sexta-feira, 6 de março de 2020

Descoberta a nova "cara" da poluição por plástico


Descoberta a nova "cara" da poluição por plástico

Descoberta a nova "cara" da poluição por plástico
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ANP|WWF

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A descoberta aconteceu a 6900 metros de profundidade, na Fossa das Marianas, no Oceano Pacífico. O local, situado entre o Japão e as Filipinas, é um dos lugares mais profundos do planeta.

O anfípode (pequeno crustáceo) foi descoberto por investigadores da Universidade de Newcastle. No corpo do crustáceo encontraram tereftalato de polietileno (PET), uma substância encontrada em utensílios domésticos de uso comum, como garrafas de água e roupas de ginástica. Por causa do plástico que ingeriu, a nova espécie foi oficialmente nomeada de Eurythenes plasticus. A pesquisa, apoiada pela World Wide Fund for Nature (WWF), foi publicada hoje na revista científica Zootaxa.

Heike Vesper, diretor do Programa Marinho da WWF Alemanha, afirmou que “a espécie recém-descoberta mostra-nos o quão abrangente são as consequências da nossa utilização excessiva e fraca gestão de resíduos plásticos. Existem espécies que vivem nos lugares mais profundos e remotos da Terra que já ingeriram plástico antes mesmo de serem conhecidas pela humanidade. Os plásticos estão no ar que respiramos, na água que bebemos e agora também nos animais que vivem longe da civilização humana”.

Alan Jamieson, chefe da missão de pesquisa da Universidade de Newcastle, sublinha que são precisas medidas imediatas para impedir o dilúvio de resíduos plásticos nos oceanos.

ANP|WWF
Antes de chegarem aos corpos dos animais marinhos, estes residos fazem uma longa viagem, que normalmente começa em países industrializados.


De acordo com estimativas globais, a percentagem de objetos reciclados no período 1950-2015 foi apenas de 9%, sendo que 12% foi incinerado. Os restantes 80% ficaram acumulados em aterros e perdidos no meio ambiente.
Uma vez na água, a poluição por plástico decompõe-se em microplásticos e nanoplásticos. Espalha-se pelo oceano e é ingerida por animais marinhos como Eurythenes plasticus.

Em Portugal, a maior parte do lixo marinho encontrado nas praias é plástico descartável. O relatório da ANP (Associação Natureza Portugal) |WWF“X-Ray da Poluição por Plástico - Repensar o Plástico em Portugal” identifica vários registos da ingestão de plásticos por algumas espécies aquáticas: um estudo no sul do país observou plásticos no organismo de 22,5% das 160 aves marinhas analisadas e outro estudo ao longo da costa portuguesa identificou plásticos em 12,9% das 288 aves analisadas.

Catarina Grilo, Diretora de Conservação e Políticas da ANP|WWF lembra que “Nem todos os espécimes da nova espécie E. plasticus contêm plásticos. Portanto, ainda há esperança de que o nome E. plasticus sirva apenas de lembrança da extensão da poluição marinha por plásticos no mundo".


A vida secreta das árvores e o déficit de natureza,

A vida secreta das árvores e o déficit de natureza, artigo de José Eustáquio Diniz Alves

“Este mundo curioso que nós habitamos é mais maravilhoso do que conveniente,
mais bonito do que útil, mais para ser admirado e apreciado do que usado”
Henry Thoreau (1817-1862)
“O bem-estar e o florescimento da vida humana e da não-humana sobre a terra têm valor em si próprios (valor intrínseco, valor inerente). Esses valores são independentes
da utilidade do mundo não-humano para os propósitos humanos”
Arne Næss e George Sessions (1984)

A vida secreta das árvores
Imagem: Amazon
[EcoDebate] O livro “A vida secreta das árvores”, do cientista alemão Peter Wohlleben (Editora Sextante, 2015), começa da seguinte forma: “Quando comecei a carreira como engenheiro florestal, eu sabia tanto sobre a vida secreta das árvores quanto um açougueiro sabe sobre os sentimentos dos animais. 

A silvicultura moderna é uma ciência que estuda os métodos naturais e artificiais de regeneração dos povoamentos florestais, mas, na prática, busca a produção de madeira, ou seja, derruba árvores para aproveitar os troncos e, em seguida, plantar novas mudas no lugar. 

Ao ler qualquer periódico especializado, logo se tem a impressão de que o bem-estar da floresta só interessa na medida em que é necessário para sua administração operacional otimizada. Aos poucos essa rotina distorce sua visão das árvores. Todos os dias eu avaliava centenas de abetos, faias, carvalhos e pinheiros para saber se podiam ir para a serraria e descobrir seu valor de mercado, e isso só serviu para estreitar minha percepção do assunto”.

Ou seja, Wohlleben tinha uma visão instrumental das florestas e das árvores. Nessa perspectiva, tanto ele, quanto a maioria dos seres humanos, só dão valor à natureza na medida em que esta pode fornecer bens e serviços que ajudem ao enriquecimento das pessoas. Esta posição antropocêntrica tem dominado o progresso e o avanço da civilização, desde o florescimento do Homo sapiens, e que foi a pedra angular da construção do mundo moderna, que tem como base a oposição entre o enriquecimento da humanidade e o empobrecimento do meio ambiente. 

As florestas são fundamentais para a sustentabilidade. Nos cursos de ecologia aprendemos o quanto dependemos das árvores. Elas retiram dióxido de carbono da atmosfera, nos dão oxigênio por meio da fotossíntese, absorvem poluentes e amortecem o ruído. As árvores nos fornecem abrigo, alimento, fibras, ajudam a evitar a erosão. Se todos esses benefícios forem colocados em termos monetários, daria uma fortuna.

Mas as árvores possuem outras verdades secretas. No segundo parágrafo do livro, Peter Wohlleben diz: ““Há cerca de 20 anos, comecei a oferecer treinamento de sobrevivência e excursões na floresta. Mais tarde, também passei a cuidar das áreas de reserva e a administrar funerais naturais – prática em que as cinzas do corpo humano são enterradas em urnas biodegradáveis ao pé das árvores. 

Conversando com muitos visitantes, mudei minha forma de enxergar a floresta. As árvores tortas, retorcidas, que antes eu considerava de menor valor, deixavam os visitantes fascinados. Aprendi com eles a não prestar atenção só nos troncos e em sua qualidade, mas também em raízes anormais, padrões de crescimento diferentes e camadas de musgo na casca das árvores”.

O autor mostra que a vida das árvores, com suas mais distintas características, se organiza em uma “comunidade social”. Ele mostra o relacionamento entre as diversas espécies, a educação e o cuidado com os brotos, a questão do coletivo, a defesa contra ameaças externas, a reprodução, a noção de tempo e muitos outros detalhes da vida vegetal. Ao longo dos capítulos, os leitores vão se identificando com estes seres incríveis e com a complexidade da natureza e o entendimento como todas as coisas nos ecossistemas estão interligadas. 

