quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Pecuária: Para cada R$1 milhão em receita, R$22 milhões em prejuízos ambientais



Do ponto de vista ambiental, a conta da agropecuária simplesmente não fecha. Na verdade, a médio prazo, essa indústria está gerando um prejuízo enorme – e irreparável.

Inacreditavelmente, três empresas no mundo detêm o incrível poder de determinar como se dá a utilização dos principais recursos do planeta (solo, água, florestas, rios, oceanos, atmosfera e toda a biosfera). São elas a Cargill, Tyson e a brasileira JBS (dona da Friboi, Swift, Seara e outras). O grande problema é que o lucro, para elas, está acima de qualquer outro fator, e isso está causando prejuízos irreversíveis para o planeta. (Conheça aqui alguns dos maiores prejuízos causados por essa indústria).

O mais assustador é o fato de essa indústria ser tão monstruosamente grande e poderosa que chega a pesar de forma bastante significativa no PIB de alguns países. Esse mesmo poder econômico que assusta ambientalistas atrai a atenção de governantes que, movidos a uma visão estreita e obsoleta da realidade, colocam seus esforços no que dá retorno imediato, sem se preocuparem com as consequências a médio e longo prazo.

Um levantamento feito pelo Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) e pela Agência Alemã para a Cooperação Internacional (GIZ) mostrou que, para cada R$1 milhão faturado pela pecuária, são gerados R$22 milhões em impactos ambientais. Estamos simplesmente empurrando com a barriga problemas sérios que se agravarão nos próximos anos. A agropecuária é responsável por 90% do desmatamento da Amazônia, por pelo menos 50% de toda água doce consumida no mundo, e ainda é a maior responsável pela poluição de rios e pelo processo de degradação e desertificação do solo (que já chega a 1/3 de toda superfície terrestre). Veja a íntegra do documento do estudo aqui (em inglês).

A agropecuária hoje é responsável por quase 5% do PIB brasileiro, o que significa algo em torno de R$240 bilhões – isso requer um investimento equivalente a R$10 trilhões de reais em reparos ambientais ao ano (se de todo possíveis). Com projetos em busca de retorno financeiro imediato, o governo vê o setor como a menina dos olhos de ouro. Entre 2015 e 2016 os cofres públicos irão disponibilizar R$187 BI em crédito para o setor. É importante enfatizar que, além da facilidade na obtenção de valores tão altos em condições extremamente favoráveis, o Brasil ainda oferece um dos maiores subsídios do mundo para a pecuária. Quem paga a conta disso é a totalidade da população: quem apoia e quem não apoia essa indústria, e principalmente as futuras gerações, que poderão não ter um planeta habitável para viver.


No momento em que o país enfrenta sua pior crise moral, é alarmante ver que o governo utiliza seus esforços e recursos para patrocinar e incentivar uma prática tão antiética e insustentável, pensando unicamente no lucro a curto prazo. Nos últimos sete anos, por exemplo, somente os frigoríficos receberam do BNDES R$12,8 BI em compras de ações mais R$3,2 BI em empréstimos diretos.

Segundo informações da Bloomberg e do El Pais, após uma década de aquisições, a JBS hoje é um império com um faturamento anual de 92,9 bilhões de reais. Mas essa década de expansão teve efeitos negativos para o grupo, principalmente no que se refere ao endividamento. No fim do exercício de 2013, a dívida líquida da JBS era de 23,748 bilhões de reais, ou 102,7% de sua capitalização em bolsa.

O Estado brasileiro é o credor de grande parte dessa dívida, pois respaldou o crescimento da empresa por meio da compra de títulos. Isso também se reflete na composição do capital. O Estado é o segundo acionista da JBS, depois da família Batista: 25% dos títulos são propriedade da divisão de participações do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e 10% está nas mãos da Caixa Econômica Federal. Em 31 de dezembro de 2013, 35% das ações do grupo tinham valor de mercado superior a 2,6 bilhões de euros.”

O BNDES afirma que na Política de Desenvolvimento Produtivo (PDP) do Governo Federal, o setor de carnes ocupa lugar de destaque nas “estratégias de desenvolvimento de empresas e sistemas produtivos”.

É absolutamente necessário revermos, com extrema urgência, a forma como o governo utiliza o dinheiro público para a obtenção de novas receitas sem a menor preocupação com o planeta e os recursos naturais dos quais depende a nossa existência.

Brigadistas brasileiros combatem fogo no Chile


Por Gustavo Faleiros
Imagem do satélite Aqua, da NASA, feita no dia 02 de janeiro sobre a região central do Chile perto das cidades de Concepción e Chillán (fonte: Earth Observatory, NASA)
Imagem do satélite Aqua, da NASA, feita no dia 02 de janeiro sobre a região central do Chile perto
 das cidades de Concepción e Chillán (fonte: Earth Observatory, NASA)


Nas fotos abaixo: brigadistas do Prevfogo-Ibama chegam à área ameaçada pelo fogo, que queima vegetação altamente carburante ( à dir.) Fonte: Ibama
Mapa interativo com focos de calor captados pelo sensor MODIS (Moderate Resolution Imaging Spectroradiometer) a bordo do satélite Aqua, da NASA, entre os dias 01 e 17 de janeiro. Clique nos ícones de incêndio (vermelhos) para ver dados sobre localização exata, dia e hora, além dos munícipios chilenos afetados


Visualizar Focos de calor no Chile em um mapa maior


Download de dados

Imagem de satélite MODIS/Aqua do dia 02 de janeiro - Alta Resolução (840 KB - JPEG - fonte: NASA)
Imagem de satélite sobreposta no Google Earth ( Arquivo KMZ - fonte: NASA)
Focos de Calor no Chile entre os dias 01 e 17 de janeiro 2012 (Arquivo SHP- fonte:INPE)

Chile enfrenta maior desastre florestal de sua história

Por Sabrina Rodrigues
Reserva Nacional Rio de Los Cipreses é uma das 43 unidades de conservação chilenas fechadas para visitação devido a onda de incêndios. Foto: ChileBike/Flickr
Reserva Nacional Rio de Los Cipreses é uma das 43 unidades de conservação chilenas fechadas 
para visitação devido a onda de incêndios. Foto: ChileBike/Flickr

O Chile enfrenta o maior desastre florestal da sua história, incêndios de grandes proporções já provocaram a destruição de um total de 155 mil hectares, ou seja, 1.550 km². É como se uma área um pouco maior do que a cidade de São Paulo pegasse fogo. Até o momento, os incêndios deixaram três brigadistas mortos e três feridos. Segundo o governo chileno, os incêndios são comuns durante a época de estiagem, mas as ações humanas e as mudanças climáticas são os motivos para o agravamento das queimadas.


A Corporação Nacional Florestal (CONAF), órgão ligado ao Ministério da Agricultura do Chile, informou que até o dia de hoje (24), de 89 registros, 36 focos estão sendo combatidos e 3 foram extintos. A situação é tão grave que o governo fechou, temporariamente, parques nacionais, reservas nacionais e monumentos naturais entre as regiões de Coquimbo e Los Rios. Até agora, são 43 unidades de conservação fechadas para visitação.


"O fechamento de parques, reservas e monumentos entre Coquimbo e Los Rios acontecem a partir de segunda-feira (23) e vai continuar até que as condições meteorológicas se estabilizem e não representem um risco para a propagação de incêndios florestais, como altas temperaturas, baixa umidade relativa e rajadas de vento. Além disso, a medida também visa reduzir o risco para os visitantes em caso de incêndios próximos ou dentro das unidades”, disse o diretor executivo da CONAF, Aaron Cavieres.


