quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Vínculos entre acidentes em engenharia e o ambiente de obra, artigo de Álvaro Rodrigues dos Santos



Vínculos entre acidentes em engenharia e o ambiente de obra, artigo de Álvaro Rodrigues dos Santos





Brumadinho, MG
Foto: Corpo de Bombeiros/MG – EBC
 
 
[EcoDebate] As recentes tragédias de Mariana, Brumadinho, os problemas ocorridos e anunciados com viadutos em São Paulo, e tantos eventos da mesma natureza já ocorridos no país, em que são contabilizados um enorme número de mortos e prejuízos sociais incalculáveis, têm suscitado diversas avaliações focadas nos mais diversos aspectos técnicos e gerenciais envolvidos. 

Neste artigo abordo um desses aspectos, que me parece um dos fundamentais, o qual não tem sido objeto dessas avaliações, qual seja o ambiente de obra, ou o ambiente empresarial, que sabidamente fortemente influi no tipo e na qualidade das relações entre os empregados, em nosso caso, profissionais de engenharia (engenheiros, geólogos, etc.), e a Diretoria da empresa. E, dentro do mesmo cenário, nas relações entre empresas especializadas contratadas e a contratante proprietária da obra.

É natural e compreensível o fato do profissional técnico do quadro da empresa cultivar a expectativa de sua ascensão hierárquica/salarial no âmbito do organograma empresarial. Alguns valores exigidos para essa ascensão lhe são óbvios e/ou lhe são instilados pela cultura interna da empresa: dedicação, competência, disponibilidade, sociabilidade, responsabilidade, capacidade de liderança, e outros do gênero. Além desses há alguns mais sutis: caracterizar-se por trazer soluções e não problemas e, com destaque, considerar-se e ser considerado parte “do time”, ou seja, um profissional que se destaque por, em qualquer circunstância, “fazer o jogo da empresa”. 

No caso de empresas contratadas pela empresa proprietária da obra dá-se algo semelhante. À contratada interessa a melhor relação possível com seu cliente, situação em que lhe serão garantidos novos e importantes contratos. Nesse contexto busca naturalmente cumprir valores essenciais para suas expectativas: competência, confiabilidade, presença, confidencialidade. Da mesma forma, poder ser considerada “parte do time” e, em qualquer condição, “fazer o jogo da empresa contratante”.

Esse ambiente empresarial e de obra, ainda que não explicitado e muito estudado, é conhecido por todos que, de alguma forma, lidam com obras de engenharia. Pode-se dizer até que, respeitados certos limites (aqui mora o “X” do problema) componha um elenco de condutas compreensíveis e até aceitáveis. Decisão dificílima, tanto por parte do profissional empregado da empresa proprietária da obra, como por parte de uma empresa por essa contratada, é estabelecer e atender os limites de ordem ética e de ordem técnica, aqui em especial aqueles que se colocam na esfera da segurança e da assunção de riscos de acidentes.

Vamos a um exemplo prático para melhor entendimento dessa equação. Um geotécnico da empresa proprietária da obra alerta em uma reunião com sua chefia sobre a urgente necessidade de ser tomada determinada providência técnica para que não sejam surpreendidos por um grave acidente. Como a providência envolve custos a diretoria pede estudos complementares. 

A variável tempo corre inexoravelmente. Feitos esses estudos, o profissional repete seu alerta. Sua chefia lhe recomenda que não faça nada por escrito, ou documentadamente, as comunicações verbais bastariam. Inicia-se um processo interno interminável de aprovação de verbas e serviços e o profissional tem plena consciência de que a probabilidade de um acidente aumenta
consideravelmente. 

Ele tem ganas de emitir por escrito um alerta à sua chefia e à Diretoria da empresa, mas ao mesmo tempo avalia que se assim agir deixará de imediato de ser considerado como “parte do time”, e iriam por terra seus sonhos de progressão hierárquica e salarial dentro da empresa, e quem sabe teria até que contar com a possibilidade de uma demissão, obviamente debitada a um exercício de “remanejamento interno de equipes”. 

Como, no caso da empresa contratada, dadas as mesmas circunstâncias, iriam para o espaço suas expectativas de novos e vitais contratos. No campo da ética profissional poderíamos elencar vários outros exemplos de incompatibilidade entre o que seria técnica e legalmente correto e os interesses mais imediatos da empresa proprietária da obra, situação que também exigiria do profissional ou da empresa contratada, em obediência aos códigos de conduta informais prevalecentes no ambiente empresarial, uma decisão de anuência e compartilhamento com uma ilegalidade ou com uma agressão a princípios éticos que deveriam ser devidamente assumidos e praticados.


Exemplo que se tem tornado muito frequente decorre de decisões empresariais de redução de despesas, o que acaba contaminando o ambiente de uma obra de uma quase disputa entre profissionais e equipes na busca de resultados financeiros de grande agrado para a direção da empresa proprietária da obra. É fácil deduzir os enormes riscos para a segurança que naturalmente decorrem de um ambiente de obra assim contaminado.


Fato real é que em grande parte dos acidentes e tragédias ocorridos em obras de engenharia no Brasil são explicados, ao menos em boa parte, por circunstâncias próximas às descritas, ou seja, pela prevalência de ambientes de obra constrangedores de uma atitude mais ousada, firme e insistente de profissionais do quadro ou de empresas contratadas no apontamento de disfunções técnicas que possam levar a situações de risco e na persistência por exigências de sua pronta correção e eliminação.

Como enfrentar esse problema? Aqueles que tem uma maior intimidade com os ambientes empresariais sabem perfeitamente da ingenuidade em se esperar que algo de muito substancial seja alcançado via uma alteração comportamental unilateral dos profissionais empregados e de empresas contratadas. Empregos, carreiras, contratos, situações familiares estão em jogo, o que, particularmente em um país com fraco desenvolvimento econômico, conta muito.


Por diversas razões um caminho culturalmente também dificultoso, a alternativa de uma profunda e corajosa decisão das direções empresariais no sentido de dotar seus ambientes de obra e seus códigos de conduta de atributos incentivadores de atitudes mais ousadas e firmes de profissionais e empresas contratadas no apontamento de riscos técnicos e da necessidade de prontas medidas de segurança, promete ser mais promissora para resultados mais rápidos e virtuosos.


Os enormes desgastes financeiros e de imagem institucional derivados de acidentes como os que temos testemunhado, assim como a eventualidade de penalizações criminais envolvendo proprietários da empresa, jogam, a favor dessa possibilidade.


Muito colaboraria também para um melhor equacionamento da variável abordada nesse artigo uma atenção maior das associações técnicas do campo geotécnico, como a ABMS e a ABGE, na discussão e trato do tema aqui focado, qual seja o ambiente de trabalho imperante nas frentes de obra e sua influência na menor ou maior atenção com a excelência técnica e com a segurança.


