sexta-feira, 3 de janeiro de 2020

Crescimento econômico e custos ambientais: Sempre uma relação polêmica

Crescimento econômico e custos ambientais: Sempre uma relação polêmica, artigo de Marcus Eduardo de Oliveira

sustentável vs insustentável
[EcoDebate] O comentário a seguir feito pelo notável José Goldemberg, uma década e meia atrás, além de oferecer uma analogia sugestiva que facilita o entendimento de como chegamos a esse atual modelo de civilização insustentável do ponto de vista ecológico, ainda permite questionar a ideologia do crescimento econômico como um todo: “Economias vibrantes significam mais ´progresso`, empregos, melhores salários e as amenidades que o dinheiro pode comprar. Apesar de centenas de milhões de pessoas ao redor do mundo continuarem abaixo da linha de pobreza, outras centenas de milhões progrediram, sob muitos pontos de vista, no último século. Este progresso tem um custo ambiental, porque à medida que o consumo aumenta é preciso ampliar a área dedicada à agricultura, construir novas indústrias, estradas e outros meios de comunicação. É impossível ter isso tudo sem interferir no meio ambiente em que vivemos”. (1)


Pois bem, sem tirar os olhos do que se passa na conturbada província da economia – notadamente quanto ao fato de o crescimento econômico pautar o estilo de vida dominante nas modernas sociedades industriais – é possível afirmar, sem exagerar na dose de otimismo, que tem diminuído o número daqueles que colocam em dúvida que o alcance de “progresso” promove sérios e impactantes “custos ambientais”, cabendo citar, entre outros, a exaustão crescente dos recursos naturais, a avassaladora perda de biodiversidade, o aumento da poluição do ar e da água, a degradação dos solos, o aumento do desmatamento (desflorestamento) facilitando tanto a expansão do agronegócio como a especulação fundiária e o comprometimento dos ecossistemas. 

Situações que aumentam, grosso modo, o peso e as complexidades que cercam o modo de viver da comunidade humana; principalmente das populações mais vulneráveis, vítimas em potencial dos “custos sociais” da sociedade industrial de crescimento. 

Cabe reforçar: esse progresso orientado pelo crescimento econômico definido pelo aumento do PNB per capita, desde há muito tem sido colocado pelas forças produtivas como a única possibilidade de fazer avançar a vida social moderna, fortalecendo a ideia-corrente (peça-chave) de que, se a economia global se tornar cada vez maior, a sociedade contemporânea estará melhor. Ao consolidar a busca de crescimento econômico ininterrupto como algo extremamente relevante – não importa o que cresça, como cresça e para quem cresça, desde que cresça de forma acelerada, assim opinam seus proponentes – a economia convencional, de imediato, coloca em curso a lógica do mercado, ou seja, “transforma” a vida social numa experiência de duas ordens, a produtivista e a consumista; como “se a sociedade não fosse nada além de uma grande linha de produção”, como escreve o historiador holandês Rutger Bregman. (2). 

Obviamente tudo isso é feito sem que se leve em conta – e aí está um primeiro erro crasso – um pressuposto básico, a existência de limites dada pela natureza (matriz de tudo) à expansão da atividade humana. Como a expansão econômica, a rigor, não ocorre com a justa finalidade de atender exclusivamente as ilimitadas necessidades da comunidade humana (algo impossível, dada a finitude de recursos), mas sim para continuar “alimentando” a lógica capitalista – acúmulo de capital e do consumo, privilégio para que poucos acessem à riqueza, mais lucros, e muito mais resultados econômicos -, a partir daí se constrói com relativa habilidade a falsa promessa de que a conquista material, per si, cumpre o papel de facilitar a ascensão social de cada indíviduo; como se a demanda da humanidade por coisas materiais não ultrapassasse a capacidade de reposição do planeta.

Ora, aceitar que é possível crescer materialmente (de forma ilimitada) sem afetar ou comprometer a base de recursos da natureza é ignorar a assertiva de que a atividade econômica – observando-se o processo linear, isto é, extrai-produz-descarta-polui – é apenas um subsistema de algo maior, o meio ambiente. Insistir na crença de que é plenamente possível um crescimento econômico contínuo (ideologia dominante) é menosprezar, em partes e no todo, a causa ecológica, principalmente a necessidade cada vez mais premente do equilíbrio planetário e o consequente respeito aos limites ecológicos.Desnecessário dizer que isso dificulta converter o desenvolvimento (condição almejada por todos porque responde pela melhoria dos padrões de vida social) em três fundamentais esferas: numa tarefa economicamente eficiente; num padrão socialmente includente e, por fim; numa visão ecologicamente equilibrada.

Assim, cabe deixar em evidência que o problema se agrava um pouco mais porque, uma vez obcecados pela busca de crescimento econômico (ponto medular da macroeconomia convencional), os proponentes do modelo econômico dominante não hesitam em tratar a Terra (e tudo o que nela contém) de duas maneiras bastante grotescas. Primeiro, como um gigantesco reservatório (espécie de fonte) de recursos naturais para “alimentar” a fome voraz de mais crescimento; e, em segundo, como um depósito (espécie de fossa) para descarregar os resíduos tóxicos do processo de industrialização. 

Falando às claras, é dado perceber que tudo acontece como se de fato vivêssemos num Reino da Fantasia, onde o meio ambiente (environment) (3) fosse um imenso “banco” de recursos naturais em que se pode ir lá e fazer frequentes e exaustivas retiradas (recursos, energia) para abastecer a industrialização gananciosa do mundo atual; como se o processo econômico pudesse mesmo “funcionar” livre, leve e solto, sem troca contínua com o meio ambiente. Note-se que isso pressupõe ignorar (mais um erro crasso) que as atividades econômicas estão limitadas pela capacidade de carga dos diferentes ecossistemas da Terra. Não considerar os limitados recursos ecossistêmicos como uma restrição à expansão econômica, ouso acreditar, equivale a ignorar que a desejável qualidade de vida (o bem viver) depende sobretudo da diminuição da pegada ecológica. 

Uma vez alcançado esse ponto, é bom que se esclareça algo central: o fluxo de benefícios produzidos por um ecossistema inclui funções essenciais para a sobrevivência dos humanos e de outras espécies, o que implica dizer, sem delongas, e para contragosto das forças dominantes, que o “que” realmente sustenta a vida na Terra são os ecossistemas. 

Sem os serviços ecossistêmicos, isto é, sem a disponibilidade de água potável, a regulação do clima, a biodiversidade, a fertilidade do solo etc, não há produção de absolutamente nada; tampouco há alguma maneira possível de a vida (como a conhecemos) prosperar com alguma qualidade ou ainda de a economia existir, no que toca à sua tarefa principal, crescer transformando recursos em produtos.

E para que não mais se fira à inteligência com o tosco argumento corrente de que a melhoria do padrão de vida passa indubitavelmente pelo aumento da capacidade de produção econômica, insisto num argumento bastante simples de ser entendido: não é possível (nem mesmo imaginável) conceber uma economia dissociada da natureza, visto que não há (eis outra impossibilidade) atividade econômica e humana sem uso de água, energia, matéria, fotossíntese ou uso de solos e pradarias, por exemplo. 

De tal modo, não deixa, assim, de ser curioso senão paradoxal, ouvir o argumento em voga dos economistas do crescimento (apóstolos do expansionismo industrial e êmulos à ideia de prosperity without growth) de que o principal fundamento da macroeconomia pode sim, a bel-prazer, se esparramar por aí sem, no entanto, implicar em significativos custos ambientais. Ora, é preciso convir que isso violenta de tal maneira a realidade que chega a causar indignação. 

É difícil imaginar que a ideia de crescimento (verdadeiro dogma da modernidade) não compromete da pior forma possível a natureza, quando se sabe que o ato de produzir, na verdade, é uma ação de transformação, como foi dito acima. Assim como é igualmente difícil imaginar que o crescimento, sozinho, é capaz de assegurar tanto a prosperidade quanto a manutenção do mundo vivo, quando “amparado” sob a perspectiva do conhecido e propagado termo sustentável. 

