Amazônia brasileira abriga 453 garimpos ilegais, mostra estudo
Em todo o bioma – que se espraia por nove países, em quase 7 milhões de km² – são mais de 2.500
Há 9 Horas por Folhapress
Brasil
Pesquisa
O Brasil tem 453
garimpos ilegais na Amazônia, de acordo com mapa inédito apresentado
nesta segunda-feira (10) pela Raisg (Rede Amazônica de Informação
Socioambiental Georreferenciada). Em todo o bioma –que se espraia por
nove países, em quase 7 milhões de km²–são mais de 2.500.
Enquanto a Venezuela lidera o ranking amazônico dessa
atividade predatória, com 1.899 garimpos clandestinos, o Brasil ocupa o
primeiro posto entre os países que mantém a atividade ilegal dentro de
terras indígenas, com 18 casos entre os 37 identificados, e em áreas de
conservação.
Esse quadro pode se agravar em breve. O presidente
eleito, Jair Bolsonaro, tem defendido que as populações indígenas tenham
o direito de explorar as suas terras. Ele também já sugeriu que índios
possam receber royalties sobre a extração de minérios nas reservas.
Neste
domingo (8), após muita polêmica e indefinição, Bolsonaro anunciou o
futuro ministro do Meio Ambiente que terá que enfrentar o problema:
Ricardo Salles. Ex-secretário de Meio Ambiente de São Paulo na gestão de
Geraldo Alckmin (PSDB), se notabilizou por críticas ao MST.
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"O
objetivo do mapa é mostrar a abrangência transnacional do garimpo
ilegal na Amazônia, em geral praticado por grupos à margem da lei e que
gera prejuízos à floresta, aos rios, aos índios e às populações
tradicionais", explica Alicia Rolla, geógrafa do ISA (Instituto
Socioambiental), que coordena a Raisg.
Além de Venezuela, com 1.899 garimpos ilegais, e Brasil, com 453, o mapa aponta 134, no Peru, e 68, no Equador.
Para
chegar ao resultado, os pesquisadores agregaram conhecimentos de
diversas fontes, como estudos técnicos, informações de parceiros locais,
notícias da imprensa de cada país e análises de imagens de satélites.
"Trabalhamos por cerca de um ano e meio no projeto", diz a geógrafa.
O
mapa mostra 2.312 pontos e 245 áreas de garimpo ou extração de minerais
como ouro e diamantes. "Conceitualmente, 'pontos' e 'áreas' são a mesma
coisa, mas as 'áreas' são aqueles garimpos cuja extensão determinamos
por meio de sensoriamento remoto".
Além disso, foram mapeados 30
rios afetados pela atividade extrativista ou pela entrada de máquinas,
insumos e saída de minerais. Na Colômbia e na Bolívia, as unidades de
análise foram os rios, razão pela qual não aparecem quantificados como
pontos.
Segundo Roberto Cabral, coordenador de operações de
fiscalização do Ibama, o garimpo ilegal provoca a "destruição da
cobertura vegetal da floresta. Na Amazônia, a maioria dos garimpos segue
o curso d'água, assim, a exploração derruba os barrancos, muda o curso
de rios e arrasa igarapés. Além disso, o mercúrio utilizado na atividade
se propaga pelo rio".
Para Alicia Rolla, o mapa permitirá que os
órgãos ambientais delineiem estratégias de intervenção mais articuladas,
"pois ele possibilita ver toda uma região, e não apenas garimpos
isolados".
Ela também cita a possibilidade de incrementar a
cooperação internacional no combate a esse crime. Dá como exemplo a
extração mineral realizada nas terras ianomâmi no Brasil e na Venezuela.
"Quando
ocorre uma ação fiscalizadora no lado brasileiro, os garimpeiros fogem
para o lado venezuelano e voltam depois. Esse mapeamento pode servir de
base para orientar uma necessária articulação internacional para coibir a
mineração ilegal".
