quinta-feira, 20 de abril de 2017

Novas unidades de conservação em debate


RPPN Fazenda Renópolis. Foto: Acervo Fundação Florestal
RPPN Fazenda Renópolis. Foto: Acervo Fundação Florestal

Em meio a um infeliz esforço parlamentar para reduzir unidades de conservação ao redor do país, ainda há muitos projetos de ampliação de proteção de nossas áreas verdes prontos para sair do papel. E projetos que incentivam a criação de novas unidades. É o que demonstram as seguintes iniciativas nos estados de Goiás, Espírito Santo e São Paulo.

Goiás
Em 11/04, a Secretaria das Cidades e Meio Ambiente de Goiás (Secima) debateu a criação do  Parque  Estadual  da  Serrinha (GO), numa área com mais de 100 mil metros quadrados. Hoje completamente abandonada, a área poderá ser transformada com instalação de áreas de lazer, iluminação, trilhas e a preservação e conservação da flora. Durante a  reunião foram apresentados projetos como levantamento topográfico, projeto de paisagismo, projeto estrutural, projeto básico arquitetônico e urbanístico, comunicação visual, instalações elétricas e sanitárias, entre outros. A proposta será agora submetida à uma audiência pública.

Espírito Santo
Nos próximos dias 08 e 09/05, o município de Vitória, no Espírito Santo, realizará consultas públicas para apresentação das propostas e contribuições da população de duas novas unidades de conservação: a Área de Proteção Ambiental Baía das Tartarugas (ES), a primeira unidade de conservação marinha de Vitória com acesso público; e a recategorização da atual Reserva Ecológica Municipal da Mata Paludosa, último remanescente de Mata Paludosa (vegetação que marca a transição entre o manguezal e a restinga) do município.

O objetivo da proposta da área de proteção ambiental (APA) é a preservação do ambiente marinho através do ordenamento do uso, com o fim de evitar conflitos já abundantes na área da unidade de conservação: ela será vizinha de um dos maiores complexos minero-siderúrgicos do mundo, onde a pesca desordenada convive com poluição por esgoto e pó de minério. Ainda assim, a região é visitada por tartarugas marinhas e outras espécies ameaçadas de extinção, área de ocorrência de baleias jubarte, além de atrair cada vez mais praticantes de esportes marítimos.


A atual Reserva Ecológica Municipal da Mata Paludosa requer uma adequação ao Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC). A nova unidade vai acrescentar à área da Reserva, o Parque Municipal da Fazendinha, e um outro fragmento de mata paludosa. A consulta pública sobre a APA Baía das Tartarugas está agendada para o 08/05, na sede do Iate Clube, na Praia do Canto. Já a da Mata Paludosa está marcada para o 09/05, na Escola Municipal Elzira Vivacqua, na Rua Italina Pereira Motta, nº 501, em Jardim Camburi. Ambas as reuniões começam às 19h00.

São Paulo
A Reserva Particular do Patrimônio Natural Fazenda Renópolis (SP), em Santo Antonio do Pinhal, sediará o seminário “Criação de RPPN e a Proteção das Microbacias”, em 06/06. O evento visa esclarecer ao público sobre vantagens e formas de se criar uma reserva particular do patrimônio natural (RPPN). Os interessados encontram a ficha de inscrição neste link: goo.gl/U78f5a .

Das 13h00 às 18h00, serão abordados assuntos como: pagamentos de serviços ambientais, importância das RPPNs para a proteção de microbacias e também trocas de experiências sobre o assunto. Também será discutido o processo de criação e implantação destas unidades de conservação. Mais informações podem ser obtidas aqui.

*Com informações da Secima, Século Diário e Fundação Florestal

Depois de sete anos de recuperação, peixe-boi da Amazônia é solta

Por Sabrina Rodrigues
Helena pesava 90kg e media 1,70m no momento da soltura. Foto: Amanda Lelis
Helena pesava 90kg e media 1,70m no momento da soltura. Foto: Amanda Lelis


Peixes-boi são bichos grandes. Eles pesam de 400 a 550 kg e o seu couro muito grosso é uma defesa, que desencoraja a maioria dos predadores. Os peixes-boi-amazônicos (Trichechus inunguis) foram caçados em escala industrial desde o Brasil Colônia e há registros de sua carne e óleo sendo exportados do então Grão Pará no século XVII. E hoje os peixes-boi continuam sofrendo com a caça desenfreada de seus algozes. Mas, o que será relatado nas próximas linhas trata-se de uma história real de sucesso pela preservação dessa espécie.


Levaram sete anos para que a peixe-boi Helena, que em 2010 foi levada ferida para o Centro de Reabilitação de Peixe-Boi Amazônico de Base Comunitária, fosse devolvida sã e salva à vida em ambiente natural. No dia 13 de abril, Helena foi solta no Igarapé do Juá Grande, localizado na Reserva Mamirauá, unidade de conservação do Amazonas.


Durante esses sete anos, Helena recebeu os cuidados dos pesquisadores e técnicos do “Centrinho”, como é chamado o Centro de Reabilitação, que foi criado pelo Instituto Mamirauá, em 2008. Na época, quando encontrada ferida pelos moradores da região, a peixe-boi tinha cerca de três meses.
Helena passou por um processo de recuperação diferente dos demais animais que ficam cerca de dois anos em reabilitação. A longa duração dos seus cuidados deveu-se às condições nas quais ela foi encontrada, apresentando muitas sequelas devido aos ferimentos e quadro de infecção. Esse longo tempo foi necessário para que a peixe-boi tivesse plena capacidade para a vida livre. A peixe-boi faz parte de uma enorme história de recuperação e sucesso, que deixa os profissionais envolvidos nesse processo muito felizes.


"Ela teve uma melhora extraordinária. Chegou muito debilitada, ferida com uma flechada na mandíbula, que acabou comprometendo o nervo facial. Por isso, ela perdeu a visão de um olho, teve muita dificuldade até conseguir fechar completamente as narinas e principalmente a mastigação, dificuldade pra pegar a mamadeira e mordiscar as plantas. Digo extraordinária, porque, quando ela chegou, a gente não sabia se ia sobreviver, por causa desta dificuldade grande", explica Miriam Marmontel, pesquisadora do Instituto Mamirauá - unidade de pesquisa do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações.


O Igarapé do Juá Grande, na Reserva Mamirauá, onde Helena foi solta, não foi escolhido aleatoriamente. O local apresenta disponibilidade de vegetação para alimentação nesta época do ano, primeiro período de adaptação do peixe-boi na natureza, e tamém porque a área foi o reduto escolhido por Japurá, outro peixe-boi solto pelo Instituto Mamirauá, há dois anos. Há um otimismo entre os pesquisadores de que os dois animais se encontrem.


Antes da soltura, Helena foi pesada, medida e em sua cauda foi adaptado um cinto equipado com transmissor de sinais de rádio. O cinto emite um sinal que permite ser monitorado pelos pesquisadores em ambiente natural.


Esse foi o quinto evento de soltura de peixes-boi reabilitados pelo Instituto Mamirauá. Através do monitoramento, os pesquisadores buscam a compreensão de como os animais se movimentam na área e acompanham o desempenho de adaptação dos indivíduos em vida livre, fora do cativeiro.
Antes da soltura, é instalado um cinto que emite sinais de rádio que podem ser rastreados pelos pesquisadores. Foto: Amanda Lelis
Antes da soltura, é instalado um cinto que emite sinais de rádio que podem ser rastreados pelos
pesquisadores. Foto: Amanda Lelis
O peixe-boi foi transportado em uma lancha aos cuidados de veterinários até o local da soltura. Foto: Amanda Lelis  
O peixe-boi foi transportado em uma lancha aos cuidados de veterinários até o local da soltura. 
Foto: Amanda Lelis
Helena foi solta em um igarapé na Reserva Amanã. Foto: Amanda Lelis
Helena foi solta em um igarapé na Reserva Amanã. Foto: Amanda Lelis
O animal é monitorado por todo o procedimento pela equipe de pesquisadores, veterinários e técnicos. Foto: Amanda Lelis
O animal é monitorado por todo o procedimento pela equipe de pesquisadores, veterinários e
técnicos. Foto: Amanda Lelis

Nós sabemos o que pinguins fizeram no inverno passado

Por Vandré Fonseca*
Imagem da câmera de lapso de tempo mostra pinguins-gentoo em áreas de reprodução no inverno. Crédito: T. Hart.
Imagem da câmera de lapso de tempo mostra pinguins-gentoo em áreas de reprodução no inverno. 
Crédito: T. Hart.

