quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

A demanda chinesa que ameaça o jumento brasileiro

Repórter Brasil

A demanda chinesa que ameaça o jumento brasileiro

Como um acordo com a China provocou uma corrida ao abate de asininos e agora ameaça a espécie símbolo do Nordeste


Jumento Zé Mano na zona rural de Valente, na Bahia.
Jumento Zé Mano na zona rural de Valente, na Bahia.Alexandre Guzanshe


Na feira de animais de Cansanção, a 350 quilômetros de Salvador, três jumentos dóceis e aptos ao transporte de carga esperam na sombra por um novo dono. Ali vende-se de tudo quanto é animal que sirva ao sertanejo daquela terra seca, e o jegue já foi um dos mais populares. Mas, aproximando-se dos três espécimes, com chapéu de couro bem trabalhado, o agricultor José Araújo de Souza decreta: “Quem tem o seu que o segure, porque o jegue vai acabar!”

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O jumento, jegue ou asno da espécie asinina chegou ao Brasil com os portugueses há cinco séculos e adaptou-se tão bem ao clima semiárido que se tornou símbolo do trabalho pesado no interior nordestino, “o maior desenvolvimentista do sertão”, como cantou Luiz Gonzaga. No entanto, começou a sumir da vista do sertanejo após um inusitado negócio com a China.

O país asiático tem interesse, principalmente, no couro do animal —matéria-prima para a produção do Ejiao, uma gelatina usada na medicina e em cosméticos chineses, que movimentou o equivalente a R$ 22 bilhões em 2018. Já a carne é um subproduto consumido no norte.

A China não consegue atender sozinha à demanda de criar até 10 milhões de jumentos por ano para o abate, por isso importa o animal de países da África e América do Sul. Nos últimos dois anos, o Brasil entrou com força nesse mercado.

Essa investigação revela, entretanto, um faroeste na cadeia de atravessadores de asininos do Nordeste ao mercado chinês. Nos 2.600 quilômetros que percorremos em setembro do Sertão ao Sudoeste da Bahia, que viu o boom do negócio, avistamos apenas 15 jumentos. Por mais de um ano, milhares foram submetidos a condições degradantes e abatidos sem rigor.

Quando chegamos à região, o negócio estava interrompido por força de uma ação judicial em resposta aos maus-tratos. O ciclo, porém, já vem sendo retomado nos antigos moldes.

Um negócio fácil 

 

Que o fiel companheiro do sertanejo poderia despertar o interesse de grandes investidores estrangeiros foi uma surpresa até para autoridades brasileiras. Nem a então ministra da Agricultura, Kátia Abreu, acreditou no pedido feito durante sua viagem à Ásia em 2015.

“Pareceu piada”, escreveu no Twitter sobre um empresário chinês interessado em importar asininos. “Inacreditável, mas sua demanda é de 1 milhão de jumentos [por] ano”.

O Brasil nem sequer tem um milhão de jumentos para vender. Em 2012, o IBGE contabilizou 902 mil animais no país, sendo 97% (877 mil) no Nordeste. Mesmo assim, em julho de 2017, a Bahia começou a exportar carne e couro à China, com meta de enviar 200 mil unidades por ano.
Vala na Fazenda Santa Izabel, na zona rural de Euclides da Cunha. Parte da fazenda foi arrendanda pelos chineses.
Vala na Fazenda Santa Izabel, na zona rural de Euclides da Cunha. Parte da fazenda foi arrendanda pelos chineses. Alexandre Guzanshe
Em um ano e quatro meses após o acordo, mais de 100.000 jumentos foram mortos nos três frigoríficos da Bahia autorizados pelo governo federal —nos municípios de Amargosa, Itapetinga e Simões Filho. Outros abatedouros registrados para a atividade estão em Estados onde há poucos jegues para suprir o mercado. Se o ritmo de abate chegar à expectativa chinesa, a espécie pode desaparecer em menos de cinco anos no Nordeste.

Comércio ao estilo faroeste

 

A redução drástica de jumentos ocorre porque sua cadeia é extrativista —ele é pego na natureza e morto. Não há produção estruturada, normas de criação, fiscalização de transporte ou medidas contra condições precárias; tampouco há uma contagem recente de sua população. Nela, há em média seis atravessadores, incluindo sertanejos, comerciantes, transportadores, fazendeiros ou arrendatários, donos de abatedouros e de empresas de logística aqui e na China.

No início, está o sertanejo nordestino, que vende jumentos soltos ou de seu próprio quintal por valor entre R$ 20 e R$ 50. Em alguns casos, até doa o animal que apenas gera gastos à família. É o caso de Leonardo, de 16 anos, que recolhia jegues sem dono para vendê-los. Na feira de Euclides da Cunha, a 300 km de Salvador, era conhecido como o jovem que levava animais para o abate. Na frente de colegas, garantiu que apenas ajudava um amigo no transporte. “Mal sabia o que estava fazendo”, disse envergonhado, arrancando risadas irônicas de quem estava perto.

Na segunda etapa, está o pequeno comerciante, também sertanejo, que junta um grupo de jumentos para revendê-los a transportadores ou fazendeiros. Por exemplo: João Ferreira, que há duas décadas compra e vende jegues em feiras de animais, mas que de tempos para cá diz que o comércio minguou: “Tem caído muito o movimento”, comentou na feira de Cansanção.

Ferreira contornou a queda do mercado vendendo os animais mais velhos e fracos a atravessadores chineses. Cada animal saiu por R$ 100 aos estrangeiros, enquanto na feira o jegue bom para trabalho custa R$ 300.

Na terceira etapa, transportadores levam animais até fazendas baianas habilitadas. Quando o abate se intensificou em 2017, uma centena de propriedades rurais se cadastrou como criadora de asinino na Agência de Defesa Agropecuária da Bahia (Adab).

Mas não há dados sobre a criação formal no Brasil. Essas fazendas são, na realidade, entrepostos para animais trazidos não só de municípios baianos como de todo o Nordeste. Soubemos de transportadores que vinham de Maranhão, Piauí, Pernambuco, Ceará e Rio Grande do Norte.

Para trafegar com animais, o motorista deve portar a Guia de Trânsito Animal (GTA), um documento obrigatório de controle dos serviços de defesa agropecuária. Na prática, no entanto, transportadores viajavam sem permissão. Para burlar a fiscalização, trafegavam à noite cortando propriedades rurais.
Uma das fazendas habilitadas é a de Herysnaldo Marinho, em Teofilândia. A propriedade consta como uma das 12 fornecedoras de jumentos ao frigorífico Cabra Forte, a 200 quilômetros dali, em Simões Filho, na região metropolitana de Salvador.
Fazenda Piedade, na zona rural de Euclides da Cunha, onde ficam jumentos separados para o abate.
Fazenda Piedade, na zona rural de Euclides da Cunha, onde ficam jumentos separados para o abate.Alexandre Guzanshe
As GTAs indicam sua fazenda como o local de origem de jegues abatidos. Mas chegando lá soubemos que os animais eram apenas abrigados na propriedade enquanto o documento era forjado. Os jumentos desembarcavam, segundo o fazendeiro, de um caminhão cujo dono era conhecido como Moral, que percorria o Nordeste coletando animais.

Marinho contou ter sido recentemente procurado pelo caminhoneiro, mas, dessa vez, negou acordo. “Quando eu vi na televisão [as denúncias de maus-tratos], eu parei, vi que não era coisa de Deus”, afirmou. Em sua fazenda, garante, “era um dengo danado” com os jegues.

Com a GTA em mãos, caminhoneiros podem levar a carga a frigoríficos das cidades mais próximas —o quarto atravessador da cadeia. Nos estabelecimentos com registro para comercializar asininos, o transportador recebe, em média, R$ 240 por animal abatido.

Até setembro, nenhuma empresa brasileira estava habilitada a exportar asinino para a China —recentemente, o frigorífico Frinordeste, de Amargosa, recebeu a permissão. Por isso, o transporte marítimo era feito por companhias de logística do Vietnã e Hong Kong— o quinto grupo de atravessadores. A HL Vietnam International e a Fortune Freight (FFC International) compravam a carga de frigoríficos —por entre R$ 300 e R$ 400 cada animal— e a despachava no porto de Salvador.

