segunda-feira, 8 de outubro de 2018

São Paulo irá retirar mais de 2,8 mil toneladas de resíduos orgânicos de aterros sanitários


São Paulo irá retirar mais de 2,8 mil toneladas de resíduos orgânicos de aterros sanitários

Região Central recebe 2º pátio de compostagem da cidade, capaz de reciclar materiais retirados de 32 feiras-livres


 Prefeitura de São Paulo entregou nesta sexta-feira (28) o 2º Pátio de Compostagem da cidade. Com o novo espaço serão retiradas dos aterros sanitários 2,8 mil toneladas de resíduos orgânicos por ano, que serão transformados em um composto de qualidade para adubar plantas nos espaços públicos municipais e, ainda, ser distribuído gratuitamente a interessados.


Assim como o primeiro pátio, em funcionamento na Lapa, Zona Oeste, os resíduos receberão tratamento ambientalmente adequado, por meio de um processo de decomposição biológica aeróbica (quando a decomposição do lixo é feita com a ajuda de oxigênio e temperatura acima de 65°C) e acelerada, que não polui e não gera gases malcheirosos e outros inconvenientes ambientais, sociais e sanitários.

“Esperamos que as pessoas, em especial os feirantes, possam separar os resíduos de forma adequada para não prejudicar o trabalho. Quando o resíduo chega devidamente separado a gente tem praticamente zero de rejeito”, destacou o prefeito Bruno Covas.

O terreno, com 5.563 m², localizado próximo à Avenida do Estado, região Central, conta com 10 espaços (leiras) e receberá cerca de 60 toneladas de resíduos orgânicos por semana, vindos das 32 feiras livres dos bairros da Bela Vista, Liberdade, Consolação, República, Sé, Santa Cecília, Cambuci e Bom Retiro.

O desenvolvimento desse local acontece em parceria com a Subprefeitura da Sé, Amlurb e a empresa INOVA.

Pátio de Compostagem da Lapa
Inaugurado em dezembro de 2015, o espaço foi criado para cumprir o Programa Nacional de Resíduos Sólidos, que além de diminuir a quantidade de resíduos destinados aos aterros sanitários, propicia a diminuição das emissões de dióxido de carbono no meio ambiente.
Desde o início do projeto, já deixaram de ser enviados aos aterros cerca de 2 mil toneladas de resíduos orgânicos, transformando-os em aproximadamente 500 toneladas de composto orgânico.

Programa Vila Limpa

O prefeito Bruno Covas também visitou o projeto Vila Limpa, desenvolvido no Bom Retiro, na região Central, próximo ao pátio inaugurado, com o objetivo de combater o descarte irregular de lixo.

No local, serão realizadas diferentes iniciativas de cunho socioambiental, como a implementação de recursos, de soluções tecnológicas, a ocupação dos espaços e para orientações educacionais sobre o destino correto dos materiais gerados por munícipes, carroceiros, comerciantes e público circulante.


A construção de uma Ecopraça na Rua General Flores foi pensada com o conceito de ocupação e ampliação dos espaços. O local possui área para descarte de resíduos, com o objetivo de facilitar a disposição dos materiais pelos munícipes e carroceiros, bastante numerosos na região.

Abrangem as ações educacionais iniciativas integradas entre população, colaboradores das empresas locais e agentes do poder público local, que receberão orientações para a construção de um novo olhar sobre a questão do lixo urbano. Serão realizados encontros com os líderes locais, associações, palestras de educação ambiental, além da contratação e capacitação de varredores da própria região, que já está em andamento.


Esta responsabilidade compartilhada pelo combate ao descarte irregular e a manutenção da limpeza nas áreas com a comunidade contribui para a melhora do ambiente, tanto em seu aspecto visual, como de saúde, de mobilidade e de condição de vida.


Todo o trabalho está sendo desenvolvido em parceria entre a empresa INOVA, a Autoridade Municipal de Limpeza Urbana (Amlurb) e Subprefeitura da Sé, que há 1 mês atuam com equipes operacionais e de conscientização ambiental, mapeando a região para identificação de pontos de descarte irregular, serviços públicos disponíveis, assim como as associações e as entidades locais para a criação de um movimento de pertencimento.


Um modelo semelhante foi implementado nos distritos do Jaguaré e da Brasilândia, onde o programa apresentou resultados significativos revitalizando pontos de descarte irregular e beneficiando 12 mil famílias.


Annie Leonard me conta “A História das Coisas”, por Efraim Neto




Annie Leonard me conta “A História das Coisas”, por Efraim Neto


Entrevista a Efraim Neto, jornalista e conselheiro da Envolverde – 
Consumo excessivo. Esse é um dos principais dilemas da atualidade. Com A História das Coisas, vídeo caseiro baseado em desenhos, Annie Leornad conquistou o mundo ao mostrar os efeitos de uma economia que valoriza o acúmulo de riquezas e de “coisas”. No vídeo de 20 minutos, Annie apresenta os resultados de mais de dez anos de pesquisas sobre o sistema de produção, distribuição, consumo e descarte de produtos no mundo.