Vem daí uma primeira pergunta básica: como sustentar (no sentido direto de manter o equilíbrio, a resistência) um constante crescimento (verdadeiro oximoro, registre-se) da produção econômica que ocorre “dentro” de um sistema complexo, a Terra, que, além de ser dotada de recursos limitados, jamais aumentará de tamanho? 

Dito isso, é oportuno lembrar (desejando ressaltar) que a economia é um sistema aberto inserido num sistema finito e materialmente fechado (a Terra) que somente se “abre” para a energia solar. Falando de forma simples, assim é a Terra, um “corpo” finito e não crescente que recebe um fluxo de energia (luz solar) e devolve calor dissipado. Portanto, quero crer que está muito claro que o crescimento ininterrupto de um subsistema (a economia) dentro de um “corpo finito” é, pois, uma impossibilidade. 

E cada vez que se aproxima dos limites planetários, esse “crescimento” se converte – vale enfatizar essa passagem – num fator gerador de desequilíbrio e custo. O custo advém do fato de a economia ser um sistema dissipativo sustentado por um fluxo metabólico, como escrevem José Eli da Veiga e Andrei Cechin. (4) 


Vale o esforço da explicação: metabolismo social (ou metabolismo socioambiental) deve ser descrito como a troca energética e de material entre os seres humanos e seu meio ambiente natural, aproximando-se do nível de esgotamento do capital natural e devolvendo ao mundo vivo todas as formas de poluição, sem que levante preocupações acerca da possibilidade de regenerar o ambiente natural. Ocorre que todo esse processo de fluxo metabólico se inicia com a utilização e consequente escasseamento dos recursos naturais e, como é fácil presumir, termina com a devolução à natureza de mais poluição.


Mas não estranhe: tudo isso, de certa forma, ainda é um assunto nevrálgico que permanece quase que ignorado pela economia convencional (neoclássica, no uso rigoroso do termo) que insiste em observar o meio ambiente, a biosfera, apenas como “partes” da macroeconomia; daí a relutância em responder, por exemplo, algumas outras perguntas básicas, tais como: i) que ritmo de crescimento é possível?; ii) quanto se pode tirar de recursos da natureza e quanto se pode devolver de resíduos ao ambiente natural via atividade econômico-produtiva, ou seja, mais produção, mais transformação de recursos e muito mais energia dissipada (maior entropia)?; iii) como conciliar a voracidade da produção econômica num mundo ecológico limitado e como combinar a verdadeira prosperidade (desenvolvimento, e não crescimento) almejada por todos sem destruição ecológica provocada justamente pela política de crescimento?

Detalhe importante: como reconhecidamente estamos num sistema de economia que se especializou em desarranjar os processos naturais essenciais para a manutenção da vida no planeta, e dado o claro predomínio da “ditadura do PIB/PNB” (indicadores associados ao desempenho econômico e ao sucesso das nações) que até mesmo visa orientar o destino humano, cada vez fica mais difícil em nossas relações cotidianas assimilar a orientação deixada pelo pensador austríaco Ivan Illich (1926-2002) de que precisamos nos desacostumar ao crescimento. 

De um tipo de crescimento, reitera-se, inclinado a aumentar o tamanho da economia, e nem tanto em melhorar essa economia; por isso a pergunta lançada recentemente pelo venerável Joseph Stiglitz merece todo o destaque possível: de que vale o PIB crescer, se a maior parte dos cidadãos está pior? (5)

Para aumentar a dose de provocação convém levantar outra indagação: de que vale estimular o aumento quantitativo (essência do crescimento) quando não raras vezes se secundariza o fator qualitativo (essência do desenvolvimento)? Aos fervorosos devotos da política de crescimento, convém lembrá-los, nesse meio-tempo, que foi o próprio Simon Kuznets (1901-1985), criador do PIB, no começo dos anos 1960, que taxativamente afirmou que é (…) preciso levar em conta distinções entre quantidade e qualidade de crescimento, entre custos e rendimentos, entre curto e longo prazo. Foi Kuznets que didaticamente assim escreveu: “metas de crescimento devem especificar o que deve crescer e para qual fim”. (6) 

De certo modo, isso é uma agressão ao modo de pensar dos arautos do crescimento, haja vista que “a ideia de uma economia que não cresça é anátema para o economista”, como escreve o britânico Tim Jackson; assim como, continua ele escrevendo, “uma economia de crescimento contínuo é anátema para o ecologista”. (7)

Polêmicas à parte, importa dizer que essa tensão retórica (tornando válido esse termo) se deve ao fato (ao menos assim se supõe) de o crescimento da economia ser visto como a pedra angular da ideia de progresso social, o que ajuda a consolidar o sentimento defendido pelos economistas com visão de mundo utilitarista – herdeiros de J. Bentham (1748-1832) – de que não há nada mais além da expectativa do crescimento econômico; como se isso fosse, note-se bem a abrangência do assunto, a razão de tudo.

Dado o que já foi colocado aqui, à luz de razoável bom senso parece mesmo que o jornalista econômico David Pilling tem toda a razão quando provocativamente afirma que “só na economia a expansão interminável é vista como virtude. Em biologia, isso se chama câncer”. (8)
 
No entanto, o problema e a tensão persistem. Como tudo é mercantilizável (por isso o PIB mede somente a parte da economia que é mercantilizada), e enquanto se avança no erro de confiar ao mercado o cuidado da sociedade e da vida das populações, um tanto mais se consolida o erro (outro) acintoso de sempre exigir crescimento infinito num planeta finito, como se realmente isso fosse possível e realizável. Objetivamente falando, acreditar nessa possibilidade (que não faz sentido) é cair na estupidez de conjecturar que a economia acontece no vazio, sem fazer uso de matéria e energia vindas da natureza. E mais: é ignorar a possibilidade de que, em alguns casos, pode ocorrer aquilo que Herman Daly chama de “crescimento antieconômico”; isto é, quando os custos costumam ser maiores que os benefícios. 

Assim, para o bom entendimento, é válido ter em conta que o crescimento econômico vai só até certo “ponto” (desconhecido). Uma vez ultrapassado esse “ponto” não há melhorias, mas sim perdas significativas, começando pela qualidade do ar que respiramos e pela devastação ambiental, afetando sobretudo a qualidade de vida nas cidades.
Se há então algum edificante conselho a ser seguido, esse certamente deve ser o de parar (dar um stop) a atividade econômica no momento exato em que os custos novos se igualam aos novos benefícios; nesse caso, abusando do “economês”, se diz que o custo marginal é igual ao benefício marginal.

Exposto isso, a conclusão de imediato soa assim: crescimento além dos limites do planeta é sinônimo de desequilíbrio imposto ao meio ambiente. Mais economia (produção de qualquer coisa) significa menos meio ambiente; mais crescimento implica em menos natureza, uma vez que, goste-se ou não, “todo crescimento sempre é uma depleção”, nos ensina José Eli da Veiga. 

Aliás, é bom que se diga que qualquer crescimento que ultrapassa “limites” (seja qual for a delimitação em questão) tende a gerar problemas. Isso acontece até mesmo com o corpo humano (a acromegalia é um exemplo disso, principalmente quando ocorre na infância ou na adolescência). Na economia não é diferente; na natureza também não o é. A propósito, escreveu Nicholas Georgescu-Rogen (1906-1994): não há nada na natureza que cresça continuamente de forma saudável. (9) 

Por fim, fica aqui o profícuo recado deixado tempos atrás por dois dos nomes mais representativos da militância ecológica brasileira, Antonio Lago e José Augusto Pádua. Escreveram eles: “A ecologia nos mostra a dimensão dos riscos que estamos correndo, cabe a nós construir as oportunidades” (10). 

Construir as oportunidades, ouso opinar, implica imaginar meios de reorientar os rumos do planeta, procurando construir o quanto antes uma nova economia devidamente combinada à conscientização ecológica. Talvez assim consigamos preparar as bases de uma civilização verdadeiramente humana.