Os acontecimentos forçaram a presidente do Chile, Michelle Bachelet, a cancelar viagem à República Dominicana, onde participaria da cúpula de presidentes da Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos (Celac). "O país enfrenta o maior desastre florestal da sua história, mas superaremos a emergência", afirmou Bachelet.


Em comparação aos anos de 2015-2016, o número de incêndios aumentou 14% no período de 2016-2017. A superfície afetada teve um acréscimo de 1.182%.


Em comparação aos anos de 2015-2016, houve um aumento de 14% no  número de   incêndios nos anos de 2016-2017. Fonte da Tabela: CONAF.
Em comparação aos anos de 2015-2016, houve um aumento de 14% no número de incêndios nos
 anos de 2016-2017. Fonte da Tabela: CONAF.

Trump derruba veto a oleodutos polêmicos


Por Claudio Angelo e Camila Faria, do Observatório do Clima
Trump em campanha no Arizona, em outubro. Foto: Gage Skidmore/Flickr
Trump em campanha no Arizona, em outubro. Foto: Gage Skidmore/Flickr


Nunca antes na história deste planeta tantos retrocessos ambientais aconteceram num intervalo de tempo tão curto. Nesta terça-feira (23), o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, deu três canetadas que prejudicam o clima, os povos indígenas e o licenciamento ambiental – tudo isso num intervalo de dois minutos e meio. Trump completou hoje quatro dias no cargo, o que faz imaginar o que ele será capaz de fazer em quatro anos.


Dois decretos (chamados nos EUA de “ordens executivas”) retiram o veto à construção de dois polêmicos oleodutos que permitirão o refino de petróleo extraído de fontes não-convencionais. O terceiro acelera o licenciamento ambiental para obras de infraestrutura de interesse do governo. É a versão americana do “licenciamento a jato” que o senador Romero Jucá (PMDB-RR) tentou aprovar no Brasil, até aqui sem sucesso.


A primeira ordem assinada pelo presidente diz respeito ao oleoduto Keystone XL. O nome certo seria “betumeduto”, já que o objetivo da tubulação de 2.700 quilômetros (pouco mais que a distância São Paulo-Belém) é trazer por dia 830 mil barris de betume do Canadá, para serem refinados e exportados em Houston, no Texas.


O betume é extraído das areias betuminosas de Athabasca, na Província de Alberta, e é considerado o combustível fóssil mais sujo do planeta. Sua produção envolve não apenas a destruição do ecossistema local, de antigas florestas boreais, mas também gastos enormes de energia para separar o petróleo superpesado da areia – o processo consiste basicamente em dar um banho de vapor nesta última até derreter o petróleo.


A abertura à exportação do petróleo canadense tem potencial de emitir 8,4 bilhões de toneladas de CO2 a mais durante o tempo de vida do projeto (mais de quatro vezes tudo o que o Brasil emite por ano), o que dificultaria o cumprimento da meta do Acordo de Paris de estabilizar o aquecimento global em menos de 2oC.


A Keystone XL foi objeto de diversos protestos de ambientalistas nos EUA. Um deles terminou com dezenas de presos, entre eles o a atriz Daryl Hannah e o climatologista James Hansen, que declarou que sua construção seria “fim de jogo para o clima”. Em 2015, 90 cientistas e economistas e dez vencedores do Prêmio Nobel da Paz mandaram cartas ao presidente Barack Obama pedindo que vetasse a obra – o que ele fez, no fim daquele ano.


Agora, Trump autoriza a empresa TransCanada, responsável pelo projeto, que submeta de novo o oleoduto ao exame do governo. “Vamos renegociar os termos. Se eles gostarem, vamos ver se fazemos esse oleoduto”, disse, ressaltando que quer que os tubos sejam fabricados nos EUA. “São muitos empregos, 28 mil empregos, grandes empregos na construção”, gabou-se Trump. O site Politico reportou em 2013, com base em um relatório do Departamento de Estado, que após a construção o duto manterá apenas 35 empregos permanentes. A aprovação do projeto estará nas mãos de Rex Tillerson, secretário de Estado, que até dezembro presidia a maior empresa de petróleo do mundo.


O segundo ato determina ao Batalhão de Engenharia do Exército que revise e aprove o quanto antes o plano de construção do oleoduto Dakota Access. Essa segunda rede de tubos levará petróleo extraído por “fracking” no folhelho Bakken, formação rochosa rica em óleo na Dakota do Norte, no noroeste do país, até Illinois, no Meio-Oeste, cruzando a terra indígena Standing Rock, dos sioux, e passando por baixo do rio Missouri, única fonte de água da tribo. O projeto foi alvo de empates de índios e ambientalistas, que acamparam na frente da obra para impedir a construção e foram violentamente reprimidos pela polícia. A construção foi suspensa em dezembro.


“Mais pessoas mandaram comentários ao governo contra o Dakota Access e o Keystone XL do que sobre qualquer outro projeto na história”, disse Bill McKibben, fundador da ONG 350.org, segundo o site Think Progress, ligado aos democratas. Ele prometeu mais protestos. “Os cientistas do clima e Prêmios Nobel explicaram seguidas vezes por que os projetos eram burros e imorais. Em um de seus primeiros atos como presidente, Donald Trump ignora tudo isso no afã de servir à indústria do petróleo.”


Mas a imprensa americana reportou nesta terça-feira que há mais alguém a quem Trump parece querer servir com as liberações: ao próprio bolso e ao alguns de seus auxiliares.


De acordo com prestações de contas da campanha presidencial, Trump já investiu pessoalmente entre US$ 500 mil e US$ 1 milhão em ações da ETP (Energy Transfer Partners), companhia responsável pela construção do oleoduto de Dakota, que foram vendidas no final de 2016, e possui entre US$ 250 mil e US$ 500 mil milhão na Phillips 66, que deve ter 25% do projeto completo. Ainda não se sabe se essas ações foram vendidas pelo atual presidente. Já o chefe-executivo da ETP, Kelcy Warren, doou mais de US$100 mil para a campanha de Trump e adicionais US$ 66.800 para o Partido Republicano depois que o Trump se tornou o candidato oficial  do grupo.


O secretário de Energia de Trump, Rick Perry, esteve entre os acionistas diretores da ETP até o dia 31 de dezembro de 2016. No ano anterior, o atual secretário e ex-governador do Texas, teria recebido US$ 236.820 de acordo com registros da companhia. O presidente da petroleira Continental Resources, apelidado de “Rei do Fracking” Harold Hamm, é um dos conselheiros de Trump e teria seu produto transportado pela Dakota Access. John Paulson, outro conselheiro, e investidor pesado na indústria de gás e óleo, especialmente na extração no folhelho Bakken.


“O aprendiz do caos climático protagonizou um show de violação dos direitos indígenas, assassinato do licenciamento ambiental e o empurrão do planeta Terra ainda mais para perto das catástrofes ambientais”, disse a diretora para a América Latina da 350.org, Nicole Oliveira, em alusão ao antigo programa de TV de Trump, O Aprendiz. “O começo da temporada demonstra que os próximos episódios serão cada vez mais ‘fósseis’. É um sinal claro de uma mudança na política energética americana que enfatiza e perpetua a dependência dos hidrocarbonetos. Que esse reality show não seja replicado no Brasil e na América Latina.”

Republicado do Observatório do Clima através de parceria de conteúdo. logo-observatorio-clima

Poluição de motores reativa vírus dormente no pulmão



Poluição de motores reativa vírus dormente no pulmão
As nanopartículas que saem do escapamento de carros e caminhões podem ativar vírus que estão dormentes no tecido dos pulmões.
[Imagem: Helmholtz Zentrum München]
 
 
Nanopartículas
Que a fumaça emitida pelos carros e caminhões pode disparar doenças pulmonares é algo que se sabe há muito tempo.