Nesta entrevista, a ativista fala sobre suas experiências, aventuras e como devemos focar na qualidade de vida ao invés do consumo exacerbado. Ela conta sobre suas inspirações para o vídeo e o que a levou a escrever um livro contendo detalhes dessas experiências, sobre educação ambiental, sustentabilidade e sobre o papel da sociedade na instituição de uma nova cultura econômica e de consumo.

O filme, que deu origem ao livro, foi visto por mais de 15 milhões de pessoas, sendo o Brasil um dos países com maior número de telespectadores. Annie, que vive com a filha em uma comunidade em Berkley, na Califórnia, ainda destaca a importância de temos um superávit de coisas que realmente importam: o tempo para o lazer, qualidade de vida e a necessidade da sociedade reconsiderar suas prioridades, aprendendo a viver melhor e com menos.

http://envolverde.cartacapital.com.br/annie-leonard-me-conta-a-historia-das-coisas/#comments

Confira a entrevista.

Efraim Neto – Como surgiu a ideia de escrever o livro A História das Coisas?
Annie Leonard – Em uma inversão da ordem habitual. Primeiramente eu fiz o filme e, em seguida, escrevi o livro. O filme resumiu o que aprendi em 20 anos de viagens e estudos. Visitei fábricas e depósitos em todo o mundo e pude mostrar, em primeira mão, tudo sobre os impactos que a nossa forma de produzir e descartar “coisas” provocam em nossa saúde, no meio ambiente e na sociedade. A História das Coisas conta essas experiências de forma engraçada.

Depois que o filme saiu, recebi dezenas de milhares de emails pedindo mais informações sobre as histórias que ali contei. Fiquei tão feliz que as pessoas queriam falar sobre essas questões – geralmente mantidas fora da discussão pública -, que tentei responder a cada email. Mas isso não funcionou. Em vez disso, decidi escrever um livro que incluísse mais detalhes sobre as histórias apresentadas no filme, algo que pudesse também falar das minhas viagens.
EN – Em seu livro, você traz diversos questionamentos a respeito do estilo de vida humano. Qual a principal mensagem que você pretende transmitir com a História das Coisas?
AL – Minha mensagem principal é que podemos produzir coisas melhores e com menos. A mudança é possível. O nosso meio ambiente e corpos estão repletos de produtos químicos tóxicos. A nossa economia, por meio do consumo excessivo, gera quantidades enormes de resíduos e trata as pessoas pobres como descartáveis. Não precisa ser dessa maneira. Pode ser diferente. Com melhores tecnologias, políticas e mudanças na cultura, podemos ter uma sociedade que seja saudável, sustentável e justa.

EN – Relatórios recentes do UNEP têm apontando que necessitamos modificar os nossos meios de produção e consumo. O que você pensa a respeito disso?
AL – Isso está correto. Muitos acadêmicos e cientistas estão dizendo a mesma coisa. A humanidade está usando, a cada ano, mais recursos e gerando mais lixo do que o planeta pode suportar. A Global Footprint Network calcula que globalmente estamos usando 1,5 planetas. Os limites da Terra nos obrigam a aprender a usar os recursos de forma mais sensata, desperdiçar menos e compartilhar mais.
Isto significa que para melhorar nossas práticas precisamos tornar a produção industrial mais eficiente, mais saudável e sustentável. Há muito espaço para melhorar. Muitas empresas – grandes, médias e pequenas -, em todo mundo, estão demonstrando, através da redução do uso de água, energia e resíduos, compromisso com a sustentabilidade. A mudança é possível, mas requer redesenhar tudo: os produtos, as fábricas e o sistema energético, em especial. Precisamos cultivar os valores culturais em torno da qualidade de vida, da saúde, da felicidade e da comunidade.

EN – Em sua opinião, quais são os maiores gargalos do nosso modelo econômico?
AL – Há uma série de problemas fundamentais com o nosso atual modelo econômico. Um dos principais problemas é o foco no crescimento econômico e o PIB como o único instrumento para mensurar como a nossa sociedade faz isso. O crescimento econômico deveria ser um instrumento para avançarmos em direção aos objetivos sociais: comunidades mais saudáveis, pessoas mais felizes, ambientes mais limpos e boas escolas. Enquanto isso não mudar, viveremos uma situação ambígua, onde acidentes automobilísticos, derramamento de resíduos perigosos, construção de prisões e problemas de saúde parecem ser considerados positivos, uma vez que auxiliam o crescimento econômico.

Se eu pudesse mudar alguma coisa, criaria uma ferramenta pela qual pudéssemos avaliar o que estamos fazendo como sociedade. Não contaríamos apenas quanto dinheiro temos, mas sim se os nossos filhos estão saudáveis, se temos oportunidades de trabalho decente e educação de qualidade, se os membros da comunidade sentem-se seguros e felizes, se nosso ar está limpo.

EN – Será que estamos diante de uma mudança de paradigma na nossa realidade material?
AL – Há muitos lugares onde as atitudes estão mudando. Há, ainda, milhões de pessoas no mundo que vivem na pobreza, que vão dormir com fome e que precisam de ferramentas para chegar até um nível básico de saúde e dignidade. Na outra extremidade, há outros milhões que acreditam que o caminho da felicidade e segurança é no acumulo de riquezas materiais.