Notas:
(1) J. GOLDEMBERG. “Progresso e meio ambiente”, artigo publicado em O Estado de S. Paulo, 18 de abril de 2006
(2) R. BREGMAN. “Utopia para realistas – Como construir um mundo melhor”. São Paulo: Sextante, 2018, (p.101)
(3) Usando a definição empregada pelas Nações Unidas, MEIO AMBIENTE é o conjunto de componentes físicos, químicos, biológicos e sociais capazes de causar efeitos diretos ou indiretos, em um prazo curto ou longo, sobre os seres vivos e as atividades humanas.
(4) A. CECHIN & J. E. VEIGA. “O fundamento central da Economia Ecológica”, in PETER H. MAY (Org.), “Economia do Meio Ambiente: Teoria e Prática”, 2° edição, Ed. Elsevier, 2010
(5) J. STIGLITZ. “People, Power and Profits – Progressive Capitalism for an Age of Discontent”. Nova York: W. W. Norton & Company, 2019
(6) S. KUZNETS. “How to Judge Quality”, The New Republic, (October 1962)
(7) T. JACKSON. “Prosperity without growth: economics for a finite planet”. London: Earthscan, 2009, (p.4)
(8) D. PILLING. “A ilusão do crescimento”, São Paulo: Alta Books Editora, 2019, (p.14)
(9) N. GEORGESCU-ROGEN. “The entropy law and the economic process”. Cambridge: Harvard Univesity Press, 1971
(10) A. LAGO & J. A. PÁDUA. “O que é ecologia”. Coleção Primeiros Passos, ed. Brasiliense, 18° reimpressão, 2017, (p. 43)
Marcus Eduardo de Oliveira é economista e ativista ambiental. Mestre em Integração da América Latina pela Universidade de São Paulo (USP). Autor de “Economia Destrutiva” (ed. CRV) e “Civilização em desajuste com os limites planetários” (ed. CRV), entre outros.

Correio Braziliense – A virada ambiental/ Editorial


O ano que se inicia, hoje, será crucial para o Brasil e o mundo quando o assunto é preservação do meio ambiente. Não são poucas as vozes governamentais e sociais, aqui e no exterior, que continuam e continuarão a defender, com todas as armas disponíveis, a preservação ambiental. 

Apesar das poderosas forças que desprezam a realidade e pregam o negativismo, ao não reconhecer que o bem-estar da população mundial depende de um meio ambiente sadio. Fortes interesses econômicos tentam desconstruir a argumentação científica, provada em incontáveis foros internacionais, de que ocorrerá um colapso climático se não houver o comprometimento das nações com o efetivo controle das mais variadas agressões à natureza.


Se a COP-25 (Conferência do Clima da Organização das Nações Unidas), realizada na Espanha, no mês passado, pode ser considerada um fracasso, há grande expectativa de que o mesmo não aconteça este ano, na COP-26, que ocorrerá em Glasgow, na Escócia, em novembro. A conferência na capital espanhola não alcançou seu objetivo principal, que era de tornar mais amplas as metas de combate às mudanças climáticas em 2020, como estipulado pelo Acordo de Paris. No acordo firmado em 2015, em solo francês, os 195 países signatários, incluindo o Brasil, se comprometeram a impedir que a temperatura da Terra subisse mais de 1,5 grau Celsius até o final deste século.

O que preocupa a comunidade científica é que as previsões não são nada otimistas. Elas revelam que, se medidas concretas não foram tomadas a tempo, a elevação dos termômetros será muito maior. A realidade vem mostrando aos líderes mundiais que não se pode mais protelar as ações de combate às mudanças do clima. Espera-se que, na capital escocesa, os países que firmaram o Acordo de Paris, finalmente, cumpram o acertado há quatro anos: a regulamentação do mercado de carbono.

Países como o Brasil, Austrália e Estados Unidos — os norte-americanos deixaram o pacto por decisão do presidente Donald Trump, mas só saem, efetivamente, este ano — talvez mudem de opinião e participem da regulação do mercado de carbono, fundamental para o controle da emissão dos gases do efeito estufa, que provoca o aquecimento global. As nações não podem se furtar à responsabilidade de defender o meio ambiente e, consequentemente, a contenção das modificações que o clima vem sofrendo nos últimos tempos, com o processo de industrialização se expandindo por todos os continentes.

Inegável que a interferência descontrolada do homem sobre o clima é sentida em todo o mundo. Hoje, são cada vez mais devastadores os incêndios florestais, as secas prolongadas, os processos de desertificação e as enchentes que provocam mortes e destruição. E o Brasil, que, ao longo dos anos, construiu uma sólida imagem de país comprometido com a preservação da natureza e o controle dos agentes poluidores, não pode jogar fora patrimônio construído com tanta dificuldade.?

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

Mar de Aral. Como a atividade agricola destruiu o 4º maior lago do Planeta.

O Mar de Aral é um lago de água salobra localizado na Ásia ocidental no território do Cazaquistão e do Uzbequistão.

O Mar de Aral já foi o 4° maior lago do Planeta. Nos anos 1960, o lago possuía 68.000 km² de área e 1100 km³ de volume de água. Porém, desde então, o nível das águas foi reduzido drasticamente em decorrência de projetos de irrigação mau-executados. Atualmente, o lago possui apenas 10% de sua antiga extensão e sua área está passando por um processo de desertificação que tem alterado a paisagem da região e afetado a vida da população local.


Região do Mar de Aral que virou deserto. Foto: Daniel Prudek / Shutterstock.com

 

Afluentes do Mar de Aral

O Mar de Aral compõe a Bacia Endorreica da Ásia Central, cujos cursos d’agua afluem para os lagos da região ocidental asiática, como o Mar Cáspio e o Mar Morto. Os principais afluentes do Mar de Aral são os rios Amu Daria e Syr Darya.

O Amu Daria é o rio mais extenso da Ásia. Suas nascentes ficam nos montes Pamir, no Tajiquistão e percorre 2.400 km até desaguar no Mar de Aral. O Syr Daria, por sua vez, nasce do encontro das águas dos Rios Naryn e Kara Daryan e percorrem 2.212 km até desaguarem no Aral.

As longas distâncias percorridas pelos rios contribuem para que o lago receba uma enorme quantidade de recursos naturais que fizeram do Mar de Aral um importante reduto biológico no meio da região desértica da Ásia Central.


Por não ter saída para o mar, com o passar de milhares de anos, a água do lago tornou-se salgada pelo acumulo de sais trazidos pelos rios, que foram se concentrando ao longo do tempo.

Problemas ambientais no Mar de Aral

Se de um lado os afluentes do Mar de Aral fizeram dele um oásis, por outro lado, com o desenvolvimento da agricultura extensiva e da urbanização ao longo do leito dos rios, seus afluentes passaram a depositar quantidade de poluentes em suas águas, como resíduos de pesticidas, agrotóxicos e efluentes industriais.

Com o tempo, a concentração de poluentes no lago foi se tornando cada vez mais elevada, resultando na perda da biodiversidade, no aumento da salinidade e na redução da população de peixes e outros animais.

A poluição do Mar de Aral afetou profundamente a vida das comunidades ribeirinhas. Atualmente, algumas cidades localizadas à beira do Mar de Aral, foram completamente abandonadas e a população que continua na região sofre com graves problemas de saúde em decorrência da poluição e da desertificação da área.

A areia do fundo do lago é rica em metais pesados e substâncias tóxicas oriundas da poluição do lago. Essa areia tem causado sérias doenças nas comunidades locais, que apresentam taxas elevadas de ocorrência de câncer e doenças pulmonares.
A redução drástica do Mar de Aral alterou o clima da região, tornando o clima mais secos e com invernos mais frios e os verões mais quentes.

Redução do nível da água

O processo de desertificação do Mar de Aral foi rápido. À esquerda, foto de satélite de 1989.
 À direita, 2014. Créditos: NASA.

Com o final da Primeira Guerra Mundial havia a necessidade de ampliar a produção de alimentos para compensar a falta dos produtos europeus no mercado. Nesse período, passaram-se a construir canais de irrigação com as águas dos afluentes do mar de Aral para abastecer as lavouras localizadas próximas ao curso dos seus afluentes.