Os pinguins-gentoo (Pygoscelis papua) do extremo sul da Península Antártida Ocidental não tinham como desconfiar, mas estavam sendo vigiados pela internet. Câmeras fotográficas espalhadas em sete locais de reprodução da espécie, na Argentina, Antártica e algumas ilhas, enviavam diariamente entre 8 e 14 fotografias para site Penguin Watch na internet, entre os anos de 2012 e 2014.

As imagens eram acompanhadas por um grupo de voluntários, cientistas-cidadãos que contavam os animais registrados. As fotografias retratam cerca de 1400 horas da vida dos pinguins, inclusive durante o rigoroso e escuro inverno antártico. Resultados do estudo foram publicados na edição desta quinta-feira no jornal científico The Auk: Ornithological Advances.

"Trabalhar com câmeras nos permite entender metade da vida desta espécie sem ter que passar o inverno rigoroso na Antártica”, afirma Caitlin Black, candidata ao doutorado pela Universidade de Oxford. Além dela, o artigo é assinado por Tom Hart, também de Oxford, e Andrea Raya Rey, do Conselho Nacional de Investigação Científica e Técnica da Argentina.

Pinguins-gentoo são as aves que nadam mais rápido no planeta, quando estão submersas, atingindo cerca de 36 quilômetros por hora. Além disso, enquanto outras espécies de pinguins estão em declínio naquela região, a população desta espécie continua a aumentar. Agora, os pesquisadores conhecem também hábitos dos animais não estão no período de reprodução e que são influenciados por alterações no clima e diferenças geográficas.
Montagem das câmeras. Estratégia para fugir do frio extremo e escuridão da Antártida. Crédito: T. Hart.
Montagem das câmeras. Estratégia para fugir do frio extremo e escuridão da Antártida. Crédito: T. Hart.

Graças a vigilância, eles descobriram, por exemplo, que as áreas de reprodução ficam mais povoadas quando estão em águas abertas ou geleiras que flutuam livremente do que em praias congeladas. Além disso, antes do período de reprodução, nestas áreas são encontrados mais animais do que após os animais procriarem.

De acordo com os pesquisadores, nas áreas polares, indivíduos de uma mesma espécie podem adotar estratégias diferentes de migração para sobreviver. O editor-chefe da revista Auk, Mark Hunter, que também é professor de Comportamento Animal na Faculdade Hunter e no Centro de Pós-Graduação da Universidade da Cidade de Nova York, destaca que na Antártida esses estudos são particularmente importantes devido aos longos períodos de escuridão que os animais enfrentam.

"Esta nova pesquisa publicada na Auk: Ornithological Advances em colônias de pinguins-gentoo revela diferenças críticas ano a ano, onde as aves estão quando não estão aninhando: em alguns anos, apenas os locais mais temperados são visitados, e em outros anos tanto Sul e Norte estão ocupados com pinguins ", afirma.

*com informações do serviço Eurekalert.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

Mais de cem papagaios-de-cara-roxa nascem no Paraná


Por Sabrina Rodrigues
Biólogos do Projeto de Conservação do Papagaio-de-cara-roxa cadastram e monitoram os papagaios anualmente. Foto: Giovana Logulo.
Biólogos do Projeto de Conservação do Papagaio-de-cara-roxa cadastram e monitoram os 
papagaios anualmente. Foto: Giovana Logulo.


Os papagaios são as aves mais populares do Brasil e ao longo dos anos estão sofrendo com a diminuição da sua população. Os papagaios-de-cara-roxa (Amazona brasiliensis), por sua vez, já estiveram na categoria “vulnerável” da Lista de Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção, e agora, depois de muitos esforços e trabalho para a conservação da espécie, estão na categoria “quase ameaçado”.


E parece que esses esforços continuam apresentando resultados. Uma boa notícia vem da Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS). O Papagaio-de-cara-roxa registrou um total de 116 novos nascimentos. Isso aconteceu entre setembro de 2016 a março de 2017.


O êxito reprodutivo, ou seja, o número de aves que se desenvolveram no ninho e conseguiram alçar voo, foi de 75 filhotes. Isso tudo graças aos ninhos artificiais instalados no litoral do Paraná pelos pesquisadores do Projeto de Conservação do Papagaio-de-cara-roxa, que monitora a população das aves desde 1998. Os trabalhos se deram em dois locais: no Paraná e em São Paulo. No primeiro estado, foram cadastrados 140 ninhos e monitorados anualmente. O trabalho contou com a ajuda de dois moradores da região. Já em São Paulo, a iniciativa teve o apoio da Fundação Grupo Boticário e da Fundação Loroparque, que contribuíram com uma busca incessante de ninhos ativos.


O papagaio de cara roxa é endêmico da Mata Atlântica e ocorre somente nos estados de São Paulo e Paraná. Em 1998, a ONG Sociedade de Pesquisa de Vida Selvagem (SPVS) começou as pesquisas e o monitoramento da ave. Em 2003, eles iniciaram a colocação de ninhos artificiais para facilitar a reprodução segura de filhotes. Os ninhos são feitos com madeira e PVC. “Os casais se adaptaram muito bem aos ninhos artificiais. Hoje temos quase 100% deles ocupados e estamos experimentando colocá-los também em São Paulo”, conta Sezerban.


Comunidade envolvida
Esse esforço é conjunto. Além da ONG e das instituições envolvidas, o projeto conta também com a ajuda preciosa da comunidade local. Atualmente, as ações atuam em seis municípios do litoral sul de São Paulo, com maior intensidade na Ilha Comprida, Cananéia, Iguape e Pariquera-Açu. “É surpreendente ver como a comunidade está envolvida. Alguns moradores mais antigos se dispõem a nos apresentar a região e nos auxiliam na localização e na proteção dos ninhos, o que está ajudando muito no trabalho em campo e na manutenção dos ninhos com filhotes registrados”, afirma Elenise Sipinski, coordenadora do projeto.
Ninhos artificiais. Foto: Arquivo SPVS
Ninhos artificiais. Foto: Arquivo SPVS
infografico-papagaio-rev-02-01



Duende Lucas, o professor da criançada, ganha segundo livro


Por Duda Menegassi
lucasmanchete
O lúdico é uma ferramenta poderosa de aprendizado, ainda mais entre crianças. Ciente disso, o cartunista Léo Valença criou, em 2012, o personagem Lucas, um duende que desperta a consciência ecológica entre a criançada. De lá para cá, o cartunista percebeu o impacto positivo dos jogos educativos que propunha no “Almanaque Ecológico do Lucas”, e decidiu fazer um segundo livro para o duende, desta vez dedicado aos passatempos.
capa-1“Passatempos Ecológicos do Lucas” utiliza de caça-palavras, testes, cartuns, quadrinhos e curiosidades para transformar a educação ambiental em algo divertido. O conceito de edutainment, de unir educação com entretenimento, é o norte através do qual Léo Valença espera conscientizar as crianças sobre a importância de preservar o meio ambiente. O autor explica que as brincadeiras ecológicas têm como objetivo “promover ao máximo a interatividade, porque percebi que quanto maior a interatividade com a criança, mais esse conteúdo é bem-vindo e melhor ele é assimilado”.


O livro é publicado pelo sistema PoD, Print On Demand, ou seja, só é impresso por encomenda, o que evita o desperdício de papel e está disponível para compra através do site da editora.

