Em prisão domiciliar, ex-diretor da Petrobras foi levado para sessão de CPI.
Objetivo da comissão era acareação com outro ex-diretor, Nestor Cerveró.
Priscilla Mendes
Do G1, em Brasília
O ex-diretor de Abastecimento da Petrobras Paulo Roberto Costa, um dos
presos da Operação Lava Jato, se disse nesta terça-feira (2)
"arrependido", mas afirmou que não responderia a perguntas
durante a sessão de acareação promovida pela CPI mista
da Petrobras entre ele e o ex-diretor da área Internacional da empresa
Nestor Cerveró.
Aos questionamentos dos parlamentares, ele se limitou a
afirmar, repetidamente, que tudo o que tinha a dizer estava detalhado
nos depoimentos que deu por meio de delação premiada à Justiça Federal,
sem revelar o conteúdo.
Mesmo assim, na última pergunta dirigida a ele, após mais de três horas
de sessão, Paulo Roberto Costa afirmou que há "dezenas" de políticos
envolvidos no esquema de corrupção na Petrobras.
Em resposta ao deputado
Enio Bacci (PDT-RS), que indagou quantos políticos estariam envolvidos,
o ex-diretor afirmou: "O senhor não pode me deixar numa situação aqui
meio constrangedora, mas, algumas dezenas."
O objetivo da acareação entre Costa e Cerveró era esclarecer pontos
divergentes entre os depoimentos dos dois ex-diretores da Petrobras
dados anteriormente à CPI. Ambos são suspeitos de envolvimento em
esquema de desvio de dinheiro da estatal investigado pela Polícia
Federal.
Costa fez
acordo de delação premiada com a PF e o Ministério Público para coloborar com as investigações em troca de benefícios,
como a prisão domiciliar. Cerveró disse desconhecer a existência do suposto esquema.
A sessão
A CPI deu início por volta das 14h45 à sessão destinada à acareação
entre os dois ex-diretores. Em sua primeira fala, Paulo Roberto Costa,
avisou que iria se valer do direito de ficar calado e que não
responderia aos questionamentos dos parlamentares devido ao processo de
delação premiada firmado com a Justiça.
Preso em regime domiciliar no Rio de Janeiro,
ele teve de ser escoltado pela Polícia Federal da capital fluminense a Brasília.
“Estou vindo aqui pela segunda vez. Na primeira
eu não respondi a nenhuma pergunta,
permaneci calado devido ao processo de delação e desta segunda vez eu
também não vou responder a nenhuma pergunta devido a esse processo que
estou passando. Todas as dúvidas com relação a esse processo foram
esclarecidas ao Ministério Público, à Polícia Federal e ao juiz de
Curitiba.
Isso por conta de todo o processo de delação, que foi bastante
exaustivo e longo. Eu não tenho nada a acrescentar. Tudo o que eu
precisava falar consta desses depoimentos de delação que estão nas mãos
dessas pessoas”, afirmou Costa no início da sessão.
A intenção dos parlamentares era
confrontar as duas versões divergentes
apresentadas pelo ex-diretores. Durante depoimento prestado em acordo
de delação premiada, Paulo Roberto Costa teria apontado Nestor Cerveró
como um dos funcionários da Petrobras beneficiados pelo suposto esquema
de pagamento de propina instalado na empresa. Cerveró, porém, disse
durante depoimento à CPI mista, em setembro, que
desconhecia a existência do esquema.
Desde o governo Sarney, Itamar, Fernando Henrique, Lula, Dilma, todos
os governos, os diretores da Petrobras e de outras empresas, se não
tivesse apoio político, não chegava a diretor. Infelizmente eu me
arrependo amargamente, estou fazendo minha família sofrer, infelizmente
aceitei uma indicação política. Estou extremamente arrependido por isso.
aceitei esse cargo e esse cargo me deixou onde eu estou hoje. Se eu
pudesse eu não teria feito isso."
Paulo Roberto Costa, foi ex-diretor de Refino e Abastecimento da Petrobras
Paulo Roberto Costa
O ex-diretor da
Petrobras
Paulo Roberto Costa disse que reafirmava tudo o que disse durante a
delação premiada, mas não respondeu aos questionamentos dos integrantes
da CPI sobre o conteúdo dos depoimentos à Justiça.