Não localizamos compradores da sexta e última etapa da cadeia, mas o desembarque era igualmente problemático na Ásia. A carga chegava pelos portos de Haifom, no Vietnã, e de Hong Kong. “O jumento entrava por contrabando”, informou Rui Leal, da Adab.

Na China, uma peça de pele de jumento é comprada por até US$ 4 mil (R$ 16 mil). Já o produto final, uma caixa de Ejiao, custa US$ 186 (R$ 750).

O Ministério da Agricultura não forneceu dados oficiais desse mercado. Pelos cálculos aproximados, o comércio do jumento gerou, em pouco mais de um ano, uma receita bruta em torno de R$ 40 milhões aos frigoríficos da Bahia, últimos atravessadores brasileiros. Para se ter ideia, o Brasil exportou no último ano US$ 5,4 bilhões (R$ 21 bilhões) de bovinos, sendo US$ 1,26 bilhão (R$ 5,08 bilhões) apenas para a China.

“Os jumentos estão indo de brinde para os chineses”, alertou Sônia Martins Teodoro, representante da ONG SOS Animais de Itapetinga, que acompanha denúncias de maus-tratos. O acordo, segundo ela, foi um agrado dos governos brasileiro e baiano para atrair investimentos. A Bahia espera abrigar grandes obras de infraestrutura chinesas nos próximos anos, como parque industrial e a revitalização do porto de Aratu, construção de ponte ligando Salvador a Itaparica e da Ferrovia de Integração Oeste-Leste.

Jegues ficam confinados 

 

Foi o município de Itapetinga, no Sudoeste baiano, que protagonizou as cenas mais duras de maus-tratos em 2018. Numa fazenda ao lado do Frigorífico Regional Sudoeste, mais de 800 jumentos viviam caídos no solo, com fome e sede. Outros 200 foram encontrados mortos.

Urubus chamaram a atenção de moradores que denunciaram a fazenda. Em um vídeo feito por eles, um jumento filhote tenta sair do corpo da mãe, fraca demais para parir. Ambos morrem. Outro jumento, bastante fraco, agoniza por não conseguir se livrar de corpos que o sufocam.

Em novembro de 2018, após as denúncias, a Justiça da Bahia proibiu o abate. Mas a pressão empresarial derrubou a liminar em setembro deste ano. O Tribunal Regional Federal (TRF) da 1º Região entendeu que a suspensão impôs “grave lesão à ordem e a economia da região” e provocou “perda de investimentos nacionais e internacionais”, sem exemplificar o prejuízo.
Manifestação da Frente Nacional de Defesa dos Jumentos no Farol da Barra, em Salvador.
Manifestação da Frente Nacional de Defesa dos Jumentos no Farol da Barra, em Salvador. Alexandre Guzanshe
A fazenda em Itapetinga era arrendada pela empresa chinesa de intermediação Cuifeng Lin, homônimo de sua proprietária. Ela e o marido, Zenan Wen, foram indiciados. A reportagem não conseguiu encontrá-los.

“Era uma coisa terrível, nunca vista aqui”, lembrou o delegado de Itapetinga, Irineu Andrade, que os responsabilizou por crimes de maus-tratos e poluição do rio, causada pela decomposição dos animais. “Não tinha alimento suficiente, os animais iam no rio beber água e ficavam boiando, porque não conseguiam voltar [de tão fracos]”.

Dias depois do escândalo, uma segunda fazenda foi interditada no município. O dono João Batista, que recebia R$ 150 por caminhão carregado para pernoite dos animais, foi multado. “Faz pena demais, você sofre junto com eles”, afirmou Batista, que se arrependeu do acordo. “Os jegues já saíam de Pernambuco passando necessidade e ficavam dois, três dias com fome, chegavam aqui e ruíam todos os paus [das plantas]”.

Cinco meses depois, em Euclides da Cunha, a 700 km de Itapetinga, novas denúncias de maus-tratos surgiram envolvendo a Cuifeng Lin. Na fazenda Santa Isabel, outros 800 animais viviam em condições precárias semelhantes. Pelo menos outros 400 estavam mortos.

“Nunca chegou um caminhão aqui com GTA”, observou Márcia Costa Miranda, responsável pela propriedade. “Eu achava errado, porque tinha jumento morrendo demais, mas eu não sou do órgão fiscalizador, ia fazer o quê?”

A agricultora lembra que o grupo dava pouca ração aos animais propositadamente. “Eles diziam que os desnutridos eram bons porque a pele descolava melhor”, conta Miranda.

Três chineses e um brasileiro da Cuifeng Lin coordenavam a chegada de caminhões carregados no período que o abate estava suspenso judicialmente, e os jumentos se acumulavam confinados numa área apertada e sem pasto.

Justificativa econômica

 

Por conta da decisão judicial, Amargosa, município de 40 mil habitantes, perdeu 150 empregos diretos e 200 indiretos com o fechamento do Frinordeste. Por isso, empresários locais e a prefeitura apelaram contra a ação, e boa parte da população aplaudiu.

“A gente sente que as pessoas comemoraram a volta do abate”, afirmou o diretor da rádio amargosense Vale FM, Eduardo Gordiano. “Aqui não chegou denúncia de jumento maltratado, e o povo não se sensibilizou com o que aconteceu em outras cidades”.

Dois brasileiros e dois chineses compõem a sociedade da Frinordeste declarada à Receita Federal. Mas segundo o empresário Walter Andrade Filho, o Walter do Couro, chineses hoje detém a empresa. Ele é um dos quatro fornecedores de jegue habilitados ao abatedouro, mas a atividade não compensava com a exportação via atravessadoras asiáticas.
José de Jesus, de 59 anos, que pegou o jumento solto na rua e usa para trabalhar, não aceita vender.
José de Jesus, de 59 anos, que pegou o jumento solto na rua e usa para trabalhar, não aceita vender.Alexandre Guzanshe
Com a permissão da Frinordeste para vender a produção diretamente à China, a expectativa é de reaquecimento do mercado. “Já está tudo certo para [o abatedouro] voltar a funcionar”, disse Andrade Filho. “O povo está doido pra abater os jegues”.

Ele acredita que isso estimulará a produção regular: “Hoje, o jegue é pego na natureza, de graça ou a preço baixo, mas se a China continuar comprando, a gente vai produzir”.

O Frinordeste não concedeu entrevista. Já o dono do abatedouro Cabra Forte (em Simões Filho), Reginaldo Filho, afirmou que a falta de segurança jurídica do setor o levou a desistir da atividade. “É página virada na nossa trajetória”, garantiu.

Rui Leal, da Adab, defende que os frigoríficos só voltem a abater asininos se conseguirem habilitação para exportar diretamente à China. Além do lucro maior, seria possível rastrear quem compra o produto. “Em Amargosa, eles vão comprar e exportar, então a aquisição e o transporte terão mais controle”, explicou.

No dia 3 de dezembro, uma audiência pública sobre o abate de jumentos foi realizada na Câmara dos Deputados, em Brasília. Na ocasião, João Adrien, assessor de Assuntos Socioambientais do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), se mostrou contra a proibição do abate, por se tratar de uma alternativa econômica, e defendeu a estruturação da cadeia produtiva. “Estamos discutindo como fazer as regulamentações, exigir todo o guia de tráfico animal, para que eles possam ser bem tratados”, afirmou na audiência.

Risco à saúde humana 

 

Enquanto isso, o Fórum Nacional de Proteção e Defesa Animal, composto de universidades e entidades de proteção aos animais, vem se mobilizando para combater os maus-tratos aos jumentos. O grupo atuou nos episódios de Itapetinga, onde a única solução foi abater os sobreviventes, e em Euclides da Cunha, assumindo a tutela dos animais.

O Fórum hoje cuida de 200 animais sobreviventes, com apoio da ONG britânica The Donkey Sanctuary e de doações individuais de brasileiros. Quase um ano após o episódio, alguns jegues ainda estão vulneráveis. “Têm os que continuam debilitados, que não conseguem se levantar sozinhos”, explicou a veterinária Aline Rocha, que os acompanha diariamente.