O que se descobriu agora é que as nanopartículas emitidas pelos motores a combustão podem ativar vírus que estão dormentes nas células do tecido pulmonar.

Esta descoberta surpreendente acaba de ser anunciada por pesquisadores do Centro Helmholtz de Munique e do Centro Alemão de Pesquisa Pulmonar. Os resultados foram publicados na revista Particle and Fiber Toxicology.


Vírus dormentes
Para fugir do sistema imunológico, alguns vírus se escondem nas células de seu hospedeiro e lá permanecem em estado de dormência. Na terminologia médica, esse estado é conhecido como "infecção latente".


Se, por alguma razão, o sistema imunológico dessa pessoa se enfraquecer, ou se certas condições orgânicas mudarem, os vírus tornam-se ativos novamente, começam a proliferar e destruir a célula hospedeira, criando um quadro tradicional de infecção viral.

"Já sabíamos, a partir de estudos anteriores em modelos [animais], que a inalação de nanopartículas tem um efeito inflamatório e altera o sistema imunológico," disse o coordenador do estudo, professor Tobias Stoger.

A equipe agora testou a influência específica de nanopartículas geradas pela combustão de combustíveis fósseis em uma infecção pelo vírus do herpes. Quando os animais foram submetidos à poluição, houve um aumento significativo nas proteínas virais, que são produzidas apenas com a proliferação ativa do vírus.

"Análises de expressões gênica e metabólica também revelaram padrões similares à infecção aguda. Além disso, experimentos posteriores com células humanas demonstraram que os vírus Epstein-Barr também são 'despertados' quando entram em contato com as nanopartículas," disse Stoger.


Detecção de doenças pulmonares crônicas
O próximo passo será testar se os mesmos resultados ocorrem nos seres humanos.


"Muitas pessoas carregam o vírus do herpes, e os pacientes com fibrose pulmonar idiopática são particularmente afetados," disse Heiko Adler, coautor do trabalho.


"Se os resultados forem confirmados em seres humanos, seria importante investigar o processo molecular de reativação do vírus herpes latente induzido pela inalação de partículas. Então poderíamos tentar influenciar esta via terapeuticamente," finalizou.

Fazenda espacial começará a ser testada na Antártica


Fazenda espacial começará a ser testada na Antártica
A Antártica será o primeiro passo para a estufa que poderá alimentar humanos no espaço, na Lua e em Marte. [Imagem: DLR]
Éden no espaço
Enquanto procuram ardentemente por exoplanetas na zona habitável, os humanos também se dedicam cada vez mais a preparativos para viver fora da zona habitável da Terra.

Isso inclui primariamente as viagens espaciais, certamente, mas não só. As preocupações ambientais estão levando cada vez mais pesquisadores para as regiões polares, e lá também é difícil manter laboratórios "sustentáveis" - que possam produzir seu próprio alimento, pelo menos.

A DLR, a agência espacial da Alemanha, está desenvolvendo fazendas modulares que possam ser enfiadas dentro de invólucros adequados a cada uma dessas situações.

O protótipo da estufa "Estufa Eden ISS" será testado na estação polar alemã Neumayer III, na Antártica, mas o projeto já prevê a nova etapa, em que tudo será acondicionado em formato de tubo e enviado ao espaço - primeiro para a Estação Espacial Internacional (daí o ISS no nome desse "jardim do Éden" miniaturizado) e, mais no futuro, para a Lua ou Marte.


Aeroponia
"Primeiro de tudo, precisamos fornecer as necessidades básicas das plantas na estufa polar, que não podem ser presumidas como existentes na Antártica," explicou Paul Zabel, coordenador do projeto. "Tubos para fornecer água em quantidades adequadas, lâmpadas para fornecer a luz adequada e até filtros e bicos para aspergir uma solução promotora do crescimento [das plantas] devem ser colocados e postos para funcionar."


Afinal, manter a água em estado líquido é um desafio nos -30º C da Antártica, e as plantas vão precisar de luz durante a escuridão da noite polar, que dura meses. Isto sem contar um isolamento térmico que permita uma temperatura adequada aos vegetais. Sem dúvida, um bom teste para uma estufa espacial.


As plantas serão cultivadas por um processo chamado aeroponia: "A água não é fornecida diretamente às plantas, ela é controlada por computador para adicionar uma solução especial de nutrientes. A cada cinco a 10 minutos, as plantas são aspergidas automaticamente com essa mistura de água e nutrientes, de forma que elas podem ser cultivadas completamente sem solo," explicou Zabel.


Além de evitar problemas de contaminação, o cultivo aeropônico evita a necessidade de carregar grandes quantidades de solo, e a água pode ser reutilizada continuamente.



Fazenda espacial começará a ser testada na Antártica
Todo o sistema já foi projetado para ser reconstruído na forma de um laboratório espacial, que possa ser anexado à Estação Espacial Internacional ou a uma nave de longo alcance. [Imagem: DLR]

Mulher morre nos EUA de infecção resistente a todos os antibióticos




Era pós-antibióticos
O Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC) anunciou que uma mulher que morreu em um hospital do estado de Nevada em agosto passado foi vítima de uma cepa da bactéria Klebsiella que se mostrou resistente a 26 antibióticos diferentes - todos os antibióticos que o hospital tinha ao seu dispor.

Segundo as autoridades norte-americanas, a mulher provavelmente pegou a bactéria resistente quando foi hospitalizada na Índia devido a uma fratura na perna.


De forma um tanto trágica, a infecção poderia ter sido curada por um antibiótico já licenciado para usos como este na Europa, mas não nos Estados Unidos. A fosfomicina é uma droga antiga, que foi substituída por cefalosporinas mais modernas na década de 1980. Mas os médicos estão agora tentando ressuscitar e relicenciar essas drogas para uso no número crescente de casos onde os mais novos falham.

Em outubro passado, pesquisadores relataram que mais de um terço das infecções de sangue em recém-nascidos envolvendo Klebsiella e bactérias semelhantes eram tão multirresistentes que eram praticamente intratáveis. Nos casos de infecção por Acinetobacter, 82% eram virtualmente impossíveis de eliminar.


Antibióticos de último recurso
De acordo com o CDC, pelo menos 90% das infecções multirresistentes nos Estados Unidos ainda podem ser vencidas por pelo menos um antibiótico de último recurso.


O mais preocupante é que "não sabemos quantas infecções totalmente resistentes aos antibióticos existem agora," disse Mike Sharland, da Universidade de Londres. Só agora a Organização Mundial da Saúde (OMS) acaba de começar um projeto de rastreamento para tentar coletar esses dados.




Sharland diz que, em toda a Europa, as infecções hospitalares atingem entre 10 e 17% dos bebês tratados em unidades neonatais ou de terapia intensiva, e outros estudos sugerem que muitos destes podem ser multirresistentes.


O problema parece ser particularmente grave na Índia, onde tais infecções "ameaçam o retorno a uma era pós-antibióticos em unidades de cuidados intensivos neonatais indianos," disse o especialista.

Astrônomos preveem explosão que mudará o céu em 2022


Astrônomos preveem explosão que mudará o céu em 2022
Os dados mostram que o binário já está parecido com um amendoim, prestes a se fundir, o que deverá gerar uma explosão espetacular. [Imagem: Larry Molnar/Calvin College]
 
 
Previsão astronômica
Embora a previsão de fenômenos astronômicos - os eclipses, por exemplo - tenha uma história milenar, não é comum ouvir falar de previsões de eventos cósmicos não repetitivos.