Parlamentares modificam MP para permitir mineração em Parque no Pará

Por Daniele Bragança*
Deputados e senadores acertam os últimos detalhes do relatório da MP 758 antes da votação simbólica. Na foto, deputado Josué Bengtson (PTB-PA); senador Flexa Ribeiro (PSDB-PA); relator José Reinaldo (PSB-MA) e senador Paulo Rocha (PT-PA). Foto: Roque de Sá/Agência Senado.
Deputados e senadores acertam os últimos detalhes do relatório da MP 758 antes da votação
simbólica.
Na foto, deputado Josué Bengtson (PTB-PA); senador Flexa Ribeiro (PSDB-PA);
relator José Reinaldo (PSB-MA) e senador Paulo Rocha (PT-PA).

Foto: Roque de Sá/Agência Senado.


Um dia após aprovarem um texto recortando ainda mais a Floresta Nacional de Jamanxim, parlamentares membros de outra comissão mista votaram para desmembrar outras duas Unidade de Conservação do oeste do Pará: o Parque Nacional de Jamanxim e a Floresta Nacional de Itaituba II, que originalmente não estava na matéria. As mudanças beneficiam mineradores que exploram ouro na região.


Em dezembro, o governo Temer alterou, via Medida Provisória, os limites do Parque Nacional de Jamanxim. A mudança foi pontual: 862 hectares foram tirados para dar lugar a ferrovia Ferrogrão. Em compensação, o governo anexou 51 mil hectares de uma área pertencente à Área de Proteção Ambiental (APA) do Tapajós no Parque. Após a ampliação, o parque passou a abrigar um território de 909 mil hectares e a APA do Tapajós passou de 2.039.580 hectares para 1.988.445 hectares. Isso até a Medida Provisória ir para o Congresso.


Após tramitar em uma comissão mista formada por deputados e senadores, a matéria foi descaracterizada. Foram apresentadas 7 emendas à proposta original em fevereiro. O relator, deputado José Reinaldo (PSB-MA), acatou parcialmente 4 emendas. A votação, feita em menos de 10 minutos na manhã desta quarta-feira (12), incluiu a diminuição na Floresta Nacional de Itaituba II e a criação de mais três Áreas de Proteção Ambiental: a APA de Rio Branco, a APA de Carapuça e a APA de Trairão.


Com as mudanças do relator, a chamada Medida Provisória da Ferrogrão ficou assim: 273 mil hectares do Parque Nacional do Jamanxim foram transformados nas Áreas de Proteção Ambiental (APAs) Carapuça e Rio Branco e 71 mil hectares do Parque foram incorporados à Floresta Nacional do Trairão. As mudanças também atingem a Floresta Nacional Itaituba II, que teve 42% do seu território transformado na Área de Proteção Ambiental do Trairão (Veja Tabela).


tabela-mp-758
A criação e recategorização de unidades de conservação de categorias mais restritivas em APAs sinaliza a legalização de títulos de terra e de passivos ambientais do grosso dos proprietários de terra legítimos e invasores, já que essa a categoria de unidade de conservação mais branda do país. Um parque nacional, por exemplo, é uma unidade de 'Proteção Integral', onde só é permitido a visitação. Já uma Floresta Nacional é uma unidade de 'Uso Sustentável' cujo objetivo é a exploração de produtos florestais (madeiras, sementes, etc), mas não permite propriedades privadas dentro. Já uma APA, a mais branda de todas, comporta propriedades privadas e produção, com pouquíssimas restrições.


Na Medida Provisória 758, o governo aumentou a proteção da área no entorno da BR 163, ao anexar 51 mil hectares da Área de Proteção Ambiental (APA) do Tapajós no Parque Nacional de Jamanxim, uma categoria mais restritiva. Os parlamentares fizeram o movimento contrário: retiraram 442,865 mil hectares do Parque, sendo que 79% dessa redução foram para as APAs e 21% viraram floresta.
A criação das APAs, segundo admite o relator, deputado José Reinaldo, permitirá a continuidade de atividades mineradoras anteriores à criação de reservas ambientais com a justificativa de que “ali há investimentos muito grandes que não podem ser desconhecidos”.


O relator destacou ainda que os pequenos produtores rurais foram prejudicados com a criação das Unidades de Conservação em 2006, criadas para impedir o aumento de desmatamento ao longo da BR 163, que estava sendo asfaltada. Autor da emenda que cria a APA de Carapuça, o deputado Francisco Chapadinha (PTN-PA) afirmou que a mudança de categoria “concilia a continuidade das atividades produtivas com a preservação ambiental”.


A demanda no Congresso é recategorizar ou até sustar as Unidades que impedem o aumento da produção agropecuária e exploração mineradora no seio da Amazônia. 

O movimento ganhou força recentemente com a diminuição de áreas protegidas no Pará pelas Medias Provisórias 756 e 758. As modificações feitas pelos congressistas nos dois textos já atingem 1 milhão de hectares em pelo menos 5 unidades de conservação: nas Florestas Nacionais de Jamanxim e Itaituba II, nos Parques Nacionais do Jamanxim e São Joaquim e na Reserva Biológica Nascentes da Serra do Cachimbo.


*Com informações da Agência Senado.

Agentes ambientais de Mamirauá pedem socorro


Por Vandré Fonseca
Pescadores usam botes para estender redes no interior de Mamirauá. Foto: Alex Chaffee/Flickr.
Pescadores usam botes para estender redes no interior de Mamirauá. Foto: Alex Chaffee/Flickr.
Manaus, AM --


 Agentes ambientais das Reservas de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá e Amanã, interior do Amazonas, ainda aguardam medidas concretas para proteger estas duas Unidades de Conservação estaduais. Há duas semanas, uma comissão de agentes esteve em Manaus para denunciar crimes ambientais e pedir fiscalização na área. Como resultado, até agora, conseguiram uma audiência pública, para discutir as denúncias, no dia 4 de maio, no Ministério Público Federal.



Eles querem providências contra a pesca ilegal que ocorre nas Unidades de Conservação. Embora as embarcações não entrem nas reservas, segundo conta o presidente da Associação dos Agentes Ambientais, Lázaro Alcimar, pescadores usam botes para estender redes em lagos no interior das RDS. Apesar de alertarem pescadores sobre a proibição, os agentes ambientais afirmam não ter autoridade para impedir a atividade e se sentem amedrontado, porque muitos pescadores trabalham armados.


“Eles chegam no lago e conseguem colocar a malhadeira à noite e aproveitam o momento em que os agentes ambientais e os comunitários não estão na área”, conta Lázaro Alcimar. Os pescadores usam redes de até 100 metros, que muitas vezes se estendem de uma margem a outra do lago, de acordo com Alcimar.


A pesca ilegal prejudica, por exemplo, o manejo do pirarucu. Além de reduzir o estoque dos peixes em áreas dentro da reserva, a concorrência do produto ilegal afeta o mercado para o peixe manejado. “Tem prejudicado porque lá nas áreas têm manejo. Nessas áreas, dessas duas unidades, se faz manejo do pirarucu e de outras espécies”, conta o presidente da associação.


Os agentes ambientais denunciam também que uso de jacarés e botos para a pesca da piracatinga voltou a ocorrer na região, inclusive dentro das reservas. “Você vai lá no rio por onde a gente mora e de vez em quando bate aquele pedaço de jacaré morto, podre”, conta o agente ambiental Noé Parente da Paz, que vive na comunidade Barroso, margem esquerda do Rio Solimões. “Toda noite vão focar, vão nos lagos atrás de jacaré. A gente fica preocupado com isso, porque cada vez está aumentando mais. E nós não temos esse poder de ir lá e fazer a apreensão”, completa.


Mamirauá foi a primeira Reserva de Desenvolvimento Sustentável do estado do Amazonas. Foi criada em 1990, como Estação Ecológica, a partir de uma solicitação feita pelo primatólogo José Márcio Ayres ao governo federal. Ela ocupa 1,124 milhão de hectares, no Médio Solimões. Amanã surgiu um pouco depois, em 1998, e é ainda maior, possui 5,746 milhões de hectares (maior do que o estado da Paraíba) entre Mamirauá e o Parque Nacional do Jaú, na Bacia do Rio Negro.