Rocha espera que, nos próximos meses, estejam aptos a serem doados a reservas ecológicas. “A gente sente que está fazendo diferença, que eles estão ficando sadios”, comemorou.

Observações em Euclides da Cunha subsidiam pesquisas sobre enfermidades com jumentos, uma área pouco estudada. Cerca de 5% dos animais morreram por doenças como mormo e anemia infecciosa, segundo as análises. “A situação de estresse intensifica as doenças, que vão sendo transmitidas entre eles como num campo de concentração”, comparou o veterinário Pierre Barnabé Escodro, professor Universidade Federal de Alagoas (Ufal).

O mormo é a maior preocupação nesse negócio informal. Trata-se de uma zoonose de alta letalidade que pode ser transmitida ao ser humano.

Jumento produtivo

 

Na produção de sisal, no município baiano de Valente, o jegue prova que ainda tem utilidade ao Nordeste. Em sua cangalha, ele carrega folhas da planta típica do semiárido até a máquina de processamento, e dali até o varal onde os fios secam. Só ele para conseguir desviar de folhas que espetam por entre caminhos estreitos.

José de Jesus, de 59 anos, trabalha com seu jumento Zé Mané de segunda a quinta-feira —nos outros dias o animal folga. “É manso e bom de serviço”, elogia o agricultor, que convive com o colega de trabalho há duas décadas.

A manufatura do sisal, que emprega 3.000 famílias e cerca de 3.000 jegues, gerou R$ 40 milhões no ano passado. Segundo Misael Lopes, da associação local, Valente deve ao jegue o título de Capital do Sisal: “Isso é inegável”.

Outros usos sustentáveis para empregar o jumento seriam terapia com equino, turismo rural e até produção de leite. Professor de medicina veterinária da USP, Adroaldo José Zanella tenta implementar estratégias de bem-estar e segurança dos jegues nordestinos.
“Estamos tentando construir um Nordeste do século XXI que possa conviver com os jumentos, pois um animal que está aqui há 500 anos não pode acabar em cinco”, concluiu.

Esta reportagem independente foi produzida pela Wide Avenues em parceria com a Repórter Brasil e financiada por uma bolsa da The Donkey Sanctuary, uma ONG britânica dedicada a promover o bem-estar dos jumentos.


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terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Brasil leva prêmio Fóssil do Ano durante a COP-25

Graças a Bolsonaro, Brasil leva prêmio Fóssil do Ano durante a COP-25 

Reinaldo Azevedo 13/12/2019 18h52 

O Brasil ganhou nesta sexta-feira (13) o prêmio Fóssil do Ano, como "país que mais atrapalhou o clima em 2019". A premiação aconteceu no final da COP-25, conferência da ONU sobre mudanças climáticas. É a primeira vez que o país leva o prêmio em referência às suas ações ao longo de todo o ano. 

O prêmio acusa o governo Bolsonaro de ter desmontado as políticas ambientais que levaram às reduções de emissões do país, enquanto criminaliza ambientalista. Também aponta o aumento nas taxas de desmatamento, nas invasões de terras o assassinato de três lideranças indígenas apenas nesta ... - 

Veja mais em 

https://reinaldoazevedo.blogosfera.uol.com.br/2019/12/13/gracas-a-bolsonaro-brasil-leva-premio-fossil-do-ano-durante-a-cop-25/?cmpid=copiaecola

As noticias veiculadas aqui não representam muitas vezes a opinião do BLOG.

Quase 2 mil espécies são incluídas na lista vermelha de espécies ameaçadas Sabrina Rodrigues

Quase 2 mil espécies são incluídas na lista vermelha de espécies ameaçadas

Sabrina Rodrigues
quarta-feira, 11 dezembro 2019 18:28
O tubarão-enfermeiro de cauda curta (Pseudoginglymostoma brevicaudatum
diminuiu cerca de 80% em 30 anos. Foto: UICN/Divulgação.
A União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) acaba de atualizar a Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas. A informação foi divulgada durante a Conferência do Clima da ONU (COP 25), realizada em Madri, na Espanha. A organização informa que 1.840 novas espécies foram incluídas no catálogo e que agora, existem 112.432 espécies na listagem.

As mudanças climáticas estão entre os fatores que contribuíram para o declínio de espécies. Uma das vítimas é um peixe de água doce da Austrália. A UICN informa que 58% dessa espécie são diretamente afetadas pelas mudanças do clima. Esses animais são altamente suscetíveis a secas extremas causadas pela diminuição das chuvas e o aumento da temperatura.

Nativo do Oceano Índico Ocidental, a população do tubarão-enfermeiro de cauda curta (Pseudoginglymostoma brevicaudatum) diminuiu cerca de 80% em 30 anos. O Pseudoginglymostoma brevicaudatum passou da categoria Vulnerável (VU) na Lista da UICN para Criticamente em Perigo (CR). Habitante das águas rasas, o tubarão- enfermeiro de cauda curta está perdendo o seu habitat devido à degradação dos recifes de coral causada em parte pelo aquecimento das águas do oceano.

A atenção também ficou voltada para o Papagaio Imperial (Amazona imperialis) – endêmico de florestas da Dominica, localizada no arquipélago das Pequenas Antilhas, no mar do Caribe. A frequência e a intensidade dos furacões promoveram o aumento da mortalidade dessas aves e a destruição dos seus habitats. Depois do furacão Maria, ocorrido em 2017, o mais forte registrado na região, estima-se que agora existam menos de 50 desses indivíduos na natureza.

Novos desafios para a preservação da biodiversidade
Para a diretora global do Grupo de Conservação da Biodiversidade da UICN, Jane Smart, esta atualização revela os impactos cada vez maiores das atividades humanas na vida selvagem e levará questões importantes para os próximos encontros sobre conservação e biodiversidade.

“O próximo ano será crítico para o futuro do planeta, com o Congresso Mundial de Conservação da UICN, em junho de 2020, um marco importante para definir a agenda de conservação necessária para lidar com a emergência das espécies antes das decisões tomadas pelos governos na Convenção da Biodiversidade, que acontecerá em Kunming, China, em outubro de 2020”, declara Jane Smart.

Restauração de propriedades rurais é alternativa para conservar a Baía de Guanabara

Restauração de propriedades rurais é alternativa para conservar a Baía de Guanabara


Iniciativa considera a importância da cobertura vegetal e da agricultura sustentável para a regulação da vazão da água, redução de custos de tratamento e melhoria da qualidade hídrica

Baía da Guanabara
Baía da Guanabara. Fofo: Pixabay

Entre os meses de novembro e dezembro, produtores rurais serão capacitados para adotarem práticas agropecuárias sustentáveis em propriedades na Bacia Guapi-Macacu, no recôncavo da Baía de Guanabara. A região concentra o principal manancial de abastecimento público da porção leste da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, que atende cerca de 2 milhões de habitantes. O objetivo da proposta é garantir a segurança hídrica a partir de Soluções baseadas na Natureza, levando em conta a vocação agropecuária da bacia, a demanda crescente pela água e a relevância da área para a conservação da biodiversidade e para a prevenção de inundações.

Ao menos 13 instituições estão envolvidas no projeto, como o Instituto Estadual do Ambiente (Inea), a Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) e a Embrapa. A iniciativa prevê a estruturação de unidades executoras locais para a realização de atividades de mobilização, assistência técnica e capacitação de proprietários rurais para adoção de cadeias produtivas agropecuárias sustentáveis, como sistemas agroflorestais, silvipastoris e sistemas em transição agroecológica, de produção orgânica e de base agroecológica. A proposta faz parte do laboratório de inovação Oásis Lab Baía de Guanabara, iniciativa da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, em parceria com o Instituto Estadual do Ambiente (Inea) e a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan).