Assim, não deixa de ser corajosa a alegação feita por uma equipe coordenada por Larry Molnar (Universidade Calvin), Karen Kinemuchi (Observatório Apache) e Henry Kobulnicky (Universidade de Wyoming).


Eles estão prevendo que, em 2022, ocorrerá uma explosão que deverá mudar o céu noturno por várias semanas. Segundo eles, o que será essencialmente o nascimento de uma nova estrela, poderá ser visto a olho nu.


"É uma chance de uma em um milhão de você poder prever uma explosão. É algo que nunca foi feito antes," disse Molnar.


A previsão é que um sistema binário - duas estrelas orbitando uma à outra - irá se fundir e explodir em 2022, com uma margem de erro de um ano para mais ou para menos.


No momento em que as duas estrelas finalmente colidirem, o sistema terá um aumento de brilho de 10 vezes, tornando-se uma das estrelas mais brilhantes no céu. Ela então se tornará visível a olho nu, na Constelação do Cisne, adicionando uma estrela à estrutura conhecida como "Cruzeiro do Norte" - maior, mas bem menos famosa do que o Cruzeiro do Sul.


Astrônomos preveem explosão que mudará o céu em 2022
Astrônomos preveem o nascimento de uma nova estrela na Constelação do Cisne - o local está marcado pelo ponto vermelho. Por um breve período ela ficará visível a olho nu. [Imagem: Larry Molnar/Calvin College]
 
 
Nascimento de uma estrela
A equipe vem monitorando o sistema binário, chamado KIC 9832227, desde 2013. Os dados mostram que o período orbital do par vem diminuindo de forma consistente, mostrando que as duas estrelas caminham para um choque inevitável.


Este fenômeno de fusão estelar é relativamente comum no Universo, mas até hoje ninguém conseguiu prever um - eles são detectados justamente pelo aumento do brilho de uma estrela, sendo que nem sempre os astrônomos sabiam anteriormente que se tratava de um binário.


"O período orbital pode ser checado por astrônomos amadores. Eles podem medir as variações de brilho em relação ao tempo desta estrela de 12ª magnitude à medida que ela eclipsa, e verem por si mesmos se ela continua na programação que estamos prevendo ou não," disse Molnar.


Observações desse tipo deverão refinar os cálculos e permitir que a equipe reduza a margem de erro - atualmente de um ano -, eventualmente permitindo que a humanidade sente-se calmamente para esperar o momento em que uma nova estrela surgirá no céu.

Bibliografia:

Prediction of a Red Nova Outburst in KIC 9832227
Lawrence A. Molnar, Daniel M. Van Noord, Karen Kinemuchi, Jason P. Smolinski, Cara E. Alexander, Evan M. Cook, Byoungchan Jang, Henry A. Kobulnicky, Christopher J. Spedden, Steven D. Steenwyk
The Astrophysical Journal

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Brasil se compromete com a conservação de espécies ameaçadas de extinção, mas pretende liberar a caça (??!!!).

 

09 Dezembro 2016  |  

 
Por Frederico Brandão, de Cancun

Durante o Segmento de Alto Nível da Conferência das Partes (COP) 13, em Cancun, o Brasil se comprometeu a garantir que 100% de suas espécies ameaçadas estejam sob alguma forma de estratégia de conservação até 2020, além de melhorar o status de conservação de pelo menos 10% dessas espécies.

Um dos primeiros passos para isso foi o levantamento de espécies ameaçadas, realizado entre 2009 e 2014, e que representou o maior esforço mundial sobre o tema já feito em um país. O processo envolveu mais de 1,2 mil pesquisadores que avaliaram 12.254 espécies - 8.922 vertebrados e 3.332 invertebrados. Como resultado, foram identificadas 1.173 espécies ameaçadas da fauna do Brasil, em diferentes níveis de perigo de extinção.

Os dados estão publicados no Sumário Executivo do Livro Vermelho da Fauna Brasileira Ameaçada de Extinção, lançado oficialmente hoje (8/12), em evento paralelo na COP 13. O trabalho foi realizado pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), autarquia do Ministério do Meio Ambiente (MMA), com treinamento e orientação da UICN e colaboração de diversas organizações. Foi a primeira vez que o órgão coordenou o processo de avaliação das espécies da fauna, identificando o risco de extinção de todos os vertebrados com ocorrência no Brasil e de um grupo selecionado de invertebrados. A previsão é que o trabalho seja contínuo e aconteça a cada cinco anos.

O documento tem 75 páginas, em versão bilíngue, e disponível no site do ICMBio. O Livro Vermelho completo será lançado em março de 2017 e terá entre 4 mil e 6 mil páginas, incluindo a descrição dos dados de todas espécies, fotos e mapas de ocorrência.

A avaliação é considerada pelos especialistas uma das mais relevantes do mundo, por se tratar do Brasil, país megadiverso com alto índice de biodiversidade. “Não é apenas sobre o número de espécies, mas também sobre as principais ameaças e drivers relacionados ao seu estado de conservação. O levantamento confirmou que a perda de habitats, como conversão de ecossistemas e desmatamento, é a ameaça mais importante para a extinção de espécies terrestres e de água doce”, explica Claudio Maretti, diretor do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

De acordo com Ana Paula Prates, coordenadora dos Planos de Ação para a conservação das espécies ameaçadas (PAN), do ICMBio,  esse é um primeiro passo, crucial, para o Brasil alcançar a meta 12 de Aichi - que prevê a extinção zero de espécies até 2020. “O País lança esse Sumário em um momento crucial que o mundo está aqui em Cancun no meio do caminho da avaliação da implementação das metas de Aichi. O levantamento das espécies ameaçadas faz parte dos critérios para se atingir essa meta”, avalia.

“A lista de espécies ameaçadas é uma ferramenta essencial para direcionar os esforços de conservação do Brasil, inclusive aqueles relacionados à criação de novas unidades de conservação, foco da Meta 11 de Aichi. A redução do status de ameaça dessas espécies exigirá um trabalho coordenado para garantir que planos e programas de diferentes setores do governo e sociedade incorporem a conservação e manejo dessas espécies”, avalia Mariana Napolitano, coordenador do Programa de Ciências do WWF-Brasil.

Próximos passos
Compreender o estado de conservação da biodiversidade é o ponto de partida para um planejamento sistemático das medidas que devem ser tomadas para reduzir o risco de extinção das espécies, garantir sua sobrevivência e manter a funcionalidade dos ecossistemas.

Uma medida importante para reduzir as ameaças e conservar espécies são as áreas protegidas. Atualmente, o Brasil possui 2.029 áreas protegidas, que compreendem cerca de 1,6 milhão de quilômetros quadrados, dos quais 326 são de nível nacional com aproximadamente a metade da área total. A avaliação de espécies ameaçadas mostrou que, do total encontrado, apenas 180 espécies não estão dentro de unidades de conservação (UCs).

Além disso, o ICMBio tem coordenado os PANs para reduzir as ameaças às espécies. Atualmente 545 das espécies ameaçadas (cerca de 47%) são cobertas por pelo menos um plano de ação (com 40 desses planos atualmente em funcionamento). A meta nacional para 2020 é ter todas as espécies ameaçadas cobertas por planos de ação em implementação.
© Frederico Brandão/ WWF-Brasil

O ônus socioambiental da contemporaneidade ‘Flex’


, artigo de Sucena Shkrada Resk



artigo de opinião

[EcoDebate] Quando dizemos que um indivíduo ou uma nação têm “palavra”, o sentido implícito nesta frase implica retidão, ética e relação de confiança. Mas nos deparamos hoje na contemporaneidade com uma fragilidade que reflete um mundo em que leis, direitos instituídos e promessas se encaminham cada vez mais à flexibilização.