Em um vídeo no Youtube (17/03/2017), o cientista alemão e a cientista Suzanne Simard (da Universidade de British Columbia, Canadá) explicam como se dá a comunicação entre as árvores e a teia da vida que existe em uma floresta. Eles mostram que as árvores são seres vivos que têm sentimentos e sabem se comunicar entre si, além de formarem uma floresta onde todos (ou quase todos) se ajudam e contribuem para formar um organismo vivo e dinâmico. 

Estas descobertas vêm reforçar as teses de Alexander von Humboldt (1769-1859) e Henry Thoreau (1817-1862) que já mostravam, no século XIX, que a natureza é um todo vivo e que cada espécie tem o seu valor próprio independente do egoísmo humano. A escola de pensamento conhecida como “Ecologia Profunda” também advoga uma visão ecocêntrica da natureza. Segundo Arne Næss e George Sessions (1984): a vida não humana “têm valor em si próprios (valor intrínseco, valor inerente). Esses valores são independentes da utilidade do mundo não-humano para os propósitos humanos”.

Uma forma de reconhecer a importância das árvores e reconhece-las como seres evoluídos e integrados de maneira simbiótica à natureza é através do movimento “abraçar árvores” ou “abraços de árvores” (Tree Hugger). Como mostra Ian Spellerberg (16/02/2017), os abraçadores de árvores são pessoas que não só reconhecem a importância e o valor destes seres vegetais lindos e importantíssimos, mas também são pessoas que se beneficiam da energia emanada pelas árvores e pelas matas. Abraçar árvores traz benefícios para a saúde física e mental, sendo que os abraçadores de árvores contribuem significativamente para a sustentabilidade ambiental e social.

Segundo diversos especialistas, frequentar parques e florestas faz bem à saúde. Segundo eles, o contato com a natureza afasta o estresse, revigora as energias e melhora a qualidade de vida das pessoas. Matéria de Mariana Della Barba, na BBC, mostra que o ‘déficit de natureza’ provoca problemas físicos e mentais em crianças. Para o pesquisador americano Richard Louv, autor do livro A Última Criança na Natureza, existe uma doença chamada “Transtorno de Déficit de Natureza”, pois a falta de contato das crianças com a natureza causa problemas físicos, como a obesidade, e mentais, como depressão, hiperatividade e déficit de atenção.

Artigo de Andrew Nikiforuk (22/10/2018), com base em entrevista com a famosa botânica irlandesa Diana Beresford-Kroeger, discute o efeito dos incêndios florestais na América do Norte, que somente na Colúmbia Britânica, liberaram entre 150 e 200 megatoneladas de dióxido de carbono em 2017. Isso é mais que o dobro do volume criado por atividades humanas na província. Ela considera que a civilização moderna, ao demonizar o fogo e ampliar as construções em áreas florestais, fizeram com que as florestas se tornassem mais densas, uniformes e inflamáveis. O ar seco desseca os tubos polínicos. Como resultado, as sempre-vivas produzem mais oleorresinas, que podem alimentar incêndios: “Quanto mais oleoresina, maior a carga de fogo.”

O Brasil com o maior superávit de biocapacidade do planeta não tem dado valor à sua riqueza natural. Infelizmente, o país tem derrubado árvores desde a exploração do pau-brasil pelos exploradores portugueses, sendo que já derrubou cerca de 90% da Mata Atlântica. Não satisfeita, a nação brasileira continua desmatando e defaunando suas riquezas naturais, pois já derrubou 20% da Amazônia e 50% do Cerrado, sem falar nos demais biomas que foram igualmente degradados.
E o mais preocupante é que o desmatamento na região amazônica cresceu 48,8% durante a campanha eleitoral (de agosto a outubro de 2018). Segundo o Deter B, projeto do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) que monitora o desmatamento em tempo quase real para subsidiar a fiscalização ambiental a floresta perdeu 1.674 km2 nesses três meses, área um pouco maior do que a do município de São Paulo.

Ou seja, em vez de conhecer a vida social das árvores e se encantar com a beleza e os benefícios da floresta, os brasileiros estão destruindo uma riqueza incomensurável e provocando um holocausto biológico de grandes proporções. 

O livro de Peter Wohlleben mostra o quão estúpidos, ecocidas e suicidas são as pessoas e os governos que permitem uma aniquilação ecológica e a extinção da biodiversidade. 

Um dia, talvez, a humanidade vai perceber que a “sociedade das árvores” é muito mais democrática e sustentável do que a egoísta e ecocida sociedade humana.

José Eustáquio Diniz Alves, Colunista do Portal EcoDebate, é Doutor em demografia e professor titular do mestrado e doutorado em População, Território e Estatísticas Públicas da Escola Nacional de Ciências Estatísticas – ENCE/IBGE; Apresenta seus pontos de vista em caráter pessoal. E-mail: jed_alves@yahoo.com.br

Referências:

Peter Wohlleben. A vida secreta das árvores, Sextante, 2015
Peter Wohlleben. A vida secreta das árvores, Sextante, Youtube, 17 de mar de 2017
As árvores conversam, conhecem laços familiares e cuidam de seus filhos? Isso é estranho demais para ser verdade? https://www.youtube.com/watch?v=DBRg-2N3sMI
Arne Næss and George Sessions. Basic Principles of Deep Ecology, The Anarchist Library, 1984
Ian Spellerberg. A hug for the tree huggers: Why ‘tree hugger’ is not an insult, Feb 16 2017 https://www.stuff.co.nz/environment/89427331/A-hug-for-the-tree-huggers-Why-tree-hugger-is-not-an-insult
Frequentar parques e florestas faz bem à saúde, 22 de Junho de 2016
Mariana Della Barba. ‘Deficit de natureza’ provoca problemas físicos e mentais em crianças, alerta especialista, BBC Brasil, 25 junho 2016
Andrew Nikiforuk. Tree Teachings: How Forests and Wildfires Are Critically Linked, TheTyee, 22 Oct 2018 https://thetyee.ca/News/2018/10/22/Tree-Teachings-Forest-Wildfires/?fbclid=IwAR35svh2kEDZD8XftxlAukEb1bRcF_NbJlkso-mRTeb-QHcmk_ZCYEcQxI4

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 14/12/2018
A vida secreta das árvores e o déficit de natureza, artigo de José Eustáquio Diniz Alves, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 14/12/2018, https://www.ecodebate.com.br/2018/12/14/a-vida-secreta-das-arvores-e-o-deficit-de-natureza-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/.