Mas essa atitude está mudando. Depois de décadas de longas horas gastas para que se consumissem mais coisas, estamos nos sentido sobrecarregados. Nossas casas estão cheias, nossas garagens estão cheias. Mesmo com o crescimento explosivo do “mini-armazenamento”, a indústria não pode manter-se com todas as coisas que as pessoas têm acumulado. Passamos os finais de semana comprando mais coisas. Por isso, temos menos amigos; estamos mais isolados socialmente, sem perceber que as coisas mais importantes na vida não são as “coisas” que acumulamos.
EF – Que mudanças estão ocorrendo na economia tradicional após a ampliação do debate sobre a sustentabilidade?
AL – É impossível ignorar a gravidade da crise ecológica. Em todo o mundo, muitos líderes já compreendem que o modelo de produção atual, cheio de resíduos, não terá futuro, por isso querem traçar um novo caminho. As empresas estão aprendendo a eliminar produtos tóxicos dos seus processos de produção, a reclicar a água e materiais, e, maciçamente, a reduzir o uso de energia. Claro, ainda existem empresas que estão resistindo às mudanças. Mas elas ainda serão obrigadas a aplicarem iniciativas de sustentabilidade. É possível, dentro de todos os setores produtivos, ter um negócio próspero com princípios da sustentabilidade.

EN – No livro, você relata histórias que mudaram sua percepção sobre as “coisas” e a economia. Qual dessas histórias mais chamou a sua atenção?
AL – A primeira vez que fiquei interessada em como as “coisas” influenciavam a economia foi quando eu ainda era apenas uma estudante da Universidade de Nova Iorque. Todos os dias no caminha para a aula, eu me perguntava sobre a quantidade grande de lixo nas ruas, algo esperando apenas para ser coletado. Me perguntava o que havia nas sacolas e para onde elas eram enviadas.
Certa vez, ainda estudante, fui até o aterro municipal. Foi uma experiência impressionante ver para onde todas as “coisas” iam: eletrodomésticos, roupas, livros, alimentos, calçados, embalagens. Isso me fez pensar que deve haver alguma forma de melhor atender as nossas necessidades sem desperdiçarmos tantos materiais. Então decidi passar os últimos 20 anos estudando isso: para onde as nossas “coisas” vão, o que há nelas e o que podemos fazer de melhor.

Se você ainda não foi ao aterro de sua cidade, recomento veementemente que vá. Ele lhe dará uma perspectiva fascinante sobre a sociedade do consumo que os anunciantes promovem tão fortemente.

EN – Qual o nosso maior desafio? Mudar a economia ou mudar as nossas atitudes?
AL – Precisamos fazer as duas coisas. A crise ecológica e social que enfrentamos é tão grande e tão interligada que todos nós estamos envolvidos. Precisamos mudar nossas políticas econômicas e industriais de modo a promover ambientes saudáveis, sustentáveis e meios justos de produção, assim como nos libertamos dessa obsessão pelo consumo. Basicamente, precisamos apertar o “reset” em nossa sociedade. Precisamos de diferentes tipos de edificações e de um novo planejamento urbano que incentive o transporte público e a congregação entre as comunidades. Precisamos redesenhar produtos para que eles possam estar livres de produtos químicos tóxicos e terem maior durabilidade. Precisamos de um sistema de gestão dos resíduos que incida sobre a reutilização e não apenas na queima ou soterramento das “coisas”. Com a mudança nas sociedades, os líderes e os empresários serão obrigados a pôr a sustentabilidade em prática. As leis precisam mudar junto com as atitudes. Está tudo interligado.

EN – Ao descrever as suas experiências, você fala de ética, direitos e deveres. Podemos afirmar que a crise no modelo econômico é uma crise ética?
AL – Essa é uma crise ética, física, biológica e social. O nosso atual modelo econômico está destruindo nossos ecossistemas e os recursos que o planeta dispõe, promove o aprofundamento das desigualdades e nega oportunidades para milhões de pessoas. É um sistema que premia alguns enquanto exclui outros, eliminando oportunidades para as gerações futuras. Para superar essas crises, podemos e devemos fazer melhor do que estamos fazendo.

EN – O que você pensa sobre economia verde?
AL – Infelizmente não há uma definição comum para a economia verde. Algumas empresas estão tentando lucrar com um “pacote verde”, mas continuam fazendo o velho: lixos e produtos tóxicos e descartáveis. Elas não estão indo para o caminho da sustentabilidade, mas sim se utilizando de “greenwashing”. No entanto, há uma economia verde que pode significar um sistema que funcione dentro dos limites do planeta, sendo compatível com os sistemas ecológicos que sustentam a vida e que é saudável para as pessoas.

Na verdade, dado que temos de aprender a viver dentro dos limites do planeta, uma economia que pode promover mudanças não deve ser vista como uma opção entre muitas, mas sim como a única opção. E todos nós podemos ajudar a instituir esse modelo econômico. Para isso, precisamos exigir o redesenho e uma revisão completa de nossa economia, e não nos contentarmos com as pequenas e aparentes mudanças que temos visto até o momento.

* Publicado originalmente no site Mercado Ético.

