as decisões políticas que atendem aos interesses de poucos, sempre são tomadas à revelia dos desejos da sociedade?


Diante de questões como essas, tenho defendido a necessidade de um discurso positivo sobre a conservação. Um discurso conciliatório e menos agressivo. Um discurso mais inclusivo e menos separatista. Você tem todo direito de discordar de mim, mas chocar as pessoas, na minha opinião, não vai resolver o problema. Quem faz algo por medo, não o faz com amor.


Eu acho, portanto, que a inspiração é o segredo. A inspiração é um recurso renovável e poderoso, mas que tende a ser esquecido diante de tantos desastres. Na minha opinião, o medo (de um possível colapso, por exemplo) causa resignação, intolerância, descrédito e alimenta extremismos. Mas a inspiração causa mudança, traz novas maneiras de pensar, aguça a curiosidade e nos faz sentir humanos, tendo consciência de que pensamos e sabemos que pensamos, como descreve nosso próprio nome científico Homo sapiens sapiens.


Então, no Dia do Cerrado, quero compartilhar com você uma visão de futuro inspiradora. Casos de sucesso na conservação. Ideias que tem o poder de nos fazer pensar que ainda há saída para o problema do Cerrado, que ainda podemos salvar o que resta deste bioma e torná-lo habitável, produtivo, resistente e resiliente às ameaças que enfrenta e enfrentará. Enfim, uma mensagem otimista, que nos lembre a importância de comemorar o dia de hoje.


“Nos últimos 50 anos, o Cerrado perdeu praticamente 50% de sua cobertura original, é verdade. Mas há 50 anos, era impensável ter tantas políticas públicas com foco no Cerrado como hoje em dia”.
Em primeiro lugar, é importante ter uma perspectiva histórica. Por mais que a perda da vegetação nativa do Cerrado só aumente, nossa consciência sobre a necessidade de conservar esse bioma também só aumenta. E isso é bom! Nos últimos 50 anos, o Cerrado perdeu praticamente 50% de sua cobertura original, é verdade. Mas há 50 anos, era impensável ter tantas políticas públicas com foco no Cerrado como hoje em dia.


Hoje temos monitoramento por satélite (em breve teremos detecção de desmatamento em tempo real para o bioma), temos programas de agricultura de baixo carbono, incentivos à restauração, declaração voluntária (praticamente concluída no Cerrado) sobre onde estão as áreas protegidas em propriedades privadas. Tudo isso é um avanço enorme. Muito mais lento que o necessário e muito mais lento do que gostaríamos, mas não deixa de ser um avanço.


Quer mais notícia boa? O Cerrado vem sendo restaurado! Já há estudos importantes sobre a restauração no bioma, algo antes apenas discutido para ecossistemas florestais. A semeadura direta - processo no qual sementes misturadas com terra são espalhadas em áreas extensas - tem alcançado resultados surpreendentes. Na Chapada dos Veadeiros, em Goiás, o próprio Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) vem realizando experimentos de restauração em uma parcela de 96 hectares.


Há experimentos em áreas menores e eles são bastante promissores também. Com apenas um ano de monitoramento pós-semeadura, diversas espécies tiveram taxas de sobrevivência maior que 60%, o que é muito bom em plantios dessa natureza. Gramíneas nativas também ajudaram no processo e esses resultados deixam claro que é possível restaurar ecossistemas savânicos. Outra boa notícia é que a semeadura direta pode ser oito vezes mais barata que o plantio de mudas de árvores, que ainda é a técnica mais utilizada no Cerrado. Ou seja, é possível pensar em uma economia de escala, por meio de técnicas mais simples e já conhecidas, como essa semeadura. Se tiver interesse, dê uma espiada no estudo publicado pelo grupo.


Outros estudos demonstram que outra técnica conhecida como “topsoil” também é eficiente para a restauração no Cerrado. A técnica consiste em remover a camada superficial do solo de uma área a ser convertida para outra área, degradada, a ser restaurada. O simples fato de depositar essa camada sobre a área degradada tem trazido resultados animadores na recuperação do solo e da biodiversidade da área a ser restaurada. E isso sem falar na restauração passiva, onde algumas áreas são protegidas sem uso (cercadas com arame), mas com algum nível de manejo (p. ex., controle de queimadas ou de espécies exóticas invasoras) - embora essa restauração no Cerrado funcione apenas a longo prazo.



“A conservação do Cerrado tem beneficiado as pessoas. Diretamente. Inúmeras comunidades tradicionais, comunidades quilombolas e povos indígenas vivem dos recursos do Cerrado, integrando seus bens e serviços não só aos seus modos de vida e cultura, mas também à sua economia”.
Há mais motivos para ter esperança! Em seu “Plano Recupera Cerrado”, a Aliança Cerrado – um fórum composto por 56 instituições governamentais e não-governamentais com atuação local, nacional e internacional – apresenta uma visão de futuro possível e atingível para a restauração do cerrado do Distrito Federal. Um dos resultados que me chamou a atenção foi o de que seria preciso 395 milhões de reais para restaurar o Cerrado do DF, até 2030.



Parece muito dinheiro, mas isso corresponde a apenas 3% do valor disponibilizado para financiamento da agropecuária no DF nos últimos anos. Isso mesmo, só 3%! E isso considerando um custo de restauração de R$28 mil/ha, o que pode ser reduzido em muito, dependendo da técnica utilizada. Portanto, se cada produtor que necessite restaurar uma área solicitar crédito para fazê-lo, o impacto desse pedido no desenvolvimento agropecuário no DF será mínimo. Além disso, essas linhas de crédito já existem, não é preciso reinventar a roda.


A conservação do Cerrado tem beneficiado as pessoas. Diretamente. Inúmeras comunidades tradicionais, comunidades quilombolas e povos indígenas vivem dos recursos do Cerrado, integrando seus bens e serviços não só aos seus modos de vida e cultura, mas também à sua economia. Atualmente, há cada vez mais interesse em aprender e ouvir essas comunidades. Elas vêm sendo incluídas em estratégias e planos de conservação, desde o nível federal ao local. E isso também é muito bom! É imprescindível, portanto, ampliar nosso entendimento sobre como melhor conservar a natureza por meio da inclusão dessas comunidades.


As unidades de conservação (UCs) no Cerrado são poucas e protegem cerca de 8% do bioma. Mas elas tiveram um efeito positivo na contenção do desmatamento ao longo do que restou do bioma. Estudos recentes mostram que, sem as UCs, praticamente toda área atualmente protegida teria sido convertida em áreas de cultivo, principalmente monocultura. Acertamos ao proteger determinadas regiões e, sem dúvida, o impacto da criação e implementação das UCs do Cerrado teve um efeito positivo na conservação de biodiversidade.


Tudo isso não é motivo para apatia; não quer dizer que está tudo bem. Sem dúvida, precisamos nos mobilizar como sociedade em prol da conservação do Cerrado e de um aumento exponencial da conscientização sobre sua importância entre todos os brasileiros. Como cientista e ambientalista, trabalhando em uma instituição localizada no meio do Cerrado, não vou deixar de alertar nossos governantes e nossos jovens sobre os problemas e desafios à frente. Mas hoje, só por hoje, gostaria de lhe dizer que há motivos para comemorar, que há iniciativas de sucesso, que há esperança para a conservação e recuperação do Cerrado. E isso é bom!