[CC BY-NC-SA 3.0][ O conteúdo da EcoDebate pode ser copiado, reproduzido e/ou distribuído, desde que seja dado crédito ao autor, à EcoDebate e, se for o caso, à fonte primária da informação ]

Resoluções ambientais para o ano novo, artigo de Marina Bhering



Resoluções ambientais para o ano novo, artigo de Marina Bhering



reciclagem
Foto: EBC
[EcoDebate] Feliz ano novo! Agora que o carnaval acabou, finalmente o ano do brasileiro começou. Todos os problemas que deixamos para resolver depois da folia agora nos engole, incluindo as resoluções para o novo ano, que prometemos lá em janeiro. Você ainda lembra da sua lista?

O início de um novo ano abre um leque de possibilidades. A sensação de que tudo pode acontecer é o gatilho incentivador que você precisa para mudar velhos hábitos e transformar sua vida de uma vez por todas. O ritual simbólico da passagem de ano nos preenche de coragem para finalmente tirar do papel aquela velha promessa de frequentar a academia, ter uma vida mais saudável, ler mais livros.

Talvez sua lista inclua também começar um trabalho voluntário, ajudar um abrigo ou escolher uma organização para colaborar financeiramente. Mas você já pensou que pode incluir mudanças de hábitos simples que podem fazer muita diferença para o planeta?

Antes de relembrar, fazer ou concluir sua lista de resoluções e metas para 2020, te convido a refletir sobre a situação do planeta atualmente e seus hábitos enquanto morador desta casa. Existe uma gama de ações que podemos adotar para cuidar do meio ambiente. Desde as mais simples, como fechar a torneira ao escovar os dentes, até ir à campo enfrentar as chamas, qualquer ação é válida e tem muito valor.

Escrevi minhas metas para 2020 e incluí novos hábitos que você também pode adotar ou se inspirar.

Medicamentos
As cartelas de medicamentos usados não podem ser descartadas diretamente no lixo comum. Enviadas para aterros ou lixões, esses materiais podem contaminar o solo e lençol freático. No cenário ideal, todas as farmácias deveriam receber as cartelas e medicamentos vencidos e fazer a destinação de forma ambientalmente correta. Enquanto isso não é realidade, você pode “colecionar” as cartelinhas por alguns meses e procurar a farmácia mais perto da sua casa ou trabalho que recebe este material. Não esqueça que as caixinhas de papelão e as bulas devem ir para a reciclagem.

Rolinhos de papel higiênico
Já parou para pensar que o rolinho do papel higiênico é feito de papelão e, portanto, totalmente reciclável? Quantos rolinhos você já descartou no lixo comum do seu banheiro quando poderia ter destinado o material para a reciclagem? Se você gosta de artes, pode transformar os rolinhos em brinquedos ou quadros. Basta uma rápida pesquisa na internet para ver dezenas de possibilidades para reaproveitar materiais como o rolinho. Aproveite o embalo e fique atento ao lixo da sua casa: garanto que há muito mais produtos recicláveis do que você imagina – embalagens de pasta de dente ou shampoo, caixas de presente, sacolas de papel, garrafas de plástico, embalagem de congelados…

Descartáveis
O plástico está tão presente na nossa rotina que quase já não percebemos sua presença. Porém já sabemos os efeitos devastadores de seu descarte incorreto para o meio ambiente. O material precisa de mais de 400 anos para se decompor. Sem o destino correto, centenas de milhares de resíduos plásticos vão parar nos oceanos, impactando o ecossistema marinho. Os animais não são capazes de identificar o material e acabam ingerindo-o pensando que é comida. O plástico não é digerido e os bichos morrem por inanição. Baleias já foram encontradas com mais de 100 toneladas de plástico em seu estômago, bem como aves e tartarugas.

Inclua na sua lista adotar um canudo de aço inox, vidro ou bambu; e um copo e/ou garrafa reutilizável. Assim, você fica preparado para qualquer ocasião e pode recusar, de uma vez por todas, canudos, copos e garrafas de plástico.

Lixo eletrônico
O chuveiro da minha casa queimou recentemente e, apesar da visita de um eletricista, não teve conserto. Ele foi para a área de serviço, ao lado de um estabilizador para computador, um controle remoto velho, cabos e pilhas. Esta foi a primeira vez que me dei conta do lixo eletrônico que estava gerando. E agora, o que faço com tudo isso? Esse tipo de resíduo também não pode ser descartado no lixo comum pelo risco de contaminação. Existem empresas especializadas na reciclagem de lixo eletrônico e algumas aqui de Belo Horizonte, inclusive, buscam os produtos em casa.

Estas são algumas das minhas resoluções para cuidar melhor do planeta. Como você pode ver, não é nada complicado e nem difícil de incluir na rotina. O ano já começou! O que você vai fazer pelo planeta em 2020?

Marina Bhering é jornalista. Especialista em comunicação e marketing digital e ativista ambiental.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 05/03/2020

Resoluções ambientais para o ano novo, artigo de Marina Bhering, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 5/03/2020, https://www.ecodebate.com.br/2020/03/05/resolucoes-ambientais-para-o-ano-novo-artigo-de-marina-bhering/.

Os rios e as cidades

Os rios e as cidades

Para demonstrar como os governos vêm ignorando alertas sobre mudança climática e o planejamento integrado das cidades, o manifesto mais contundente, nas capitais mineira e paulista, veio dos próprios rios

19 de fevereiro de 2020 - Por Malu Ribeiro
 
Por Malu Ribeiro, Gustavo Veronesi e Marcelo Naufal*

As enchentes que atingiram as regiões metropolitanas de São Paulo e Belo Horizonte deixaram evidente o quanto as nossas cidades estão despreparadas para eventos climáticos extremos. Cientistas e especialistas têm alertado que esses eventos tendem a se intensificar daqui para frente e se repetir em intervalos cada vez mais curtos.

Para demonstrar como esses alertas e o planejamento integrado das cidades, regiões metropolitanas e bacias hidrográficas não são priorizados pelos governos, o manifesto mais contundente, nas capitais mineira e paulista, veio dos próprios rios. As águas ressurgiram violentamente após as chuvas, demonstrando que canalizar, tampar e retificar rios, ocupando suas margens, foi um erro. Esse modelo urbanístico, que escondeu os rios e impermeabilizou o solo, não se adequa às mudanças climáticas.

As enchentes deste início de ano não podem ser atribuídas somente às chuvas, por mais intensas que tenham sido, pois há um vasto acúmulo de conhecimento, de recomendações técnicas e planos, como o de macrodrenagem da região metropolitana de São Paulo. Esses planos reúnem um conjunto de ações e estratégias que precisam ser implementadas de forma integrada e continuada. A segurança hídrica nas regiões metropolitanas de Minas Gerais e de São Paulo depende da gestão integrada da água e do solo e da proteção da mata atlântica, em especial nas áreas de manancial.