Pesquisa inédita mostra que agrotóxicos e metais pesados ameaçam a saúde da anta e de humanos no Cerrado Brasileiro



Pesquisa inédita mostra que agrotóxicos e metais pesados ameaçam a saúde da anta e de humanos no Cerrado Brasileiro

Estudo da Iniciativa Nacional para a Conservação da Anta Brasileira (INCAB/IPÊ) alerta que a espécie, as comunidades humanas e o meio ambiente correm riscos nas áreas próximas a lavouras agrícolas do Mato Grosso do Sul
O Brasil é líder mundial no consumo de agrotóxicos e muitos dos agentes químicos utilizados em lavouras brasileiras estão banidos em outros países devido aos seus riscos para a saúde humana. Entretanto, uma pesquisa inédita da Iniciativa Nacional para a Conservação da Anta Brasileira (INCAB), do IPÊ – Instituto de Pesquisas Ecológicas, aponta que a saúde da fauna silvestre também corre riscos. As antas do Cerrado, bioma localizado no epicentro do desenvolvimento agrícola do país, também estão com a saúde altamente comprometida pela exposição aos agrotóxicos, no Estado do Mato Grosso do Sul (MS).

Entre 2015 e 2017, pesquisadores da INCAB coletaram centenas de amostras biológicas de 116 antas capturadas em armadilhas (para a instalação de colares de telemetria por satélite para monitoramento) ou de carcaças de antas mortas por atropelamento em rodovias de sete municípios do MS. As amostras foram avaliadas no Centro de Assistência Toxicológica (CEATOX) da UNESP Botucatu (SP), referência nacional para estudos de toxicologia. Mais de 40% das amostras avaliadas estava contaminada com resíduos de produtos tóxicos, incluindo inseticidas organofosforados, piretróides, carbamatos e metais pesados.

“Todas as substâncias detectadas possuem algum nível de toxicidade e podem desencadear processos fisiológicos com implicações importantes para a saúde dos animais afetados, particularmente nas respostas endócrinas, neurológicas e reprodutivas. A maioria dos estudos sobre o assunto aborda os efeitos agudos ou imediatos da intoxicação, mas pouco se sabe sobre o impacto da exposição crônica a estas substâncias ao longo de meses ou anos”, afirma a coordenadora da INCAB/IPÊ, Patrícia Medici.

A detecção de agentes tóxicos em amostras de coxim e probóscide dos animais confirma que as antas estão expostas a essas substâncias no ambiente que habitam, por contato direto com as plantas, solo e água contaminados. A análise de amostras de conteúdo estomacal demonstra exposição pela ingestão de plantas nativas contaminadas e de itens das culturas agrícolas eventualmente utilizados como recurso alimentar. Além disso, a detecção de resíduos de agrotóxicos em amostras de fígado e sangue demonstra que ocorre a metabolização dos agentes tóxicos pelo organismo do animal, o que o predispõe a processos patológicos capazes de interferir na sua longevidade, estado de saúde ou em aspectos reprodutivos extremamente relevantes para a viabilidade da espécie. Com amostras de unha e osso, os pesquisadores também  avaliaram o acúmulo de substâncias tóxicas (especialmente de metais pesados) no organismo dos animais ao longo dos anos.

Segundo dados do Sistema Nacional de Informações Toxicológicas (SINITOX), ocorre no Brasil uma média de 3.125 casos de intoxicação por agrotóxico de uso agrícola ao ano, ou oito intoxicações diárias. O Ministério da Saúde e a Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ) acreditam que para cada caso notificado existem outros 50 não notificados, o que aumentaria significativamente essa estatística. No Mato Grosso do Sul, os inseticidas (principal grupo de agrotóxicos constatado no organismo das antas) são as substâncias responsáveis por mais de 70% dos casos de intoxicação aguda em humanos.

Outro importante achado do estudo foi a grande quantidade do agrotóxico Aldicarb (popularmente conhecido como ‘chumbinho’) detectado em amostras de conteúdo estomacal de antas. A substância não tem uso autorizado no Brasil, segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), e, por essa razão, chama a atenção para a necessidade de medidas mais efetivas na fiscalização do uso e do comércio de agrotóxicos pelos órgãos competentes, segundo os pesquisadores.

No mesmo período da coleta de amostras (2015-2017), a equipe da INCAB realizou um levantamento de dados sobre o uso de agrotóxicos no estado do Mato Grosso do Sul, buscando dados e informações de inserções de imprensa, registros junto à Polícia Militar Ambiental (PMA) e Tribunal de Justiça do MS. Segundo as informações encontradas, a pulverização aérea é a forma de aplicação de agrotóxicos mais utilizada no estado, sendo ainda o método mais relacionado à ocorrência de contaminação do meio ambiente (especialmente por influência do vento e deriva do produto para áreas indesejadas).

Estudos recentes desenvolvidos pela Universidade de São Paulo (USP) demonstraram que a cultura que mais utiliza a pulverização aérea como forma de aplicação de agrotóxicos é a de cana-de-açúcar. Na região avaliada pela INCAB, os plantios de cana-de-açúcar se espalham por um recorte de paisagem de aproximadamente 2.200 quilômetros quadrados nos municípios de Nova Alvorada do Sul e Nova Andradina. Da mesma forma, as substâncias mais aplicadas por meio da pulverização aérea são os inseticidas.