“A cobertura florestal é extremamente importante para a regularização da água, principalmente nesta bacia, que tem sido muito impactada por eventos extremos, como a estiagem. A floresta é importante porque ela contribui para aumentar a infiltração de água no solo e, com isso, garantir que tenha maior vazão nesses períodos. Ela é fundamental para assegurar a provisão de água e amenizar os impactos das épocas com precipitação reduzida, além de diminuir processos de erosão e assoreamento dos rios, garantindo melhor qualidade da água”, destaca Marie Ikemoto, gerente de Gestão de Território e Informações Geoespaciais do Inea.

Associada à falta de cobertura vegetal, há baixa disseminação de boas práticas e sistemas produtivos sustentáveis na região, resultando em baixa produtividade e renda nas propriedades rurais.

Laboratório de inovação

A proposta faz parte de um conjunto de projetos desenvolvidos ao longo deste ano no laboratório de inovação Oásis Lab, que reúne cerca de 100 participantes de 50 instituições, empresas, indústrias, ONGs e órgãos públicos, com o objetivo de fortalecer a segurança hídrica e a resiliência costeiro-marinha na região hidrográfica da Baía de Guanabara. Os participantes foram mapeados, engajados, capacitados e cocriaram soluções e agendas integradas com o objetivo de viabilizarem projetos inovadores desenvolvidos em conjunto.

“Mapeamos atores, iniciativas e instituições relevantes que atuam no território para identificarmos o que vem gerando resultados positivos para o meio ambiente e como potencializar isso por meio de uma aliança estratégica para a conservação e recuperação da região e de sua biodiversidade. Sabemos que muitas pessoas e empresas dependem diretamente da Baía de Guanabara para a provisão de água, regulação climática, cadeia da pesca, produção agrícola e turismo. Diante disso, reunimos atores públicos e privados com experiência e conhecimento em um laboratório de inovação para criar novas ferramentas para restaurá-la e torná-la uma região que aproveita o seu potencial econômico, social e de bem-estar”, afirma Thiago Valente, analista de Soluções baseadas na Natureza da Fundação Grupo Boticário.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 29/11/2019
Restauração de propriedades rurais é alternativa para conservar a Baía de Guanabara, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 29/11/2019, https://www.ecodebate.com.br/2019/11/29/restauracao-de-propriedades-rurais-e-alternativa-para-conservar-a-baia-de-guanabara/.

Emergência Climática: Mais da metade dos pontos críticos do clima agora estão ‘ativos’, alertam cientistas

Emergência Climática: Mais da metade dos pontos críticos do clima agora estão ‘ativos’, alertam cientistas


pontos críticos do clima
University of Exeter*

Mais da metade dos pontos críticos do clima identificados há uma década estão agora “ativos”, alertaram um grupo de cientistas de ponta .

Isso ameaça a perda da floresta amazônica e das grandes camadas de gelo da Antártica e da Groenlândia, que atualmente estão passando por mudanças mensuráveis e sem precedentes muito antes do esperado.

Essa “cascata” de mudanças provocadas pelo aquecimento global pode ameaçar a existência de civilizações humanas.

Há evidências crescentes de que esses eventos são mais prováveis ??e mais interconectados do que se pensava anteriormente, levando a um possível efeito dominó.

Em um artigo da revista Nature, os cientistas pedem ações urgentes para reduzir as emissões de gases de efeito estufa para evitar os principais pontos de inflexão, alertando para o pior cenário possível de um planeta menos habitável de uma “estufa”.

“Uma década atrás, identificamos um conjunto de possíveis pontos de inflexão no sistema Terra, agora vemos evidências de que mais da metade deles foram ativados”, disse o principal autor, professor Tim Lenton , diretor do Instituto de Sistemas Globais da Universidade de Exeter.

“A crescente ameaça de mudanças rápidas e irreversíveis significa que não é mais responsável esperar e ver. A situação é urgente e precisamos de uma resposta de emergência. ”
O co-autor Johan Rockström, diretor do Instituto Potsdam de Pesquisa de Impacto Climático, disse:

“Não são apenas as pressões humanas na Terra que continuam subindo a níveis sem precedentes.

“É também que, à medida que a ciência avança, devemos admitir que subestimamos os riscos de provocar mudanças irreversíveis, onde o planeta auto-amplifica o aquecimento global.

“É isso que agora começamos a ver, já a 1 ° C do aquecimento global.

“Cientificamente, isso fornece fortes evidências para declarar um estado de emergência planetária, para desencadear ações mundiais que aceleram o caminho em direção a um mundo que pode continuar evoluindo em um planeta estável”.

No comentário, os autores propõem uma maneira formal de calcular uma emergência planetária como risco multiplicado pela urgência.

Os riscos do ponto de inflexão agora são muito mais altos do que as estimativas anteriores, enquanto a urgência está relacionada à rapidez com que é preciso agir para reduzir o risco.

Sair da economia de combustível fóssil é improvável antes de 2050, mas com a temperatura já a 1,1 ° C acima da temperatura pré-industrial, é provável que a Terra cruze a barreira de proteção de 1,5 ° C até 2040. Os autores concluem que apenas isso define uma emergência.
Nove pontos de inflexão ativos:
  • Gelo marinho do Ártico
  • Manta de gelo da Gronelândia
  • Florestas boreais
  • Permafrost
  • Circulação Meridional do Atlântico
  • Floresta amazônica
  • Corais de água quente
  • Manta de gelo da Antártica Ocidental
  • Partes da Antártica Oriental
O colapso das principais camadas de gelo na Groenlândia, Antártica Ocidental e parte da Antártica Oriental comprometeria o mundo a cerca de 10 metros de elevação irreversível do nível do mar.
A redução de emissões pode retardar esse processo, permitindo mais tempo para as populações baixas se moverem.

As florestas tropicais, o permafrost e as florestas boreais são exemplos de pontos de inflexão da biosfera que, se cruzados, resultam na liberação de gases de efeito estufa adicionais, amplificando o aquecimento.
Apesar da maioria dos países ter assinado o Acordo de Paris, comprometendo-se a manter o aquecimento global bem abaixo de 2 ° C, as atuais promessas de emissões nacionais – mesmo que sejam cumpridas – levariam a 3 ° C de aquecimento.

Embora os pontos de inflexão futuros e a interação entre eles sejam difíceis de prever, os cientistas argumentam: “Se podem ocorrer cascatas prejudiciais de inflexão e uma inflexão global não pode ser descartada, essa é uma ameaça existencial para a civilização.

“Nenhuma análise econômica de custo-benefício vai nos ajudar. Precisamos mudar nossa abordagem para o problema climático. ”

O professor Lenton acrescentou: “Talvez já tenhamos ultrapassado o limiar de uma cascata de pontos de inflexão inter-relacionados.

“No entanto, a taxa em que progridem e, portanto, o risco que representam, pode ser reduzida cortando nossas emissões.”

Embora as temperaturas globais tenham flutuado ao longo de milhões de anos, os autores dizem que os humanos agora estão “forçando o sistema”, com a concentração de dióxido de carbono na atmosfera e a temperatura global aumentando a taxas que são uma ordem de magnitude superior ao do final da última era glacial.
Referência:
Climate tipping points — too risky to bet against
Nature 575, 592-595 (2019)
doi: 10.1038/d41586-019-03595-0
http://dx.doi.org/10.1038/d41586-019-03595-0

* Tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate.
in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 28/11/2019

Emergência Climática: Mais da metade dos pontos críticos do clima agora estão ‘ativos’, alertam cientistas, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 28/11/2019, https://www.ecodebate.com.br/2019/11/28/emergencia-climatica-mais-da-metade-dos-pontos-criticos-do-clima-agora-estao-ativos-alertam-cientistas/.

Conturbada até o fim, COP25 falha em aumentar ambição

Conturbada até o fim, COP25 falha em aumentar ambição

COP25
Encerrada na manhã de domingo (15 de dezembro), um dia e meio após o prazo, a COP25, a conferência do clima do Chile, em Madri, falhou em seu objetivo de trazer a urgência da crise climática para dentro da implementação do Acordo de Paris.