Geól. Álvaro Rodrigues dos Santos (santosalvaro@uol.com.br)

  • Ex-Diretor de Planejamento e Gestão do IPT – Instituto de Pesquisas Tecnológicas
  • Autor dos livros “Geologia de Engenharia: Conceitos, Método e Prática”, “A Grande Barreira da Serra do Mar”, “Diálogos Geológicos”, “Cubatão”, “Enchentes e Deslizamentos: Causas e Soluções”, “Manual Básico para elaboração e uso da Carta Geotécnica”, “Cidades e Geologia”
  • Consultor em Geologia de Engenharia e Geotecnia
  • Colaborador e Articulista do EcoDebate
Artigo enviado pelo Autor e originalmente publicado no CGN.



in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 14/02/2019


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3 Formas de Gerar Energia Através do Sol Que Você Deveria Conhecer

3 Formas de Gerar Energia Através do Sol Que Você Deveria Conhecer

3 Formas de Gerar Energia Através do Sol Que Você Deveria Conhecer
Se você acha que não tem como aproveitar as vantagens da energia solar, então precisa conhecer as três possibilidades de produzir sua própria energia através da luz do sol.


Há 7 anos, em 2012, um novo cenário para o consumo de energia elétrica foi apresentado aos brasileiros: o segmento de geração distribuída e a possibilidade de produzir a própria energia elétrica através de sistemas geradores.

O marco que criou esse segmento foi a Resolução Normativa 482 da Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica), na qual foi criado o sistema de compensação de energia elétrica e os chamados créditos energéticos.

A partir dessa legislação, os brasileiros passaram a realizar “a troca” da energia gerada pela energia consumida da rede elétrica, sendo que cada unidade de energia injetada na rede retorna a ele na mesma proporção.

Para isso, basta que qualquer interessado (seja ele pessoa física ou jurídica) instale um micro ou minigerador, que deve ser alimentado por fontes de energia renováveis incentivadas pelo segmento de geração distribuída.

Segundo as regras vigentes deste segmento, caracteriza a micro e minigeração de energia solar como:
  • Microgeração: sistema fotovoltaico de potência instalada inferior ou igual a 75 quilowatts;
  • Minigeração: sistema fotovoltaico de potência instalada superior a 75 kW e menor ou igual a 5 Megawatt.
De acordo com a RN 482 da Aneel, todas as distribuidoras são obrigadas a conectar os geradores à sua rede, que no caso da energia solar fotovoltaica, são os sistemas fotovoltaicos do tipo On-grid, que representam 99% dos geradores conectados no país hoje. Esse tipo de sistema é aquele que não utiliza de baterias para armazenar a energia gerada.

Este foi um grande avanço para o setor elétrico do Brasil e uma forma de empoderamento para a população, que passou a buscar saber tudo sobre energia solar.

No entanto, um problema persistia: as regras RN 482 limitavam a geração e uso dos créditos energéticos a uma única pessoa, que deveria instalar o sistema solar em seu imóvel próprio.


A Resolução 687 e as Novas Modalidades de Geração


Essa limitação deixava muitos dos brasileiros de fora do segmento de geração distribuída, como aqueles que residem em apartamentos, por exemplo, pois não tinham espaço para a instalação de um sistema próprio.


Isso, felizmente, mudou no ano de 2015, quando a Aneel revisou as regras do segmento através da Resolução Normativa 687.


Essa atualização possibilitou 3 novas modalidades de geração no segmento de geração distribuída, que são:


#1 Geração Em Condomínios
Nesta modalidade, moradores de um condomínio residencial ou predial podem se unir para a instalação de um sistema central, que irá gerar energia para cada um dos participantes, como também para alimentar áreas de uso comum.
Neste caso, o sistema, que fica sob a responsabilidade do condomínio, da administração ou do proprietário do empreendimento, irá injetar toda a energia gerada diretamente na rede elétrica para a criação dos créditos energéticos.


Ao final do mês, estes então serão computados pela distribuidora e utilizados para abater a energia elétrica consumida por cada um dos participantes do rateio em seu respectivo apartamento/casa.


Segundo as regras, ainda é preciso que todas as casas ou apartamentos estejam localizadas em uma mesma propriedade ou em propriedades contíguas.


#2 União de pessoas ou empresas para gerar energia
Essa modalidade de geração compartilhada também permite a união de dois ou mais interessados para a instalação de um sistema gerador.

Neste caso, os consumidores podem ser tanto pessoa física (CPF) como jurídica (CNPJ), unindo-se através de cooperativa ou consórcio e não precisam residir dentro de uma mesma área.

A única ressalva é que a mesma concessionária de energia precisa atender todos os participantes que se unirem para essa geração conjunta.


#3 Gerar a energia em um lugar e aproveitar em outro
Por último, essa modalidade permite que você (CPF ou CNPJ gere a sua energia de forma remota, fora do local onde irá utilizá-la.

Na prática, isso significa que você pode ter uma casa localizada no bairro X e compartilhar os créditos energéticos gerados com outra casa que você possui no bairro Y, por exemplo. 

Vale ressaltar que esta é uma regra onde as áreas X e Y precisam ser atendidas pela mesma distribuidora, não importando se estão no mesmo bairro, cidade ou estado. 

Essa é a forma de geração que trouxe mais vantagem para a população, pois permite unir o consumo de duas ou mais propriedades e aumentar a economia com energia solar.

No caso de empresas, como aquelas situadas no campo, o uso da energia solar rural dentro deste modelo de geração, se torna altamente vantajoso, pois permite abater o consumo de matriz e filiais.

Juntas, essas três novas modalidades criadas pela Aneel ajudaram a ampliar o segmento de geração distribuída e tornaram a luz do sol a fonte de energia de mais consumidores no Brasil. 

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 13/02/2019
"3 Formas de Gerar Energia Através do Sol Que Você Deveria Conhecer," in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 13/02/2019, https://www.ecodebate.com.br/2019/02/13/3-formas-de-gerar-energia-atraves-do-sol-que-voce-deveria-conhecer/.

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Impactos ambientais da agricultura, artigo de Roberto Naime

Impactos ambientais da agricultura, artigo de Roberto Naime


Brasnorte, MT, Brasil: Árvore em meio a plantação de soja. (Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil)

[EcoDebate] Impactos ambientais da agricultura assustam numa primeira aproximação, mas podem ser listados e discutidos sem sobressaltos.

A produção de alimentos é um dos maiores desafios do mundo moderno. A agricultura hoje produz alimentos para uma população estimada em 7 bilhões de pessoas em todo o planeta.