ANTA: espécie “sentinela” e indicadora de riscos

“Os resultados provenientes da análise de amostras biológicas de antas nos fizeram pensar de forma mais ampla sobre a problemática do uso indiscriminado de agrotóxicos no Cerrado. Aparentemente, encontramos uma conexão bastante clara entre a pulverização aérea, a cana-de-açúcar, os inseticidas e a contaminação ambiental. Nesse caso, a anta está servindo como ‘espécie sentinela’, capaz de demonstrar os riscos presentes no meio ambiente onde outras espécies da fauna, animais domésticos e comunidades rurais vivem”, defende Patrícia.

A anta é uma espécie extremamente importante para a manutenção dos ecossistemas onde vive, exercendo um papel fundamental na dispersão de sementes e conexão entre diferentes habitats, e o Cerrado, um dos biomas mais ameaçados do Brasil. A INCAB/IPÊ corre contra o tempo para que as antas sobrevivam nesse ambiente tão fortemente impactado pela influência humana. Além das pesquisas sobre agrotóxicos, os pesquisadores monitoram atropelamentos de antas em rodovias do MS, fazem estudos de ecologia e uso da paisagem, bem como outras análises de saúde e genética.

Os resultados de todas essas frentes de atuação são utilizados para estratégias de redução das ameaças que atingem não somente a espécie, como todo o ambiente e todas as formas de vida que nele habitam, incluindo os humanos. (#Envolverde)

Quase 40% dos primatas brasileiros estão sob ameaça de extinção



Quase 40% dos primatas brasileiros estão sob ameaça de extinção

Estudo publicado em junho na revista científica PeerJ, realizado por um grupo internacional de 72 especialistas em primatas, entre os quais oito de instituições brasileiras, aponta que parte de 439 conhecidas espécies de primatas corre algum risco de extinção. Ocupando o terceiro lugar da lista de países ais ameaçadores, atrás de Madagascar e Indonésia, aparece o Brasil. Das 102 espécies que pertencem à nossa fauna, 39% fazem parte deste grupo. Em números absolutos, são 35 espécies sob o risco de desparecer de vez, mas em diferentes graus.

“Isoladamente, a extinção de uma espécie, seja animal ou vegetal, já deve ser encarada como uma perda irreparável. Mas o desaparecimento de qualquer espécie pode gerar muitos danos ao meio ambiente”, alerta o Biólogo Luiz Eloy Pereira, vice-presidente do CRBio-01 – Conselho Regional de Biologia – 1ª Região (SP, MT e MS). No Brasil, dos gêneros com espécies mais ameaçadas estão os Leontopithecus (micos-leões, 4 espécies) e o Brachyteles (dos muriquis, duas espécies).

Figuram ainda na lista as espécies Alouatta guariba guariba (bugio ruivo) e o Cebus kaapori (caiarara).


No caso dos primatas, Pereira explica que eles são de grande importância para o meio ambiente, pois desempenham algumas funções relevantes para a preservação ou manutenção da biodiversidade. “Muitos são responsáveis pela dispersão de sementes de várias espécies consideradas essenciais para a regeneração de florestas.

Caso esses primatas desapareçam, a falta desse serviço prestado por eles colocará também em risco a preservação desses biomas”, completa o vice-presidente do CRBio-01.


O estudo, aliás, indica que uma das principais causas para o risco de extinção dos primatas é justamente a perda de habitat, principalmente aqui no Brasil. “A grande maioria desses animais não tem uma segurança adequada”, diz Pereira. Ainda que no Brasil a porcentagem deles em unidades de conservação seja considerada relativamente alta, 38%.


“De qualquer maneira, para reverter esse quadro, uma das primeiras medidas de segurança a serem tomadas para garantir a sobrevivência dessas espécies deve ser a expansão dessas áreas protegidas”, conclui o Biólogo. (#Envolverde)

domingo, 7 de outubro de 2018

BNDES fornece crédito de R$ 2 bi para energia renovável

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

BNDES fornece crédito de R$ 2 bi para energia renovável

O banco disponibiliza R$ 2,2 bilhões para aquisição de sistemas de geração de energia solar, eólica e de aquecimento de água por meio de placas solares.

O Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) lançou na última quinta-feira (27) novas linhas de crédito para investimento em energias renováveis. O banco disponibiliza R$ 2,2 bilhões para aquisição de sistemas de geração de energia solar, eólica e de aquecimento de água por meio de placas solares.

O lançamento das linhas de crédito ocorreu no Rio de Janeiro e contou com a presença do presidente Michel Temer. Ele afirmou que a promoção de energia limpa e desenvolvimento sustentável é uma “bandeira importante” do seu governo.

A linha de crédito está disponível para empresas de todos os portes, produtores rurais, condomínios, além de pessoas físicas e poderá financiar até 100% do valor total dos equipamentos, com até dez anos para pagar e dois anos de carência. A taxa final para micro, pequenas e médias empresas ficará em torno de 1,3% ao mês.

Durante o evento, o presidente lembrou também a sua passagem pela Assembleia-Geral da ONU, no início da semana.