“Nós, como agentes ambientais, fazemos nossa parte lá. Nós educamos, nós mobilizamos, nós trabalhamos na parte de mobilização social também”, afirma o agente ambiental Muniz Torda, que mora na comunidade de Vila Soares, Mamirauá, a vinte quilômetros da cidade de Uarini.  “Quando decreta uma reserva, o estado tem o dever de ajudar a cuidar e apoiar, principalmente na fiscalização”, defende.


De acordo com a comitiva, atualmente 124 agentes ambientais atuam nas RDS Mamirauá e Amanã, onde vivem mais de 20 mil pessoas. Em Manaus, em menos de uma semana, eles tiveram reuniões com Ibama, Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam), Secretaria Estadual de Meio Ambiente (Sema), Comissão de Meio Ambiente da Assembleia Legislativa e Ministério Público Federal. Apenas o Ministério Público Estadual deixou de responder aos pedidos de audiência.


E, por falta de tempo, não puderam apresentar a situação diretamente à Secretaria Estadual de Segurança.



Luís Sérgio dos Reis, agente ambiental da comunidade de Boa Esperança, no Lago Amanã, faz um apelo pelo futuro das reservas. “Se nós não garantirmos o futuro de quem está chegando e de quem vai chegar, vai se tornar uma dificuldade para sobreviver”, diz. “Porque nós estamos tirando o mais fácil e está ficando o mais difícil. Nós temos que garantir o futuro das pessoas e tem que ser hoje, porque amanhã pode ser muito tarde”.

Falha na legislação impede conversão de multas em serviços ambientais


Por Daniele Bragança
O fiscal José Brito chega a passar meses na Amazônia, revezando de equipes, durante a operação Onda Verde. Foto: Marcio Isensee e Sá
Foto: Marcio Isensee e Sá.



Proprietários rurais que desmataram ilegalmente encontram uma dificuldade para que suas multas sejam revertidas em serviços ambientais. O mecanismo, previsto timidamente pela primeira vez em 1990, poderia aumentar a regularização do passivo ambiental dos proprietários rurais, mas a falta de regulamentação impede a conversão das multas.


Além disso, em algumas situações, estas multas poderiam fazer parte de um programa de conversão especial, mas uma falha na redação do novo Código Florestal também impede que o programa seja adotado. É o que conclui um levantamento feito pelas pesquisadoras Joana Chiavari e Cristina Leme Lopes do Núcleo de Avaliação de Políticas Climáticas da PUC-Rio/ Climate Policy Initiative (NAPC/ CPI), através do projeto INPUT.



Multas ambientais são sanções impostas à alguém que tenha cometido uma infração ambiental. O infrator, uma vez autuado, pode pagar integralmente a multa, contestá-la judicialmente ou requerer a sua conversão em serviços ambientais, o que normalmente significa que o infrator se compromete a reparar o dano ambiental causado.



A última opção, porém, ainda não decolou por causa de um vácuo legislativo que inviabiliza a sua aplicação. “A gente viu que existiam várias vantagens, tanto para o infrator quanto para o órgão ambiental, em fazer a conversão de multas. Para o infrator, existe um desconto de 40% no valor da multa e ele pode usar o dinheiro da multa para reparar o dano e conseguir um acordo sem interferência judicial sobre como recuperar. Porém, mesmo com as vantagens, o mecanismo é muito pouco utilizado e fomos tentar entender porque”, explica Joana Chiavari, uma das autoras do estudo.



Segundo a especialista, além da falta de regulamentação, outros entraves para que a conversão de multas seja aplicada são a ausência de jurisprudência com base na legislação em vigor, as mudanças constantes nas normas que regem o tema e a falta de quadro técnico capacitado.



Por um novo marco jurídico
O vácuo legislativo é apontado como o principal entrave para a implementação do programa de conversão de multas. Para as especialistas, é importante regulamentar a conversão de multa ambiental e definir as regras que melhor atendem aos objetivos da nova regulamentação – que pode ser tanto uma instrução normativa do Ibama ou um decreto federal. As analistas defendem que a regulamentação por decreto oferece liberdade para inovar, estabelecendo, por exemplo, outros serviços ambientais para fins de quitação da multa, como a aquisição de Cotas de Reserva Ambiental (CRA) ou a adesão de editais de restauração florestal.



“Não existe um procedimento para dizer como acontece, na prática, a conversão. Na nossa opinião, a nova norma deveria definir o valor da multa a ser convertida, o percentual do desconto, quais serviços ambientais poderiam ser elegíveis, qual o prazo para apresentar o pedido de conversão, quais as diretrizes que o órgão ambiental deveria usar para aprovar ou não a conversão”, afirma Joana.
Outra recomendação feita pelo estudo é a promoção de cursos de capacitação para os técnicos do Ibama, tanto para informá-los sobre o instrumento quanto para capacitá-los para a análise dos projetos de conversão de multa.



Falha no artigo 42 do Código Florestal
O Código Florestal prevê a instituição de um programa de conversão de multa especial, para desmatamento ilegal em área sem ser Reserva Legal ou Área de Preservação Permanente, mas uma falha na redação do artigo é uma pedra no caminho do programa.



Isso porque a redação do artigo 42 do Código Florestal deixa expresso que o programa de conversão só vale para desmatamento sem autorização que tenha ocorrido antes de 22 de julho de 2008 e determina que o auto de infração seja lavrado com base no decreto 6.514/2008. Acontece que o decreto entrou em vigor no dia 23 de julho de 2008, um dia antes da data limite imposta pelo Código:


“As infrações que aconteceram antes de julho de 2008 não podem estar subordinadas a um decreto que entrou em vigor no dia 23 de julho de 2008. As infrações que aconteceram antes de 22 de julho só podem estar subordinadas a um decreto, o decreto 3179, de 1999, que estava em vigor na época”, explica Chiavari, “O que o artigo 42 fez foi criar um direito inexistente. Criou um artigo que é impossível de ser cumprido”, explica.


A recomendação é que o programa de conversão de multas do artigo 42 do Código Florestal fosse feito usando o artigo decreto 3.179/1999 ao invés do 6.514/2008. O problema, porém, é que o programa poderia ser contestado judicialmente e considerado ilegal. “Essa solução seria um risco porque estaríamos ignorando completamente uma menção expressa no Código Florestal”, explica Joana.


A solução definitiva para o problema seria reenviar o Código para o Congresso corrigir o artigo, mas isso abriria brecha para que toda a lei fosse descaracterizada. A última reforma do Código Florestal foi em 2012.

*Editado às 11h, do dia 14/04/2017.

Saiba Mais
Estudo: Conversão de Multas ambientais em prestação de serviços ambientais

Governo parou de produzir estatística sobre pesca

Por José Truda
Não sabemos. Há seis anos, o Brasil sofre com a falta de dados sobre a atividade pesqueira no país, que deveriam ser produzidos regularmente pela Secretaria de Aquicultura e Pesca. Não se sabe o que é desembarcado, como se pesca, o que se pesca e nem quantos barcos existem no país. O problema afeta tanto a pesca industrial quanto a artesanal.

“Enquanto não tivermos o mínimo de monitoramento e uma fiscalização rigorosa, nós não vamos poder jamais dizer que a pesca no Brasil é sustentável”, diz  José Truda, que inaugura hoje videoblog em ((o))eco sobre conservação marinha.


Vejam depoimento no link abaixo:


https://youtu.be/t7IgMGjqlSc

Leia mais sobre o assunto:

https://youtu.be/t7IgMGjqlSc 

Ministério da (Sobre)Pesca e do Sumiço das Estatísticas

Por José Truda
31032015-tubarao
Durante os dias 26 e 27 de março, a convite do ICMBio, realizou-se em Brasília uma reunião muito rara, reunindo pesquisadores, ONGs ambientalistas e lideranças da pesca artesanal de todo o pais para discutir a recente Portaria 445 do Ministério do Meio Ambiente que lista as espécies aquáticas brasileiras ameaçadas de extinção e determina medidas para sua proteção.