O crescimento populacional excessivo tem feito com que o ser humano consuma quase tudo aquilo que o planeta tem para oferecer. Com uma população tão grande, é quase utópico imaginarmos uma produção de alimentos suficiente e sem impacto algum.

Os impactos causados pelo ser humano são muitos, mas é possível reduzi-los. O ideal é que daqui a algum tempo, os nossos estudos e pesquisas consigam descobrir uma forma de produzir alimentos de forma eficiente e sem impactos no meio ambiente

Para que se possam buscar soluções aos problemas do mundo moderno, é preciso conhecer ao menos os maiores impactos causados pela atividade de maior alteração no meio ambiente que é a agricultura.

A atividade agropecuária exige desmatamento, que é a derrubada de matas originais. Não se planta e não se cria em áreas florestadas. Este fato vem sendo a causa dos maiores impactos ambientais.
Erosão que é a perda de solo causada pela associação do uso incorreto do solo associado com as chuvas e ventos. Essa perda é relevante e está retirando todas as camadas superiores do solo, chegando até as rochas, tornando o solo não-agricultável.

A terra que escorre com as chuvas, causa colmatação em rios e lagos, comprometendo sua vazão e qualidade da água.

A perda de biodiversidade é o desaparecimento por qualquer motivo de qualquer espécie animal ou vegetal devido a sua carga genética específica.

As espécies formadas durante muitos milhares de anos estão simplesmente desaparecendo com o desmatamento. Essas espécies podem ter carga genética muito peculiar e serem necessárias para a produção de medicamentos no futuro. É o fato mais relevante dentre outros incrementos para a evolução da civilização humana.

Muito se enganam os que pensam que o consumo doméstico gera os maiores gastos de água. Mais de 60% da água doce é utilizada na irrigação de campos agrícolas. O esgotamento da água doce, é outro relevante impacto ambiental.

Por mais que a produção de material vegetal capture carbono da atmosfera, o carbono liberado por atividades relacionadas supera a quantidade capturada. Esse carbono é liberado pela queima de diesel dos tratores, produção de fertilizantes e defensivos agrícolas, além da decomposição de restos de cultura. Tudo isto configura outro impacto ambiental que é a poluição atmosférica.

O uso descontrolado de adubos e defensivos agrícolas vem causando sérios problemas de contaminação de águas por resíduos e materiais lixiviados no solo, que podem causar problemas inclusive como a eutrofização e a contaminação de águas potáveis. Logo, poluição de mananciais hídricos configura relevante impacto ambiental.

O uso inadequado do solo, hoje liderado pela produção de gado e outros animais, vem desgastando os solos de forma espantosa, tornando-os quase totalmente inférteis. A utilização de mecanização rural em solos inapropriados vem causando mortandade vegetal em muitas destas áreas, que se tornam desertas. Esse é um processo muitas vezes irreversível e se denomina “desertificação”.

O avanço da agricultura sobre as matas nativas causa destruição das nascentes, por soterramento, colmatação e impermeabilização, entre outros fatores. A este fenômeno se denomina “destruição de mananciais hídricos”.

Por derradeiro, a geração de resíduos na produção animal é uma das maiores causas de impactos ambientais, principalmente devido às fezes animais geradas em animais criados em confinamento.
As fezes dos porcos, chamadas de chorume de porco e as fezes de frango, chamadas de cama de frango, entre outras, estão dentre as principais poluidoras de ambientes rurais.

Existem muitos outros impactos ambientais que a agricultura, assim como toda permanência do homem, causa. Conhecendo esses problemas, é possível buscar novas soluções para o futuro.
A civilização humana determinará nova autopoiese sistêmica, na acepção de Niklas Luhmann e Ulrich Beck, que contemple a solução dos maiores problemas e contradições exibidas pelo atual arranjo de equilíbrio. Que é um sistema instável, muito frágil e vulnerável. Para sua própria sobrevivência, o “sistema” vai acabar impondo uma nova metamorfose efetiva.

Dr. Roberto Naime, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em Geologia Ambiental. Integrante do corpo Docente do Mestrado e Doutorado em Qualidade Ambiental da Universidade Feevale.
Sugestão de leitura: Civilização Instantânea ou Felicidade Efervescente numa Gôndola ou na Tela de um Tablet [EBook Kindle], por Roberto Naime, na Amazon.

Referência:
http://agriculturanaturaleorganica.weebly.com/impactos-ambientais.html

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 14/02/2019
"Impactos ambientais da agricultura, artigo de Roberto Naime," in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 14/02/2019, https://www.ecodebate.com.br/2019/02/14/impactos-ambientais-da-agricultura-artigo-de-roberto-naime/.

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Fala de Ricardo Salles sobre Chico Mendes repercute nas redes sociais

Fala de Ricardo Salles sobre Chico Mendes repercute nas redes sociais


Ministro do Meio Ambiente afirmou que não conhecia o ativista e que, pelo lado de ambientalistas de esquerda, há enaltecimento de Chico Mendes


Ricardo Salles
Ricardo Salles. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Repórter Thiago Marcolini, Agência do Rádio Mais
A declaração do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, a respeito do seringueiro Chico Mendes dominou as redes sociais nesta terça-feira (12). Questionado por jornalistas do programa Roda Viva a respeito do ativista, assassinado em 1988, o ministro respondeu perguntando “que diferença faz, quem é Chico Mendes neste momento?”.

Ricardo Salles comentou ainda que desconhece a história do seringueiro e que, pelo lado de ambientalistas de esquerda, há enaltecimento de Chico Mendes. Por outro lado, segundo o titular da pasta do Meio Ambiente, pessoas ligadas ao agronegócio dizem que Mendes era diferente da imagem passada.

O assunto ficou entre os tópicos mais comentados do Twitter nesta terça. Alguns políticos criticaram a fala do ministro. A ex-senadora e ex-ministra do Meio Ambiente Marina Silva afirmou que Salles “não é ambientalista e é desinformado”.

