Líderes indígenas alertam sobre mudanças do clima
04 Outubro 2017
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por Clarissa Presotti
Quase 4% das terras do Brasil são reservados aos povos indígenas.
Somente na Amazônia os territórios dos índios representam uma reserva de
cerca de 13 bilhões de toneladas de carbono (46,8 bilhões de toneladas
de CO2) – 30% do que existe estocado na floresta.
Se essas terras não continuarem protegidas, pode agravar ainda mais as
mudanças climáticas no planeta. Portanto, os indígenas são chave no jogo
do aquecimento global e fundamentais para o sucesso da política de
clima no Brasil.
Mas eles são altamente prejudicados pelas interferências que os vizinhos
fazendeiros fazem ao clima. Segundo dados do Instituto Socioambiental
(ISA), desde o início da década de 80 até hoje, cerca de 6 milhões de
hectares foram desmatados no entorno do Parque Indígena do Xingu.
Em 2010, incêndios florestais atingiram 10% do território da reserva.
Para os indígenas, cada vez mais o calor afeta as plantações, mata e
afasta os animais, mexe com o dia a dia da floresta.
E as alterações do clima não se confirmam apenas pela ciência. Um grupo
de indígenas foi à Câmara dos Deputados contar como as mudanças
climáticas estão interferindo em seus modos de vida. Eles participaram
de um seminário nesta terça-feira (3) na Comissão de Meio Ambiente sobre
as “Percepções e experiências dos Povos Indígenas no Contexto das
Mudanças Climáticas”.
O evento reuniu líderes dos povos Yanomami, Krenak, Baniwa, Bororo, Wajãpi, Kaxinawa, Apinajé, Taurepang, entre outros.
Para Davi Kopenawa Yanomami, um dos mais respeitados líderes indígenas
brasileiros, a mudança do clima já é considerada uma epidemia pelo seu
povo. “Percebemos que muitos índios estão morrendo, mas pela
responsabilidade do homem branco que vai queimar nossa floresta”.
Kopenawa, que foi premiado pela ONU, destacou que mesmo com a trovoada
não tem chovido nas suas terras. E antes a água era anunciada pelo
trovão, mas vários desses indicadores que estão deixando de funcionar.
“Mas os não-índios também estão sofrendo pelas alterações do clima”.
Na avaliação do líder indígena Ailton Krenak,
doutor honoris causa da
Universidade Federal de Juiz de Fora, os conhecimentos tradicionais dos
índios são fundamentais para a preservação das florestas. “O nosso
povo, por antiguidade, desenvolveu formas de percepção do ecossistema,
dos ambientes onde vivemos. Essa memória confere com os relatórios do
IPCC e está muito presente no pensamento, mas pouco no nosso coração”.
Segundo Krenak, as pessoas estão tomando esses relatórios como se fossem
só estatísticas e não um indicador de que estamos perdendo qualidade de
vida, e perdendo também a nossa profunda relação com a terra".
A coordenadora do Departamento de Gestão Territorial e Ambiental do
Conselho Indígena de Roraima, Sineia do Vale, contou que há um estudo
que demonstra que eles já têm percebido alterações por causa das
mudanças climáticas.
“Isso tem afetado o modo de vida da comunidade. Perdemos a variedade de
peixes porque a temperatura da água aqueceu mais que o normal”, alertou
Sineia, que é do povo indígena Wapichana.
Sineia representa a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia
Brasileira (Coiab) e a Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib)
dentro do Comitê Indígena de Mudanças Climáticas. Ela avalia que as
mudanças do clima não têm afetado só localmente, mas todo o planeta.
“Precisamos levar a importância de manter as florestas e as terras
indígenas para as instâncias de governo, tanto nacionalmente como
internacionalmente. E cobrar dos países o cumprimento do Acordo de
Paris. A luta não é só dos índios, mas de todos os povos”, ressaltou
Sineia.
O presidente da comissão e autor do requerimento para o debate, deputado
Nilto Tatto (PT-SP), destacou que a relação especial dos índios com a
natureza tem muito a contribuir com a meta assumida pelo Brasil de zerar
o desmatamento até 2030.
"Temos que reconhecer que os povos indígenas são o principal parceiro da
conservação das florestas no Brasil. Só 3% das terras indígenas têm
desmatamento, menos até do que em unidades de conservação. E o
desmatamento é um dos principais fatores de emissão dos gases do efeito
estufa", lembrou Tatto.
Mais de quinze indígenas foram ouvidos no seminário, que servirá de
subsídio para a delegação brasileira que vai participar da COP 23, a
nova conferência internacional do clima, prevista para novembro, na
Alemanha.
Estudo
Durante o seminário também foi citado um estudo realizado pelos
indígenas do Alto Rio Negro, mais especificamente do Rio Tiquié, que
identificou com precisão os ciclos de vida de peixes, animais, plantas e
cultivos, entre outras atividades de manejo praticadas nas comunidades.
Os pesquisadores indígenas vêm coletando informações que podem indicar
mudanças climáticas e como elas impactam os ecossistemas locais (
saiba mais).
Ameaças
As lideranças também apontaram que estão sofrendo diversos ataques no
Legislativo contra os direitos constitucionais dos povos indígenas,
principalmente para que sejam alterados os processos de demarcação e
exploração de suas terras.
Para Estevão Bororo, que faz parte do Comitê Indígena de Mudanças
Climáticas (CIMC), esse é um momento de reflexão e de luta pelos
direitos. “Os nossos direitos estão garantidos na Constituição Federal e
na Convenção 169, que assegura a consulta aos indígenas sobre suas
terras. A nossa luta não começou em 88 e sim há mais de 500 anos”.