Por Solange A. Barreira e Claudio Angelo, Observatório do Clima

A COP latino-americana, que precisou ser transportada para a Europa após a recusa do Brasil e a convulsão social no Chile, fez pouco mais do que reafirmar o Acordo de Paris. A própria presidente da COP25, a ministra de meio ambiente do Chile, Carolina Schmidt, reconheceu estar insatisfeita com o resultado obtido, em seu discurso de encerramento da conferência.

A decisão sobre mercados de carbono, tema central da Conferência, foi adiada para a COP26, em Glasgow, na Escócia, entre outros motivos pela posição brasileira em defesa de regras fracas que poderiam gerar a chamada dupla contagem de redução de emissões para cumprimento de metas de dois países devido à redução realizada por uma empresa em um deles e comercializada com o segundo.

A COP se realizou sob o peso dos movimentos de jovens e cidadãos que explodiram em 2019, exigindo ação dos governos e elevaram a emergência climática — a expressão do ano em língua inglesa. Também teve alertas redobrados da comunidade científica, com dois novos relatórios do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) e um do Pnuma (Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente), que avisou aos negociadores que as emissões precisam cair 7,6% ao ano até 2030 se quisermos nos manter na meta de 1,5oC.

Dentro das salas de reunião na Feira de Madrid, local que abrigou a COP, a desconexão entre a negociação, o clamor das ruas e as evidências científicas era imensa. Uma condução fraca do processo pela presidência chilena produziu um conjunto de documentos, o Chile Madrid Time for Action, que faz um apelo vago aos países para “refletir” em 2020 sobre como aumentar a ambição ”o máximo que puderem’ em suas NDCs (Contribuições Nacionalmente Determinadas) e em financiamento climático, o que é fundamental para países em desenvolvimento, em especial, os mais pobres e mais vulneráveis.

O espírito construtivo visto em 2015 na COP21, que produziu o Acordo de Paris, mostrou-se enfraquecido. Antigos vilões climáticos, como Estados Unidos e Austrália, voltaram a atrapalhar as negociações. Os EUA entregando a carta de saída de Paris e a Austrália, com um governo que nega as mudanças do clima enquanto o país literalmente pega fogo, bloqueando decisões importantes. Juntou-se a eles um novo vilão: o Brasil de Jair Bolsonaro, chefiado por um ministro do Meio Ambiente que constrangeu a diplomacia brasileira na Espanha, dizendo que cobraria recursos pelo desempenho ambiental do Brasil, apesar da explosão do desmatamento e da violência contra povos indígenas.

“Na COP25, o processo foi colocado acima das pessoas e do planeta. Com os efeitos da crise climática piorando em todo o mundo, alguns governos em Madri chegaram a apoiar a retirada da expressão “emergência climática” das decisões da COP”, afirmou Carlos Rittl, secretário executivo do Observatório do Clima. Em contexto completamente diferente do espírito cooperativo que nos deu o Acordo de Paris, em Madri os suspeitos de costume se juntaram a novos bloqueadores, como o Brasil. “A política ecocida do governo do presidente Jair Bolsonaro manchou o trabalho da delegação brasileira na COP25 e transformou um ex-campeão do meio ambiente em um pária climático, cujo envolvimento na luta contra a catástrofe climática corre o risco de se limitar a uma assinatura em um acordo global”, concluiu Rittl.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 16/12/2019

Conturbada até o fim, COP25 falha em aumentar ambição, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 16/12/2019, https://www.ecodebate.com.br/2019/12/16/conturbada-ate-o-fim-cop25-falha-em-aumentar-ambicao/.

Diversidade e produtividade das plantas não se recuperam significativamente após uso agrícola



Diversidade e produtividade das plantas não se recuperam significativamente após uso agrícola

agricultura

Décadas após o abandono das terras agrícolas, a diversidade de plantas e a produtividade lutam para se recuperar. Isso foi demonstrado por uma nova pesquisa, publicada na revista Nature Ecology & Evolution .

Pesquisadores do Centro Alemão de Pesquisa Integrativa em Biodiversidade (iDiv), do Centro Helmholtz de Pesquisa Ambiental (UFZ) e da Universidade de Minnesota examinaram a diversidade e a produtividade das plantas em campos que foram arados e abandonados para uso agrícola. Embora a diversidade de plantas das pastagens locais tenha aumentado ao longo do tempo, a produtividade das plantas não se recuperou significativamente.

A equipe internacional de pesquisadores examinou 37 anos de dados vinculados à diversidade de plantas (riqueza de espécies, ou seja, número de espécies) e à produtividade das plantas (ou seja, biomassa ou quantidade de plantas) relacionadas a 21 pradarias e savanas em Minnesota. A maioria desses campos havia sido arada e abandonada para uso agrícola entre um e 91 anos antes. Os pesquisadores compararam as parcelas com as terras próximas que não foram significativamente afetadas pela atividade humana.

Eles descobriram que um ano após o abandono, os campos tinham, em média, 38% da diversidade de plantas e 34% da produtividade das plantas para a terra que nunca foi arada. 91 anos após o abandono, os campos possuíam 73% da diversidade de plantas e 53% da produtividade das plantas. Isso mostra que a diversidade de plantas de pastagem local aumentou significativamente ao longo do tempo, mas se recuperou incompletamente. A produtividade da planta não se recuperou significativamente.

Os pesquisadores sugerem que a recuperação lenta e incompleta de espécies em terras agrícolas abandonadas em Minnesota provavelmente está ocorrendo em ecossistemas ao redor do mundo, onde a terra foi limpa para agricultura, exploração madeireira ou outras atividades humanas.

“A quantidade de terra usada para fins agrícolas tem diminuído lentamente, deixando cerca de 18 milhões de quilômetros quadrados de campos antigos e recuperando florestas em todo o planeta”, disse o co-autor Dr. Adam Clark, atualmente pesquisador de pós-doutorado no Helmholtz Center para Pesquisa Ambiental (UFZ) e o Centro Alemão para Pesquisa Integrativa em Biodiversidade (iDiv). “Nesses espaços, esforços de restauração ativos muitas vezes podem ser necessários para restaurar a biodiversidade e impedir a extinção de espécies.”

As táticas de restauração podem incluir o uso de queimaduras prescritas, a dispersão de sementes, o uso do feno para remover os nutrientes adicionados pela fertilização e a reintrodução de outros na cadeia alimentar (por exemplo, herbívoros, predadores) empurrados para fora da área.

“Quando coletados em escala global, registros fósseis indicam que espécies de plantas estão extintas a taxas centenas de vezes mais rápidas que a taxa de extinção natural”, disse o primeiro autor, professor Forest Isbell, professor assistente da Faculdade de Ciências Biológicas (CBS). “Nesse nível localizado, estamos vendo como a atividade humana pode impactar a perda de espécies.”
Referência:
Forest Isbell, David Tilman, Peter Reich, and Adam T. Clark. “Deficits of biodiversity and productivity linger a century after agricultural abandonment“. Nature Ecology and Evolution 3:1533–1538, 2019. DOI: 10.1038/s41559-019-1012-1

* Tradução e edição de Henrique Cortez, EcoDebate.
Informe do German Centre for Integrative Biodiversity Research (iDiv), in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 10/12/2019

Diversidade e produtividade das plantas não se recuperam significativamente após uso agrícola, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 13/12/2019, https://www.ecodebate.com.br/2019/12/13/diversidade-e-produtividade-das-plantas-nao-se-recuperam-significativamente-apos-uso-agricola/.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Desmatamento na Amazônia cresce 104% em novembro

Meio ambiente

Desmatamento na Amazônia cresce 104% em novembro

 Desmatamento na Floresta Amazônica

 

Segundo dados do Inpe, devastação do bioma bate recorde para o mês. Em 2019, sistema de alerta indica aumento de quase 84% de área desmatada em relação ao ano anterior.


O desmatamento na Amazônia voltou a bater recorde em novembro. Dados divulgados nesta sexta-feira (13/12) pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostraram que a devastação do bioma cresceu 104% em relação ao mesmo mês de 2018.

Segundo o Sistema de Detecção do Desmatamento na Amazônia Legal em Tempo Real (Deter), em novembro 563,03 quilômetros quadrados de floresta foram devastados. Esse foi o maior crescimento nas taxas de desmatamento para o mês desde o início da série histórica em 2015.