Houve, por outro lado, quem apoiasse as declarações de Salles. Um morador de São Paulo lembrou da época em que o ministro foi secretário de Meio Ambiente de São Paulo e reduziu o número de lixões da cidade.


in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 13/02/2019
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quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Tempestades de vento intensificam a degradação de florestas




As tempestades de vento são distúrbios que ocorrem naturalmente na Amazônia, porém combinadas com o desmatamento causado pelo ser humano e o fogo podem amplificar os impactos na floresta.
Um artigo científico publicado na revista “Journal of Ecology”, explora as sinergias entre o desmatamento de florestas, fogo e tempestade de vento como causas da degradação na Amazônia. As áreas mais fragmentadas e as já atingidas previamente por fogo são as que mais sofrem com os efeitos das tempestades de vento.
O estudo quantificou as respostas da vegetação a uma tempestade de alta intensidade que durou cerca de 30 minutos e ocorreu no sul da Amazônia em um experimento de fogo em grande escala em 2012. Os dados coletados antes e após a tempestade indicaram que os danos foram maiores para grandes árvores, em áreas perto da borda da floresta, e em áreas queimadas em anos anteriores.
A área experimental fica na Fazenda Tanguro em Mato Grosso, onde o IPAM  desenvolve o Projeto Tanguro, e consiste em três parcelas de 50 hectares estabelecidas em 2004, sendo uma que nunca foi queimada (controle), uma queimada anualmente e outra queimada em intervalos de três anos. Os resultados mostraram que a tempestade de vento podou, quebrou e arrancou árvores. Nas parcelas queimadas anualmente 13% das árvores foram danificadas, na queimada a cada três anos foram 17% e na parcela controle apenas 8%.
O pesquisador do IPAM Divino Silvério, que liderou o trabalho, explica que os resultados são importantes por mostrarem alguns dos processos em que a grande mortalidade de árvores é observada nas florestas atingidas pelo fogo, mesmo vários anos após a ocorrência dos incêndios. “O fogo torna os troncos mais frágeis e mais fáceis de ser quebrados pelo vento”, afirma Silvério. Ao mesmo tempo, prossegue, a passagem do fogo reduz a densidade das árvores e a camada de raízes no solo que dá sustentação aos troncos. Esses processos tornam as árvores remanescentes muito mais expostas aos ventos. “Assim, mesmo ventos não tão intensos já são suficientes para o tombamento das árvores”, afirma o cientista.
Silvério diz também que o fogo tende a matar preferencialmente as árvores menores deixando para trás as árvores maiores, que são justamente as que ficam mais expostas aos ventos intensos. Uma vez que a maior parte do carbono das florestas está estocado nas árvores grandes, e que estas são atingidas preferencialmente pelos ventos fortes, grande quantidade da biomassa estocada nas florestas é perdida para atmosfera.
Quatro anos após a tempestade de vento, cerca de 85% das árvores atingidas pelo vento nas áreas queimadas e 57% na parcela controle morreram. Outro estudo, publicado em 2018 com participação de um pesquisador do IPAM, mostrou um aumento na taxa de mortalidade de árvores em florestas tropicais de diversas partes do mundo devido ao aumento da temperatura, secas longas e piores, ventos mais fortes, entre outros fatores.   
Tudo indica que as alterações climáticas em curso aumentem a frequência e intensidade de tempestades de vento, assim, a interação deste fator com outros processos de degradação causados pelo homem, colocam em cheque a estabilidade da floresta.
 O Projeto Tanguro é um esforço científico com o objetivo de conciliar a produção de alimentos e a integridade ambiental com as mudanças climáticas globais e locais. Ele é composto por um grupo interdisciplinar de pesquisadores, sob a coordenação do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia) e com a colaboração da Amaggi, cuja Fazenda Tanguro, localizada em Querência (MT), serve como centro de experiências do projeto.

Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia - IPAM

Setor privado domina conhecimentos sobre obras em áreas de mananciais



Setor privado domina conhecimentos sobre obras em áreas de mananciais

Pesquisadoras analisam como gestão pública conduz política de urbanização de favelas, atividade que passa por terceirização para empresas privadas





Construções nas margens da represa Billings, que é um dos principais reservatórios de água 
da Região Metropolitana de São Paulo – Foto: Rovena Rosa / Agência Brasil
Estudo publicado na Revista do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU), da USP, revela uma tendência que se instaurou na política pública de urbanização de favelas nos anos 1990, retirando dos governos municipal e estadual grande parte do conhecimento acumulado sobre o entorno de mananciais como os das represas Billings e Guarapiranga, uma parte importante das cidades da Região Metropolitana de São Paulo.

Esse conhecimento, presente em documentos que vão de projetos, mapas até dados estatísticos sobre as famílias que vivem nessas regiões, são fundamentais para o planejamento e execução da política pública, mas está, em grande parte, acumulado nos escritórios e nas experiências dos profissionais de empresas privadas chamadas gerenciadoras, aponta pesquisa do Centro de Estudos da Metrópole (CEM) e da Universidade Federal do ABC (UFABC).


Magaly Marques Pulhez, pesquisadora do CEM e professora do Instituto das Cidades da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), e Luciana Nicolau Ferrara, professora do Bacharelado em Planejamento Territorial do Centro de Engenharia, Modelagem e Ciências Sociais Aplicadas da UFABC, analisaram os circuitos de conhecimento estabelecidos entre a gestão pública e as empresas privadas durante a execução do Programa Guarapiranga, que posteriormente mudou para Programa Mananciais.


Esse programa foi desenvolvido entre 1992 e 2016, com o objetivo de prover de redes de saneamento e outras infraestruturas os assentamentos precários ou favelas localizados no entorno das represas Billings, Guarapiranga e do Alto Tietê e melhorar a qualidade de água dos respectivos mananciais. Envolveu as prefeituras, como a Secretaria Municipal de Habitação de São Paulo, por exemplo, e diversos órgãos do governo do Estado.


Para a execução desse tipo de programa, se tornou frequente a contratação das gerenciadoras. Ao contrário das construtoras (focadas nas obras de edificação) e empreiteiras (direcionadas para obras de infraestrutura), são pouco conhecidas do grande público, mas estão muito próximas dos órgãos de planejamento e administração do setor público. “São contratadas para gerenciar o desenvolvimento de um programa em seu cotidiano, dando uma espécie de apoio administrativo para que o programa possa acontecer”, explica Magaly.

Represa Guarapiranga – Foto: Rovena Rosa / Agência Brasil
As gerenciadoras, por exemplo, controlam a contratação de outros terceirizados e os cronogramas de execução dos serviços. “Fazem a intermediação entre o Estado, o poder público, outros terceirizados, e a área objeto de intervenção”, acrescenta. O escopo de atuação das gerenciadoras se ampliou ao longo dos anos, e hoje elas fazem inclusive o gerenciamento social, processo de mediação com a população da área que passará pelo processo de urbanização. Essa atividade envolve mapear, identificar e acompanhar as famílias que precisarão ser retiradas de suas casas, mesmo depois do processo de remoção.