Durante a União Soviética, o Estado investiu na ampliação dos canais de irrigação para o aumento da produtividade das áreas agrícolas nas pradarias da Ásia Central. Entretanto, os projetos foram mal executados, levando a construção de canais de irrigação ineficientes.

Com o desvio das águas dos afluentes, o Mar de Aral passou a receber uma quantidade cada vez menor de água, de forma que a redução do nível de água foi constante entre os anos 1960 e 2007. Em 1987, com a redução do nível da água, bancos de areia começaram a emergir, fazendo com que o lago se dividisse em duas porções: o Mar de Aral do Sul e do Norte.

Para amenizar os problemas da região de Aral, os governos locais têm tentado aumentar a vazão dos rios afluentes do Aral por meio de melhorias em seus sistemas de irrigação. Entretanto, o uso das águas do Rio Amy Darya para a manutenção da indústria de algodão do Uzbequistão ainda impede uma melhora efetiva nos níveis de água que chegam até o lago.

terça-feira, 31 de dezembro de 2019

Inventário florestal e formação de jovens será legado da bacia do Rio Doce

Por Redação Envolverde –


Inventário florestal e formação de jovens será legado da bacia do Rio Doce

 
O caminho para um futuro mais sustentável, com o engajamento dos jovens em toda a bacia do Rio Doce, vai muito além das reparações obrigatórias para a Fundação Renova 

O impacto do desastre ocorrido em Mariana em novembro de 2015 continua presente na vida das pessoas afetadas direta ou indiretamente nos 39 municípios ao longo do Rio Doce e seus afluentes.  Mas também é verdade que outra história começa a ser construída. Uma história que não quer apagar o passado, mas edificar um futuro mais sustentável para a região.

Por meio de diversos projetos a Renova realiza ações que permanecerão como um legado quando a fundação concluir suas ações de reparação socioambiental. A ideia é que, quando isso ocorrer, haverá muitas pessoas e organizações capacitadas a dar continuidade a projetos e planos que sejam, ao mesmo tempo, economicamente viáveis e estruturantes para o desenvolvimento da região.


Sementes da Vida


Um projeto que possui grande alcance é a Rede Sementes e Mudas, que começa seus trabalhos para atender as áreas degradadas na bacia do Rio Doce nos estados de Minas Gerais e Espírito Santo. Neste início de programa, o objetivo é desenvolver mudas e sementes de espécies nativas da Mata Atlântica para a recuperação de 5 mil nascentes e 40 mil hectares de áreas que não foram diretamente atingidas pelo rejeito da barragem de Fundão. Mas a ideia é ir além, criando uma grande cadeia produtiva para a restauração ambiental de longo prazo promovendo, dessa maneira, oportunidades de geração de emprego e renda permanentes.



Rede de Sementes e Mudas lançada no fim de 2019 para recuperação florestal. 
crédito: Leonardo Morais/Fundação Renova
A Rede de Sementes engloba coletores de sementes e produtores de mudas e, além de fornecer para a Renova, também poderá trabalhar livremente com outros interessados. Entre os principais objetivos da iniciativa está o desenvolvimento de um mercado sustentável de valorização das espécies nativas, que sirva de exemplo para ser replicado em outras partes do país.


Entre as parcerias já firmadas está a com o Assentamento Liberdade, no município de Periquito (MG). Lá vivem 33 famílias assentadas pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) e outras seis, que aguardam a conclusão de seus processos. “Com essa parceria, o desejo do MST (Movimento dos Trabalhadores Sem Terra), que atua na área, é o de produzir e ao mesmo tempo proteger a natureza. Produzir água e comida de forma sustentável”, explica Agnaldo Batista, coordenador do setor de produção do MST em Minas e, completa: “A bacia do Rio Doce sofreu 200 anos de degradação ambiental, que só se agravou com o rompimento da barragem”.


Nos viveiros do Assentamento Liberdade são produzidas 11 espécies nativas da Mata Atlântica. “Elas são divididas em duas funções ecossistêmicas: as de recobrimento, para crescer rápido em solos pobres e formar copas para combater o capim, que é uma espécie exótica e invasora, e as espécies de diversidade, que vão durar mais tempo, chegando a 100, 200 ou mais anos e garantindo a perpetuação da floresta”, conta, com otimismo, Leandro Abrahão, engenheiro florestal e analista socioambiental da Fundação Renova. Segundo ele, o trabalho acaba sendo facilitado graças à organização das famílias e a boa capacidade de produção. “Temos um potencial grande. Atualmente possuímos em torno de 700 mil mudas nos seis viveiros espalhados pelo estado”, informa Leandro.



No Viveiro Periquito são produzidas plantas para afastar as espécies invasoras
 e árvores nobres, que viverão por décadas. – crédito: Guilherme Dutra
O Assentamento Liberdade busca entidades e empresas que possuem passivo ambiental ou iniciativas de recuperação e que possam se interessar em firmar convênio. Exemplo importante do trabalho do grupo é o convênio estabelecido com a Companhia Energética de Minas Gerais, a Cemig, que servirá para reduzir o passivo ambiental acumulado em várias obras da estatal mineira que causaram desmatamento. Serão reflorestadas áreas em diferentes regiões do estado, somando 116 hectares. Parcerias também estão sendo firmadas para a criação e o desenvolvimento de outros viveiros.


Patrimônio florestal mapeado
Talvez um dos mais importantes legados a ser deixado pela Fundação Renova será o Inventário Florestal. É um estudo inédito que está sendo realizado sobre as condições da vegetação e do solo em 86.715 km² da bacia do Rio Doce. Para o projeto, serão coletados dados dos indivíduos vegetais, como: altura, diâmetro à altura do peito, espécies, entre outros.



QRCode que é instalado nas árvores catalogadas para o Inventário Florestal. crédito: Arquivo Fundação Renova
Este será o mais completo Inventário Florestal já realizado no Brasil e deve ser concluído até o final do próximo ano (2020).  A complexa tarefa está sendo levada à frente com a fundamental colaboração dos produtores rurais. As conclusões do estudo servirão como base para as futuras ações de recuperação ambiental na região.

“O inventário é muito importante para saber quais espécies ocorrem naturalmente e quais se adaptam melhor em cada tipo de ambiente, como topos de morro, áreas de encosta ou em áreas suscetíveis a alagamentos sazonais, por exemplo. Dessa forma, teremos conhecimento dos ambientes de referência para que possamos comparar o avanço do processo da restauração florestal, tendo como base ambientes de regeneração natural em diferentes estágios de sucessão ecológica”, explica Leandro Abrahão, analista socioambiental da Fundação Renova.


Compartilhando conhecimento e experiências
Por fim, o projeto “O futuro do Rio Doce somos nós”, de Formação de Lideranças Jovens, faz parte da agenda da Renova para a bacia do Rio Doce. O projeto tem como principais objetivos o engajamento e o empoderamento das comunidades, por meio de seus jovens, na construção de soluções para melhoria da qualidade socioambiental em todos os territórios impactados pelo rompimento da barragem de Fundão. As ações são organizadas, em parceria com a Renova, pelo Instituto Elos, que é uma organização com experiência em ações em regiões de alta vulnerabilidade social para fortalecer a capacidade das pessoas de transformar a própria realidade.


Em 2018, o Instituto Elos selecionou 90 jovens de 22 municípios ao longo da bacia do Rio Doce para participar de processos de formação educacional e de liderança. Hoje, 23 projetos estão sendo implementados. Entre os projetos selecionados, estão ações para reflorestamento e revitalização de nascentes, intervenções culturais, desenvolvimento profissional de jovens em situação de vulnerabilidade social, empreendedorismo negro e oficinas artísticas.


Eles atuam com ações de articulação, mobilização, formação e engajamento que contribuem para alavancar o desenvolvimento sustentável da bacia do Rio Doce. No processo de implantação, os grupos foram assessorados pelas equipes da Fundação Renova e do Instituto Elos. Importante destacar que os projetos foram escolhidos pelos próprios jovens de acordo com suas realidades e necessidades em cada território e comunidade.

