sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Cabras surpreendem cientistas ao identificar expressões faciais humanas

Cabras surpreendem cientistas ao identificar expressões faciais humanas

Estudo internacional com participação da USP mostra que cabras preferem rostos felizes





Animais  como cães e cavalos são capazes de reconhecer algumas de nossas emoções, mas essas espécies foram domesticadas para realizar tarefas que requerem interação conosco, como caça ou pastoreio – e pode ser que no processo tenham sido selecionados indivíduos com mais aptidão para interpretar expressões humanas. Já no caso das cabras e de outros animais de fazenda, a interação com o homem é menos relevante – daí os resultados deste estudo inédito serem tão surpreendentes, trazendo novas questões – Foto: Alan McElligott

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Um estudo que acaba de ser publicado na prestigiada revista científica Royal Society Open Science sugere que cabras são capazes de discriminar entre expressões humanas alegres e de raiva, mostrando preferência pelas primeiras. O trabalho foi realizado por um grupo internacional de pesquisadores, e contou com a participação de duas cientistas brasileiras, Natália de Souza Albuquerque e Carine Savalli.
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“Esse estudo traz um resultado fascinante, uma vez que mostra que a habilidade complexa de perceber as emoções humanas por meio de dicas sutis da face não está presente somente em animais domesticados para companhia, como os cães”, diz Carine Savalli, que além de ser docente na Unifesp, é colaboradora no programa de pós-graduação em Psicologia Experimental do Instituto de Psicologia (IP) da USP.

Não se sabe ao certo o quanto está difundida no reino animal a habilidade para identificar expressões faciais humanas. O que já era observado é que alguns animais domésticos, como cães e cavalos, são capazes de reconhecer algumas das nossas emoções. Porém, ambos exemplos representam espécies que foram domesticadas para realizar tarefas que requerem interação com humanos, como caça ou pastoreio – e isso abre a possibilidade de que, no processo de domesticação tenham sido selecionados os indivíduos com maior aptidão para interpretar emoções humanas. Já no caso das cabras e de outros animais de fazenda, a  interação com humanos é menos relevante: a criação é motivada por características físicas, como o tipo de pêlo, a quantidade e qualidade do leite ou o tamanho dos ovos. Ficava então a dúvida: será que mesmo assim esses animais poderiam interpretar expressões humanas?

O estudo

A ideia do trabalho surgiu há dois anos, quando Natália Albuquerque, doutoranda do Instituto de Psicologia (IP) da USP, desenvolvia uma parte de sua pesquisa na Universidade de Lincoln, na Inglaterra.
Em 2016 eu estava na Inglaterra e fui convidada pelo professor Alan McElligott para dar uma palestra sobre o meu trabalho. Tínhamos publicado um artigo que mostrava que cães conseguem reconhecer expressões emocionais humanas, tanto pela face como pela voz, e o professor McElligott, que estava estudando cabras, queria começar a olhar para a questão afetiva nesses animais.
Nas suas pesquisas com cabras, McElligott tem a colaboração do Santuário de Buttercups, uma instituição de caridade que acolhe cabras maltratadas ou abandonadas, e que se encontra localizado a 75 quilômetros de Londres, na Inglaterra. Foi aqui que os testes para avaliar a capacidade das cabras para reconhecer faces humanas foram desenvolvidos.

Vídeo cedido pelas pesquisadoras

Durante cada teste, cabras e bodes foram apresentados com duas fotografias, uma do lado da outra, de uma pessoa que elas nunca tinham visto. Em uma das fotografias a pessoa sorria, na outra mantinha uma expressão de raiva.

“A gente queria ver se as cabras mostram uma tendência a se aproximar, a interagir, a olhar mais, para as faces positivas ou para as negativas. Assim poderíamos concluir que elas conseguem discriminar. Se não, elas olhariam e interagiriam com as duas das mesma forma”, explica Natália.
Pesquisas foram feitas com a colaboração do Santuário de Buttercups
instituição de caridade que acolhe cabras maltratadas ou abandonadas
 Foto: Alan McElligott
Quando os pesquisadores deixaram as cabras explorar as fotografias, os animais mostraram uma preferência pelos rostos felizes, o que sugere que elas são capazes de identificar e discriminar expressões faciais humanas. O que não se sabe ao certo é se elas escolhem os rostos felizes porque os preferem, ou se o que acontece é que elas evitam os rostos zangados.  