Segundo Luciana, que estudou o Programa Mananciais em seu doutorado, foi possível constatar aspectos positivos e negativos no processo de contratação de gerenciadoras. “Percebemos, a partir do Programa Mananciais, que isso permite ao poder público, dentro de um momento de recessão, de crise, tocar alguns contratos com recursos que ainda se tem”; ou ainda, “desenvolver um conjunto de ações e subcontratações dentro dos chamados contratos guarda-chuva, sem os quais a contratação em separado de cada serviço seria mais difícil por parte da prefeitura”, aponta. “Por outro lado, muito do conhecimento sobre esses projetos, que foi um dos temas centrais do nosso estudo, fica nas mãos dessas empresas gerenciadoras”, diz.


Desde as informações técnicas sobre os contratos com os terceirizados até os dados atualizados sobre os territórios, como os mapeamentos dos áreas dos lotes, suas populações e suas demandas, esse conhecimento fica, em grande parte, nas mãos das gerenciadoras. “No entanto, são informações básicas, essenciais para a política pública, que precisa ser monitorada no curto, médio e longo prazo. Como [a prefeitura] vai estabelecer esse controle sem informação?”, questiona.


Magaly lembra que, quando o poder público passa boa parte desse arcabouço de informações exclusivamente para um terceirizado, fica absolutamente dependente deste. “Então é preciso, ciclicamente, renovar o contrato com essas empresas, um processo de alto custo”, completa. “Nosso questionamento não se dá sobre os profissionais ou as empresas, mas sobre esse modelo, que nos traz uma determinada lógica que coloca o Estado refém e em um lugar de regulação que não conseguimos definir exatamente qual é”, ressalta.

Porta de entrada para gerenciadoras na política urbana

 

Magaly estudou em seu doutorado e pós-doutorado a gestão dos projetos de urbanização no Estado de São Paulo. “Ela tem desenvolvido análises inovadoras que exploram o tema muito pouco estudado das gerenciadoras e empresas de engenharia consultiva e constrói uma ponte analítica entre os estudos sobre a profissão de arquiteto e suas práticas (tema tradicional no campo da arquitetura) com os estudos sobre políticas públicas e sobre a economia política do setor de consultoria em cidades brasileiras”, destaca o vice-coordenador do CEM, professor Eduardo Marques, que foi supervisor da pesquisadora no pós-doutorado.


Ela constatou que as gerenciadoras, nascidas como firmas e escritórios de projetos nos anos 1930-1940, se consolidaram nos anos 1960-1970, mas entraram mais firmemente no mercado de empreendimentos habitacionais na virada dos anos 1980-1990, quando houve o colapso da política centralizada em nível federal que abriu espaço para atuação mais direta de Estados e prefeituras.


As gerenciadoras estão presentes na gestão do município de São Paulo desde pelo menos os anos 1990. “O projeto Guarapiranga, que depois vira Mananciais, foi praticamente a porta de entrada dessas empresas, quando começaram a atuar mais fortemente nesse ‘nicho de mercado’ que é a política habitacional”, destaca.


Contribuíram para abrir esse espaço para as gerenciadoras a forma como programa foi estruturado, dividido em grandes lotes de obra e em unidades de gerenciamento, e o tipo de financiamento, a maior parte internacional, vindo do Banco Mundial, em uma época na qual não existiam financiamentos federais significativos para urbanização de favelas e faltavam recursos para prefeituras e governos estaduais.

Represa de Taiaçupeba, na bacia hidrográfica do Alto Tietê – Foto: André Bonacin via Wikimedia Commons / CC BY 3.0
O banco fazia várias exigências para o tomador do empréstimo, estabelecendo grandes metas de atendimento, saneamento, urbanização, segundo Luciana. “A empresa privada veio antes mesmo da assinatura do próprio contrato, a presença de uma instância de gerenciamento é uma exigência prévia do banco financiador”, explica Magaly. O banco definiu em contrato as normas para contratação de consultores terceirizados, incluindo o perfil das mesmas, influindo fortemente no processo.



Ao lidar com territórios complexos como os das favelas, elas adquiriram um conhecimento técnico importante, que utilizam para ampliar seus negócios.


“Os projetos de urbanização de favela vão virar vitrine para as empresas envolvidas, de forma geral”, destaca Magaly. De posse de tanta informação, elas construíram seus negócios e, hoje, prestam serviços também para outras empresas privadas fazendo, por exemplo, diagnósticos ambientais, mediação de conflito social, plano de bacias hidrográficas, entre outros tipos de trabalhos.


As pesquisadoras observam o quadro atual da política pública de urbanização de favelas com preocupação. No governo federal, o assunto saiu da pauta. “Notamos uma prioridade da atual gestão do Estado e da prefeitura para as parcerias público-privadas, mas o mercado não vai investir em algo que não lhe dá retorno”, diz Magaly. “São obras grandes, precisam de investimento maciço, e sempre com dependência muito grande de recurso federal. 


Os municípios não têm capacidade de investimento, mesmo São Paulo, que, em tese é um município com muito mais recursos do que outros”, completa. “É fundamental investirmos na urbanização de favelas porque a precariedade dos assentamentos é enorme, a desigualdade socioambiental é muito grande, as pessoas estão vivendo muito mal, e observamos um recuo dessa política nos últimos anos”, finaliza Luciana.


O estudo publicado na Revista do Programa de Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP, que pode ser acessado no site oficial da publicação.


Assessoria de Comunicação do CEM

Instituto Supereco articula rede de parceiros em defesa dos oceanos e do turismo sustentável

Reunimos instituições do litoral norte de SP atuantes na questão do lixo marinho e terrestre, balneabilidade das praias, educação ambiental, turismo e lazer inclusivo para trabalhar numa agenda de ações coletivas
 
Estudos indicam que até 2050 o mar terá mais lixo do que peixes. Diante essa informação, o Projeto Tecendo as Águas, patrocinado pela Petrobras, levantou a proposta articular parceiros em torno de uma bandeira comum #omarnãoestápralixo.


O primeiro passo foi do Instituto Supereco ao receber neste mês em sua sede representantes de organizações não-governamentais (ONGs), de instituições privadas e do poder público. Na ocasião, foi formado o grupo “Ações em rede”, que será responsável por construir um painel de parcerias e oportunidades para 2019, a exemplo da campanha “Verão no Clima”, do Governo do Estado de SP, que mobilizou diversos atores.

15 minutos de mutirão no balneário dos trabalhadores_divulgação Supereco
“Unir esforços de instituições do litoral norte de SP atuantes nas mesmas temáticas, e articular suas iniciativas em rede, é fundamental para enfrentar os desafios da região, como os resíduos e a poluição que lota os oceanos, praias e rios e a população, que quadriplica nas temporadas. Precisamos ganhar escala e capilaridade, em vez de sobrepor ações semelhantes com os mesmos públicos”, afirma a presidente do Instituto Supereco e coordenadora geral do Projeto Tecendo as Águas, Andrée de Ridder Vieira.