Neste momento de solidariedade às vítimas e de esforços para recuperação das cidades, é muito importante redobrar a atenção para a necessidade de ações preventivas. A própria Organização das Nações Unidas recomenda a urgente adoção de soluções baseadas na natureza para que as cidades possam se adaptar às mudanças do clima.

Para São Paulo, essa recomendação significa que é preciso ampliar as áreas verdes, retirar do papel os 110 parques lineares que a cidade já deveria ter recebido e que possibilitariam requalificar os rios urbanos criando áreas de lazer e segurança para as comunidades.

Na região metropolitana de São Paulo, o Parque Várzeas, localizado na zona leste da capital até o município de Itaquaquecetuba, tem o objetivo de aumentar a capacidade de absorção de água na bacia do Alto Tietê, em uma região altamente impermeabilizada e contribuir para diminuir enchentes. As várzeas e áreas verdes exercem a função de esponja, aumentando a infiltração da água no solo.
Por esse motivo, é urgente a recuperação dessas áreas, em especial nos trechos alterados por ocupações irregulares, com realocação e reassentamento das moradias existentes para áreas seguras, dotadas de saneamento básico e infraestrutura.

É preciso também cobrar das autoridades atenção para o grave problema social que é a falta de moradias populares, que leva ao aumento de ocupações irregulares em áreas de risco e sem serviços de saneamento básico. Muitas pessoas vítimas das enchentes na bacia do Tietê estavam morando em áreas irregulares.

Vale destacar que a legislação ambiental voltada a promover segurança hídrica e climática vem sendo enfraquecida no Brasil. Como ocorreu com o Código Florestal de 1965, que seguia critérios científicos para proteger topos de morro, fundos de vale e beiras de rios, com distâncias adequadas para as faixas de preservação permanente. No Novo Código essas faixas de proteção foram muito reduzidas com efeitos nocivos ao ambiente, aumentando os riscos à população que passou a ocupar de forma mais intensa essas áreas.

As leis de uso do solo devem ser analisadas com maior critério para estimular o planejamento das cidades com ampliação de áreas verdes, de pavimentos permeáveis, calçadas e telhados verdes, sistemas de bacias de contenção e eco-piscinões associados a praças, parques e equipamentos de convívio social e lazer. Essas medidas podem trazer melhoria no microclima e para a saúde, e contribuições para minimizar os impactos de eventos extremos como esses.

Para a bacia hidrográfica do Tietê, que corta o estado de São Paulo de leste a oeste, é urgente a recuperação ambiental dos sistemas de barragens, eclusas e reservatórios do Sistema Tietê – Pinheiros, com o desassoreamento, recuperação da qualidade dos rios e definição de novas regras operativas capazes de promover o manejo mais adequado das águas, nos momentos de chuva e estiagem, com aperfeiçoamento dos sistemas de alerta e informação à sociedade.

Por fim, o mundo tem falado sobre as cidades do futuro, tema destacado nos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS 11). Podemos ainda citar os ODS 6 (água potável e saneamento), além de muitos outros que, indiretamente, têm relação com a questão ambiental. Já passou da hora das cidades brasileiras, principalmente as consideradas mais desenvolvidas, aplicarem um desenvolvimento que seja, de fato, justo, inclusivo e sustentável.

Malu Ribeiro é jornalista e gerente da causa Água Limpa da Fundação SOS Mata Atlântica.
Gustavo Veronesi é geógrafo e coordenador técnico do projeto Observando os Rios da Fundação SOS Mata Atlântica.

Marcelo Naufal é advogado e monitor do projeto Observando os Rios da Fundação SOS Mata Atlântica.

Crédito: Artigo publicado originalmente no NEXO Jornal em 18/02/2020

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Setores unidos reforçam movimento contra retrocessos legislativos

Setores unidos reforçam movimento contra retrocessos legislativos

Ambientalistas e indígenas convergem agendas de trabalho no Congresso Nacional
19 de fevereiro de 2020 
 
Na retomada dos trabalhos deste ano no Congresso Nacional, nesta terça (18), na Câmara dos Deputados, as frentes parlamentares ambientalista e indígena deixaram claro que atuarão conjuntamente contra propostas do Executivo e do Legislativo que ampliem retrocessos socioambientais, trazendo prejuízos a todo o país. 

Entre as prioridades elencadas, estão derrubar o Projeto de Lei 191/2020 e a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 187/2016, que ferem a Constituição Federal por abrir Terras Indígenas à mineração, garimpo, geração de eletricidade e outras atividades econômicas, além de alterar o Projeto da Lei Geral do Licenciamento Ambiental. Outra meta para este ano é consolidar frentes parlamentares em mais Assembleias Legislativas. Hoje existem frentes em 18 estados.

“São muitos movimentos sociais que ecoam a pauta ambiental e trazem temas estratégicos para segurança climática e qualidade de vida desde os estados e para dentro do Congresso Nacional. O Licenciamento Ambiental é um tema estratégico e de grande importância na abertura da Frente Parlamentar nesta legislatura”, ressaltou Mário Mantovani, diretor de políticas públicas da Fundação SOS Mata Atlântica.

Com pelo menos 3 propostas para mudar as regras do licenciamento federal tramitando no Congresso, até agora é desconhecido o relatório do deputado federal Kim Patroca Kataguiri (DEM-SP) para o PL 3729/2004. Dez audiências públicas foram realizadas sobre o tema com vários setores, mas há dúvida se sugestões da Sociedade Civil e da Academia serão contempladas.

Em artigo publicado na Folha de S.Paulo esta semana, ex-ministros de Meio Ambiente demandam que os presidentes da Câmara e do Senado, Rodrigo Maia (DEM-RJ) e Davi Alcolumbre (DEM-AP), não permitam a votação de uma pauta que pode enfraquecer o já combalido licenciamento ambiental. 
O ex-ministro José Carlos Carvalho taxou como “crime” a possibilidade de que a avaliação de impactos ambientais indiretos deixe de ser exigida para obras de infraestrutura. A medida está no projeto de lei, segundo ele, que participou do encontro da Frente Parlamentar Ambientalista. 

“Impactos indiretos de projetos podem ser ainda mais graves que os diretos. Conflitos e aumento de custos ocorrem porque os projetos pesam as questões socioambientais só no licenciamento, que acaba loteado de condicionantes dificilmente cumpridas”, disse.