O encontro é incomum, pois envolveu setores que quase nunca se encontram, e menos ainda estão acostumados a encontrar consensos quando se trata da gestão dos recursos pesqueiros nacionais. Para grata surpresa deste que vos escreve, esses consensos foram encontrados até com relativa facilidade, no que tange a apoiar a manutenção da Portaria 445 para proteger o que resta da biodiversidade aquática do Brasil e buscar caminhos para a gestão adequada das espécies vulneráveis.


Outro consenso emergiu nas conversas e da indignação de quem trabalha seja com conservação, seja com pesca: o ministério que se supõe encarregado do tema é o pior problema a resolver, e muitos dentre nós torcemos para que a tão propalada reforma ministerial acabe com esse trambolho que só favorece a devastação e o mau uso do dinheiro público. Trata-se do Ministério da Pesca e Aquicultura, ou melhor, Ministério da (Sobre)Pesca.

Criado com a suposta missão de ordenar e fomentar a aquacultura e o uso dos recursos pesqueiros, ele logo mostrou a que veio, transformando-se num cartório dos interesses que dominam a pesca industrial no Brasil, e que mais parecem ser empresários de mineração do que de uso de um recurso público vivo.

Apropriando-se de montanhas de dinheiro dos nossos impostos, este ministério promove uma verdadeira derrama de subsídios para um setor historicamente responsável pela destruição sistemática da biodiversidade marinha brasileira, com a disponibilização de mais de QUATRO BILHÕES DE REAIS para facilitar a construção de ainda mais embarcações para predar sobre recursos já violentamente sobre-explorados.

Qualquer compromisso com sustentabilidade da pesca empalidece frente à sanha pseudo-desenvolvimentista que caracteriza as ações e o discurso dos caciques políticos que o dominam. Não há qualquer critério técnico para as indicações do ministro e suas chefias, como, aliás, é a má praxe na gestão pública federal de nossa combalida Banânia.

Em nenhuma área a cumplicidade criminosa do Ministério da (Sobre)Pesca com a mineração dos recursos pesqueiros nacionais é tão evidente quanto na pesca oceânica. Basta ver o que está acontecendo com os tubarões do Brasil, um grupo de fauna marinha essencial ao equilíbrio ecológico dos oceanos e à saúde da própria pesca de outras espécies.


Os tubarões estão simplesmente desaparecendo de toda a extensão de nossas águas, vitimados pela captura intencional disfarçada de "incidental" para alimentar o tráfico internacional de barbatanas, cuja exportação "legal", estimulada por esse ministério-cartório, serve apenas para encobrir uma gigantesca e contínua operação de contrabando de toneladas de barbatanas, que corresponde a milhões de tubarões massacrados ilegalmente nas barbas de quem deveria zelar pelo ordenamento pesqueiro.


Cadê os números?
"(...) sem dados oficiais o massacre pornográfico da fauna marinha brasileira não pode ser comprovado em toda sua extensão"
Infelizmente não é possível ordenar a pesca no Brasil, eis que não há dados suficientes para garantir a determinação de cotas sustentáveis para a maioria das espécies de interesse comercial. Como, não há dados? Simples. DESDE 2011 o Ministério da (Sobre)Pesca não publica mais quaisquer estatísticas sobre os desembarques pesqueiros no país, e não os compila mais desde 2008, deixando que a máfia que pratica a sobrepesca sistemática deite e role à vontade.


As desculpas para esse absurdo são muitas, mas a verdade é uma só: sem dados oficiais o massacre pornográfico da fauna marinha brasileira não pode ser comprovado em toda sua extensão, dificultando a adoção de medidas de ordenamento e conservação adequadas. Alegria pura para as quadrilhas que vivem de depredar esse inestimável patrimônio público que é o mar do Brasil.


Não é por nada que auditoria do Tribunal de Contas da União corroborou a informação de que estudos de avaliação dos estoques indicam que 80% dos principais recursos pesqueiros nacionais encontram-se plenamente explorados, sobrepescados, esgotados ou (tardia e lentamente) em processo de recuperação.


Além disso, nota que o próprio governo brasileiro admitiu, em 2011, no seu 4º Relatório para a Convenção da Diversidade Biológica, que a atividade pesqueira é a principal ameaça à biodiversidade marinha nas águas brasileiras, impactando não apenas os recursos ditos pesqueiros propriamente ditos, mas uma ampla diversidade de espécies, capturadas "incidentalmente" ou como "fauna acompanhante", e de ecossistemas. A auditoria do TCU apontou a mais absoluta falta de transparência no processo de gestão no Ministério da (Sobre)Pesca e seus "comitês de gestão". Mas nada foi feito.


Não é de se estranhar, portanto, que este ministério e seus donos, os empresários da (sobre)pesca industrial, tenham ficado furiosos com a edição da Portaria 445 do Ministério do Meio Ambiente, que definiu a lista de espécies aquáticas ameaçadas de extinção.



Fruto de um trabalho primoroso das melhores cabeças do país nesta área da ciência e de técnicos do ICMBio, utilizando metodologias aceitas mundialmente, a lista baseou-se em uma enorme quantidade de trabalhos científicos resgatados pelos pesquisadores, vencendo a inércia proposital do Ministério da (Sobre)Pesca e construindo com fatos inequívocos o quadro de horror das mais de 400 espécies listadas, para muitas das quais a pesca é, sim, o principal fator de ameaça de extinção.


A reação criminosa da pesca industrial, fechando o porto de Itajaí nas barbas das autoridades navais e policiais omissas, e que contou com todo o apoio do ministério, tenta revogar uma das pouquíssimas medidas que busca impor o interesse público sobre o privado na gestão de nossa biodiversidade marinha, e com sua revogação garantir que a máfia da sobrepesca possa continuar delinquindo livremente.


De Crivella a Barbalho
"Os ditos "recursos pesqueiros" que a máfia da sobrepesca reivindica como seus (...) são na verdade a nossa biodiversidade aquática, um patrimônio de todos os cidadãos"
Chegou a haver um período em que parecia que esse Ministério tomaria outro rumo, quando – pasmem - o folclórico Bispo Crivella esteve à frente do mesmo. O sujeito durante um bom tempo passou a ouvir alguns bons técnicos, apoiando a adoção, entre outras, de medidas de conservação dos tubarões e de ordenamento mínimo das atividades pesqueiras. Mas a entrega política do mesmo a Helder Barbalho mudou esse rumo.


Oriundo de um estado que sedia algumas das empresas pesqueiras mais influentes e responsáveis pela exportação ilegal de barbatanas de tubarão para a Ásia, desde o primeiro minuto o novo ministro se recusa a ouvir a sociedade civil e mesmo os pescadores artesanais. Literalmente, entregou o controle da estrutura pública para o lobby da pesca industrial, numa demonstração de que não há futuro para esse ministério caríssimo, incompetente e desnecessário.


Uma secretaria técnica em um ministério mais enxuto, que ouvisse a sociedade adequadamente, poderia suprir as verdadeiras necessidades para que a pesca brasileira deixasse de ser um escândalo de apropriação indébita para se tornar, quem sabe, um benefício para o país.


Os ditos "recursos pesqueiros" que a máfia da sobrepesca reivindica como seus e dos quais pretende apropriar-se no grito, através de ações criminosas como o bloqueio de portos, são na verdade a nossa biodiversidade aquática, um patrimônio de todos os cidadãos e que deveria ser gerido pensando no bem comum, e não no enriquecimento ilícito de uns poucos.


Um ministério que se transformou em cartório de um setor industrial milionário, que desconsidera as necessidades legítimas da pesca artesanal, que abandonou qualquer busca da boa gestão e da sustentabilidade, e que se recusa a escutar os reclamos de todos os segmentos da sociedade que não façam parte de sua claque imediata, não tem o que contribuir para um Brasil moderno, sustentável e justo. Tratemos de nos livrar dessa excrescência, antes que ela acabe de vez com nosso mar.