Participaram do 1º encontro, a equipe do Projeto Tecendo as Águas, realizado pelo Supereco, com o patrocínio da Petrobras por meio do Programa Petrobras Socioambiental, Refresh Brazil, Instituto Terra e Mar, DTA Engenharia – Porto de São Sebastião, Samuel Costa – Painel Microlixo, Flow Desenvolvimento Sustentável, Secretarias Municipais de Meio Ambiente (SEMAM) e de da Pessoa com Deficiência e Idoso (SEPEDI), da Prefeitura de São Sebastião, Instituto Educa Brasil, Instituto Argonauta e Grupo de Escoteiros Desbravadores.


Para Luciana Mota, da DTA Engenharia, empresa responsável pelo Programa de Educação Ambiental do Porto de São Sebastião, o encontro foi muito importante para somar forças com instituições que trabalham no litoral norte, que têm esse conhecimento local e estão buscando um desenvolvimento sustentável e uma educação ambiental que seja acessível a todos. “Para mim, essa reunião foi fundamental para sairmos das nossas caixinhas e alcançar resultados mais amplos. A prática de compartilhar recursos e conhecimentos, com certeza vai fortalecer os trabalhos durante o ano todo”, ressaltou.


Tatiana Araujo, da Flow Desenvolvimento Sustentável, também deu suas impressões sobre a reunião. Penso que que é super válido ter esse tipo de ambiente, de diálogo, de fortalecimento da rede”, avaliou.


Estimulados pela agenda farta em oportunidades, o grupo pretende abrir espaço para outras pessoas interessadas em participar desse esforço. Os representantes de instituições ou voluntários individuais devem entrar em contato com a equipe do Tecendo as Águas.


Acompanhe nossas redes sociais e fique por dentro da programação e do que o “Ações em rede” está fazendo por aí:


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facebook.com/institutosupereco e
@institutosupereco

Entenda a importância da atuação de ONGs internacionais em tragédias como a de Brumadinho (MG)




A participação auxilia na transparência de informações e fornece apoio à associações e comunidades locais

Dar voz aos atingidos, auxiliar na transparência das informações e também fornecer apoio técnico, administrativo, jurídico e humanitário às organizações locais. Este é o papel que as organizações não governamentais internacionais têm ao acompanhar grandes tragédias que vem acontecendo no Brasil. 


Após o rompimento de uma barragem da Vale no Córrego do Feijão, em Brumadinho (MG), uma equipe da 350.org Brasil foi acompanhar e dar poder às organizações locais. “Para a construção coletiva de uma sociedade autônoma e sustentável isso é imprescindível. E, pelo que tenho acompanhado aqui, isso tem acontecido de uma forma muito efetiva”, conta o gestor ambiental e campaigner da organização, Renan Andrade.

Andrade, que tem como função organizar campanhas informativas, ministrar cursos, treinamentos e atuar na mobilização de atores sociais, instituições públicas e privadas em busca do desenvolvimento sustentável e autônomo das comunidades, afirma que as ONGs têm garantido que as comunidades atingidas por esta e outras tragédias “não fiquem à mercê de governos e empresas que, em conluio, violam os direitos humanos e ambientais”.


Durante sua atuação em Brumadinho (MG), o gestor ambiental que já trabalha em conjunto com a sociedade civil há mais de 15 anos, avalia que a cidade é muito dependente da mineração e, por isso, a cidade vai sofrer significativamente os impactos da paralisação das atividades. “Todas as pessoas de uma cadeia produtiva e de consumo serão afetadas. O tempo para se recompor não será curto e dependerá muito da mobilização da sociedade civil organizada, bem como da mobilização da Vale – que cometeu o crime, e do governo – que corroborou para que isso acontecesse”, explica.

“Como, neste momento, as empresas costumam acionar protocolos para desmobilizar as forças populares que agem contra seus interesses – desarticulando movimentos socioambientais e cooptando lideranças locais para desestabilizar lutas – as organizações internacionais devem estar lado a lado compondo essas fileiras de lutas com as locais de base, que certamente estarão cobrando posturas adequadas dos poderes públicos e da empresa, como o Movimento Águas e Serras de Casa Branca/Brumadinho e o Justiça nos Trilhos, que há muito tempo vem denunciando os desmandos, incompetência e inoperância da Vale em todo o país e fora dele”, destaca Andrade.


Outras lutas
“Normalmente, nossos trabalhos são mais técnicos, fazemos visitas e denúncias, nas quais entendemos a dimensão do que acontece e mensuramos os impactos na vida das pessoas e do meio ambiente, para então cobrarmos às autoridades a reparação dos danos socioambientais”, relata.


 A equipe, que esteve presente em casos como o recente vazamento de mais de 60 mil litros de óleo da Transpetro na Baía de Guanabara (RJ) e nos poços de fracking na Argentina, percebe que alguns acontecimentos não ganham a mesma atenção e comoção por algumas peculiaridades, como o fato de envolver vidas humanas. “Não há tanta sensibilidade quando a natureza é maltratada, haja vista a incessante luta dos defensores de animais e ambientalistas”.


No entanto, Andrade acredita que exista uma relação entre todas as ações realizadas pela 350.org. “Qualquer uma dessas tragédias é, deliberadamente, uma violação dos direitos ambientais e humanos, cometidos por empresas que poderiam substituir tecnologias ultrapassadas por mais modernas a fim de minimizar e até anular os impactos socioambientais, com processos de gestão socioambiental participativos, nos quais a comunidade envolvida faça parte das tomadas de decisões. E, inclusive aí existe uma outra relação, pois ambas se baseiam em um modelo econômico exploratório que vê a natureza e as pessoas como mera mercadoria. Esses modelos tem nos levado à tragédias como essa e, se assim continuar, nos levarão a outras”, finaliza.

Sobre a 350.org Brasil


A 350.org foi fundada em 2008 por um grupo de amigos universitários nos Estados Unidos, juntamente com o autor Bill McKibben, que escreveu um dos primeiros livros sobre o aquecimento global para o público em geral, com o objetivo de construir um movimento climático global. O nome da 350 vem de 350 partes por milhão, que é a concentração segura de dióxido de carbono na atmosfera.

Nossas primeiras ações foram dias globais de ação que conectaram ativistas e organizações em todo o mundo, incluindo o Dia Internacional de Ação Climática em 2009, o Global Work Party em 2010, Moving Planet em 2011. A 350 rapidamente se tornou uma colaboração mundial de organizadores, grupos comunitários e pessoas comuns lutando pelo futuro.


Hoje, a 350 trabalha em campanhas de base em todo o mundo: da oposição às fábricas de carvão e megadutos até a criação de soluções de energia renovável e corte dos laços financeiros da indústria de combustíveis fósseis. Todo o nosso trabalho aproveita o poder das pessoas para desmantelar a influência e a infraestrutura da indústria de combustíveis fósseis.