A chamada “Licença por Adesão e Compromisso (LAC)” também foi criticada. Ela permite a empreendedores que encaminhem documentos para obtenção de licenças sem visitas técnicas de órgãos ambientais. Isso pode se converter em “auto licenciamentos”, até para obras de grande impacto, como barragens de rejeitos de mineração ou de hidrelétricas e construção de rodovias. 
“LAC não é licenciamento porque o estado (Poder Público) abrirá mão de suas responsabilidades. Choverão ações contra uma lei que fragilize o licenciamento ambiental”, disse a promotora de Justiça Cristina Seixas Graça, presidente da Associação Brasileira dos Membros do Ministério Público de Meio Ambiente.

Outra pedra no sapato é a possibilidade de que estados e municípios deixem de exigir licenças para determinados empreendimentos. Na prática, isso pode gerar uma “guerra” entre governos flexibilizando regras para atrair mais atividades econômicas. Os estados respondem hoje por nove em cada dez licenças ambientais concedidas no país. 

“O Congresso não pode se calar diante dos retrocessos do Governo. Não há possibilidade de retorno quando destruímos florestas. O Licenciamento Ambiental não pode dispensar grandes empreendimentos diante das emergências climáticas. Que a Frente Ambientalista seja trincheira de resistência”, ressaltou a deputada federal Talíria Petrone (PSOL-RJ).

Outros pontos de discórdia são a dispensa de licenciamento ambiental para atividades agropecuárias; a falta de critérios para emissão de licença corretiva (quando o empreendedor não solicitou a licença antes de iniciar o negócio), o que incentivaria a ilegalidade; a supressão da localização do empreendimento como critério para definir o grau de rigor do licenciamento; a eliminação da avaliação de impactos sobre áreas protegidas; e a extinção da responsabilidade de instituições financeiras por dano ambiental em projetos por elas financiados.

“A gente sabe que vai ter muito trabalho do ponto vista de resistência para conseguir barrar projetos prejudiciais à questão ambiental. O licenciamento é a espinha dorsal do Sistema Nacional de Meio Ambiente (Sisnama). É importante que a gente tenha uma lei geral que traga equilíbrio nas relações e não uma lei geral para liberar geral”, salientou o deputado federal Rodrigo Agostinho (PSB-SP), novo coordenador da Frente Parlamentar Ambientalista.

Por isso, ele destacou que é preciso construir uma agenda socioambiental “positiva” no Congresso, marcada pelo combate ao desmatamento ilegal, o incentivo à preservação ambiental e a garantia dos direitos das comunidades tradicionais, aprovando a Lei do Mar (PL 6969/2013), do Cerrado e Pantanal, freando pautas bombas que tramitam contra Unidades de Conservação, Terras Indígenas e recursos hídricos. O presidente da Câmara Rodrigo Maia, acena neste sentido.

Ele recebeu de lideranças indígenas um manifesto contra a mineração, garimpo e outras atividades econômicas dentro de territórios dos índios. O documento afirma que o Projeto de Lei 191/2020, enviado pelo governo Bolsonaro ao Congresso, “tem problemas claros de inconstitucionalidade e injuridicidade, razão pela qual se impõe a imediata devolução”. 

Rodrigo Maia declarou à imprensa que “vamos aguardar, vamos deixar ele (projeto) ali do lado da mesa para que, no momento adequado, a gente trate esse debate com todo cuidado do mundo. A proposta não terá por parte da Câmara a urgência que alguns gostariam”.

Já o líder histórico Kayapó, Raoni Metuktire (90), ressaltou que “a gente não aceita mineração em terra indígena. No projeto do Bolsonaro, ele está usando uma minoria de indígenas para tirar foto com ele. É a minoria. Mas a maioria não aceita”, enquanto vestia uma camiseta onde se lia “minha ideologia é floresta em pé, água limpa, ar puro e comida sem veneno”. 

No encontro, ambientalistas e indigenistas também anunciaram a retomada do movimento Povos da Floresta, idealizado por Chico Mendes nos anos 1980. Segundo Ângela Mendes, filha do líder seringueiro assassinado em 1988, reservas extrativistas e outros territórios de uso sustentável e coletivo, legados da luta de seu pai, estão ainda mais ameaçados neste governo.

“Cremos que só unificando a nossa luta e a nossa agenda vamos conseguir enfrentar todo esse estado de retrocesso que está aí na forma de quase mil PLs, decretos e PECs que visam desmontar a Amazônia e ameaçar todos esses povos da floresta. São cerca de 300 projetos que recategorizam e diminuem esses territórios de uso sustentável e coletivo”, disse.

Crédito: Fundação SOS Mata Atlântica (com informações da Agência Câmara). 

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Congresso tem a oportunidade de manter conquistas legislativas que fizeram do país um exemplo na pauta socioambiental


qui., 5 de mar. às 19:11


ECOS DA MATA

05 de Março de 2020

Congresso tem a oportunidade de manter conquistas legislativas que fizeram do país um exemplo na pauta socioambiental

Na última terça (04) foi publicado um artigo no jornal Valor Econômico em que nossos diretores, Marcia Hirota e Mario Mantovani, chamam a atenção para a importância da agenda política e eleitoral brasileira ser pautada em propostas e compromissos que respondam à urgência climática e aos desafios do novo século. Diante da conjuntura política e da má condução da agenda socioambiental pelo governo federal, o Congresso Nacional tem a oportunidade de tentar manter conquistas legislativas que fizeram do país um exemplo para nações e organismos internacionais nesta agenda.


Entre os espaços importantes para se garantir debates públicos de interesse da sociedade está a Frente Parlamentar Ambientalista, que há 15 dias, em evento que iniciou a agenda de trabalho do ano, uniu diferentes atores contra retrocessos ambientais que estão em curso.


Outro tema que tem gerado debate na sociedade é a relação entre nossas cidades e seus rios, principalmente após grandes chuvas, que têm sido cada vez mais severas, demandando um novo olhar para a gestão local em relação ao desenvolvimento sustentável. Veja o artigo assinado por nossa equipe de Água Limpa, publicado no NEXO Jornal.


E atenção estudantes, a mostra Ecofalante está com inscrições até o dia 10 de março para curtas-metragens sobre temas socioambientais. Os participantes concorrerão a um prêmio de R$ 4.000,00.


Nossos projetos e campanhas dependem da ajuda de pessoas e empresas para continuar a existir. Saiba como você pode ajudar em www.sosma.org.br/doacao.