"Trata-se
de uma atividade não só ilegal como impossível de ser legalizada", diz
Cabral, sobre os garimpos em terras indígenas e áreas de conservação.
Além
de liderar o ranking, a Venezuela também é o local onde a mineração
produz mais tensão social. A criação em 2016 do chamado Arco Mineiro do
Orinoco, localizado na bacia desse rio, deflagrou conflitos armados na
região. Estima-se que mais de cem pessoas morreram em confrontos desde
2016.
"Trata-se de uma área imensa, que ocupa 12% da Amazônia
venezuelana", diz Gustavo Faleiros, coordenador do InfoAmazônia, que
produziu, em parceria com a Raisg, um "storymap", forma de apresentação
que expõe dados do mapa de maneira interativa.
"O governo mapeou
as zonas de existência de minérios para fazer concessões e parcerias com
a iniciativa privada. Só que já existiam mineiros ilegais nessa área e,
a partir do decreto de criação [do Arco Mineiro], o exército foi
enviado para retomar algumas delas", diz.
A investida do governo
venezuelano sobre a área é vista como uma tentativa, após a queda de
preço do petróleo, de arrecadar recursos com a exploração do ouro, cujo
valor de mercado aumentou muito na última década.
No Brasil, a
valorização do metal, de 149% desde 2010, com o grama valendo na última
sexta R$ 155,23– é apontada como uma das razões para o recrudescimento
do garimpo ilegal na Amazônianacional, com polo minerador na região do
rio Tapajós.
Ali, a exploração data do final da década de 1950, diz Maurício Torres, da Universidade Federal do Pará.
Inicialmente
todo o trabalho era feito de forma artesanal e manual. Segundo Torres,
uma peculiaridade da região permitiu que, de início, as mineradoras não
se sobrepujassem aos garimpeiros.
"O ouro ali está distribuído
numa área imensa. Assim, se uma mineradora controlasse um ponto, o
garimpeiro só precisava ir para o terreno ao lado. Isso , em certa
medida, deu ao garimpo uma situação democrática e nacional".
Com o
escasseamento do ouro superficial, explorado pelos primeiros
garimpeiros, a região do Tapajós viu a chegada das mangueiras bico-jato.
Nessa técnica, água pressurizada é utilizada para o desmonte de
barrancos. A lama resultante é então filtrada para a extração do metal. A
prática produz grandes crateras.
"Isso já tornou possível algum
controle do acesso ao ouro pelos donos de garimpo", pelos gastos para
comprar a máquina e combustível.
A partir de 2008, diz Torres, a
situação muda drasticamente com a chegada de retroescavadeiras
hidráulicas (PCs) e de dragas escariantes, com um poder de destruição
ambiental avassalador.
"A grande transformação da região ocorreu
com a chegada das PCs. Elas geram um impacto ambiental insano. Eu
arriscaria dizer que a alteração da cobertura florestal foi maior nos
últimos 10 anos do que nos 50 anteriores."
Isso também produziu uma concentração econômica e de controle dos garimpos inéditas. Uma PC custa aproximadamente R$ 500 mil.
Nesse
contexto, diz Torres, é muito importante diferenciar o garimpeiro do
dono do garimpo. "O garimpeiro, em geral, é um peão, um trabalhador
rural, um ribeirinho, é alguém que luta para sobreviver. O bandido é o
dono do garimpo. No entanto, persiste a ideia de que o garimpeiro é o
demônio. Quase todas as ações só atacam a ponta da cadeia, investem
contra o garimpo. Isso não funciona."
A chegada das PCs no Tapajós se deu com o aumento da cotação do preço
do ouro. "A partir dos anos 1990, com abertura da antiga União
Soviética, injetou-se muito ouro no mercado e o preço caiu. Desde a
crise econômica de 2008, o ouro se fortaleceu de novo. A partir daí a
relação do preço do ouro com o preço do diesel passou a compensar." Com
informações da Folhapress.
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