“Aproveitei a ocasião para reafirmar o compromisso do Brasil com a economia de baixo carbono. Apenas para dar um exemplo, hoje temos a maior reserva marinha ambiental do mundo. Alcança um espaço equivalente à soma da França e Alemanha juntos. Verifiquei quantos e quantos chefes de Estado, de governo, vieram nos cumprimentar por isso. Trata-se, portanto, de um compromisso de princípio que nosso governo tem convertido em ações concretas, como a de hoje”.


Fonte: Ciclo Vivo

Brasil poderá ter sítio misto reconhecido pela Unesco

Brasil poderá ter sítio misto reconhecido pela Unesco

Resultado sai em 2019.

As belezas naturais e culturais da Serra da Bocaina de Paraty (RJ) e Angra dos Reis (RJ) concorrem a ser consagradas como Patrimônio Mundial. A candidatura do primeiro sítio misto brasileiro ao título foi oficializada e, na semana passada, a região recebeu visita oficial da Unesco, por meio de representantes do Conselho Internacional de Monumentos e Sítios (Icomos) e da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN).

A candidatura Paraty: Cultura e Biodiversidade envolve as áreas protegidas da cidade de Paraty e seu centro histórico, as preciosas unidades de conservação de Angra dos Reis e toda a Serra da Bocaina, localizada neste dois municípios fluminenses e em quatro outros municípios do Estado de São Paulo: Cunha, São José do Barreiro, Areias e Ubatuba. (veja conjunto de unidades de conservação lista abaixo). Além dos recursos naturais, a proposta enaltece as comunidades quilombolas, indígenas e caiçaras que vivem na região. “O sítio inclui o modo de vida destas comunidades e sua forma de se relacionar com a biodiversidade”, afirma o diretor de Áreas Protegida do Ministério do Meio Ambiente (MMA), João Paulo Sotero.

O resultado da candidatura será anunciado em meados do próximo ano, na reunião do Comitê do Patrimônio Mundial, que ocorrerá entre 30 de junho e 10 de julho de 2019, em Baku, no Azerbaijão. Caso aprovado, o sítio misto será reconhecido como patrimônio mundial cultural e natural. O título considera, assim, tanto a biodiversidade quanto a cultura viva local, que se traduz em aspectos como o modo de vida, o artesanato e a língua dos povos tradicionais da região.

O reconhecimento contribuirá para a proteção e a valorização da região. “Trata-se de uma região com enorme variedade de ambientes e fisionomias vegetais. Isso proporciona à região uma biodiversidade impar”, explica Sotero. Pelo caráter misto, a candidatura envolve o MMA e o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), o Instituto Estadual do Ambiente (INEA) em conjunto com o Ministério da Cultura, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e o Instituto Estadual do Patrimônio Cultural – Inepac, além das prefeituras.

Visita

As equipes dos órgãos assessores da Unesco percorreram locais como a Serra da Bocaina e um trecho do Caminho do Ouro, onde há vestígios preservados remanescentes das antigas rotas usadas em expedições para o interior do país. No centro histórico de Paraty, visitaram locais como o Museu de Arte Sacra e a Casa de Cultura. Puderam perceber os registros da presença do homem na região, em períodos ainda mais antigos, como na visita à Oficina Lítica localizada na Praia de Dois Rios, na Ilha Grande. O grupo assistiu, ainda, a manifestações culturais como a apresentação do coral da Aldeia Itaxi (Guarani-Mbya) na Terra Indígena Paraty-Mirim e do jongo no Quilombo do Campinho. Puderam também conhecer a Canoa Caiçara e seu modo de produção.

Nas Unidades de Conservação, vivenciaram a grande diversidade biológica que habita toda a área do Sitio e que se estende do fundo do mar a mais de 2 mil metros de altitude. Por meio de sobrevoos, visitas, trilhas pela Mata Atlântica e atividades de observação de pássaros, foi exposta toda a riqueza que faz da região uma área única no mundo.

Os avaliadores também puderam provar pratos típicos da culinária caiçara e quilombola feitos com ingredientes locais e da biodiversidade, constatando a alta gastronomia que se pratica em Paraty, reconhecida pela Unesco como Cidade Criativa para a Gastronomia. A intensa semana de trabalho envolveu também várias reuniões com o conjunto amplo de parceiros, entre governos e sociedade civil e só foi possível pelo compromisso e engajamento de todas as instituições.

Confira as UCs que compõem a área ampla do sítio misto:

Federais

– Parque Nacional da Serra da Bocaina
– Estação Ecológica de Tamoios
– Área de Proteção Ambiental de Cairuçu

Estaduais

– Reserva Ecológica Estadual da Juatinga
– Parque Estadual da Ilha Grande
– Reserva Biológica Estadual da Praia do Sul
– Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Aventureiro
– Área de Proteção Ambiental de Tamoios

Municipal

Área de Proteção Ambiental Municipal da Baía de Paraty

Em Curitiba, preservar araucárias rende incentivos a construtores de imóveis

Início Inovação Negócios Em Curitiba, preservar araucárias rende incentivos a construtores de imóveis

Em Curitiba, preservar araucárias rende incentivos a construtores de imóveis

O decreto nº 1035, que possibilita flexibilizar parâmetros construtivos em terrenos com a árvore símbolo do Paraná.