Boa leitura.

quinta-feira, 5 de março de 2020

Prédios de luxo são demolidos na Índia por violação de leis ambientais


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Enquanto no Rio de Janeiro, construções irregulares avançam próximo à área onde prédios desabaram na Muzema, na Zona Oeste, neste mês, na Índia, autoridades indianas demoliram edifícios de apartamentos de luxo cuja construção violou “regras ambientais”. O Supremo Tribunal do país ordenou a demolição no ano passado, depois de um comitê de avaliação ter concluído que os complexos de luxo quebravam as regras de proteção da orla costeira.
Os moradores dos arranha-céus viram as suas habitações serem destruídas em segundos. No total, 343 apartamentos – onde habitavam cerca de duas mil pessoas – foram destruídos no que está a ser descrita como a maior demolição na Índia de edifícios residenciais.
A Kerala Coastal Zone Management Authority (KCZMA), criada para prevenir a degradação da Zona Costeira, explica que as permissões para a construção dos edifícios foram concedidas pelas autoridades locais sem a sua aprovação. Além disso, o local onde foram edificados, no município de Maradu, é uma área “criticamente vulnerável” onde não é permitida construção.
Entre os moradores destes edifícios estão banqueiros, executivos e aposentados.
 Vejam o video:

Fonte: SIC

Ararinhas-azuis: o retorno tão esperado é envolto em denúncias e falta de transparência

Ararinhas-azuis: o retorno tão esperado é envolto em denúncias e falta de transparência

Ararinhas-azuis: o retorno tão esperado é envolto em denúncias e falta de transparência
*Por Suzana Camargo
O dia 3 de março foi uma data histórica para a pequena cidade de Curaçá, na Caatinga baiana. Uma grande celebração marcou a chegada, depois de duas décadas, de 52 ararinhas-azuis (Cyanopsitta spixii). Foi a volta para casa dessa espécie endêmica da região, um dos símbolos da luta contra o extermínio da fauna no Brasil. Vítima do tráfico de animais silvestres, a ave havia sido declarada oficialmente extinta na natureza em 2000.

Os indivíduos trazidos para a Bahia (26 machos e 26 fêmeas) são resultado de um bem-sucedido programa de reprodução em cativeiro realizado por uma organização da Alemanha, a Association for the Conservation of Threatened Parrots e. V. (ACTP), que assinou uma parceria com o governo brasileiro. O evento foi considerado tão importante que o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, esteve em Petrolina (PE) para receber as ararinhas, ao lado do proprietário da ACTP, o alemão Martin Guth, e outras autoridades brasileiras.

A repatriação das aves faz parte do Plano de Ação Nacional para a Conservação da Ararinha-azul, coordenado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação e Biodiversidade – ICMBio, órgão vinculado ao Ministério do Meio Ambiente. Duas outras entidades estrangeiras integram também o programa, a Al Wabra Wildlife Preservation, do Catar, e a Pairi Daiza Foundation, da Bélgica. Esta última está ligada a um zoológico de mesmo nome onde estão expostas quatro ararinha-azuis, as únicas da Europa que podem ser vistas pelo público.

O destino das aves, por ora, é o centro de reintrodução construído especialmente para elas em Curaçá. De acordo com o ICMBio, a previsão é que as ararinhas “alemãs” só sejam soltas na natureza em 2021, após um processo de adaptação.

Quando isso acontecer, será nas duas unidades de conservação criadas em junho de 2018 pelo governo federal, dedicadas exclusivamente ao programa de reintrodução e proteção da espécie: o Refúgio de Vida Silvestre da Ararinha-Azul, com uma área de 29,2 mil hectares, e a Área de Proteção Ambiental da Ararinha-Azul (90,6 mil hectares).
Ararinhas-azuis: o retorno tão esperado é envolto em denúncias e falta de transparência
Caixas com as 52 ararinhas-azuis que vieram para o Brasil passam
pela inspeção no aeroporto de Berlim

A origem do dinheiro

Todos os custos do programa de reintrodução e construção do Refúgio de Vida Silvestre da Ararinha-Azul foram bancados pela Association for the Conservation of Threatened Parrots. Segundo Martin Guth, o valor da obra do centro foi de US$ 1,4 milhão e ele calcula que, anualmente, serão gastos US$ 180 mil para manter em operação o projeto, que será coordenado por Cromwell Purchase, diretor científico e zoológico da ACTP, juntamente com a equipe do ICMBio.

Na Alemanha, a associação fundada em 2006 tem o registro de uma organização não-governamental. Segundo informações obtidas junto à Bundesamt für Naturschutz (BfN), Agência Federal para a Conservação da Natureza da Alemanha, foi reconhecida pelas autoridades regionais competentes como um zoológico.

Todavia, na prática, a ACTP não funciona como um. Não existe visitação aberta ao público. No local, a pouco mais de uma hora de Berlim, não há estacionamento para visitantes e o acesso por transporte público é limitado.

Em uma reportagem publicada em julho de 2019, pelo jornal alemão Süddeutsche Zeitung, intulada “A ararinha-azul é o papagaio mais valioso do mundo. Um criador alemão com reputação duvidosa quer trazê-lo de volta à natureza. Ele pode ser confiável?”, a jornalista, que esteve pessoalmente na sede da associação e entrevistou Guth e seu sócio, o corretor imobiliário Jürgen Dienst, afirma que a legislação alemã determina que, para ser considerado um zoológico, um estabelecimento precisa receber visitas no mínimo sete dias por ano – é o que acontece ali, geralmente em tours guiados com estudantes de escolas.

Para se manter financeiramente, a ACTP afirma, em seu site, que depende de doações. Entretanto, não há nenhuma menção na página a quem seriam essas pessoas físicas e jurídicas. A única empresa citada, como “parceira exclusiva”, é a companhia Deli Nature, da Bélgica, que comercializa ração animal.

Em entrevista por e-mail à Mongabay, perguntado sobre a identidade dos doadores, Martin Guth diz que “os nomes de todos os nossos grandes doadores e apoiadores podem ser encontrados em cada um dos nossos posts no Facebook. Eles não são apenas alemães”.

Entre o final de fevereiro e dezembro de 2019, só há uma menção a parceiros na timeline da ACTP. Estão ali a Deli Nature, mencionada acima, a Pairi Daiza e a Knutis Shop – Generalvertretung Roudybush-Pellets Deutschland, também do setor de rações.

No caso da fundação belga Pairi Daiza, por exemplo, em seu site aparecem como apoiadores companhias multinacionais como DHL e Unilever, entre outras.

Vale ressaltar que a ACTP possui uma das maiores coleções particulares de psitacídeos em risco de extinção no planeta. Até pouquíssimo tempo atrás, tinha em mãos mais de 90% das ararinhas-azuis em cativeiro do mundo, além de indivíduos da espécie de arara-azul-de-lear (Anodorhynchus leari), também brasileira), o papagaio-de-são-vicente (Amazona guildingii) e o papagaio-de-santa-lúcia (Amazona versicolor).