Ex-servidor de carreira da Petrobras, Costa disse que se arrependeu de
ter aceitado uma indicação política para ser diretor da estatal. Ele
afirmou que aceitou em razão do sonho de chegar "quem sabe a
presidente". Segundo o ex-diretor, "desde o governo [José] Sarney" todos
os diretores chegaram aos cargos por indicação política.
“Desde o governo Sarney, governo Collor, governo Itamar, governo
Fernando Henrique – todos –, governo Lula, governo Dilma, todos os
diretores da Petrobras e diretores de outras empresas, se não tivessem
apoio político, não chegavam a diretor. Isso é fato. Pode ser
comprovado", declarou.
"Infelizmente, eu me arrependo amargamente, porque estou sofrendo isso
na carne, estou fazendo minha família sofrer, infelizmente, aceitei uma
indicação política para assumir a Diretoria de Abastecimento.
Infelizmente. Estou extremamente arrependido de ter feito isso. Se
tivesse oportunidade de não o fazer, não faria novamente isso", afirmou.
O ex-diretor afirmou que “o que acontecia na Petrobras, acontece no
país inteiro”. Acrescentou que resolveu fazer a delação premiada depois
de passar seis meses preso na carceragem da Polícia Federal em Curitiba.
“Até que resolvi fazer a delação de tudo o que acontecia na Petrobras, e
não só na Petrobras. Isso está no noticiário: o que acontecia na
Petrobras, acontece no Brasil inteiro - nas rodovias, nas ferrovias, nos
portos, nos aeroportos, nas hidrelétricas. Isso acontece no Brasil
inteiro. É só pesquisar. É só pesquisar porque acontece”, afirmou.
Ele disse ainda que pediu demissão da Petrobras, em 2012, porque “não
aguentava mais a pressão” para resolver problemas que não eram da área
dele. Costa afirmou que decidiu fazer a delação premiada aconselhado
pela família. As duas filhas e os dois genros do ex-diretor são acusados
de destruir provas a fim de dificultar o trabalho de investigação da
polícia.
“Quem me colocou com clareza a orientação da delação foi minha esposa,
filha, genros e netos. Eles disseram: ‘Paulo, por que só você? E os
outros? Você vai pagar sozinho?’ Então fiz a delação para dar sossego
para minha alma e por respeito e amor à minha família”, completou.
O que acontecia na Petrobras acontece no país inteiro, nas rodovias,
ferrovias, portos, aeroportos, hidrelétricas no Brasil inteiro. É só
pesquisar porque acontece."
Paulo Roberto Costa, ex-diretor de Refino e Abastecimento da Petrobras
Costa esclareceu um e-mail que mandou em 2009, quando ainda era diretor
da estatal, a Dilma Rousseff, então ministra da Casa Civil.
O documento
foi revelado por reportagem na revista "Veja" em novembro. Ele afirmou
que enviou a mensagem por orientação da Casa Civil. “Não houve atropelo
de hierarquia como a imprensa disse”, declarou.
"Em relação à hierarquia, me foi solicitado que fosse passado
diretamente. Era de conhecimento do presidente da companhia e,
contrariando o que saiu pela imprensa, de que aquilo iria me favorecer
em continuar com aquele processo, não é verdade, porque aquele processo
estava me enojando. Eu não estava satisfeito com aquele processo."
Indagado sobre o que significava estar "enojado", ele respondeu:
"Quando você está num processo desse, é um processo que você entra e não
tem como sair. E eu saí desse processo, em 2012 eu entreguei minha
carta de demissão".
O ex-diretor disse que tentou “quebrar” o cartel de grandes empresas
que atuavam na Petrobras colocando companhias menores, mas não teve
sucesso. Ele chegou a tratar do assunto internamente, mas não conversou
com Dilma ou Lula diretamente.
Segundo Costa, havia “dificuldade” em firmar licitações devido aos
altos preços combinados entre as concorrentes. Somente na refinaria
Abreu e Lima, afirmou, uma mesma licitação teve que ser refeita quatro
vezes porque os preços estavam “exageradamente altos”.