Entre os projetos contemplados estão vários que repensam os cuidados com a recuperação ambiental, como o Reviva Nascentes.



“Grupo de jovens de Tumiritinga (MG) criou o grupo Reviva Nascentes 
com o apoio do Instituto Elos”. Crédito: Lucas Santos
Voltado para os jovens moradores do Assentamento 1º de Junho, em Tumiritinga (MG), a ideia vai além do trabalho de recuperação das nascentes, promovendo mutirões comunitários para criação de Sistemas Agroflorestais – os SAFs –, que buscam fazer a integração da preservação da natureza com atividades de produção agrícola. Como explica Jamesson Alves Pereira, de 27 anos, um dos três coordenadores e idealizadores do Reviva Nascentes: “O projeto é muito bacana, pois mexe com a cabeça das pessoas, o modo como elas olham para a natureza, para a água e para as nascentes. É um processo muito transformador”.

Jamesson, assim como outros jovens que integram os vários projetos apoiados pela Renova e pelo Instituto Elos, acredita que o alcance e a dimensão das atividades têm a capacidade de serem maiores: “o ato de cercar uma nascente não vai ajudar só a comunidade, mas vai ajudar o mundo inteiro”, afirma o jovem. Ele ainda analisa outros benefícios obtidos com esse trabalho coletivo: “O projeto vai dando força para gente. Por meio dele as pessoas vão se unindo, conhecendo mais sobre o outro, acho isso bom demais”, diz ele, entusiasmado.


Tudo fica realmente mais fácil quando se entende que batalhar pelo bem comum é a melhor maneira de atingir uma vida plena e sustentável para si mesmo. (#Envolverde)

Retrospectiva de 2019 e perspectivas para 2020 na área ambiental

Retrospectiva de 2019 e perspectivas para 2020 na área ambiental

Confira os principais acontecimentos do ano e o que podemos esperar para 2020 em relação a questões ambientais



Por Rede de Especialistas em Conservação da Natureza

O ano de 2019 foi marcado por uma série de discussões voltadas à questão ambiental em todo o planeta, demonstrando a relação direta que a proteção da biodiversidade tem com o desenvolvimento econômico e com o bem-estar da população. No Brasil, a pauta ambiental foi conduzida principalmente por desastres que atingiram tanto o continente quanto os mares.

“O Brasil é um País muito truculento quanto ao uso de seus recursos naturais. Temos 500 anos de história de um extrativismo irresponsável e que segue muito forte. Exploramos como um bem grandioso  sermos o País das florestas, o País campeão em biodiversidade, mas não respeitamos isso na prática”, ressalta o diretor executivo da Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS) e membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza, Clóvis Borges.
Confira alguns dos fatos que marcaram 2019 e outros que devem direcionar os debates em 2020:

2019: Desmatamento da Amazônia

 

Em comparação com o ano anterior, a área desmatada na Amazônia registrou um aumento de 29,5%, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Em 2018, foram registrados cerca de 7,5 mil km² desmatados. A área aumentou para 9,7 mil km² em 2019.


desmatamento na Amazônia
Foto: Mayke Toscano | Gcom-MT
 

2019: Queimadas na Amazônia, no Cerrado e no Pantanal

 

Segundo levantamento do Inpe, do dia 1º de janeiro ao dia 31 de agosto, cerca de 113 mil km² de áreas naturais foram queimadas na Amazônia, Cerrado e Pantanal. Em comparação com o ano anterior, essa área representa um aumento de 87%, o que equivale a duas vezes o estado da Paraíba. Pesquisadores identificaram que entre as principais causas para a ocorrência das queimadas estão o desmatamento, a preparação do solo para a agricultura e os incêndios acidentais.


queimada
Crédito: Erika Berenguer
 

2019: Brumadinho

 

Mais que um desastre ambiental, o rompimento de uma barragem da Vale, em Brumadinho (MG), foi uma tragédia humana que ocasionou 270 mortes – 13 vítimas seguem desaparecidas. Ao todo, 9,7 milhões de m³ de rejeitos vazaram do reservatório, atingindo uma área de 290 hectares ao longo de 9 quilômetros de distância até chegar ao Rio Paraopeba.


brumadinho

 

2019: Redução e extinção de áreas protegidas


Durante o ano, foi anunciada a extinção de algumas áreas de preservação brasileiras e a redução de mais de 60 unidades de conservação com estradas federais, ferrovias, portos e aeroportos dentro de seus limites. A justificativa dada foi eliminar “interferências” com estruturas existentes e dar “segurança jurídica” para os empreendimentos. Isso não se concretizou, mas o assunto deve continuar em pauta em 2020, já que a Comissão de Meio Ambiente da Câmara dos Deputados aprovou recentemente um projeto que torna obrigatória a consulta pública e a realização de estudos técnicos para reduzir ou extinguir unidades de conservação. O projeto está em avaliação na Comissão de Constituição e Justiça.

 

2019: Recorde de concentração de gases do efeito estufa 


A Organização Mundial Meteorológica (OMM) divulgou que os níveis de dióxido de carbono, metano e óxido nitroso (os três principais gases captadores de calor) atingiram concentração recorde, acelerando ainda mais os efeitos das mudanças climáticas. Entre as consequências estão condições climáticas extremas, escassez hídrica e aumento do nível do mar.


poluição do ar
Crédito: iStock

 

2019: Derramamento de óleo no litoral brasileiro


Pelo menos 900 praias foram atingidas pelo derramamento de óleo que teve início em agosto. Praias do Nordeste, além do Espírito Santo e Rio de Janeiro foram atingidas pelo desastre ambiental que afetou a biodiversidade marinha, o turismo, a economia local, a saúde e o bem-estar da população.


derramamento de óleo
Praias do Nordeste, Espírito Santo e do Rio de Janeiro foram atingidas
pelo derramamento de óleo em 2019. Créditos: Adema | Governo de Sergipe

 

Para 2020: Adaptação às mudanças Climáticas


“Em 2020, durante a COP 26, vamos fechar as regras do Acordo de Paris e apresentar de fato as ambições para conter o avanço das mudanças climáticas. Será um ano para os países darem o exemplo e os cientistas clamarem por metas mais ambiciosas. As negociações climáticas serão intensas durante todo o ano e devem ganhar grande espaço no noticiário, nas negociações bilaterais entre países, nas mobilizações sociais, nos eventos científicos e nos fóruns empresariais”, destaca o gerente de Economia da Biodiversidade da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, André Ferretti.

 

Para 2020: Mobilização dos jovens


“O fenômeno Greta Thunberg é muito interessante e afeta de uma forma bastante sensível alguns movimentos de jovens aqui no Brasil. Isso mostra uma sensibilidade e uma necessidade de protagonismo dos jovens, que reconhecem nos adultos uma incapacidade de tomada de decisão mais consistente com os desafios existentes, além de identificarem uma falta de propósitos mais sérios dos gestores atuais”, afirma Clóvis Borges.


Greta Thunberg
Foto: Anders Hellberg

 

Para 2020: Aumento das queimadas na Amazônia



“Em 2020, veremos novamente a questão ligada ao desmatamento e às queimadas. No ano que vem, próximo ao meio do ano, tudo indica que vamos ter um novo número de desmatamento na Amazônia, que tende a ser maior do que o de 2019. Como o fogo é utilizado para limpar o terreno depois de desmatar, há uma tendência também no aumento das queimadas”, relata André Ferretti, que também é membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza.