 

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Parlamentares tiram proteção de parque nacional na Amazônia



Sob o pretexto de abrir caminho para a Ferrogrão, medida deixa brechas para mais desmatamento e ocupações ilegais no oeste do Pará.

WWF-Brasil alerta: os parlamentares que alteraram as MPs 756 e 758 deixam desprotegidos mais de um milhão de hectares Amazônia, em uma área já marcada por conflitos fundiários, avanço do desmatamento e crimes como corte ilegal de madeira, garimpos clandestinos e grilagem de terras públicas.

desmatamento

Um dia depois de uma comissão mista do Congresso Nacional reduzir cerca de 660 mil hectares de florestas no oeste do Pará, outro colegiado, também formado por deputados e senadores aprovou, em menos de dez minutos, na manhã desta quarta-feira, mudanças nos limites do Parque Nacional (Parna) do Jamanxim e da Floresta Nacional de Itaituba II – na mesma região.



Pela medida aprovada hoje, 273 mil hectares do parque foram transformados em Áreas de Proteção Ambiental (APAs) Carapuça e Rio Branco. APA é uma modalidade de unidade de conservação que permite diversos tipos de uso do solo, como atividades agropecuárias e garimpo, abrindo brecha para mais desmatamento e ocupações irregulares. Outros 70 mil hectares do parque passam para a Floresta Nacional do Trairão.


O texto da Comissão segue agora para o plenário da Câmara, depois ao Senado. A MP tem de ser votada até dia 29 de maio. Em seguida, vai à sanção do presidente da República.



Um milhão a menos
WWF-Brasil alerta: em duas tacadas, os parlamentares que alteraram as MPs 756 e 758 deixam desprotegidos mais de um milhão de hectares Amazônia, em uma área já marcada por conflitos fundiários, avanço do desmatamento e crimes como corte ilegal de madeira, garimpos clandestinos e grilagem de terras públicas. A decisão tomada hoje consta do relatório do deputado José Reinaldo (PSB/MA), no âmbito da Comissão Mista da Medida Provisória (MP) 758, proposta pelo presidente Temer no final do ano passado.


O plano do Executivo era desafetar aproximadamente 862 hectares do parque para abarcar as curvas da futura ferrovia EF-170, a Ferrogrão, que deve ligar o município de Sinop (MT) ao distrito de Miritituba, em Itaituba (PA). O traçado da ferrovia passa no meio do parque, mais ou menos em paralelo à BR-163, e por isso seria necessário mudar parcialmente o status de alguns trechos da unidade de conservação, conforme desenho proposto pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).


A ferrovia é considerada estratégica pelo agronegócio, que quer usar a via para facilitar as exportações. A expectativa é que passem por ali até cinco milhões de toneladas de grãos por ano.



Minérios
No arranjo do relator, aquilo que foi retirado da Flona de Itaituba (169 mil hectares) foi com o intuito de atender aos interesses do setor minerário. Ao longo da discussão da MP 758, o Ministério de Minas e Energia apresentou uma série de sugestões ao relator, defendendo que o novo desenho deixasse de fora do parque áreas com potencial para mineração.


A prática na região tem sido a de cortar a floresta, colocar em cima algumas cabeças de gado e se apropriar a terra pública. Os que já se adiantaram e invadiram áreas às margens da BR-163, no trecho que corta o parque, também foram a Brasília pressionar, esperando anistia e vantagens com as alterações.


Ao final, o relatório ateve-se apenas aos interesses econômicos, sem considerar a importância ambiental das áreas, que apresentam cobertura florestal contínua e íntegra. “Alterar a categoria de proteção dessas áreas para aproveitamento agrícola, como justifica a emenda feita à MP original, é efetivamente apostar no avanço do desmatamento na Amazônia”, diz a Nota Técnica do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).


Segundo o documento, o parque quando foi criado, em 2006, serviu como barreira ao desmatamento que avançava de modo veloz na região. Essa barreira agora está fragilizada.

Do WWF-Brasil, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 13/04/2017

[CC BY-NC-SA 3.0][ O conteúdo da EcoDebate pode ser copiado, reproduzido e/ou distribuído, desde que seja dado crédito ao autor, à EcoDebate e, se for o caso, à fonte primária da informação ]

Redução do patrimônio natural – retrocesso ambiental e social, artigo de Carlos Hugo Rocha





[EcoDebate] O estado do Paraná nunca foi competente em gerenciar o seu patrimônio natural, como mostram os esparsos remanescentes de florestas com Araucária ou Peroba que dominavam o estado antigamente.


A paisagem natural dos Campos Gerais é magnífica, uma das mais belas paisagens do Brasil, reconhecida desde os tempos da colonização regional e dotada de rico patrimônio arqueológico, histórico e cultural. Bem servida por estradas e com fácil acesso à capital, a região pode ser tornar uma das áreas mais visitadas do país. Esse potencial ainda é pouco explorado como gerador de recursos e empregos, em grande parte pela incompetência de nossos administradores e legisladores, que não conseguem conceber e criar condições necessárias para que isso ocorra.


Nas três últimas décadas, levantamentos da biodiversidade regional desenvolvidos no âmbito de universidades, tanto do Brasil quanto do exterior, constataram a importância e riqueza da diversidade biológica dos ecossistemas dos Campos Gerais e foram unânimes em apontar a necessidade de proteção. Justamente por isso, a região foi incluída entre as áreas de extrema prioridade para a conservação da biodiversidade brasileira (Decreto 09/2007- MMA).


Em 1992, foi instituída a Área de Proteção Ambiental – APA da Escarpa Devoniana, integrando 12 municípios dos Campos Gerais. Abrangendo superfície de 395.000 ha, a maior Unidade de Conservação do estado foi delimitada com base nos remanescentes de campos nativos, ou seja, menos de 10% da superfície original dos Campos Gerais.


A APA nunca chegou a ser verdadeiramente implantada e aqueles importantes remanescentes dos Campos Gerais foram sendo paulatinamente substituídos por cultivo agrícola (principalmente soja e milho) ou reflorestamentos.


O objetivo básico de uma APA é compatibilizar a conservação com o uso sustentável dos recursos naturais para gerar recursos econômicos e garantir a conservação em parceria com agricultores e comunidades. Compatibilizar crescimento econômico equitativo com a manutenção dos serviços ecológicos essenciais – água, biodiversidade e sequestro de carbono, é um dos grandes desafios da ciência e da sociedade humana no século XXI. Mas para isso é preciso pelo menos um pouco de inteligência e boa vontade, matéria em falta entre nossos legisladores e governantes.


No final de 2016, deputados da base governista, que legislam independentemente do interesse da sociedade, propuseram estabelecer novo perímetro para a APA. Com base em estudo realizado sem base científica adequada e do poder emanado pela aristocracia rural no atual governo estadual, pretende-se excluir 68% da superfície protegida. Pior, o texto do projeto de lei (PL 527/2106) comete erro grosseiro ao definir os novos limites, tornando a proposta ainda mais incongruente.


Na última segunda-feira, 10, audiência pública para debater a proposta ocorrida em Ponta Grossa lotou o local e quase metade do público presente ficou de fora. Ficou clara a farsa da proposta apresentada, mas isso não significa quase nada para os nossos tomadores de decisão. Resta, portanto, pedir à sociedade que continue democraticamente a se manifestar no sentido de pressionar nossos representantes na Assembleia para agirem de forma mais digna e inteligente em prol do meio ambiente, que é de todos.


*Carlos Hugo Rocha é agrônomo, professor da UEPG, doutor em Gestão de Recursos Naturais pela Colorado State University (EUA) e membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 13/04/2017


"Redução do patrimônio natural – retrocesso ambiental e social, artigo de Carlos Hugo Rocha," in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 13/04/2017, https://www.ecodebate.com.br/2017/04/13/reducao-patrimonio-natural-retrocesso-ambiental-e-social-artigo-de-carlos-hugo-rocha/.