Por artifícios que seguem a bula dos procedimentos legais ou por meios ilegais, as artimanhas se consolidam de forma orquestrada ao sabor dos interesses dos atores envolvidos, tendo como mote a relação com o estabelecimento do poder em detrimento do bem comum. É, estamos falando de um mundo “flex” que gera temor pela inconstância. Essa característica cada vez mais acentuada se deflagra na nossa política interna e internacional. Tempos difíceis que nos deixa uma carga considerável de ônus para as atuais e próximas gerações.



Hoje algumas das áreas que estão mais vulneráveis a essas estratégias são as do direito indígena e de povos tradicionais, e da conservação ambiental, destituindo já os fracos órgãos que atuam nos papeis de avaliação e fiscalização, reduzindo o espaço de escuta dessas populações e da sociedade e abrindo espaço para que os setores que provocam passivos tenham maior poder. Projetos de lei em tramitação no Congresso revelam esse rumo de retrocesso aos direitos estabelecidos constitucionalmente.



Na agenda, estão propostas que tratam da flexibilização do licenciamento ambiental, das outorgas de mineração, de demarcação de terras indígenas, de caça de animal silvestre, de introdução de pastagem em reserva legal, de autorização de vaquejadas e rodeios. Como também de ações menos restritivas, como não aprovar penas mais altas a quem promove queimadas. Por outro lado, também enfrentamos outra questão importante: as políticas que “não pegam”. Vide a situação da Política Nacional de Resíduos Sólidos.


Na esfera internacional, as declarações e medidas tomadas pelo atual presidente dos EUA, Donald Trump, enfatizam a anulação de iniciativas na área socioambiental tomadas por Barack Obama, no contexto das conferências do clima, entre outros espaços de negociação. Ao mesmo tempo já nomeou para a pasta, um cético quanto às mudanças climáticas e aliado da indústria petroleira, que gera Gases de Efeito Estufa (GEEs).


Com tudo isso, observamos que o que hoje é uma norma ou linha política, amanhã pode deixar de ser, de acordo com a visão de mundo dos detentores do poder e também do mercado global. A chamada moeda de “valoração” dos bens intangíveis desaparece nesta escala, em que valores monetários se sobressaem. Aí volta à tona a reflexão entre ser e ter. Uma boa pauta para estar no centro dos debates nesses tempos “flex”.


Sucena Shkrada Resk é jornalista, formada há 25 anos, pela PUC-SP, com especializações lato sensu em Meio Ambiente e Sociedade e em Política Internacional, pela FESPSP, autora do Blog Cidadãos do Mundo – jornalista Sucena Shkrada Resk (http://www.cidadaosdomundo.webnode.com), desde 2007, voltado às áreas de cidadania, socioambientalismo e sustentabilidade e assessora de comunicação no terceiro setor socioambiental.

in EcoDebate, 24/01/2017


"O ônus socioambiental da contemporaneidade ‘Flex’, artigo de Sucena Shkrada Resk," in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 24/01/2017, https://www.ecodebate.com.br/2017/01/24/o-onus-socioambiental-da-contemporaneidade-flex-artigo-de-sucena-shkrada-resk/.

[CC BY-NC-SA 3.0][ O conteúdo da EcoDebate pode ser copiado, reproduzido e/ou distribuído, desde que seja dado crédito ao autor, à EcoDebate e, se for o caso, à fonte primária da informação ]

O clima mudou, é a hora de mudarmos também


, artigo de André Ferretti


aquecimento global

[EcoDebate] Eventos climáticos extremos, como secas e chuvas fortes, têm se tornado cada vez mais frequentes no Brasil. E junto com eles, prejuízos diretos a diversos segmentos sociais e econômicos, aos quais estão ligados, direta ou indiretamente, os mais de 200 milhões de brasileiros, como a agropecuária, que depende de fenômenos climáticos em certa intensidade e em determinados períodos para garantir sua produtividade.



O novo relatório do Banco Mundial “Unbreakable: Building the Resilience of the Poor in the Face of Natural Disasters” (Persistência: construindo a resiliência dos mais pobres frente a desastres naturais – em tradução livre) traz dados sobre a perspectiva socioeconômica do impacto de tais fenômenos. Segundo o documento, intervenções para tornar as sociedades mais resilientes a eventos climáticos resultariam em uma economia de 100 bilhões de dólares por ano a países e comunidades. O relatório foi lançado, oportunamente, durante a 22ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, a COP22, no Marrocos, em novembro passado.



Já o estudo “Valorando tempestades”, realizado pelo Grupo de Economia do Meio Ambiente da Universidade Federal do Rio Janeiro, aponta que entre 2002 e 2012 a perda do Brasil só com desastres climáticos extremos relacionados a chuvas foi, em média, de R$ 278 bilhões.



É evidente a relação entre o aumento da intensidade e periodicidade de eventos extremos e o aumento da temperatura média do nosso planeta. O ano de 2015 foi o mais quente desde que começaram os registros de temperatura, no fim do século 19, e este ano caminha para superar esta marca. O desequilíbrio do clima tornou-se realidade e engana-se quem acredita que os impactados serão apenas ursos polares ilhados em blocos de gelo. O impacto já está acontecendo aqui e agora.



As próximas duas décadas serão decisivas para o futuro climático do planeta, exigindo grandes transformações. Sairemos de uma sociedade alicerçada na energia fóssil e nos motores a combustão para algo muito diferente e que mudará o nosso modo de vida e das futuras gerações. Deixar de utilizar materiais fósseis significa o desaparecimento de produtos derivados de petróleo e seus subprodutos como asfalto, gasolina, plástico, isopor e muitos outros.


Como suas opções de consumo hoje estão contribuindo para criar uma sociedade de baixo carbono, que polua menos e emita menos gases causadores da mudança climática? Quais oportunidades de novos negócios surgirão a partir dessas mudanças na forma como consumimos? Novas ideias que caminhem nessa direção serão líderes de mercado em um futuro muito próximo. É hora de sair na frente e mudar para melhor.


*André Ferretti é gerente de Estratégias de Conservação da Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, coordenador geral do Observatório do Clima (OC) e membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza.

in EcoDebate, 23/01/2017


"O clima mudou, é a hora de mudarmos também, artigo de André Ferretti," in EcoDebate, ISSN 2446-9394, 23/01/2017, https://www.ecodebate.com.br/2017/01/23/o-clima-mudou-e-hora-de-mudarmos-tambem-artigo-de-andre-ferretti/.

[CC BY-NC-SA 3.0][ O conteúdo da EcoDebate pode ser copiado, reproduzido e/ou distribuído, desde que seja dado crédito ao autor, à EcoDebate e, se for o caso, à fonte primária da informação ]

Importância do papel das populações tradicionais nas ações de conservação da agrobiodiversidade




Do Jornal da Unicamp, nº 677
amostras usadas em pesquisas desenvolvidas pela Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia
No Brasil, assim como no restante do mundo, os bancos de germoplasma, unidades que armazenam recursos genéticos de plantas, não constituem instrumentos de conservação da agrobiodiversidade se não estiverem associados a outras ações de preservação que levem em conta o papel das populações tradicionais e os seus sistemas de cultivo. 