O Deter indicou também um aumento de 83,9% na devastação da floresta entre janeiro e novembro deste ano em comparação com o mesmo período de 2018, passando de 4.878,7 quilômetros quadrados registrados no ano passado para 8.974,31 quilômetros quadrados.

A tendência de alta no desmatamento apontada pelo Deter, que faz levantamento rápido de alertas de evidências de alteração da cobertura florestal na Amazônia, foi confirmada pela medição oficial, o Prodes.

O sistema de monitoramento mostrou que, entre agosto de 2018 e julho de 2019, o desmatamento da Floresta Amazônica cresceu 29,5% em comparação com os 12 meses anteriores. Ao todo, a floresta perdeu uma área de 9.762 km² (equivalente a sete cidades do Rio de Janeiro). Foi a maior taxa de desmatamento registrada desde 2008.

Após a repercussão internacional do aumento do desmatamento verificada a partir de julho, o presidente Jair Bolsonaro acusou, sem provas, o Inpe de mentir sobre os dados e exonerou o então diretor do instituto, Ricardo Galvão, que havia rebatido as críticas do presidente.  Por sua oposição ao governo e defesa da ciência, o pesquisador acabou eleito pela revista especializada Nature um dos dez cientistas que se destacaram em 2019.

O Brasil abriga 60% da Floresta Amazônica, que é um regulador chave para os sistemas vivos do planeta e também para o índice de chuvas no país. Suas árvores absorvem cerca de 2 bilhões de toneladas de dióxido de carbono por ano e liberam 20% do oxigênio do planeta.

Depois de ter sido considerado uma história de sucesso ambiental, o Brasil vem perdendo esse espaço, principalmente, desde a eleição de Bolsonaro, que já declarou várias vezes a intenção de explorar a floresta e negou a existência das mudanças climáticas. Devido ao discurso do presidente e à agenda ambiental do governo, especialistas temem que o desmatamento atinja níveis alarmantes nos próximos anos.

CN/ots

Polícia do Pará acusa brigadistas de colocar fogo em Alter do Chão; ONGs repudiam ação


Polícia do Pará acusa brigadistas de colocar fogo em Alter do Chão; ONGs repudiam ação

Carolina Lisboa 
 
terça-feira, 26 novembro 2019 21:52
Brigadistas, bombeiros e voluntários combatem o fogo que se alastrou desde sábado (14) 
no distrito de Alter do Chão, Santarém, no Pará. Foto: Brigada De Alter.
A prisão preventiva de quatro membros da Organização Não Governamental (ONG) Brigada Alter do Chão (PA) e a busca ostensiva na sede da ONG Projeto Saúde e Alegria, na manhã desta terça-feira (26), causou perplexidade a organizações, instituições e entidades ambientalistas. As organizações repudiaram a ação, afirmando serem medidas abusivas, com intuito deliberado de intimidar ambientalistas e movimentos sociais.

A Polícia Civil do Pará (PC-PA) informou que foram cumpridos quatro mandados de prisão preventiva e sete mandados de busca e apreensão com o apoio de 30 policiais e seis viaturas. A operação “Fogo do Sairé” é resultante da primeira fase das investigações que apuram a origem dos incêndios que atingiram, em setembro deste ano, a região de Alter do Chão, no município de Santarém, no oeste paraense.

A movimentações dos policiais começaram às 5h e incluíram o recolhimento de computadores, HDs, telefones celulares e documentos nos endereços dos acusados e na sede da ONG Saúde e Alegria. A operação foi realizada pela Delegacia Especializada em Conflitos Agrários de Santarém (Deca) e Núcleo de Apoio à Investigação (NAI), com o apoio da Diretoria de Polícia do Interior (DPI).

Segundo o coordenador do projeto Saúde e Alegria, Caetano Scannavino, que estava em Brasília para participar de uma audiência pública na Câmara, os policiais chegaram na sede da ONG fortemente armados e sem esclarecer qual era a acusação. “Eu queria deixar claro que a gente desconhece, não sabemos até agora porque a gente está sendo acusado. Porque foram ao nosso escritório sem decisão judicial, com um mandato genérico para apreender tudo. Do que que a gente está sendo acusado?”, perguntou Scannavino, em entrevista coletiva realizada no fim da tarde.

De acordo com a assessoria de imprensa da Polícia Civil do Pará, Alberto Teixeira, delegado-geral, afirmou que o inquérito aponta para a autoria de pessoas ligadas à ONG Brigada de Incêndio de Alter do Chão, e por isso foram expedidos os mandados de prisão preventiva. “É uma operação de grande importância, realizada para elucidar o quanto antes as origens desse incêndio criminoso. A expectativa é que os documentos apreendidos possam fornecer mais detalhes para as próximas etapas do processo investigativo”.

A ONG Brigada de Alter é um grupo formado há um ano e meio que atua voluntariamente no combate aos incêndios na região de Alter do Chão, famoso ponto turístico paraense. Em nota, o grupo afirmou que está “em choque com a prisão de pessoas que não fazem senão dedicar parte de suas vidas à proteção da comunidade, porém certos de que qualquer que seja a denúncia, ela será esclarecida e a inocência da Brigada e seus membros devidamente reconhecida”.

Polícia Civil do Pará (PC-PA), em coletiva sobre a operação “Fogo do Sairé”. Foto: Secom/Divulgação.
Todo inquérito é baseado na acusação de que os brigadistas causaram o incêndio para captar recursos de doação. Para a Polícia, o Projeto Saúde e Alegria e mais duas ONGs Brigada Alter do Chão, Aquíferos Alter do Chão serviram de laranjas para captação deste recurso.
A investigação durou dois meses. Segundo as autoridades, os brigadistas tinham informações e imagens privilegiadas dos focos de incêndio. “Eles filmavam, publicavam e depois eram acionados pelo poder público a auxiliar no controle de um incêndio que eles mesmos causavam. Toda vez alegavam surpresa ao chegar no local, mas não havia outra possibilidade lógica”, acusa o titular da DPI, José Humberto Melo Jr.

Em entrevista aos repórteres André Borges, Miguel Oliveira e Giovana Girardi, do  Estadão, José Humberto de Melo Jr. afirmou que membros de três ONGs locais – Brigada Alter do Chão, Aquíferos Alter do Chão e Projeto Saúde e Alegria (PSA) – teriam recebido repasses da ONG internacional WWF para combater incêndios na região de Alter do Chão, mas que parte dos recursos teria sido desviado.

Em nota, o WWF-Brasil afirmou que possui uma Parceria Técnico-Financeira com o Instituto Aquífero Alter do Chão para a viabilização da compra de equipamentos para as atividades de combate a incêndios florestais pela Brigada de Alter do Chão, no valor de R$ 70.654,36. O recurso viabiliza a compra dos equipamentos para o combate ao fogo, dentre os quais abafadores, sopradores, coturnos e máscaras de proteção. “Tendo em vista a natureza emergencial das queimadas, o repasse foi realizado integralmente e, neste momento, a instituição está na fase de implementação de atividades e prestação de contas, com a comprovação da realização do que foi acordado”, informaram.

Segundo nota divulgada pela Brigada de Incêndio de Alter do Chão, os acusados contribuíram desde o começo com as investigações policiais, tendo inclusive já prestado depoimento. “[Os brigadistas] já haviam sido ouvidos na Delegacia de Polícia Civil e colaborado de forma efetiva no Inquérito após o incêndio de setembro que eles ajudaram a combater, deixando suas famílias e trabalhos em nome dessa causa a que se dedicam. Forneceram informações e documentos às autoridades policiais de forma completamente voluntária. Neste momento, a Defesa Técnica dos suspeitos, na figura dos Advogados Wlandre Leal, Renato Alho e Gabriel Franco já está tomando todas as providências legais para colocar os Brigadistas em liberdade imediatamente. Com toda a absoluta certeza, a verdade real dos fatos virá à tona ao longo da Instrução Processual e a inocência da Brigada será provada. A Defesa entende que neste momento, os requisitos autorizadores da Prisão Preventiva existentes no Artigo 312 do Código de Processo Penal de forma alguma restam evidenciados”, informou.