[CC BY-NC-SA 3.0][ O conteúdo da EcoDebate pode ser copiado, reproduzido e/ou distribuído, desde que seja dado crédito ao autor, à EcoDebate e, se for o caso, à fonte primária da informação ]

Morte de macacos pela população prejudica controle da febre amarela



ICTB/Fiocruz
O Brasil vivencia um dos períodos de maior mortandade de primatas da história devido à febre amarela silvestre no país, segundo a Sociedade Brasileira de Primatologia (SBPr). Além das mortes pela infecção pelo vírus, autoridades suspeitam que macacos estejam sendo executados pela população pelo medo de transmissão da doença. O quadro prejudica a implementação de medidas preventivas pelas autoridades sanitárias e pode levar à extinção de espécies, prejudicando todo o meio ambiente.
Morte de macacos pela população prejudica controle da febre amarela
“Os macacos são sensíveis ao vírus da febre amarela e a morte dos animais pela doença é um alerta aos órgãos de saúde sobre a necessidade de vacinação da população humana nos arredores. Ou seja, eles permitem aos gestores de saúde implementar estratégias preventivas, antes de o vírus atingir populações humana”, explica a diretora do Instituto de Ciência e Tecnologia em Biomodelos (ICTB/Fiocruz) e veterinária, Carla Campos.


Ela esclarece ainda que os primatas são tão vítimas da doença quanto os humanos, não a transmitindo diretamente. “Esses animais, assim como o homem, são hospedeiros do vírus e não reservatórios da doença. Os vírus ficam vivos neles por um período de tempo muito curto. Os mosquitos silvestres são os responsáveis pela manutenção do vírus na natureza. Portanto, matar macacos para acabar com o vírus não só é uma estratégia ineficaz, como pode agravar o quadro de risco para a população”, adverte ela.


Em comunicado, a SBPr esclarece que há consenso entre os especialistas de que os macacos não são os responsáveis pela disseminação da doença, embora ainda seja desconhecido o mecanismo de propagação do vírus por extensões geográficas tão vastas. O órgão ressalta que preservar os habitats naturais é essencial para o controle da febre amarela “Desflorestar ou matar macacos não impede a circulação do vírus da febre amarela. Na verdade, o efeito é danoso para a saúde pública, pois elimina o papel de sentinela dos primatas, que, ao morrerem pela doença, avisam as autoridades sobre a sua ocorrência. Os macacos têm, portanto, uma valiosa e insubstituível contribuição para a saúde pública”, explica o órgão.


As autoridades ambientais temem que as mortes por febre amarela somadas àquelas decorrentes de agressões contra os macacos possam levar à extinção de espécies, como aconteceu com o bugio-ruivo, em 2008 e 2009, no Rio Grande do Sul. Segundo o Instituto Chico Mendes para a Conservação da Biodiversidade, do Ministério do Meio Ambiente, o surto da doença afetou populações de bugio-preto (Alouatta caraya) e bugio-ruivo (Alouatta guariba clamitans), matando milhares de macacos, com registros de extinções locais, inclusive em unidades de conservação.


Animal doente ou morto
O Centro de Informação em Saúde Silvestre (Ciss/Fiocruz) orienta que, ao encontrar um macaco morto ou com comportamento estranho, deve-se contatar a secretaria municipal de saúde de sua cidade ou, no caso do Rio de Janeiro (capital) notificar pelo telefone 1746. Além disso, é indicado realizar a notificação no aplicativo Siss-Geo (disponível apenas para Android).



Segundo a bióloga, coordenadora do Ciss e do Programa Institucional Biodiversidade & Saúde, Márcia Chame, o aplicativo permite saber a localização exata do animal encontrado, pois utiliza o sistema de GPS do celular, além de enviar fotos. “Ao receber essas informações, notificamos imediatamente as autoridades sanitárias competentes, permitindo que esses animais sejam removidos de maneira correta e possam ser encaminhados para análise em instituições de referência, além de alertar essas instâncias para a necessidade de outras ações naquele local, como imunizar a população, por exemplo”.


Já no caso de maus tratos de macacos é possível denunciar pela Linha verde do Ibama (0800 61 8080) ou pelo e-mail linhaverde.sede@ibama.gov.br, inclusive podem ser encaminhadas fotos e vídeos que auxiliem na identificação do crime e de quem o cometeu.



A doença
Segundo o Ministério da Saúde, a febre amarela é uma doença infecciosa febril aguda, causada por um arbovírus (vírus transmitido por artrópodes), que pode levar à morte em cerca de uma semana, se não for tratada rapidamente. Os casos da doença no Brasil são classificados como febre amarela silvestre ou febre amarela urbana.


O vírus causador e os sintomas clínicos da doença são os mesmos nos dois casos: a diferença entre elas é o mosquito transmissor. Na febre amarela silvestre, os mosquitos dos gêneros Haemagogus e Sabethes transmitem o vírus e os macacos são os principais hospedeiros. Nessa situação, os casos humanos ocorrem quando uma pessoa não vacinada adentra uma área silvestre e é picada por mosquito contaminado. Na febre amarela urbana, o vírus é transmitido pelos mosquitos Aedes aegypti ao homem. O Brasil não registra casos desta doença desde 1942.

in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 17/04/2017

[CC BY-NC-SA 3.0][ O conteúdo da EcoDebate pode ser copiado, reproduzido e/ou distribuído, desde que seja dado crédito ao autor, à EcoDebate e, se for o caso, à fonte primária da informação ]

Tragédia de Mariana: Além do Rio Doce, águas subterrâneas da bacia também estão contaminadas




ABr


Colatina (ES) - Rio Doce é atingido por rejeitos de mineração do rompimento da barragem da Samarco em Mariana, em Minas Gerais (Fred Loureiro/Secom ES)
Águas subterrâneas da bacia do Rio Doce também estão contaminadas com metais pesados, segundo estudo. Foto: Fred Loureiro/Secom ES

Um estudo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em parceria com o Greenpeace, revelou que, além do Rio Doce, as águas subterrâneas da região estão contaminadas com altos níveis de metais pesados. A água dos poços artesianos locais apresentaram níveis desses metais acima do permitido pelo governo brasileiro. Os pequenos agricultores são os mais prejudicados, já que não têm outra fonte de água para a produção e para beber.


 As águas do Rio Doce foram contaminadas pelo rompimento da Barragem de Fundão, pertencente à mineradora Samarco, no município mineiro de Mariana, em 5 de novembro de 2015. O incidente devastou a vegetação nativa e poluiu toda a bacia do Rio Doce, atingindo outros municípios de Minas Gerais e do Espírito Santo. Dezenove pessoas morreram e diversas comunidades foram destruídas. O episódio é considerado a maior tragédia ambiental do país.


Após o desastre, agricultores familiares recorreram a poços artesianos para irrigar suas plantações e ter água para beber. As amostras coletadas pela equipe da UFRJ apresentaram altos níveis de ferro e manganês, que prejudicam o desenvolvimento das plantações e oferecem riscos à saúde, no longo prazo, segundo os pesquisadores.


Um dos objetivos do estudo do Instituto de Biofísica da UFRJ, em parceira com o Greenpeace, foi avaliar se os agricultores, impossibilitados de utilizar em suas plantações as águas do Rio Doce contaminadas pelo desastre, poderiam empregar com segurança os poços artesianos como fonte de irrigação e consumo.


Resultados
Pesquisadores analisaram a presença de metais pesados na água em 48 amostras coletadas de três regiões diferentes da bacia do Rio Doce: Belo Oriente (MG), Governador Valadares (MG), e Colatina (ES). As amostras foram coletadas em poços, em pontos do rio e na água tratada fornecida pela prefeitura ou pela Samarco.