Para Paul Reillo, fundador e presidente da Rare Species Conservatory Foundation e diretor da Tropical Conservation Institute, nos Estados Unidos, uma das regras de ouro para organizações não-governamentais é a transparência total. “De onde vem o dinheiro da ACTP? É preciso que fique claro quem são seus doares, como o dinheiro é investido, além de ser essencial que se tenha acesso a um inventário completo de suas aves – sexo, idade, número de nascimentos e mortes, e os processos de importação e exportação”.

No site também não há nenhuma referência sobre quem são seus profissionais e sua qualificações científicas, nem se há um conselho administrativo ou sequer o endereço da associação.
Biólogo, geneticista ecológico e engenheiro ambiental, Reillo tem sérias ressalvas ao trabalho da ACTP e de Martin Guth. E já externou isso diversas vezes em entrevistas  a diferentes publicações. Segundo ele, outros membros da comunidade de conservação internacional também vieram a público demonstrar suas críticas ao criatório alemão.
Ararinhas-azuis: o retorno tão esperado é envolto em denúncias e falta de transparência
A ararinha-azul é uma das aves mais raras do mundo: estima-se que existam apenas 177 indivíduos em cativeiro no mundo. Na natureza, a espécie está extinta desde 2000

Denúncias e acusações

Não é apenas a falta de clareza e transparência sobre a origem do dinheiro que financia a Association for the Conservation of Threatened Parrots e. V. que tem causado incômodo entre os especialistas da área.

Em dezembro de 2018, o jornal britânico The Guardian publicou uma minuciosa reportagem investigativa sobre Guth e a ACTP, com grande repercussão mundial. Durante seis meses os jornalistas Lisa Cox e Philip Oltermann fizeram um levantamento sobre a vida pregressa do alemão, com graves suspeitas sobre seu trabalho, entre elas o possível envolvimento com o tráfico de animais silvestres e o uso da associação para lavagem de dinheiro de máfias europeias.

Com o título de A legitimate zoo? How an obscure German group cornered global trade in endangered parrots ” (“Um zoológico legítimo? Como um obscuro grupo alemão encurralou o comércio mundial de papagaios ameaçados”), a matéria revela que, na década de 1990, quando tinha cerca de 25 anos, Guth ficou cinco anos na prisão por sequestro e extorsão.

Ainda segundo os jornalistas, pelo menos um dos funcionários que trabalhava na ACTP, naquela época, foi acusado de envolvimento com o tráfico ilegal de aves (estima-se que esse mercado movimente aproximadamente US$ 42,8 bilhões no mundo, perdendo apenas para o de drogas e de armas).

Não é só isso. As primeiras ararinhas-azuis que Guth comprou para a sua coleção foram adquiridas de um criador suíço, a quem ele teria pago 15 mil euros. O homem em questão estaria ligado a dois conhecidos membros de uma máfia de Berlim, conhecida por organizar assaltos, ter envolvimento com o tráfico de drogas, além de usar métodos como chantagem. Em uma foto que pode ser encontrada na internet, o criador alemão pode ser visto junto a Arafat Abou-Chaker, um dos chefes da quadrilha.

Guth afirma que não tinha conhecimento da ligação da pessoa que vendeu as aves a ele com a máfia. Mas não nega seus erros no passado. Na entrevista por e-mail à Mongabay, disse que prefere manter sua vida particular separada de seus projetos e assegura que sua ficha criminal está limpa.

“Uma versão traduzida desse documento foi fornecida imediatamente ao governo do Brasil e ao governo australiano após a publicação do artigo do The Guardian. O governo brasileiro solicitou uma prova de registros limpos como condição para continuar o programa e assinar um novo contrato com a ACTP. Ele foi assinado em 7 de junho de 2019”, revela.

O proprietário da ACTP menciona o governo da Austrália porque a associação também possui parcerias com outros países, além do Brasil – não sem polêmicas, acusações e denúncias.
Com autorização dos australianos e do Bundesamt für Naturschutz, Guth importou mais de 200 espécies de aves nativas, ameaçadas de extinção, desde 2015, alegando que seriam exibidas publicamente. Em 2018, o membro do parlamento Warren Entsch alertou sobre a exportação, demonstrando preocupação que a ACTP não agia como um zoológico e se comportava mais como uma coleção privada.

Segundo a reportagem do The Guardian, alguns dos papagaios australianos teriam sido colocados à venda na internet, por valores que variavam entre 95 mil e 180 mil euros por um casal.

A Austrália não foi o único país a enviar aves endêmicas e em risco de extinção para a Alemanha. Santa Lúcia e São Vicente, países insulares do Caribe, também fazem parte da lista, assim como Dominica, que em 2018 mandou dois papagaios-imperiais (Amazona imperialis) e dez papagaios-de-colar-vermelhos (Amazona arausiaca) para a sede da ACTP.

Poucos meses antes, em setembro de 2017, o furacão Maria tinha passado pela região e atingido a ilha. A alegação para a retirada dos papagaios foi de que eles não estavam mais seguros.

Em uma carta enviada a autoridades da área ambiental e à BfN, mais de 40 cientistas e pesquisadores internacionais afirmaram que a expatriação dos pássaros não havia sido permitida pelos representantes da Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Fauna e da Flora Silvestres Ameaçadas de Extinção (Cites), nem pelo Forestry, Wildlife and Parks Division da Dominica – que nem mesmo tinham sido consultados sobre a transferência.

“Não havia uma emergência para justificar a remoção dos papagaios da Dominica. Todas essas aves eram selvagens e já mantidas em segurança em cativeiro, portanto não havia justificativa razoável para agilizar essa transferência ou violar muitos requisitos legais básicos para tal ação. Todos haviam sobrevivido ao furacão Maria, estavam sendo atendidos por uma equipe de assistência veterinária reconhecida internacionalmente e eram considerados saudáveis”, escreveram os cientistas.
Até hoje, os papagaios-imperiais e os papagaios-de-colar-vermelhos não foram devolvidos a Dominica.

Há uma petição internacional no site Care2, que já conta com 55 mil assinaturas, pedindo que a Bundesamt für Naturschutz faça uma investigação sobre Martin Guth e todas as suspeitas em relação à ACTP. Entretanto, a agência federal alemã garantiu que a associação é fiscalizada regularmente pelas autoridades responsáveis.