 

Para 2020: Chuvas intensas e adaptação urbana


“Temos de lembrar que todos os anos nós enfrentamos problemas com as chuvas de verão, em diferentes regiões do País. Registramos altas temperaturas e depois tempestades. Conforme os anos vão passando, a intensidade dessas chuvas aumentam e elas começam a atingir novos lugares. Precisamos exigir dos municípios planos de adaptação para diminuir essa impermeabilização das cidades com Soluções baseadas na Natureza, como o investimento na proteção e recuperação de áreas verdes, possibilitando o escoamento da água. Ao mesmo tempo, temos de reduzir as ilhas de calor nas grandes metrópoles, que atraem essas grandes tempestades”, reflete Ferretti.


raio e chuva
Créditos: iStock

Para 2020: De olho nas eleições municipais


Diante da necessidade de adaptação das cidades para minimizar os impactos de eventos climáticos extremos, Ferretti alerta que os eleitores devem ficar atentos aos planos de governo dos candidatos ao executivo municipal. É importante que os futuros prefeitos tenham em mente a necessidade de os centros urbanos serem resilientes a tempestades, períodos de estiagem, vendavais, calor e frio intensos. “Enquanto a crise climática é uma preocupação global, a adaptação e a resiliência aos eventos climáticos extremos devem ser uma preocupação local. Os futuros prefeitos devem estar atentos a isso”, diz Ferretti.

 

Para 2020: Década dos Oceanos


“Em 2020 estaremos às vésperas da Década do Oceano, definida pela ONU para o período de 2021 a 2030. As discussões sobre o tema tendem a aumentar, assim como a identificação de problemas e o desenvolvimento de soluções. É o momento do País intensificar o investimento na conservação e restauração da biodiversidade marinha, pensando em aspectos ambientais, econômicos, sociais e no bem-estar da população”, conclui Ferretti.


oceano
Créditos: iStock

Guarás são vistos em Floripa dois séculos após o último registro

Guarás são vistos em Floripa dois séculos após o último registro

O último registro oficial da espécie na região foi em 1763.
Em novembro, quem teve a oportunidade de visitar o Parque Natural Municipal do Manguezal do Itacorubi, na região central de Florianópolis, pôde observar a presença de uma ave diferente do habitual da cidade. Isso porque um bando com cerca de mil Guarás voltou a habitar os manguezais da Ilha. O último registro oficial da espécie na região foi em 1763, publicado no livro Aves de Santa Catarina.

A novidade reforça a importância para a proteção e preservação da biodiversidade nas Unidades de Conservação do Município, principalmente em áreas de mangues, pois estas aves costumam se alimentar de caranguejos presentes nos manguezais. A FLORAM (Fundação Municipal do Meio Ambiente de Florianópolis), que gere a Unidade, ressalta que estas áreas servem de proteção para os bairros da região costeira, pois amenizam a força da maré em eventos climáticos extremos, evitando enchentes.

Fabrício Basílio Almeida, pesquisador do Observatório de Áreas Protegidas e do Laboratório de Gestão Costeira Integrada da UFSC, colaborou com as informações sobre o animal. Para ele, uma hipótese plausível é que as aves tenham vindo da região norte do Estado: “Nestes locais existem grandes bandos e um deles pode ter vindo para cá. Foi uma surpresa para nós este retorno e estamos muito felizes. É propício que ocorra a procriação e estamos torcendo por isso”.

Aviary of the Oceanogràfic in Valencia. | Foto: Rafa Esteve
Os Guarás vivem em grandes colônias e costumam se alimentar no período de maré baixa e em manguezais. Em seguida, realizam revoadas em grandes grupos no fim da tarde para dormirem em meio a vegetação. Infelizmente, sua plumagem chamativa e colorida chamava a atenção de caçadores, que utilizavam suas penas para exportações e adereços festivos.

guarás
Bando de guarás em Floripa. | Foto: Fabrício Basílio Almeida

Regiões naturais preservadas geram turismo sustentável e desenvolvimento econômico

Preservar grandes áreas naturais é uma oportunidade única para impulsionar a economia regional. Além disso, os patrimônios cultural e histórico dessas regiões também são ativos importantes para fomentar o turismo e despertar o interesse em proteger áreas naturais. É isso que tem sido provado em duas iniciativas em andamento em dois biomas brasileiros – Mata Atlântica e Pantanal.

A Grande Reserva Mata Atlântica e o Alto Pantanal têm como base o conceito criado pelo biólogo espanhol Ignácio Jiménez-Pérez, apresentada no livro Produção de Natureza: Parques, Rewilding e Desenvolvimento Local. A proposta defende que a produção da natureza seja a base para o desenvolvimento econômico e social de áreas que preservam importantes patrimônios naturais.

Dessa forma, a natureza passa a oferecer produtos e atrativos que podem ser aproveitados de forma sustentável pelo turismo. Nesse sentido, a gestão adequada de áreas naturais protegidas com a finalidade de uso público – como parques nacionais, estaduais e municipais – pode trazer oportunidades permanentes de renda, principalmente às comunidades locais, a partir do investimento na proteção da área e em infraestrutura adequada para receber os visitantes.


Grande Reserva Mata Atlântica é formada por dois milhões de hectares
localizados nos Estados do Paraná, São Paulo e Santa Catarina.
Créditos: Fundação Grupo Boticário
A força da biodiversidade
O Brasil abriga a maior biodiversidade mundial, cerca de 20% das espécies do planeta. Dessas, a Mata Atlântica – bioma cujo território foi reduzido a 7% da sua cobertura original, segundo dados do Ministério do Meio Ambiente – concentra 35% da biodiversidade vegetal nacional, além de cerca de 850 espécies de aves, 370 de anfíbios, 200 de répteis, 270 de mamíferos e 350 de peixes.
A área da Grande Reserva abriga o maior remanescente de Mata Atlântica, formada por 2 milhões de hectares localizados nos estados do Paraná, São Paulo e Santa Catarina e conectados por um mosaico de áreas naturais protegidas públicas estaduais e federais e Reservas Particulares do Patrimônio Natural (RPPN).

A região conta com espécies endêmicas, como o mico-leão-da-cara-preta e o papagaio-de-cara-roxa, e animais ‘topo de cadeia’, como a onça-pintada, que indicam a qualidade ecológica do local. O objetivo da iniciativa é tornar a região um destino turístico de natureza como mecanismo para o desenvolvimento regional, envolvendo uma grande rede de atores do empresariado local, poder público, academia, gestores de unidades de conservação, ONGs e pessoas sensibilizadas,

“O patrimônio natural que temos é um importante ativo para o desenvolvimento econômico e social. É preciso fortalecer a imagem da Mata Atlântica como destino turístico e estimular a visitação para que todos compreendam a importância da conservação e que a comunidade local aprimore cada vez mais os serviços oferecidos”, afirma Malu Nunes, diretora executiva da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, que também está à frente da iniciativa.


Localizado no bioma mais bem preservado do país, Alto Pantanal foi criado para
pensar em oportunidades de negócios e melhorias para a cadeia do turismo regional.
Créditos: Lalo de Almeida | Folhapress

Egípcios plantam floresta no deserto usando efluentes de esgoto

Egípcios plantam floresta no deserto usando efluentes de esgoto

O trabalho teve início na década de 90, com o intuito de promover a ecologização de 36 pontos diferentes no deserto. A floresta Serapium é um dos frutos deste trabalho.


Plantar árvore no deserto já soa estranho, usando efluente de esgoto fica ainda mais confuso. Mas, essa é a estratégia usada por um programa de pesquisa no Egito. O trabalho teve início na década de 90, com o intuito de promover a ecologização de 36 pontos diferentes no deserto. A floresta Serapium é um dos frutos deste trabalho.

O processo de florestamento está localizado em uma bacia de drenagem para efluentes de esgoto a duas horas de Cairo. O local recebe o esgoto de mais de 500 mil habitantes, tornando-o ideal para abastecer todo o plantio que cresce em suas margens.
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Foto: Reprodução
Os pesquisadores criaram um modelo de floresta que mescla espécies nativas e exóticas de grande valor, como o eucalipto e o mogno. O solo é coberto por folhas e possui tubos de irrigação que levam água e nutrientes às árvores. O abastecimento é feito duas vezes ao dia e cada árvore recebe, em média cinco litros de água.
Foto: Reprodução
Foto: Reprodução
Como este é um recurso escasso no deserto nada de água potável é usado no processo. Todo o sistema é abastecido com os efluentes de esgoto, que passam por duas fases de tratamento antes de serem liberados na plantação. Na primeira etapa são retirados os resíduos sólidos e na segunda são incluídos micróbios e oxigênio, para decompor os materiais orgânicos.