Ciência rigorosa

Um aspecto crucial nos estudos em etologia, a ciência que estuda o comportamento animal – e que tem representantes respeitados como César Ades – é o de controlar ao máximo todos os parâmetros durante os experimentos. É a única forma de se ter certeza que um comportamento está sendo causado por um determinado estímulo e não por outro.
“Nos estudos de comportamento e cognição temos que controlar tudo. Por isso demoram tanto para serem feitos. Outras áreas publicam bem mais rápido, exatamente porque não têm que lidar com esse tipo de viés”, afirma Natália.
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Por exemplo, cada animal repetiu o ensaio quatro vezes, mas os pesquisadores deixaram passar duas semanas entre cada um dos ensaios para evitar que as cabras se habituassem ao teste. Outro aspeto que foi controlado foi o lado do qual cada cabra foi segurada antes de deixá-la explorar as imagens. E foram utilizadas fotografias tanto de um homem como de uma mulher.
Esse controle do cenário permitiu aos pesquisadores fazer uma observação interessante: as cabras interagiram mais com as expressões felizes quando estas foram colocadas no seu lado direito.
A razão desse comportamento não está clara, mas os pesquisadores especulam que poderia ser devido à forma como o cérebro de alguns animais processa os diferentes tipos de estímulos. De acordo com uma ideia com a que se trabalha na área da etologia, o hemisfério direito do cérebro seria responsável por processar majoritariamente emoções negativas, enquanto o hemisfério esquerdo processaria emoções positivas. Essa seria a razão pela qual os cães, quando são apresentados com estímulos negativos, tendem a fugir para o lado esquerdo – o lado oposto do hemisfério cerebral que processa o estímulo. O fato de que as cabras sejam mais receptivas a imagens de rostos felizes quando elas são mostradas no lado direito sugeriria então que as emoções estão sendo processadas pelo hemisfério esquerdo, o que sustentaria a hipótese.

Os próximos passos

Para a professora Carine, os novos resultados, longe de fechar o tema, trazem consigo muitas outras perguntas.
“Este estudo traz a primeira evidência da presença de uma habilidade cognitiva bastante complexa em cabras, sendo importante, portanto, que mais estudos sejam conduzidos, com amostras diferentes em condições diferentes, para reforçar os achados”, afirma.
Os pesquisadores já estão planejando esses novos experimentos, que permitirão conhecer o alcance do achado e, quem sabe, a origem evolutiva da capacidade das cabras para identificar emoções humanas.
“As cabras do santuário interagem todos os dias com pessoas, e é uma interação positiva. Então fica a pergunta: será que [elas são capazes de identificar expressões humanas] porque ao longo da história de vida delas elas têm esse contato com os humanos?”, diz Natália.
Natália Albuquerque: “Não existe nenhuma pessoa no Planeta que não
 interaja com animais. Por isso entender essas relações é extremamente 
importante para nós” – Foto: Arquivo pessoal
Outra possibilidade seria que, embora as cabras não tenham sido domesticadas pela sua capacidade para interagir com seres humanos, essa qualidade tenha vindo junto com outras que sim foram selecionadas, como a mansidão. Ou pode ser ainda que a capacidade para reconhecer emoções humanas não esteja restrita a animais domésticos, mas seja comum a certos grupos de animais.
Para Natália Albuquerque, responder a essas perguntas e avançar no conhecimento do comportamento animal não é um simples ato de curiosidade, mas uma forma de abordar uma questões mais complexas, filosóficas, inclusive.

“Nós não somos quem nós somos sem a nossa interação com os animais. Não existe nenhuma pessoa no Planeta que não interaja com animais. Por isso entender essas relações é extremamente importante para nós”.

Mais informações: e-mail natalia.ethology@gmail.com, com Natália de Souza Albuquerque ou carinesavalli@gmail.com, com Carine Savalli
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