(#Envolverde)

Meio ambiente, corrupção e democracia




Por Vilmar S.D. Berna* – 
 
Em dezembro, o superintendente do Ibama-MG, alertou para o risco de 300 barragens inseguras só em MG. O que aconteceu em Mariana, em 2017, se repetiu em 2019 em Brumadinho, e outras bombas relógios permanecem armadas prestes a explodir, como em Pontal, por exemplo, com 220 milhões m³ de água e rejeitos acumulados a montante de populações inteiramente vulneráveis; Santana com 15,7 milhões m³; Itabiruçu, 220,8 milhões de m³; Rio Peixe, 12,2 milhões m³; Conceição, 36 milhões m³; Diogo, 2,4 milhões m³; Porteirinha, 1,3 milhões de M3; Monjolo, 400 mil m³, e assim vai.

Não se aprendeu com os erros, por que é muito mais lucrativo continuar errando, capitalizando os lucros e socializando os prejuízos.

Só nas últimas três décadas, além de Mariana e Brumadinho, e só no estado de Minas, a barragem de Fernandinho, em Itabirito, 1986, causou 7 mortos; a da Mineração Rio Verde, Nova Lima, 2001 – 5 mortos; Cataguases, 2003, danos ambientais e desabrigados; Em Miraí, em 2006, e novamente em 2007, desabrigados; Herculano Mineração, Itabirito, 2014 – 3 mortos.

Enquanto isso, a Vale, responsável pelos desastres de Mariana e Brumadinho, segue dando lucro. Só em 3 meses em 2018, o lucro líquido da Vale subiu 1.780%, distribuindo R$ 5,753 bilhões aos acionistas. Um ano antes, no mesmo trimestre, o lucro foi maior, R$ 7, 1 bilhões! O que é uma multa de R$ 3 mil reais, ou R$ 250 milhões de reais, ou mesmo uma reparação de alguns bilhões? O recado que o Brasil dá a este tipo de investidor é muito claro: venha poluir e destruir a natureza brasileira que aqui a gente garante seus lucros e impunidade.

Toma-la-da-ca

A Vale, sozinha, financiou a eleição de 257 políticos, e não por um acaso, o Senado brasileiro e o Parlamento Mineiro, arquivaram ou impediram que avançasse projetos de lei que endureceria regras para mineradoras.

E como papel aceita tudo, os relatórios de sustentabilidade de empresas como a Vale seguem como obras de ficção apenas para os acionistas verem, contando a parte da verdade que lhes interessa e o resto, “é intriga da oposição”.

A corrupção é um dos maiores problemas socioambientais do Brasil, por tudo o que permite que aconteça e que não aconteça. Como a falta de saneamento básico que mata milhões, por exemplo, e uma legislação que entrega o Brasil e seus recursos naturais de mão beijada aos seus exploradores.
Barragens de rejeitos a montante de cidades são a pior solução de engenharia que pode existir e deveria envergonhar qualquer engenheiro que fosse contratado para projetar uma. Hoje, existem filtros prensa e inúmeras outras tecnologias alternativas que transformam “rejeito” em matéria prima para a produção de tijolos, etc.

O problema não é dinheiro. A lava jato está aí de prova de que dinheiro existe, muito dinheiro, ele só não é empregado para a solução dos problemas ambientais brasileiros, mas para criar esses problemas com obras ineficazes, ultrapassadas e inacabadas.

Poderíamos pensar que meio ambiente e sustentabilidade não são prioridade, mas a verdade é que o povo brasileiro e o Brasil é que não são prioridades.

Como dizem, sigam o dinheiro. Quem entra na política pobre e aumenta de uma hora para outra seu patrimônio em milhares de vezes, é óbvio que está roubando! Política não é para enriquecer ninguém, política é para cuidar do bem comum.

Não é por que a maioria tenha escolhido a  cegueira coletiva que todos tem de se fazer de cegos, surdos e mudos também.

Os que enxergam tem o dever moral de serem incansáveis em denunciar e expor a verdade que está oculta.

E não é por que muitos não querem saber, não querem ouvir, que as verdades não tem de ser ditas em alto e bom som.

E por isso é importante fortalecer as democracias, por que apesar de todos os seus problemas, ainda é o único sistema que permite aos opositores se expressarem, ainda que ninguém queira lhes dar ouvidos.

*Vilmar S.D. Berna é escritor e jornalista. Fundou a REBIA – Rede Brasileira de Informação Ambiental. É editor desde janeiro de 1996 da Revista do Meio Ambiente e do Portal do Meio Ambiente. Em 1999, recebeu no Japão o Prêmio global 500 da ONU para o Meio Ambiente e, em 2003, o Prêmio Verde das Américas.

(#Envolverde)

Abelhas estão viciadas em pesticida à base de nicotina, sugere estudo

 

 

Abelhas estão viciadas em pesticida à base de nicotina, sugere estudo

Os zangões adquirem gosto por pesticidas à medida que são mais expostos a eles.

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Um novo estudo sobre o comportamento dos zangões (macho de espécies de abelhas sociais) indica que o risco de alimentos contaminados com pesticidas entrarem nas colônias de abelhas é maior do que se pensava até então. A conclusão é de um estudo produzido por uma equipe da Imperial College London e da Queen Mary University, ambas instituições britânicas, que analisaram os neonicotinóides. 
 
Neonicotinóide é uma classe de inseticida derivado da nicotina. E apesar de ser usado no mundo inteiro ele é proibido em quase toda a União Europeia. O impacto dos neonicotinóides nas abelhas é bastante debatido e sua proibição recebeu opiniões divergentes.

“As abelhas parecem evitar os alimentos tratados com neonicotinóides. No entanto, à medida que experimentam cada vez mais os alimentos tratados, elas desenvolvem uma preferência por elas”, afirma o pesquisador-chefe, Richard Gill, do Departamento de Ciências da Vida da Imperial College London.

“Curiosamente, os neonicotinóides têm como alvo receptores nervosos em insetos semelhantes aos receptores direcionados pela nicotina em mamíferos. Nossas descobertas de que os zangões adquirem um gosto por neonicotinóides têm certos sintomas de comportamento aditivo, o que é intrigante, dadas as propriedades viciantes da nicotina em seres humanos, embora sejam necessárias mais pesquisas para determinar isso em abelhas”, explica Gill.