O que chega às árvores é um líquido com alta concentração de fosfato e composto de azoto, que funcionam como excelentes fertilizantes naturais. Por conta disso, o processo deixa o crescimento das árvores muito mais rápido do que o tradicional, mesmo estando em condições climáticas tão adversas. Um eucalipto, por exemplo, leva 15 anos para crescer no Egito e alcançar o mesmo tamanho que na Alemanha levaria, em média, 60 anos.
Foto: Reprodução
Foto: Reprodução
Apesar de ser um processo com alto teor de nutrientes para o solo, ele não é adequado para o cultivo de alimentos. Neste caso, os efluentes teriam que passar por uma terceira fase de tratamento antes de seu usado nas hortas. Mas, esta é uma opção para tornar o deserto uma área produtiva, elevando a economia local, ao mesmo tempo em que colabora para o controle da desertificação. Já que, segundo a Organização para a Alimentação e Agricultura da ONU, a FAO, considera que os desertos se espalham a um ritmo de 23 hectares por minutos.

Para conhecer mais sobre este processo, assista ao vídeo abaixo, produzido pela agência alemã
Deutsche Welle:


https://youtu.be/EOSFKGay5Hg


Redação CicloVivo

Vivemos em um planeta finito, com recursos igualmente finitos, logo o desenvolvimento baseado na expansão infinita da economia não funcionará por muito tempo

Racismo ambiental. A emergência climática pode ser enfrentada por todos, ricos e pobres. Ou todos enfrentaremos um desastre em escala bíblica. Entrevista especial com Henrique Cortez

Por Patricia Fachin, IHU
O fracasso da COP25 realizada em Madri no mês de dezembro não é uma novidade, apesar do crescimento de manifestações globais e da Greve Global pelo Clima, realizada em vários países em setembro deste ano. “Com exceção do Acordo de Paris, as COPs são marcadas pelos fracassos. Ao longo do tempo, a sociedade civil vem aumentando sua compreensão e engajamento pelas mudanças necessárias diante da emergência climática, mas os países e seus negociadores caminham na direção contrária”, diz o jornalista Henrique Cortez à IHU On-Line.

Na avaliação dele, a falta de avanço nas Conferências Climáticas indica que “descarbonizar a economia é um desafio que as lideranças políticas e econômicas dos países não querem enfrentar, por diversas razões”. Entre elas, porque o comprometimento com a redução das emissões de gás carbônico “abalaria o atual modelo e sua estrutura de poder e, em segundo, porque é algo inédito, que ninguém sabe como realmente seria”, afirma. Segundo ele, o negacionismo climático que predomina em alguns setores da sociedade e atores políticos “é um dos aspectos de um evidente movimento anticiência e anti-humanista”, que implica em “retrocessos civilizatórios”.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, Cortez também comenta a agenda ambiental do primeiro ano do governo Bolsonaro e a proposta de elaborar uma Constituição da Terra, que tem sido discutida na Itália. “A ideia de um constitucionalismo universal é a mais correta, porque vivemos em uma casa comum e compartilhamos o mesmo futuro. É uma proposta lúcida e avançada, mas ainda longe de uma compreensão global”, conclui.
Henrique CortezHenrique Cortez (Foto: Arquivo pessoal)
Henrique Cortez é jornalista especializado em meio ambiente, consultor em comunicação ambiental e editor do sítio EcoDebate, um dos parceiros estratégicos do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Que avaliação faz do ano de 2019 em termos ambientais?
Henrique Cortez – 2019 foi um ano dos mais trágicos em termos socioambientais nas últimas décadas.

IHU On-Line – Em 2019 assistimos ao desastre em Brumadinho, houve recordes de queimadas na Amazônia e vazamento de óleo no litoral brasileiro. Como o senhor interpreta esses desastres ambientais?
Henrique Cortez – As três tragédias a que se refere não estão diretamente associadas, mas têm em comum que nascem da lógica do desenvolvimentismo predatório e que deixarão sequelas por muito tempo. São três desastres amplamente conhecidos, então, não é necessário descrevê-los. Prefiro discutir a lógica do modelo de desenvolvimento que orienta e justifica terríveis danos socioambientais. O desenvolvimentismo a qualquer custo se esforça pelo maior lucro, mesmo com o maior dano possível. É um modelo predatório que favorece a poucos e prejudica a todos. É, na realidade, uma ganância estúpida, porque vivemos em um planeta finito, com recursos igualmente finitos, logo o desenvolvimento baseado na expansão infinita da economia não funcionará por muito tempo. Pena que reconhecer o óbvio nem sempre seja simples.

IHU On-Line – A agenda ambiental do governo Bolsonaro foi bastante criticada neste primeiro ano. Que balanço geral faz do modo como o governo conduziu a pauta ambiental e quais foram os erros e acertos na condução da política ambiental?
Henrique Cortez – Prefiro defini-la como agenda antiambiental do governo Bolsonaro. Este foi um ano marcado por retrocessos na legislação, na conservação e na agenda socioambiental. Bolsonaro, desde sempre, expressou seu desprezo pelas questões ambientais, não apenas pela sua notória ignorância no tema, mas porque possui uma visão de mundo da primeira metade do século XX.

É estranho, mas a atual versão tosca e bruta do desenvolvimentismo usa argumentos semelhantes aos que os capitães da indústria, mineradores, banqueiros e políticos populistas usavam na década de 30 do século passado. E já sabemos o que veio em seguida.
Mas é hora de parar com a desculpa esfarrapada de que o desenvolvimentismo a qualquer custo gera impostos, emprego e renda. O desenvolvimento predatório privatiza o lucro e socializa o prejuízo. Ou para quem precisa de desenho — poucos ganham e muitos perdem.

IHU On-Line – No Brasil e em alguns outros países têm havido um movimento político de contestação das mudanças climáticas e também de outras pautas ambientais no sentido de negá-las. Como o senhor compreende esse fenômeno e quais são os riscos ambientais, sociais e políticos desse tipo de postura?
Henrique Cortez – O negacionismo climático é um dos aspectos de um evidente movimento anticiência e anti-humanista, empenhado em diversos retrocessos civilizatórios, em alguns temas até antes do pré-iluminismo.
Negacionismo climático, terraplanismo, movimento antivacina, criacionismo, fundamentalismo religioso, supremacismo, messianismo político etc., que se acreditava superados, retornam com vigor e violência, em defesa de uma visão de mundo binária, maniqueísta, que, acima de tudo, é inimiga da diversidade biológica, etnocultural, ideológica, religiosa etc. Retrocessos civilizatórios são assustadores. Não importa se os retrocessos são justificados por razões políticas, ideológicas ou religiosas, porque eles nos fazem menos humanos do que poderíamos ser.

IHU On-Line – Muitos ambientalistas avaliam que a COP25 foi um fracasso. Compartilha desse diagnóstico? Se sim, a que atribui o resultado, num ano em que se intensificaram as manifestações sobre as mudanças climáticas?
Henrique Cortez – Com exceção do Acordo de Paris, as COPs são marcadas pelos fracassos. Ao longo do tempo, a sociedade civil vem aumentando sua compreensão e engajamento pelas mudanças necessárias diante da emergência climática, mas os países e seus negociadores caminham na direção contrária.
Em geral, os países são a favor de tudo, desde que o tudo se refira aos outros. Descarbonizar a economia significa uma imensa modificação no modelo econômico, ou seja, algo que nenhum líder político arriscará. Nada é mais importante para um político do que a sua própria sobrevivência política.