Nestor Cerveró
O ex-diretor da área internacional da Petrobras Nestor Cerveró foi
indagado sobre se teria recebido propina para firmar contratos com
empreiteiras na Petrobras. Ele negou e afirmou desconhecer o que foi
dito por Paulo Roberto Costa na delação premiada.
"Eu, a exemplo dos senhores, não conheço os termos de delação premiada.
Eu não vou responder a perguntas que eu desconheço. Eu ratifico o que
eu disse aqui. Não recebi [propina]", disse Cerveró.
Questionado mais uma vez sobre a existência do esquema de corrupção na
Petrobras, Nestor Cerveró afirmou que "desconhecia" o pagamento de
propina na estatal. "Por desconhecer, para mim, não havia", explicou.
Eu, a exemplo dos senhores, não conheço os termos de delação premiada.
Eu não vou responder a perguntas que eu desconheço. Eu ratifico o que
eu disse aqui. Não recebi [propina]."
Nestor Cerveró, ex-diretor da área internacional da Petrobras
O deputado Onyx Lorenzoni (DEM-RS) reproduziu durante a sessão trecho
de gravação de um depoimento que Costa prestou ao juiz Sérgio Moro, da
Justiça Federal do Paraná. Na gravação, o ex-diretor diz que Cerveró e o
ex-diretor Renato Duque, que também está preso,
foram beneficiados com pagamento de propina.
“O senhor está sendo acusado formalmente, no âmbito da Operação Lava
Jato, de receber propina. Quem é o político que o indicou? O que o
senhor tem a dizer agora que o senhor está sendo confrontado?”,
questionou Lorenzoni. “Eu não sei qual é o político e eu nego essa
acusação”, respondeu Cerveró.
Depois, em resposta ao deputado Marcos Rogério (PDT-TO), Nestor Cerveró
classificou como “ilação” a acusação de Paulo Roberto Costa.
“Eu volto a repetir que nego isso [recebimento de propina]. Eu posso
debitar isso na conta de uma ilação do Paulo. Eu desconheço esse tipo de
pagamento”, respondeu.
Eu volto a repetir que nego isso [recebimento de propina]. Eu posso
debitar isso na conta de uma ilação do Paulo. Eu desconheço esse tipo de
pagamento."
Nestor Cerveró, ex-diretor da área internacional da Petrobras
O deputado perguntou então se Costa faz “conspiração” contra o
ex-colega. “Eu não falei em conspiração, eu falei em ilação”, destacou
Cerveró.
Cerveró ainda reiterou que não sabe qual político do PMDB o teria
indicado para a diretoria Internacional da Petrobras. Ele afirmou que
conhece Fernando Soares, conhecido por Fernando Baiano, apontado como
operador do partido no esquema.
“Eu o conheço como representante de empresas do exterior, mas desconheço o relacionamento dele com o partido”, afirmou.
Encerramento da sessão
A sessão foi encerrada pelo presidente em exercício da CPI, senador Gim
Argello (PTB-DF), por volta das 18h porque teve início a sessão
deliberativa no plenário do Senado, o que, de acordo com o regimento,
interrompe o funcionamento de comissões.
A oposição reclamou do encerramento do que chamaram de “sessão
histórica”. “Já fizemos sessões longuíssimas em CPIs e nunca tivemos
encerramento devido à ordem do dia. É um crime interromper essa sessão”,
protestou Onyx Lorenzoni (DEM-RS).
O deputado Izalci (PSDB-DF) disse que o fim dos depoimentos foi uma
manobra dos governistas. “Mostra o desespero da base do governo para não
dar continuidade a essa importante sessão”, afirmou.
Quase toda a acareação foi conduzida pela oposição, já que, além do
relator temporário, Afonso Florence (PT-BA), apenas dois parlamentares
governistas, o deputado Sibá Machado (PT-AC) e a senadora Vanessa
Grazziotin (PCdoB-AM), dirigiram perguntas aos depoentes – nenhum
peemedebista usou a palavra.
O líder do PT, senador Humberto Costa (PT-PE), assistiu a parte da
sessão, mas não se manifestou. Segundo o jornal "O Estado de S. Paulo",
Paulo Roberto Costa disse em depoimento que a campanha do senador em
2010 foi favorecida com o dinheiro irregular, o que ele nega.