A preservação de araucárias em Curitiba renderá incentivos construtivos aos proprietários de imóveis que abriguem árvores da espécie. O decreto nº 1035, que possibilita flexibilizar parâmetros construtivos em terrenos com a árvore símbolo do Paraná, foi assinado nesta quinta-feira (4/10) pelo prefeito Rafael Greca.

A assinatura ocorreu no Solar 907, pequeno edifício residencial construído recentemente na rua Desembargador Motta, cujo projeto arquitetônico se moldou na conservação de uma araucária. “Este prédio é um exemplo de solução arquitetônica amigável e de respeito às araucárias, que chegaram aqui muito antes de nós. Daqui tirei a inspiração para criar esse decreto que beneficia, com incentivos construtivos, proprietários e construtores a conservarem nos terrenos nossas lindas araucárias”, disse Greca.

Pelo novo decreto, caberá ao Conselho Municipal do Urbanismo avaliar processos urbanísticos em terrenos que tiverem uma araucária ou mais para oferecer condições especiais de construção mediante a preservação da árvore. Os benefícios podem ser na ampliação da taxa de ocupação do terreno, no aumento de número de pavimentos, na quantidade de estacionamentos, entre outros.
Segundo o secretário municipal do Urbanismo, Júlio Mazza, os benefícios dependerão de cada caso. “As condições oferecidas vão variar de acordo com cada processo, dependendo do tamanho, localização do terreno, entre outros fatores”, disse Mazza.

Antes da avaliação no CMU, os processos dessa natureza passarão pela análise da Secretaria Municipal do Meio Ambiente e também pelo Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc). Atualmente as regras para remoção de araucárias em Curitiba estão sujeitas a análise criteriosa da Secretaria do Meio Ambiente.

Na legislação de Curitiba também existe benefícios construtivos para quem preserva maciços florestais, como bosques. “Com esse decreto ampliamos a possibilidade de benefícios também para casos de terrenos com árvores (araucárias) isoladas”, explicou o presidente do Ippuc, Luiz Fernando Jamur.

A secretária municipal do Meio Ambiente, Marilza Dias, participou da assinatura do decreto.

Memória preservada

O edifício Solar pertence às irmãs Carmem e Cyntia Costa e foi construído no mesmo terreno de 273,6 metros quadrados onde elas moraram com os pais, Lúcia e João Costa.

Na antiga casa que ali existia, as irmãs cresceram com a araucária plantada há mais de 40 anos por um tio. “Todo ano minha mãe colhia pinhões e distribuía para os vizinhos. Essa é uma lembrança muito forte”, contou Carmem.

A construção mudou, mas a araucária continuou para produzir mais frutos e memórias afetivas. No novo prédio mora também a filha, o genro e a pequena Clara, neta Carmem.

Para a obra, a família contratou o escritório de arquitetura Doria e Lopes Fiuzza, que desenvolveu o projeto de maneira a preservar a araucária. “O terreno é pequeno e a primeira ideia foi realmente retirar a árvore, mas conseguimos adequar o projeto e mantê-la de forma a valorizar a construção”, disse Maicon Leitoles, um dos arquitetos responsáveis pelo projeto.

Via Prefeitura de Curitiba. Foto: Cesar Brustolin/SMCS

sábado, 6 de outubro de 2018

Mudanças do clima deslocarão 13 milhões até o fim do século nos EUA, diz estudo Por Amelia Gonzalez, G1


Mudanças do clima deslocarão 13 milhões até o fim do século nos EUA, diz estudo
Por Amelia Gonzalez, G1

24/09/2018 17h24  Atualizado há 2 semanas



O ano era 2010 e, no Festival de Cinema que sempre acontece no Rio, um título especial chamou minha atenção. Dirigido por Michael Nash, um cineasta bastante laureado, "Climate Refugees" ("Refugiados do clima", em tradução literal) propunha-se a documentar o fenômeno que, naquela época, ainda era considerado novo, quando uma pessoa é obrigada a se deslocar do lugar onde vive e mora por causa de desastres ambientais induzidos pelas mudanças climáticas.

Assisti ao filme numa pequena sala de transmissão em Santa Teresa. Na época, eu editava o caderno "Razão Social", encarte que atualizava o tema sustentabilidade no jornal "O Globo". Ainda hoje lembro-me bem de algumas passagens do filme, sobretudo porque fiquei "conhecendo", pelo menos em imagens, a ilha de Tuvalu, nação do Pacífico sempre citada pelos meus entrevistados quando o tema era o aumento do nível do mar. Tuvalu, diziam, ia desaparecer até o fim do século. Esta informação sempre me impressionou.

A equipe de Nash não só mostrou Tuvalu por dentro, com suas ruas, escolas, casas e hospitais, como entrevistou uma moradora que lamentava sua triste sorte. Dona de casa, sem ofício, 45 anos, ela estava fora dos requisitos básicos exigidos por Nova Zelândia, país vizinho, que se comprometia a abrir suas fronteiras e aceitar tuvalenses, desde que fossem jovens, já tivessem algum estudo e pudessem, assim, funcionar como mão de obra no país.