Rastreando abelhas

No estudo, a equipe rastreou dez colônias de abelhas ao longo de dez dias, dando a cada uma delas acesso à sua própria arena de forrageamento -, a saída do animal a procura de alimento. As abelhas tinham acesso a soluções de açúcar puro e a um composto que continha neonicotinóides ou neônicos. Ou seja, podiam escolher.
Eles descobriram que, embora as abelhas preferissem o alimento livre de pesticidas no início, com o tempo elas se alimentaram mais da comida com pesticidas e visitaram menos os alimentos livres de pesticidas. Eles continuaram a preferir os alimentos com pesticidas mesmo quando as posições dos comedouros foram alteradas, sugerindo que conseguem detectar o pesticida dentro dos alimentos.

Novas descobertas

O autor principal, Andres Arce, do Departamento de Ciências da Vida da Imperial College London, ressalta os progressos da nova pesquisa que vão além do material já coletado até agora. “Muitos estudos sobre neonicotinóides alimentam abelhas exclusivamente com alimentos carregados de pesticidas, mas na realidade, as abelhas selvagens têm uma escolha de onde se alimentar”.
A ideia então, segundo Arce, era “saber se as abelhas poderiam detectar os pesticidas e, eventualmente, aprender a evitá-las alimentando-se dos alimentos não contaminados que estávamos oferecendo”. Como foi descoberto que os zangões procuravam mais os alimentos com pesticidas ao longo do tempo, a questão a partir de agora é “entender o mecanismo por trás do porquê eles adquirirem essa preferência”.
“Esta pesquisa expande importantes trabalhos anteriores de grupos nas Universidades de Newcastle e Dublin. Aqui, adicionamos uma dimensão de tempo e permitimos que as abelhas realizassem um comportamento de forrageio mais normal, para entender a dinâmica da preferência de pesticidas. Juntos, esses estudos nos permitem avaliar adequadamente os riscos da exposição e não apenas o perigo apresentado”, afirma Gill.

O estudo “Foraging bumblebees acquire a preference for neonicotinoid treated food with prolonged exposure” teve a participação dos pesquisadores Andres N. Arce, Ana Ramos Rodrigues, Jiajun Yu, Thomas J. Colgan, Yannick Wurm and Richard J. Gill e foi publicado no Proceedings of the Royal Society B.
Por Imperial College London.

Polinizadores contribuem em R$ 43 bi por ano na economia nacional

 

Polinizadores contribuem em R$ 43 bi por ano na economia nacional

Declínio desse serviço ambiental põe em risco a produção de alimentos e a conservação da biodiversidade brasileira.


Das 191 plantas cultivadas ou silvestres utilizadas para a produção de alimentos no Brasil, com processo de polinização conhecido, 60% dependem da visita de polinizadores, como as abelhas, para se reproduzir. Entre esses cultivos estão alguns de grande importância para a agricultura brasileira, como a soja, o café, o feijão, e a laranja.

Esse serviço ambiental (ecossistêmico), estimado em R$ 43 bilhões anuais, fundamental para garantir a segurança alimentar da população e a renda dos agricultores brasileiros, tem sido ameaçado por fatores como o desmatamento, as mudanças climáticas e o uso de agrotóxicos. A fim de combater essas ameaças, que colocam em risco a produção de alimentos e a conservação da biodiversidade brasileira, são necessárias políticas públicas que integrem ações em diversas áreas, como a do meio ambiente, da agricultura e da ciência e tecnologia.

O alerta foi feito por um grupo de pesquisadores autores do 1º Relatório Temático de Polinização, Polinizadores e Produção de Alimentos no Brasil e lançado na última quarta-feira (6), durante evento na FAPESP. O relatório foi elaborado nos últimos dois anos por um grupo de 12 pesquisadores e revisado por 11 especialistas.

“O relatório aponta que o serviço ecossistêmico de polinização tem uma importância não só do ponto de vista biológico, da conservação das espécies em si, como também econômica. É essa mensagem que pretendemos fazer chegar a quem toma decisões no agronegócio, no que se refere ao uso de substâncias de controle de pragas ou de uso da terra no país”, disse Carlos Joly, professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), coordenador do programa BIOTA-FAPESP.

O estudo indica que a lista de “visitantes” das culturas agrícolas supera 600 animais, dos quais, no mínimo, 250 têm potencial de polinizador. Entre eles estão borboletas, vespas, morcegos, percevejos e lagartos.

As abelhas predominam, participando da polinização de 80% das 114 culturas agrícolas que dependem da visita de polinizadores e são responsáveis pela polinização exclusiva de 65% delas.


Polinizador na flor do café. | Foto da capa: Abelha na flor do feijão.
Os pesquisadores avaliaram o grau de dependência da polinização por animais de 91 plantas para a produção de frutas, hortaliças, legumes, grãos, oleaginosas e de outras partes dos cultivos usadas para consumo humano, como o palmito e a erva-mate.

As análises revelaram que, para 76% delas, a ação desses polinizadores aumenta a quantidade ou a qualidade da produção agrícola. Nesse grupo de plantas, a dependência da polinização é essencial para 35%, alta para 24%, modesta para 10% e pouca para 7%.

A partir das taxas de dependência de polinização dessas plantas, os pesquisadores estimaram o valor econômico do serviço ecossistêmico de polinização para a produção de alimentos no Brasil. O cálculo foi feito por meio da multiplicação da taxa de dependência de polinização por animais pela produção anual do cultivo.

Os resultados indicaram que o valor do serviço ecossistêmico de polinização para a produção de alimentos no país girou em torno de R$ 43 bilhões em 2018. Cerca de 80% desse valor está relacionado a quatro cultivos de grande importância agrícola: a soja, o café, a laranja e a maçã.
“Esse valor ainda está subestimado, uma vez que esses 69 cultivos representam apenas 30% das plantas cultivadas ou silvestres usadas para produção de alimentos no Brasil”, ressaltou Wolowski.

Fatores de risco

O relatório também destaca que o serviço ecossistêmico de polinização no Brasil tem sido ameaçado por diversos fatores, tais como desmatamento, mudanças climáticas, poluição ambiental, agrotóxicos, espécies invasoras, doenças e patógenos.

“Como esses fatores de risco que ameaçam os polinizadores não ocorrem de maneira isolada é difícil atribuir o peso de cada um deles separadamente na questão da redução das populações de polinizadores que tem sido observada no mundo”, disse Wolowski.

Na avaliação dos pesquisadores, apesar do cenário adverso, há diversas oportunidades disponíveis para melhorar o serviço ecossistêmico de polinização, diminuir as ameaças aos polinizadores e aumentar o valor agregado dos produtos agrícolas associados a eles no Brasil.

Uma política pública destinada aos polinizadores, à polinização e à produção de alimentos beneficiaria a conservação desse serviço ecossistêmico e promoveria a agricultura sustentável no país, estimam os pesquisadores.

Leia na íntegra na Agência Fapesp