Coletiva 
“Há indícios, até agora não se falou em que e como, acusando-os de terem colocados fogo na floresta para depois gerar um incêndio em Alter do Chão. Para mim isso soa como uma piada”, afirmou o coordenador do PSA, Caetano Scannavino. “Daqui a pouco prenderão quem limpa petróleo na praia, tamanho o absurdo”, disse em coletiva realizada às 16h, no Salão Verde da Câmara dos Deputados. Além de Scannavino, participaram da coletiva os deputados Airton Faleiro (PT-PA), Edmilson Rodrigues (PSOL-PA) e Helder Salomão (PT-ES), ligados à pauta ambientalista.

“A Frente Parlamentar Ambientalista e a Comissão de Direitos Humanos vai realizar pedidos de informação ao governador Helder Barbalho, à Secretaria de Segurança do Estado do Pará e à Polícia Civil sobre o inquérito. O que aconteceu hoje não acontecia há muito tempo no Brasil. Esse caso cheira a armação e tenta criminalizar aqueles que lutam em favor do meio ambiente. No Brasil virou moda criminalizar os heróis e exaltar criminosos. É uma arbitrariedade do Estado do Pará”, disse o deputado Helder Salomão, presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara Federal.
Caetano Scannavino pediu para que a imprensa ajude a apurar as acusações.

Fogo do Sairé

Incêndio em Alter do Chão em setembro. Foto: Eugênio Scannavino.
De acordo com a Polícia Civil, o primeiro foco de incêndio identificado na região ocorreu no dia 14 de setembro e atingiu uma área de mata conhecida como Capadócia, que fica entre a localidade de Ponta de Pedras e a vila de Alter do Chão. No dia seguinte, após as chamas serem controladas, um novo foco de incêndio foi identificado pela equipe do Corpo de Bombeiros no local.

No dia 16 de setembro, o governo do Estado montou uma força-tarefa para combater o incêndio na região. Mais de 200 homens trabalharam para conter o fogo, entre militares do estado – Bombeiros e Grupamento Aéreo de Segurança Pública do Pará (Graesp), do Exército Brasileiro e brigadistas voluntários, Prefeitura de Santarém, Polícia Civil e Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semas). Ainda no mesmo dia, a Polícia Civil, por meio da Delegacia de Conflitos Agrários de Santarém, o inquérito foi instaurado para investigar se o incêndio foi provocado.

Repercussão
Em nota, a associação Iwipuragã do povo Borari de Alter do Chão manifestou apoio à Brigada, afirmando que “foram presos, acusados indevidamente de terem causado o fogo em nossas florestas” e que as acusações “fazem parte de uma estratégia para desmoralizar e criminalizar as ONGs e movimentos sociais de forma caluniosa”. A associação alertou ainda que seu território vem sofrendo enorme pressão de especulação imobiliária, “que atropela os direitos dos povos originários e os planos de sustentabilidade para região, as ONGs e os movimentos sociais bem como moradores locais com formação técnica”.

Já a Anistia Internacional recebeu com preocupação a notícia de prisão dos brigadistas. “É lamentável que, no mesmo dia em que trazemos à público uma investigação consistente, com análise de dados oficiais e informações públicas, evidências coletadas em campo e entrevistas com servidores públicos, lideranças indígenas e comunidades tradicionais, mostrando comprovadamente como a pecuária está por trás do desmatamento e das queimadas na Amazônia, acontecem prisões sem qualquer transparência ou informação oficial sobre procedimentos adotados pelas autoridades em relação aos acusados em Alter do Chão”, afirmou Jurema Werneck, diretora executiva da Anistia Internacional Brasil.

O Observatório do Clima repudiou o que chamou de “tentativa de criminalização de ativistas ambientais feita pela Polícia Civil do Estado do Pará, subordinada ao governador Helder Barbalho, do MDB”. Afirmou que as ações da Polícia Civil do Pará “foram medidas abusivas, com o único intuito de intimidar as pessoas que trabalham pelo desenvolvimento sustentável da Amazônia e pelo bem-estar de sua população” e que, ao permitir tal abuso, o governador do Pará “mostra um alinhamento sinistro com o presidente Jair Bolsonaro e suas intenções declaradas de abrir a Amazônia ao desmatamento e acabar ‘com todo tipo de ativismo’. E cria um problema para si mesmo quando for à COP25 em Madri no mês que vem em busca de financiamento internacional para suas políticas ambientais”.


Sociedade civil se manifesta contra política ambiental de Bolsonaro em Madri



Sociedade civil se manifesta contra política ambiental de Bolsonaro em Madri

Cristiane Prizibisczki
quinta-feira, 12 dezembro 2019 17:55
O lançamento da carta sobre a crise do desmatamento e queimadas na Amazônia
 Brasileira
ocorreu na quarta-feira (11), na Conferência do Clima da ONU (COP25), em Madri. 
Foto: UNclimatechange.
Um grupo formado por 110 organizações da sociedade civil, redes, movimentos sociais e figuras políticas, entre elas a ex-ministra Marina Silva (REDE), lançaram na tarde da última quarta-feira (11), em Madri, na COP25, uma declaração conjunta sobre a crise do desmatamento e queimadas na Amazônia Brasileira.

O documento, de oito páginas, apresenta uma análise crítica das tendências recentes e fatores de desmatamento e queimadas na Amazônia, bem como as consequências para a crise climática global e outros impactos sociais e ambientais.

“O que se constata é que o governo Bolsonaro – com a falsa justificativa de que por trás das manifestações de preocupação com a Amazônia existiriam interesses contrários à soberania brasileira na região – está colocando em curso um plano articulado de destruição da floresta, incentivando o desmatamento, as queimadas, a devastação e o saque dos seus recursos naturais por grileiros, madeireiros e  garimpeiros ilegais, incluindo o ataque aos defensores da floresta, considerados por ele como empecilhos para o alcance de seus interesses”, diz a declaração.

Ao conclamar o governo para que respeite a Constituição, leis e acordos internacionais assinados pelo Brasil na área ambiental, os signatários da carta listam uma série de medidas a serem tomadas pelo Palácio do Planalto para o enfrentamento da crise, como a retomada dos processos de demarcação de terras indígenas e quilombolas, transparência nos dados oficiais que possam auxiliar no combate ao desmatamento e queimadas e retomada do Fundo Amazônia, por exemplo.

A declaração também apresenta um apelo à ação, destinado a mobilizar a sociedade brasileira e a comunidade internacional para que adotem medidas concretas em defesa da Amazônia e dos direitos de seus povos.

“Sabemos que esses desafios somente poderão ser enfrentados e superados por meio de uma maior articulação e colaboração entre os diversos setores da sociedade brasileira e internacional. Assim, as redes, movimentos sociais e outras organizações civis abaixo assinadas conclamam os diversos níveis de governo, a sociedade brasileira e a comunidade internacional para que, com a urgência que a situação requer, seja estabelecida uma agenda de ações articuladas e efetivas – parte delas acima descritas – para reverter o processo de devastação em curso de um bioma essencial para a qualidade de vida de seus cidadãos e estratégico para a integridade do sistema climático global.”

Além de Marina Silva, assinam do documento os senadores Alessandro Vieira (Cidadania/CE), Fabiano Contarato (REDE/ES), Eliziane Gama (Cidadania/MA) e Randolfe Rodrigues (REDE-AP), dezoito deputados federais de vários partidos e estados, e organizações como IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), ISA (Instituto Socioambiental) e WWF -Brasil.

Ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles diz que COP25 "não deu em nada"

Ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles diz que COP25 "não deu em nada"

 Conferência do clima da Organização das Nações Unidas terminou neste domingo, com um acordo mínimo sobre a mudança climática



 Após o término da conferência do clima da Organização das Nações Unidas (ONU), a COP25, neste domingo (15), o ministro do meio ambiente, Ricardo Salles, publicou na sua conta no Twitter que a conferência "não deu em nada". A conferência terminou hoje com os negociadores chegando a um acordo mínimo, longe de responder firmemente às mudanças climáticas, conforme reivindicado por ambientalistas.
 O post é acompanhado por um vídeo em que Salles diz que "apesar de todos os esforços do Brasil para ajudar" não foi possível encontrar um texto que fosse consenso. "Prevaleceu, infelizmente, uma visão protecionista de fechamento do mercado e o Brasil e outros países que poderiam fornecer créditos de carbono em razão de suas florestas e boas práticas ambientais saíram perdendo", afirmou. 

O encontro, que deveria terminar na sexta-feira (13), se estendeu para o fim de semana devido a impasses nas negociações. Nos últimos dias do encontro, o Brasil não aceitou dois parágrafos incluídos no documento final que faziam referências expressas sobre o papel dos oceanos e do uso da terra no clima global.
O país tentou retirar do texto a menção a estímulos para estudos sobre a relação entre os oceanos e o solo com as mudanças climáticas. Em entrevista à GloboNews, Salles disse que o intuito do Brasil é "não desviar o foco" das emissões provocadas pela queima de combustíveis fósseis das maiores economias do mundo.
— É importante o Brasil deixar claro que o problema das emissões de gases são os combustíveis fósseis. E, portanto, tem que deixar clara a tentativa de disfarçar a discussão dos combustíveis fósseis, afastar e logar para outros temas — declarou.
Além disso, o ministro criticou "um protecionismo muito forte dos países ricos" durante os debates da COP25, "para não abrir seus mercados de carbono para os países em desenvolvimento". Também disse que, devido à falta de acordo sobre o mercado de carbono, "o Brasil e outros países que poderiam fornecer créditos de carbono em razão de suas boas práticas ambientais saíram perdendo".

Resultado foi "frustrante", dizem ativistas

Carlos Rittl, secretário-executivo do Observatório do Clima, disse que o resultado da conferência foi uma "frustração", já que as principais decisões ficaram para 2020.
— É uma conferência em que o tema era a ambição, os níveis atuais (de ação) não conseguiram entregar os objetivos do Acordo de Paris. Essa COP, que era a COP da ambição, deixou toda a chamada para ação e toda a ambição para o próximo ano — explicou Rittl em entrevista à GloboNews.
Nas redes sociais, a ativista Greta Thunberg lamentou o caminho das negociações em Madri. "Parece que #cop25 em Madri está desmoronando agora. A ciência é clara, mas a ciência está sendo ignorada. Aconteça o que acontecer, nunca desistiremos. Nós apenas começamos", escreveu Greta em sua conta no Twitter.
— O resultado dessa COP é totalmente inaceitável — disse a diretora-executiva do Greenpeace, Jennifer Morgan.
De acordo com a ONG ambientalista, apenas as nações mais vulneráveis mostraram empenho para reduzir as emissões.
"Durante esse encontro, a porta foi literalmente fechada a valores e fatos, enquanto a sociedade civil e cientistas que pediam a luta contra a emergência climática eram excluídos da COP25" diz uma nota do Greenpeace.
O Greenpeace ainda chamou países como Brasil e Arábia Saudita de "bloqueadores climáticos" e os acusou de "venderem acordos sobre carbono para atropelar cientistas e a sociedade civil".
António Guterres, secretário-geral da ONU, também comentou sobre o evento e disse estar "decepcionado com os resultados". No entanto, afirmou que "não podemos nos render" na luta contra a crise climática.
— A comunidade internacional perdeu uma oportunidade importante de mostrar uma maior ambição em mitigação, adaptação e finanças para enfrentar a crise climática — declarou Gutérres.  
guer-se frente aos potentados?

Vazamento de petróleo cru no Brasil segue sem solução

Vazamento de petróleo cru no Brasil segue sem solução



05 Dezembro 2019    
Já são 889 localidades atingidas em 128 municípios de onze estrados em uma área de costa perto dos 3.000 km

Por Douglas Santos


O Brasil vive o maior desastre ambiental causado por vazamento de petróleo de sua história. As manchas de óleo começaram a ser registradas no litoral nordestino brasileiro em 30 de agosto. Desde então, até o dia 03 de dezembro, segundo dados oficiais do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), 889 localidades, em 128 municípios de 11 estados, já foram atingidos em uma área de costa próxima de 3.000 quilômetros.

Mais de 90 dias após o início das ocorrências e, segundo a Marinha, “temos indícios apenas, não temos provas [sobre a origem]”, afirmou o Almirante de Esquadra Leonardo Puntel, durante audiência pública realizada dia 05 de dezembro no Senado Federal.

Até agora, apesar da substância ter sido identificada como petróleo cru, as autoridades brasileiras ainda não descobriram a origem, o responsável pelo despejo do material no mar e nem mesmo a quantidade de material que ainda pode atingir a costa ou o quanto já foi sedimentado no fundo do mar. Tampouco se sabe os efeitos na saúde das pessoas que vivem nas áreas afetadas e quais as consequências para o ecossistema marinho. E ainda assim o problema parece estar sem solução, e diariamente novas localidades são atingidas.

De acordo com o Coordenador do Laboratório de Estudos Marinhos e Ambientais (LabMAM) da PUC-Rio, Renato da Silva Carreira, quando o animal tem contato direto com o óleo essa interação é visível, altera o odor e o paladar do animal. “O grande risco é quando você não vê o óleo e o peixe não tem alteração no cheiro e no gosto e o peixe bioacumulou os HPAs (Hidrocarbonetos Policíclicos aromáticos, substância cancerígena e com características mutagênicas)”.

O LabMAM coletou 70 amostras de pescados e apenas duas amostras apresentaram características não recomendáveis para o consumo. “Essas duas amostras estavam em currais que foram diretamente afetados, as demais não apontaram indicadores de contaminação”, afirmou Carreira.

Guilherme Franco Netto, especialista em saúde, ambiente e sustentabilidade da vice-presidência de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde da Fiocruz, reforça a necessidade de acompanhamento de longo prazo nas comunidades afetadas. “Há de se organizar o sistema de atenção à saúde que contemple atendimento e acompanhamento população afetada e estudos de médio e longo prazo para entender de fato como está a saúde dessas pessoas”, afirma Netto.

O último dado sobre o volume total de petróleo cru retirado da costa indica mais de 4.500 toneladas. A nota foi publicada pela Marinha no dia 19 de novembro, quando 695 localidades haviam sido atingidas. Desde então o total de volume retirado não é incluído nas notas oficiais do Governo.

Esse desastre vem causando um rastro de destruição que tem comprometido de forma substancial a saúde física e a sustentabilidade financeira das comunidades locais. Além de grande impacto socioambiental, o derramamento de óleo já causa impactos econômicos, na produção de pescados e frutos do mar assim como na atividade turística.

Auxílio não cobre prejuízos
No dia 29 de novembro o governo publicou uma Medida Provisória (MP) que instituiu o auxílio de emergência para os pescadores das áreas atingidas. A ajuda é de R$ 1.996,00 e pago em duas parcelas. Segundo a MP, o pagamento será realizado apenas para os profissionais cadastrados Registro Geral da Atividade Pesqueira (GRP).

Porém, o auxílio é questionado pela Pastoral dos Pescadores. “Esse cadastro é motivo de chacota pelo setor e não tem confiabilidade. Este sistema é frágil com diversas denúncias de fraude e não concordamos com o uso dele como referência. Também não concordamos com o valor da indenização, o problema acontece há mais de três meses e não cobre os prejuízos causados aos pescadores. Outro ponto é que em outubro haviam 159 mil pescadores cadastrados no sistema, mas a MP atende apenas 65 mil sem dizer quais foram os critérios de corte. Tanto em Mariana, Brumadinho e agora aqui no Nordeste a categoria tem sido prejudicada ao colocar apenas o RGP como referência. Isto tem deixado milhares de famílias sem acesso ao auxílio”, comenta Ormezita Barbosa, da Pastoral dos Pescadores.

Clique para ler o que se sabe até agora sobre vazamento de óleo na costa brasileira.