A constatação faz parte da tese de doutorado da antropóloga Laura Rodrigues Santonieri, defendida em 2015 no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp, sob a orientação do professor Mauro William Barbosa de Almeida. De acordo com o trabalho, a circulação do material genético contido nessas coleções obedece principalmente à lógica comercial, que produz mais homogeneidade que diversidade. A pesquisa foi contemplada recentemente com o Prêmio Capes de Tese, na Área de Antropologia e Arqueologia.



A conquista do Prêmio Capes, conforme Laura, foi um importante reconhecimento ao trabalho. “Fiquei muito feliz com a premiação, visto que o desenvolvimento da pesquisa foi muito desafiador”, relata. A antropóloga procurou identificar a interface entre os sistemas agrícolas tradicionais, as instituições públicas de pesquisa e as políticas científicas que operam sobre a diversidade agrícola do país. Ela queria entender qual era o papel desempenhado por esses atores no combate ao crescente processo de erosão genética vegetal. “Um aspecto que pude constatar é que a relação entre esses segmentos frequentemente é marcada pelo conflito”, revela.



A falta de entendimento ocorre, acredita a antropóloga, pela própria tradição da ciência agrícola, que foi criada sob os auspícios do conceito do desenvolvimentismo e do discurso do combate à fome mundial. “Isso vem desde a criação da FAO [Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura], em 1945. Os pesquisadores que atuam na área têm compromisso com metas e resultados que contribuam para o cumprimento de objetivos como o desenvolvimento de cultivares melhoradas de alto rendimento capazes de aumentar a escala de produção. Desse modo, poucos pesquisadores possuem interesse em conhecer e investigar mais profundamente os sistemas agrícolas tradicionais. Normalmente, eles se limitam a coletar material e só”, explica.



Do lado dos agricultores familiares e tradicionais e grupos de pesquisa parceiros, acrescenta Laura, também há resistência em relação aos cientistas de instituições de pesquisa agrícola como a Embrapa, que normalmente são classificados numa única categoria: a de prepostos dos interesses do agronegócio. “Existe uma clara falta de diálogo entre os atores envolvidos com o tema da agrobiodiversidade. Penso que é preciso construir pontes que permitam uma interlocução mais efetiva entre eles, tendo a conservação da agrobiodiversidade como um objetivo comum e possível”, considera a autora da tese.



Em seu trabalho, Laura desenvolveu uma pesquisa etnográfica na Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia, instalada em Brasília. Lá, ela entrevistou pesquisadores e conheceu alguns dos estudos desenvolvidos na unidade. Além disso, a antropóloga também realizou uma ampla revisão bibliográfica sobre o tema “Aquela unidade da Embrapa é muito fechada e muito permeável a questões políticas porque dispõe da coleção de base do país e é responsável por coordenar as atividades de todos os bancos de germoplasma do Sistema Nacional de Pesquisa Agropecuária, que é bastante diversificado. 



É a partir dos bancos de germoplasma (só a Embrapa tem 46 unidades) que são desenvolvidas novas variedades e cultivares lançadas no país. Ocorre que as tecnologias geradas a partir das sementes armazenadas estão voltadas principalmente às necessidades da indústria da agricultura. As pesquisas são, em boa medida, orientadas por um interesse marcadamente comercial”, aponta.



A antropóloga laura Rodrigues Santonieri



Esse interesse comercial se revela, com frequência, na cooperação com empresas nacionais e estrangeiras que investem recursos no desenvolvimento de sementes mais resistentes e produtivas, mas que são inférteis [híbridas]. “Ou seja, as plantas originárias dessas sementes não geram sementes que possam ser utilizadas para a produção de outra safra. Isso obriga o agricultor a comprar mais sementes para fazer um novo plantio. Por outro lado, ao favorecer a monocultura em escala industrial, esse processo gera homogeneidade. É por isso que um banco de germoplasma não pode ser considerado, por si só, um recurso contra a erosão genética”, reforça.


Ao questionar os pesquisadores da Embrapa sobre esse ponto, a autora da tese ouviu de boa parte deles que o principal compromisso da estatal é garantir a segurança alimentar e combater a fome no Brasil. “Não duvido que isso esteja sendo feito e nem da importância desse posicionamento. Ocorre, porém, que esses objetivos não estão sendo alcançados. Dados recentes revelam que 3/4 das pessoas que passam fome no mundo vivem no campo, o que é uma imensa contradição, visto que essas pessoas são agricultores”, destaca.



Ainda em relação ao banco de germoplasma, Laura lembra que as coleções nele contidas estão disponíveis somente às instituições pesquisa e empresas. “As comunidades e populações tradicionais dificilmente conseguem ter acesso às sementes. Esse acesso seria importante e ajudaria a conservar a agrobiodiversidade, uma vez que essas comunidades fazem as variedades circular. Em algumas comunidades do Rio Negro, por exemplo, quando a mulher se casa e muda de localidade, ela ‘ganha uma roça de mandioca da sogra’. Só depois de um tempo ela busca a ‘sua roça’. As dinâmicas locais são importantes porque a circulação ajuda a gerar diversidade e assim garantir a sobrevivência de muitas espécies”.



Ademais, as variedades melhoradas a partir das plantas e sementes coletadas em determinadas regiões há dez ou quinze anos nem sempre apresentam bom desempenho em relação às condições locais quando são reinseridas, como alerta Laura. De acordo com ela, assim que uma planta é coletada, ela cessa sua evolução. “Essa planta deixa de dar seguimento, por exemplo, ao processo de adaptação às mudanças climáticas, ao contrário do que ocorre quando ela está sob cultivo. É esse processo evolutivo que assegura a sua adaptabilidade e resistência. Nada garante que uma semente melhorada a partir de uma planta que não passou por esse processo terá condições de sobreviver na região da coleta daqui a dez anos”, compara.


A lógica desenvolvimentista que influenciou ciência agronômica, contínua a autora da tese, tende a encarar o mundo como se ele fosse uma máquina. “O que a comunidade científica afirma é que sem a tecnologia agrícola não seria possível garantir a segurança alimentar e o combate à fome. Entretanto, caminhos alternativos jamais foram testados em larga escala. O discurso que defende unicamente essa visão, no meu entender, deixa de fazer uma reflexão crítica sobre os processos que estão sendo gerados por esse modelo de pesquisa. Uma coisa é usar a ciência para fazer o melhoramento genético de uma variedade de milho, de modo que ela se adapte às características de uma colhedeira. Outra é usar a ciência para fazer o melhoramento do milho com o objetivo de aumentar o seu valor nutritivo com vistas ao incremento da alimentação humana, sem inferir na sua fertilidade”, pondera.



Apesar de criticar na tese a visão utilitarista da ciência, Laura volta a ressalvar que nem todos os pesquisadores da Embrapa defendem uma mesma posição. “Muitos deles estão de fato preocupados com a conservação da agrobiodiversidade e reconhecem a importância do papel dos sistemas agrícolas tradicionais. Da mesma forma, temos muitas ONGs, como o ISA [Instituto Socioambiental] e o CAA/NM [Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas], que atuam igualmente nessa frente. O grande obstáculo ao avanço dessa visão, vale reafirmar, está na combinação da forte tradição da ciência agrícola, da qual é muito difícil se desvencilhar, com a falta de conexões que permitam um diálogo profícuo entre os setores envolvidos com a conservação da agrobiodiversidade”, diz.



Ainda no que toca à questão mercadológica da ciência agronômica, Laura cita que no interior das próprias instituições de pesquisa agrícola há diferentes valorações relativas ao tipo de investigação realizada. “Quem trabalha com biotecnologia e melhoramento costuma ter mais prestígio do que quem faz pesquisa básica. O cientista que faz pesquisa básica não tem, por exemplo, contato direto com fontes de financiamento privado. 