"Estou condenada à morte", disse a mulher. No quintal de sua casa, a terra da horta que plantara para ajudar a alimentar sua família já estava salgada, por causa da água do mar que chegava cada vez mais perto.

Foi naquele ano também que o Pentágono, como diz a sinopse do documentário de Mark Nash, começou a considerar as mudanças climáticas como um risco de segurança nacional. Presidida pelo democrata negro Barack Obama, a nação mais rica do mundo queria traçar estratégias para enfrentar a situação, mas certamente não estaria nos planos de Obama construir um muro para impedir refugiados do clima de entrarem em seu país.

Havia uma estimativa em números, claro, como sempre há nesses casos, e eu não me lembro exatamente, mas sei que estava na casa dos milhares. Hoje, porém, uma mega reportagem que acaba de ser publicada no site do jornal "The Guardian", traz um estudo dando conta de que o aumento do nível do mar deslocará 13 milhões de pessoas até o final do século. E este número, apenas nos Estados Unidos, por causa de furacões como o "Florence", que acabou de varrer a costa e atingir as duas Carolinas. Não haverá um estado em toda a nação que não vai ser afetado pelo aumento do nível do mar.

A reportagem, escrita por Oliver Milman, conversa também com uma mulher, Elizabeth Boineau, que viu sua casa inundada pelo terceiro ano consecutivo e já está de malas prontas para um lugar mais alto, deixando para trás uma bela edificação do início do século XX. Boineau mora em Charleston, na Carolina do Sul, que segundo as autoridades é uma parte da história dos Estados Unidos que tende a ser derrubada pelas águas e ventos furiosos que chegam dos mares cada vez mais aquecidos.

"Eu teria que ter uns US$ 500 mil para levantar a casa, demolir o primeiro andar. Vou alugar em lugar mais alto", disse Boineau para a reportagem.

Definitivamente estamos na era das migrações climáticas, conclui o repórter, que teve a ajuda do especialista em adaptação climática Jesse Keenan, da Universidade de Harvard, em suas reflexões.
"É muito difícil imaginar como será o comportamento humano sob circunstâncias tão extremas e historicamente sem nenhum precedente", diz ele.

A questão é que nem todo mundo tem condições de se mudar, como no caso da entrevistada. Este problema vai aumentar a responsabilidade do estado, que precisará cuidar das vítimas depois de cada enchente.

"Tenho dificuldade para saber como será este mundo", disse o demógrafo Mat Hauer, um dos principais autores do estudo apresentado hoje.

Segundo o relatório, dentro de poucas décadas, centenas de milhares de casas nos Estados Unidos serão completamente inundadas.

"Até o final do século, o aumento do nível do mar iria redesenhar o litoral, fazendo desaparecer algumas partes conhecidas, como o Sul da Flórida, pedaços da Carolina do Norte e da Virgínia, grande parte de Boston. O aquecimento da temperatura dos mares irá alimentar furacões monstruosos como os três devastadores – Irma, Maria e Harvey em 2017 – seguido por Florence este ano, que espalhará os sobreviventes de maneira instável e incerta", diz a reportagem.

Em uma proporção ainda pouco relevante, o governo já está se preparando para isso. A pequena comunidade de Isle de Jean Charles, que fica na Louisiana, foi o primeiro lugar que recebeu ajuda federal para se realocar. A população, que cresceu numa ilha que está sendo devorada pelo mar, está de mudança para uma antiga fazenda de cana-de-açúcar a mais de 60 quilômetros dali.
No Alasca, cerca de uma dúzia de cidades costeiras também está tentando se mudar, e pleiteia algum financiamento federal para isso.

Os refugiados do clima dos Estados Unidos saem do estereótipo de pessoas que fogem de suas casas e territórios, da Ásia e da África, por questões políticas, como se tem visto aos montes. Só neste sábado, 237 pessoas que estavam em quatro pequenas embarcações foram resgatadas. No país mais rico do mundo, as cenas são bem diferentes:

"Em vez disso, eles serão americanos abastados dirigindo uma nova vida em seus carros, acompanhados por caminhões que vão carregar uma vida inteira de memórias e posses", conta Orrin Pilkey, professor emérito de geologia costeira da Duke UNiversity, que acabou de lançar um livro "Elevação do nível do mar ao longo das costas das Américas: o Tsunami Lento", que prevê cenas apocalípticas em que milhões de pessoas, em grande parte do sul da Flórida, se tornarão "um fluxo de refugiados que se deslocam para lugares mais altos".

De uma forma ou de outra, as mudanças climáticas causam uma tansformação na civilização. E este movimento já está acontecendo, muito mais cedo do que as previsões do início do século. O que se precisa é enxergar de maneira adulta o problema, com políticas públicas voltadas para ele. É nossa responsabilidade, como cidadãos, cobrar dos dirigentes isso. Aqui no Brasil, em época de eleições, está mais do que na hora de abandonarmos as questões polarizadas e olharmos seriamente para o que cada candidato propõe fazer – se propõe fazer – para enfrentar o maior desafio da humanidade neste século.

Amelia Gonzalez  — Foto: Arte/G1