IHU On-Line – Neste ano, assistimos a algumas manifestações internacionais em prol do clima, denunciando os efeitos das mudanças climáticas e cobrando ações políticas dos governos. Figuras como o Papa Francisco e a ativista Greta têm sido tomados como referência na mobilização pela questão climática. Ao mesmo tempo, a Organização Mundial Meteorológica – OMM divulgou a informação de que os níveis de dióxido de carbono, metano e óxido nitroso atingiram concentração recorde. Que efeito esse tipo de mobilização e de informação tem gerado? Qual é o impacto dessas figuras e dessas informações na luta pelo clima?
Henrique Cortez – Como disse, uma parcela da sociedade já compreendeu que caminhamos para o desastre e está se mobilizando, na tentativa de evitar o pior. Ainda é uma pequena parcela, mas luta para ser ouvida e ampliar a compreensão do que nos espera.
O Papa Francisco e Greta Thunberg são lideranças muito diferentes, mas compartilham a visão de futuro e a crítica de que estamos no caminho errado. Eles nos lembram de que a atitude ecocida também é suicida. E, exatamente por isto, enfrentam resistências e críticas desqualificadoras.
Espero que as manifestações aumentem e que mais e mais pessoas compreendam a dimensão da crise que se aproxima, permitindo, inclusive, que surjam novas lideranças políticas, realmente comprometidas com as mudanças necessárias, por mais difíceis que sejam. Não é possível discutir alternativas de futuro com lideranças políticas e econômicas presas ao passado.

IHU On-Line – Desde o Protocolo de Quioto, há uma dificuldade de os países chegarem a alternativas para enfrentar a crise climática. Por quê? Quais são as dificuldades de tratar essa questão?
Henrique Cortez – Descarbonizar a economia é um desafio que as lideranças políticas e econômicas dos países não querem enfrentar, por diversas razões. Em primeiro, porque abalaria o atual modelo e sua estrutura de poder e, em segundo, porque é algo inédito, que ninguém sabe como realmente seria.
Governos de países como EUA, Rússia, Austrália, Arábia Saudita, e agora o Brasil, são assumidamente negacionistas climáticos porque querem preservar a economia emissora de carbono. Descarbonizar a economia para estes governos é uma blasfêmia.
Apegar-se ao passado impede a compreensão do futuro e isto vale para governos e pessoas. No momento, poucos estão realmente comprometidos com um futuro minimamente aceitável. E não vejo que isto vá mudar na próxima década.

IHU On-Line – Qual a sua avaliação de movimentos como o Fridays for Future? Por que a Europa e os EUA aderiram às greves pelo clima com muito mais força que os países do Sul?
Henrique Cortez – Movimentos como o Fridays for Future são exemplos de uma sociedade civil cada vez mais consciente dos desafios e das necessidades de mudança, não apenas na questão climática, mas também por uma sociedade mais justa e igualitária. Os temas de fundo são variados, mas críticos ao modelo atual.
Não sei por que isto ainda é mais forte na Europa e nos EUA do que nos países do hemisfério Sul, mas acredito que seja pela grande disparidade nos problemas do cotidiano. Ainda estamos discutindo educação, saúde, saneamento, habitação, desigualdade, geração de emprego e renda, enquanto que vários desses temas já foram superados nos EUA e Europa.
Além da nossa histórica alienação, também estamos tentando melhorar a nossa vida hoje, sem conseguir como refletir no futuro. A sobrevivência do indivíduo ainda pesa mais do que a sobrevivência do coletivo.

IHU On-Line – A partir do resultado da COP25, quais são as expectativas em torno do anúncio das metas climáticas a serem anunciadas pelos países signatários do Acordo de Paris em 2020, na COP26 em Glasgow?
Henrique Cortez – Sinceramente, expectativa alguma. Ao contrário, com a crescente ascensão global do populismo, acho que os eventuais avanços serão milimétricos.
IHU On-Line – No atual cenário de crise migratória, crise econômica e tensões internas em vários países do mundo, qual a perspectiva de a pauta ambiental ganhar destaque no próximo ano?
Henrique Cortez – A sociedade aos poucos vai percebendo que a agenda socioambiental não é acessória e, por isto, deve estar no centro das discussões nacionais e internacionais. A distância entre a vontade da sociedade e as decisões de seus governos deve aumentar. Não sei se este distanciamento cada vez maior caminhará na direção de um rompimento, mas, cedo ou tarde, a sociedade se fará ouvir.
Não apenas no próximo ano, mas também na próxima década, não vejo mudanças significativas. As mudanças virão quando deixarem de ser consenso científico para tornarem-se consenso na sociedade, pouco importando se do hemisfério Sul ou Norte.

IHU On-Line – Em que medida a concepção de uma outra economia, como a que tenta inspirar o Papa Francisco, pode contribuir tanto para repensar a economia quanto a crise climática e social?
Henrique Cortez – Acho a reflexão proposta pelo Papa Francisco por uma ‘economia que dá vida e não mata’ importante e necessária, mas não acho que esteja sendo acolhida. Mesmo dentro da igreja e na maioria dos fiéis, as ideias do Papa Francisco ainda são relativizadas, quando não ignoradas.
A Encíclica Laudato Si’, por exemplo, é primorosa na defesa do cuidado da casa comum. Deveria ser pauta de discussão, mas é amplamente ignorada. Mudar é algo difícil para qualquer pessoa e, para sociedades e seus governos, é imensamente mais difícil. Mas acho importante que ele continue indicando novos caminhos. É o certo a fazer e ele parece comprometido com isto. “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça!”.

IHU On-Line – Quais são as perspectivas na pauta ambiental para o próximo ano do governo Bolsonaro?
Henrique Cortez – Trágicas, não apenas no próximo ano, mas em todo o mandato. Transtorno delirante persistente, suposições conspiracionistas, achismo militante, desenvolvimentismo predatório e o racismo ambiental agora são orientadores de políticas públicas.
Na melhor das hipóteses, a agenda antissocioambiental deve evoluir ao longo do mandato. Na pior, deve se acelerar, na lógica de “Après nous le déluge” (Depois de nós, o dilúvio).

IHU On-Line – Qual deve ser o peso da agenda ambiental nas eleições de 2020?
Henrique Cortez – A agenda ambiental sempre foi ignorada em eleições municipais. As pessoas, em geral, pensam nos prefeitos como ‘síndicos’ municipais, essencialmente responsáveis pela zeladoria das cidades. Além disso, com tantos desafios na saúde, educação, habitação, transportes urbanos, parece que a questão ambiental é irrelevante. Não é, ao contrário, a ecologia urbana é central nesses temas, mas isto não é percebido pela população e menos ainda pelos políticos. Sintetizando, creio que a agenda ambiental não terá peso nas eleições de 2020.

IHU On-Line – Na Itália, alguns têm proposto uma Constituição da Terra como um instrumento para “salvar” o Planeta. Como vê essa possibilidade? Um constitucionalismo universal seria uma via alternativa para resolvermos os problemas de hoje?
Henrique Cortez – A ideia de um constitucionalismo universal é a mais correta, porque vivemos em uma casa comum e compartilhamos o mesmo futuro. É uma proposta lúcida e avançada, mas ainda longe de uma compreensão global.
A crescente postura soberanista e antiglobalista, compartilhada pelo governo Bolsonaro, caminha na direção contrária e ainda é a visão dominante. Uma visão equivocada, porque as crises socioambientais não reconhecem fronteiras ou bandeiras. É uma grave tolice egocêntrica, desconectada da realidade.

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?
Henrique Cortez – Para muitos, um aquecimento de 2°C até o final do século está dentro dos limites do aceitável e, por isto, quaisquer ações só se justificam para um aquecimento potencial maior do que isto.
Mas isto supõe um evidente racismo ambiental, que acredita que os maiores impactos serão nos países mais pobres, concentrados no hemisfério Sul. De fato, os países pobres sofrerão mais e mais rápido, mas os países ricos também serão afetados. Os ricos poderão morrer por último, mas também morrerão.

Então, a emergência climática pode ser enfrentada por todos, ricos e pobres. Ou todos enfrentaremos um desastre em escala bíblica.

(EcoDebate, 23/12/2019) publicado pela IHU On-line, parceira editorial da revista eletrônica EcoDebate na socialização da informação.

[IHU On-line é publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos Unisinos, em São Leopoldo, RS.]