Ele está na outra ponta, coletando semente, fazendo caracterização, acompanhando o ciclo de desenvolvimento da planta. Institucionalmente, ele não tem tanto reconhecimento. Isso também é paradoxal, dado que não é possível ter pesquisa aplicada sem antes ter a pesquisa básica”, observa a antropóloga, que contou com bolsa de estudo concedida pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e com apoio financeiro da Fondation pour la Recherche sur la Biodiversité, da França. Atualmente, a antropóloga integra o grupo de pesquisa Populações Locais, Agrobiodiversidade e Conhecimentos Tradicionais Associados, registrado no Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).


Publicação

Tese: “Agrobiodiversidade e conservação ex situ: reflexões sobre conceitos e práticas a partir do caso da Embrapa/Brasil”

Autora: Laura Rodrigues Santonieri

Orientador: Mauro William Barbosa de Almeida

Unidade: Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH)

Financiamento: Fapesp e Fondation pour la Recherche sur la Biodiversité (França)

Jornal da Unicamp
Texto: Manuel Alves Filho
Fotos: Antonio Scarpinetti
Edição de imagem: André Vieira
in EcoDebate, 24/01/2017

[CC BY-NC-SA 3.0][ O conteúdo da EcoDebate pode ser copiado, reproduzido e/ou distribuído, desde que seja dado crédito ao autor, à EcoDebate e, se for o caso, à fonte primária da informação ]

Laboratório de reprodução in vitro do Jardim Botânico volta à atividade

Único espaço do governo que faz o serviço é especializado em espécies de plantas ameaçadas

O Jardim Botânico de Brasília reativou em janeiro os serviços do laboratório de reprodução in vitro, especializado em espécies ameaçadas de extinção — há cerca de 300 frascos de plantas. A novidade é que agora o setor, que antes trabalhava apenas em orquídeas, também reproduzirá árvores e palmeiras em risco de desaparecimento.

Reprodução in vitro de orquídeas no Jardim Botânico de Brasília.
Reprodução in vitro de orquídeas no Jardim Botânico de Brasília. Foto: Andre Borges/Agência Brasília



O trabalho é minucioso e exige cuidados específicos para cada tipo e espécie de planta. O protocolo também varia caso a caso. As etapas do processo para a reprodução de orquídeas, por exemplo, envolvem coleta, que leva em consideração a época do ano; desinfecção, para evitar qualquer tipo de contágio da planta; regeneração, quando os calos são transferidos para um meio de cultura; multiplicação e repicagem, quando as mudas são selecionadas e transferidas para um novo recipiente; e aclimatização, que é quando as plantas são retiradas da sala de cultura e levadas para uma estufa.



A coleta é feita com o apoio de outras áreas do Jardim Botânico, como as equipes do viveiro e do herbário. A busca pelas sementes ocorre em Brasília ou em estados próximos, como Minas Gerais e Goiás. Os locais exatos, por se tratarem de espécies ameaçadas de extinção, não podem ser divulgados.


Diferentemente das árvores e das palmeiras, para as quais cada amostra coletada representa uma muda, as cápsulas das orquídeas reúnem em seu interior até mais de 100 mil sementes. Quando se tem uma cápsula saudável, 100% delas germinam, segundo a diretora de Manejo de Recursos Naturais do Jardim Botânico, a engenheira florestal Lilian Breda.




A diretora de Manejo de Recursos Naturais do Jardim Botânico, a engenheira florestal Lilian Breda.
A diretora de Manejo de Recursos Naturais do Jardim Botânico, a engenheira florestal Lilian Breda. Foto: Andre Borges/Agência Brasília
 
 
No laboratório, que Lilian compara à barriga de uma grávida, é feita a reprodução. “Na natureza, a orquídea só dará outra mudinha se a cápsula explodir e cair em um fungo específico. Se ela cair em outro lugar, ela não vai germinar.”


Na sala de cultura, é preciso se preocupar com detalhes, como temperatura, higiene e iluminação. O ar-condicionado, por exemplo, fica ligado a uma temperatura de 21 graus, e um aparelho calcula o tempo em que a planta faz a fotossíntese.


No caso de orquídeas, elas ficam por volta de um ano no laboratório — espécies mais raras podem chegar a ficar três anos — até alcançarem o tamanho de 12 a 15 centímetros e estarem prontas para serem transferidas para a estufa. Lá, elas passam por um período de adaptação até ficarem fortes o bastante para serem colocadas na natureza — elas são amarradas em uma árvore e, depois de 15 dias a um mês, se fixam ao tronco.


O período que passam na estufa tenta imitar o máximo possível o que essas plantas encontrariam na natureza, mas com a sombra e a umidade adequada para que elas cresçam saudáveis.


Parcerias com outras unidades da Federação

 

A diretora conta que as árvores e palmeiras que estão em produção agora serão utilizadas para recuperar uma área tomada por espécies invasoras. O órgão também faz o trabalho de parceria com outros jardins botânicos do Brasil, enviando pelos Correios espécies reproduzidas aqui.

Laboratório de reprodução in vitro do Jardim Botânico reproduzirá também com palmeiras em risco de desaparecimento.
Laboratório no Jardim Botânico reproduzirá também com palmeiras em risco de desaparecimento. Foto: Andre Borges/Agência Brasília
 
 
A iniciativa faz parte de um plano de ação para os jardins botânicos brasileiros, que envolve a contribuição ao desenvolvimento, manejo e gestão de áreas protegidas e a produção de espécies na área de preservação. “É um trabalho de formiguinha”, defende Lilian. Por não terem como foco apenas o DF, as plantas reproduzidas no laboratório não são necessariamente típicas do Cerrado.


Edição: Paula Oliveira

Cerrado do DF é protegido por cinco reservas biológicas

Além da unidade no Guará, o território conta com áreas no Gama, no Jardim Botânico, em Sobradinho e às margens do Lago Descoberto (foto). Todas são de proteção integral

O início da desocupação do Parque Ecológico Ezechias Heringer e da Reserva Biológica do Guará, neste mês, expôs a necessidade de manter as unidades de conservação de proteção integral. Além da do Guará, o Distrito Federal tem mais quatro reservas no território: a do Lago Descoberto; a do Gama; a do Cerradão, no Jardim Botânico; e a da Contagem, em Sobradinho. Somente esta não é administrada pelo Instituto Brasília Ambiental (Ibram).


As reservas biológicas são criadas para preservação total da fauna, da flora e das características ambientais nelas presentes. Por isso, o acesso e a visitação são restritos e permitidos apenas para pesquisa científica, conforme prevê o Sistema Distrital de Unidades de Conservação, definido pela Lei Complementar nº 827, de 22 de julho de 2010.



Araras voam na área da Reserva Biológica do Descoberto
Araras voam na área da Reserva Biológica do Descoberto. Foto: Andre Borges/Agência Brasília


No Distrito Federal, elas são fortemente impactadas pela expansão urbana e pela ação humana. Dessa forma, o desafio da gestão ambiental é garantir que não se tornem apenas manchas verdes entre as cidades, mas de fato cumpram a função de preservação para a qual foram criadas. “As pressões do entorno das reservas biológicas se refletem no interior delas”, conta o coordenador de Unidades de Conservação do Ibram, Paulo César Magalhães Fonseca.

"As pressões do entorno das reservas biológicas se refletem no interior delas" Paulo César Magalhães Fonseca, coordenador de Unidades de Conservação do Ibram

Construções irregulares prejudicam área de proteção

 

A ocupação irregular é uma das ameaças a que está submetida a Reserva Biológica do Gama, criada pelo Decreto nº 11.261, de 16 de setembro de 1988, como reserva ecológica. Em 2008, ela teve o status alterado por força do Decreto nº 29.704, de 17 de novembro. Com isso, a proteção foi ampliada.