“Essas verificações são direcionadas à prova da aquisição legal de aves protegidas, a criação e venda legal de tais aves, de acordo com os regulamentos internacionais relevantes para conservação de espécies”, afirmou Ruth Birkhölzer. “Não foi observada nenhuma irregularidade. Após a publicação de artigos no The Guardian e uma denúncia criminal, os procedimentos de investigação criminal foram conduzidos pela polícia. No entanto, esta investigação foi encerrada sem suspeita de ações ilegais da ACTP ou do Sr. Guth”.
Ararinhas-azuis: o retorno tão esperado é envolto em denúncias e falta de transparência
Martin Guth (primeiro à esquerda) e o então Ministro do Meio Ambiente, Edson Souza (de gravata) durante visita à sede da ACTP, na Alemanha

Medo de represálias

Paul Reillo é uma das poucas pessoas entrevistadas para esta reportagem que concordam em ter seu nome publicado. Outros criadores e biólogos do Brasil só falaram com a condição de se manterem no anonimato, alegando que o empresário alemão é perigoso, tem ligação com a máfia ou que podem sofrer represália do governo brasileiro, com cortes financeiros em seus projetos.

Um desses entrevistados afirmou que, nos últimos anos, alguns criadores científicos (autorizados pelo governo a ter projetos de reprodução em cativeiro de espécies em risco de extinção) sofreram pressão dos órgãos governamentais brasileiros para que as ararinhas-azuis fossem enviadas à ACTP, na Alemanha. A fonte disse ainda que havia um criador bem próximo de ter uma bem-sucedida reprodução de filhotes, mas que, mesmo assim, precisou mandar as aves para a Europa.

Questionado em 2018 sobre o envio desses indivíduos e a razão pela qual a reprodução em cativeiro não foi feita no Brasil, o ICMBio deu a seguinte resposta, através de e-mail de sua assessoria de imprensa:

A troca de espécimes para fins de reprodução e variação genética da população em cativeiro está prevista no programa de cativeiro e seguem protocolos e critérios técnicos para pareamento, e da mesma forma, animais foram enviados da Alemanha para o Brasil. Em ambos casos as trocas foram feitas atendendo as recomendações dos consultores de manejo.

Infelizmente os criadouros no Brasil até o momento não tiveram sucesso em reproduzir a espécie em números significativos. Desde o início do Plano de Ação Nacional para Conservação da Ararinha-azul, em 2012, apenas dois nascimentos foram registrados no Brasil em 2014, ao passo que os criadouros da Alemanha e Catar obtiveram taxas reprodutivas que permitiram o aumento da população de 79 para 158 indivíduos”.

Em maio de 2019, dois filhotes de Cyanopsitta spixii nasceram em Fazenda Cachoeira, em Minas Gerais, um criadouro certificado pelo governo.

O número exato de ararinhas-azuis existentes no Brasil e em poder da ACTP não é claro. Em outubro do ano passado, o ICMBio declarou que eram 177 Cyanopsitta spixii no mundo – 22 em solo brasileiro e as demais na Alemanha.

É preciso lembrar que, em 2014, o Sheikh Saud bin Mohammed al-Thani, que estava a frente da Al Wabra Wildlife Preservation, no Catar, uma das parcerias do programa brasileiro de reintrodução da espécie, morreu.

O bilionário, apaixonado por aves, possuia nada menos do que 120 ararinhas-azuis. Após seu falecimento, todas elas foram “emprestadas” para Guth. Durante esse tempo, até a volta das 52 aves ao Brasil, o alemão esteve em posse de quase todas as ararinhas-azuis existentes no mundo.
Investigação internacional questiona idoneidade de criador alemão que repatriará ararinhas-azuis ao Brasil
Até o retorno das aves ao Brasil, a Association for the Conservation of Threatened Parrots tinha em seu poder 90% das ararinhas-azuis
existentes no mundo 

Falta de transparência

Para Reillo, um dos principais problemas do criador alemão e da associação fundada por ele são suas credenciais. Ou melhor, a falta delas. “Onde está a ciência? Onde estão as publicações feitas pela ACTP? Quais ONGs internacionais e cientistas, organizações e agências credenciadas endossaram o projeto de reintrodução? Quais grupos científicos foram convidados a consultar sobre o projeto? Como eles estão envolvidos?”, questiona.

A opinião é a mesma de outro biólogo, brasileiro, que participou diretamente do programa do governo federal, mas preferiu deixar o projeto depois que percebeu que todas as decisões privilegiavam o envio das ararinhas-azuis ao criador alemão. “É uma temeridade ter esse alemão no Brasil. Ele só tem bichos raríssimos na Alemanha, que custam uma fortuna no mercado negro. Ninguém quer falar sobre o Guth porque todo mundo tem medo dele”.

Em janeiro de 2019, Cromwell Purchase, que será o responsável pela administração do centro de reintrodução das aves na Bahia, disse que o principal motivo para a onda de acusações sobre Martin Guth e a ACTP seria a inveja. “Há muitas pessoas invejosas no Brasil, todo mundo quer um pedaço do programa da ararinha-azul, agora que nós, parceiros do projeto, conseguimos chegar a esse ponto com tanto sucesso. Muitos parceiros foram removidos ao longo do caminho devido à política e à interrupção do programa, e tenho certeza de que muitos estão envolvidos nas acusações”, justificou.
“Você pergunta por que as organizações estrangeiras estão avançando com sucesso no programa da ararinha-azul. Porque nenhum criador brasileiro estava disposto a investir dinheiro para salvar essa espécie… Você preferiria que simplesmente deixássemos a espécie extinta?”

Reillo contra-argumenta: “É claro que todos queremos as ararinhas-azuis de volta à natureza, mas precisamos de respostas”.

Além da falta de transparência nas atividades da ACTP, o Ministério do Meio Ambiente tem se mantido calado diante de toda a polêmica e não fornece dados e informações sobre ações futuras ou quais são exatamente os termos da parceria entre Brasil e ACTP – as outras ararinhas-azuis existentes que ficaram na Alemanha também serão trazidas posteriormente para a Bahia?

No dia 26 de fevereiro, foi enviado um e-mail para a assessoria de imprensa do ICMBio com uma série de questionamentos, como a posição do governo brasileiro perante às denúncias feitas a Martin Guth, os custos do projeto, o número atual de ararinhas-azuis e onde estão localizadas, mas até o fechamento desta reportagem a resposta não foi enviada.

Duas perguntas, que têm sido feitas repetidamente, surgem novamente ao final da história que levará à reintrodução da Cyanopsitta spixii na natureza: pelo bem de uma espécie, deve-se fechar os olhos para como e com que dinheiro ocorreu o seu processo de reprodução? E a segunda: programas de reprodução em cativeiro de espécies ameaçadas de extinção devem ser realizados em países distantes do habitat original das mesmas?
De acordo com o ICMBio, a previsão é de que as 52 ararinhas-azuis que vieram da Europa sejam reintroduzidas na natureza até 2021, em duas unidades de conservação na Caatinga baiana
*Texto publicado originalmente em 04/03/20 no site do Mongabay Brasil
 

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Fotos: reprodução Facebook ACTP