A cidade de Belo Oriente apresentou cinco pontos de coleta com níveis de ferro e manganês acima do estabelecido pelo Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama), órgão do Ministério do Meio Ambiente. Em Governador Valadares foram identificados 12 pontos e, em Colatina, dez pontos com os valores acima do permitido. Segundo o estudo, a água desses locais não é adequada para consumo humano e, em alguns casos, também não é recomendado o uso para irrigação de plantas – situação de alguns pontos de Governador Valadares e Colatina.


A contaminação do Rio Doce se deu pelos rejeitos que vazaram com o rompimento da barragem. No entanto, os pesquisadores disseram não poder afirmar que os poços sofreram a contaminação por conta da lama vinda da barragem, por falta de estudos prévios na região. “Contudo, podemos afirmar que a escavação dos poços e sua posterior utilização se deu por conta do derramamento da lama na água do rio, que porventura, a inutilizou”, diz o relatório.


No longo prazo, para a saúde, a exposição ao manganês pode causar problemas neurológicos, semelhantes ao mal de Parkinson, enquanto o ferro, em quantidades acimas das permitidas, pode danificar rins, fígado e o sistema digestivo.


“A contaminação por metais pesados pode ter consequências futuras graves para as populações do entorno, que necessitam de suporte e apoio pós-desastre. Isso deve ser arcado pela Samarco e suas controladoras, Vale e BHP Billiton, e monitorado de perto pelo governo brasileiro”, defendeu Fabiana Alves, da Campanha de Água do Greenpeace.


Agricultura
No curto prazo, o grande impacto tem sido na agricultura, identificou a pesquisa. O estudo buscou pequenos produtores locais para analisar como seus modos de vida foram atingidos pela lama. Muitos dos que não abandonaram suas terras enfrentaram dificuldades financeiras por não conseguir mais produzir com o solo e a água que têm.


De acordo com o relatório, 88% dos entrevistados afirmaram ter alterado o tipo de cultivo e/ou criação realizada pela família após o incidente. A produção de cabras foi bastante afetada pelo desastre e as atividades de pesca e criação de peixes praticamente desapareceram na bacia.


Dados apresentados pelos pesquisadores após entrevistas com os agricultores demonstraram também que, antes do desastre, 98% dos entrevistados utilizavam água do Rio Doce para atividade econômica do dia a dia. Após a tragédia, somente 36% continuaram usando a mesma água. Destes, 87% utilizam a água para irrigação. Cerca de 60% dos entrevistados considera a água imprópria para uso, o que demonstra a insegurança no uso desse recurso fundamental para as populações que vivem à beira do rio.

Por Camila Boehm, da Agência Brasil, in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 17/04/2017

[CC BY-NC-SA 3.0][ O conteúdo da EcoDebate pode ser copiado, reproduzido e/ou distribuído, desde que seja dado crédito ao autor, à EcoDebate e, se for o caso, à fonte primária da informação ]




A estagnação das emissões de CO2 do setor de energia, artigo de José Eustáquio Diniz Alves



global carbon dioxide emissions, 1980-2016

[EcoDebate] A Agência Internacional de Energia (IEA em inglês) divulgou em março os dados que mostram que as emissões globais de dióxido de carbono relacionadas à energia ficaram estáveis pelo terceiro ano consecutivo (2014, 2015 e 2016). Isto aconteceu mesmo com o crescimento da economia internacional, sinalizando um desacoplamento relativo das emissões de CO2 e da atividade econômica. Este fato inédito nas últimas décadas foi possível graças ao crescimento da geração de energia renovável, a substituição de carvão por gás natural, as melhorias na eficiência energética, bem como mudanças estruturais na economia global.


As emissões globais do setor de energia ficaram em 32,1 gigatoneladas nos últimos três anos, enquanto a economia global cresceu em torno de3%, segundo estimativas da IEA. As emissões de dióxido de carbono diminuíram nos dois maiores consumidores e emissores de energia do mundo. Nos Estados Unidos (devido ao aumento do fornecimento de gás de xisto) e na China (devido à redução do uso do carvão mineral, necessário para reduzir a poluição do ar). E permaneceram estáveis ??na Europa, os três, compensando os aumentos na maior parte do resto do mundo. As emissões nos Estados Unidos no ano passado estavam em seu nível mais baixo desde 1992, período em que a economia cresceu 80%. Evidentemente, a transferência de fábricas para o Terceiro Mundo ajuda neste processo.


Ainda segundo IEA, em 2016, as energias renováveis forneceram mais de metade do crescimento da demanda global de eletricidade, sendo a hidrelétrica responsável pela metade dessa participação. O aumento global da capacidade nuclear do mundo no ano passado foi a maior desde 1993, com novos reatores na China, Estados Unidos, Coréia do Sul, Índia, Rússia e Paquistão.


A demanda de carvão caiu mundialmente, mas a queda foi particularmente acentuada nos Estados Unidos, onde a demanda caiu 11% em 2016. Pela primeira vez, a geração de eletricidade a partir do gás natural foi maior do que a do ano passado nos Estados Unidos. Na China, as emissões caíram 1% no ano passado, à medida que a demanda de carvão diminuía e o PIB cresceu 6,7%.


Esta tendência teve várias razões, sendo que a principal foi a mudança do carvão para o gás no setor industrial e imobiliário, impulsionada em grande parte pelas políticas governamentais de combate à poluição atmosférica. Dois terços do crescimento da demanda de eletricidade na China, que cresceu 5,4%, foi fornecido por energias renováveis ??- principalmente hidrelétricas e eólicas – bem como nucleares.

co2 emissions and global economy growth rates

Esse desacoplamento relativo se deveu às forças do mercado, às reduções de custos tecnológicos e às preocupações com as alterações climáticas e a poluição atmosférica. Porém, a própria IEA ressalva que a pausa no crescimento das emissões é uma notícia positiva para melhorar a poluição do ar, mas não é suficiente para colocar o mundo em um caminho para manter as temperaturas globais abaixo de 2º C.


Sem dúvida, é necessário reduzir urgentemente as emissões de gases de efeito estufa (GEE). Os seres humanos já lançaram 1,9 trilhões de toneladas de carbono na atmosfera. Segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), para evitar o pior cenário, o mundo só pode emitir, entre 2012 e 2100, 1.000 gigatoneladas (Gt) de CO2. Em termos médios, isso significa que o mundo só pode liberar no máximo 11,3 GtCO2 por ano até 2100. O problema é que as emissões estão atualmente em torno de 40 GtCO2, o que dá uma ideia do tamanho do desafio para fazer essa redução.


Assim, o chamado “orçamento carbono” não está sendo cumprido e as INDCs do Acordo de Paris são insuficientes para resolver o tamanho do desafio. A estagnação das emissões do setor de energia é uma boa notícia, mas insuficiente. A concentração de CO2 na atmosfera ultrapassou 400 partes por milhão (ppm) em 2014 e já se aproxima de 410 ppm em 2017. O nível seguro é 350 ppm. Porém, os anos de 2015 e 2016 marcaram aumento de mais de 3 ppm ao ano, recorde absoluto. Com o aumento do efeito estufa aumenta a temperatura global e os três últimos anos foram os mais quentes desde o início do registro em 1880. Consequentemente, o nível de degelo global também tem batido todos os recortes.

O mundo precisa de uma mudança da matriz energética. O avanço da produção de energia renovável, a construção de uma rede inteligente de distribuição e o fortalecimento dos prosumidores são tarefas imprescindíveis. Mas também é preciso reduzir o desmatamento, fazer a transição da dieta cárnea para uma dieta vegetariana (ou vegana) e reduzir a demanda agregada global via o decrescimento demoeconômico, promovendo a transição do modelo de crescimento econômico infinito para um novo modelo de redução do metabolismo entrópico, que Howard e Elisabeth ODUM (2013) chamam de DECLÍNIO PRÓSPERO.

Referências:
ALVES, JED. Aquecimento global e Orçamento Carbono, Ecodebate, RJ, 11/11/2016
https://www.ecodebate.com.br/2016/11/11/aquecimento-global-e-orcamento-carbono-artigo-de-jose-eustaquio-diniz-alves/