A área tem 136 hectares e deve ser protegida por causa da mata ciliar do Rio Alagado. O relevo é acidentado, com encostas íngremes e suscetíveis à erosão. Por isso, as construções ilegais no interior da unidade, resultado do parcelamento das chácaras vizinhas, é extremamente prejudicial.


Também suscetível a parcelamentos irregulares, a Reserva Biológica do Descoberto tem função estratégica para a proteção dos cursos d’água que abastecem a região. A unidade soma 434,5 hectares, distribuídos em uma faixa de 125 metros ao redor do reservatório. A área protegida foi estabelecida por meio do Decreto nº 26.007, de 5 de julho de 2005.


A reserva é, no entanto, constantemente ameaçada por chacareiros que insistem em ampliar áreas de plantio para dentro dos limites da unidade. “Para combater o problema, fazemos um trabalho de educação ambiental com os ocupantes das propriedades em volta do lago e incentivamos a revegetação por meio do programa Descoberto Coberto”, explica Fonseca.


A Reserva Biológica do Descoberto tem função estratégica para a proteção dos cursos d’água que abastecem a região
A recomposição da flora é feita com espécies típicas do Cerrado e resulta de uma parceria com a comunidade do local.

Conservação ambiental é a regra das reservas biológicas

Integridade da vegetação é uma das marcas da Reserva Biológica (Rebio) do Cerradão, no Jardim Botânico. Ela recebe esse nome em razão da ocorrência da fitofisionomia do Cerrado — ou seja, a forma como ele se apresenta — densa e similar a uma mata. A área mede 54 hectares, com ocorrência de espécies como copaíba, pequi, ipê e jacarandá.


O alto grau de conservação da flora atrai também uma diversidade de animais, desde roedores até mamíferos de médio porte. Eles são, no entanto, alvo fácil de atropelamento ao cruzar a Estrada Parque Contorno. “Felizmente, não temos problemas com fogo dentro da reserva ou construções irregulares”, destaca o coordenador de Unidades de Conservação do Ibram.


A Rebio do Cerradão foi criada pela Lei Federal nº 9.985, de 18 de julho de 2000, como Área de Relevante Interesse Ecológico. Em 2010, por sua vez, a unidade teve a proteção ampliada e foi transformada em Reserva Biológica por meio do Decreto nº 31.757, de 2 de junho de 2010.

Proteção para livre circulação dos animais

Única unidade do gênero sob responsabilidade do governo federal no DF, a Reserva Biológica da Contagem, em Sobradinho, foi criada por meio do Decreto de 13 de dezembro de 2002, da Presidência da República. O objetivo é proteger vegetação e cursos d’água na Chapada da Contagem, região com altitudes entre 1 mil e 1,2 mil metro. É a área mais elevada do território, bastante afetada pela ocupação do solo por condomínios.


A unidade tem 3.460 hectares e abriga também dois pontos de captação de água, no Ribeirão Contagem e no Córrego Paranoazinho, que abastecem a região administrativa. O local funciona também como corredor ecológico entre o Parque Nacional de Brasília e a Bacia do Rio Maranhão. O Cerrado se apresenta como campo sujo, ou seja, com ocorrência de arbustos de forma espaçada.



Edição: Vannildo Mendes

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

Matas ciliares ajudam a manter fertilizantes fora dos rios, afirmam cientistas


19.01.2017 • Notícias
 
  Resultados preliminares de uma pesquisa realizada na Fazenda Tanguro (MT) indicam que fertilizantes usados na agricultura que caem em córregos podem impactar a qualidade da água nas propriedades e até fora delas, reforçando a necessidade de se recuperar e proteger matas ciliares. O estudo é conduzido por cientistas americanos em colaboração com o IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia).



Um experimento mostra que o nitrogênio, ao cair em um córrego, pode viajar até um quilômetro, com potencial de atingir rios maiores. O fósforo, por sua vez, é em grande parte absorvido localmente, o que estimula a produção de algas. Elas alteram a disponibilidade de oxigênio na água e modificam a cadeia alimentar do local.



“O ideal é que estes nutrientes agrícolas sejam processados antes de chegar na água, mas é preciso investigar as possibilidades”, explica a cientista KathiJo Jankowski, do Marine Biological Laboratory (MBL). “Se você consegue prever as consequências, é possível definir as melhores alternativas.”



O estudo começou no início de 2016 e uma nova rodada de experimentos e coleta de dados na fazenda foi feita em outubro. A boa notícia é que tanto o solo quanto a mata ciliar preservada servem como filtros desses fertilizantes. Na mesma Tanguro, estudos realizados desde 2008 mostram que esses elementos tendem a nem chegar na água, ficando estocados abaixo de dois metros de profundidade no solo agrícola.



“Os produtores devem maximizar a produtividade minimizando os impactos. Utilizamos os experimentos para identificar corretamente o ponto em que esse equilíbrio acontece”, afirma o co-autor da pesquisa, Christopher Neill, do Woods Hole Research Center (WHRC).



Dinheiro rio abaixo
Jankowski conta que, nos Estados Unidos, gasta-se milhões de dólares todo ano para melhorar a qualidade da água do Rio Mississipi, e que o Golfo do México apresenta zonas mortas (sem oxigênio), porque está saturado com nitrogênio e fósforo.



No Brasil, o Código Florestal prevê essa proteção na figura das APPs, ou áreas de preservação permanente. São trechos de vegetação situadas às margens de corpos d´água, como córregos ou nascentes, além de topos de morro e encostas, fundamentais para manter a segurança e a qualidade da água e dos ecossistemas ali existentes.



“As florestas ripárias, junto a um bom manejo, oferecem um caminho para evitar danos ecológicos associados à produção agrícola e mantêm a integridade de ambientes aquáticos”, afirma a pesquisadora Marcia Macedo, também do WHRC.



Ao sombrear o córrego, as árvores deixam cair folhas, insetos e galhos dentro da água, formando micro-habitats que são importantes para a vida aquática. Além disso, a vegetação regula a temperatura da água, pois barra a entrada excessiva de luz.


“O Brasil tem a oportunidade de manejar a paisagem de forma mais sustentável do que o resto do mundo. Imagina o quanto pode-se poupar por não precisar restaurar rios, apenas fazendo o manejo da forma mais adequada e protegendo as APPs”, diz Jankowski.



“É essencial conservar as florestas. Para isso a intensificação da produção pode ser um caminho. Ter APPs devidamente protegidas é bom para o ecossistema aquático, para os animais que utilizam como corredores ecológicos e para a produção de alimentos”, explica Neill.



Segundo o Instituto Internacional de Nutrição Vegetal, que congrega grandes empresas produtoras de fertilizantes do mundo, em 2015 o Brasil apresentou um consumo aparente de 3,64 milhões de toneladas de nitrogênio e 4,66 milhões de toneladas de fósforo.



Impacto no clima
Além da água, outro efeito do uso de fertilizantes sintéticos na agricultura é a emissão de gases do efeito estufa. Segundo o SEEG (www.seeg.eco.br), seu uso responde a emissão de 13,7 milhões de toneladas de CO2 equivalente em 2015.



Na Fazenda Tanguro, um estudo de 2013 concluiu que a quantidade de aduba­ção nitrogenada utilizada para a plantação de soja (80 qui­los por hectare) minimizou as emissões de N2O e maximizou a produção.