sexta-feira, 28 de julho de 2017

Folha de S. Paulo – Partido da ciência / Editorial

Por surpreendente que pareça a afirmação no século 21, cientistas do planeta se declaram acuados.


Da perspectiva global, o mal-estar gira em torno de Donald Trump e seu desprezo pelos fatos, tendo como símbolo o ceticismo do presidente norte-americano quanto ao aquecimento global.


Tal visão se materializa em cortes de verbas para órgãos científicos e ambientais, além da decisão de abandonar o Acordo de Paris —assinado em 2015 para conter a emissão de gases do efeito estufa.


Não restrita a círculos governamentais, a visão anticientífica encontra eco na sociedade. Mesmo não revelando maiorias, impressionam certos percentuais registrados pelo Centro de Pesquisas Pew entre adultos dos Estados Unidos.
São 22% os que confiam pouco ou nada em cientistas quando se trata de informações a respeito das causas das mudanças climáticas.


Com grupos antivacina propagando disparates na internet, 10% dos americanos julgam que os riscos da imunização são maiores que seus benefícios. Fora isso, adversários da teoria da evolução natural cobram o ensino de criacionismo nas escolas.
O contrassenso de tais manifestações de descaso pelos fatos em uma era de informações abundantes tem mobilizado os cientistas, em particular nos EUA.


Assim o demonstraram, em abril, marchas em defesa da ciência ocorridas em 600 cidades de 60 países, entre eles o Brasil.
Em entrevista a esta Folha, Fraser Stoddart, um dos vencedores do Prêmio Nobel de Química em 2016, externou sua inquietação com o que chamou de "volta no tempo" e cobrou maior engajamento científico de seus colegas.


No Brasil, representantes do setor discutem a criação de um partido político para ampliar sua voz. Um dos temas mais salientes é a perda de recursos orçamentários, ainda mais depois da fusão, no governo Michel Temer (PMDB), dos ministérios da Ciência e Tecnologia e das Comunicações.


Nesse ponto, causa preocupação que a pesquisa e a inovação no país continuem a depender substancialmente de organizações estatais.
Merecem estímulo as iniciativas que amplifiquem a influência do saber científico no debate público —de preferência, não por meio da criação de uma enésima legenda partidária. Sem prejuízo da ampla liberdade de opinião e expressão, reforços nas fileiras contrárias ao obscurantismo são bem-vindos.


Folha de S. Paulo – Edição de DNA é usada em embriões humanos pela 1ª vez nos EUA


Da France Presse

Pesquisadores dos Estados Unidos conseguiram modificar genes defeituosos em embriões humanos, pela primeira vez no país, utilizando a revolucionária técnica de edição genética Crispr, informou nesta quinta-feira (27) a revista "MIT Technology Review".
"Os resultados deste estudo devem ser publicados em breve em uma revista científica", indicou na quinta-feira à AFP Eric Robinson, porta-voz da Universidade de Ciências e Saúde de Oregon (OHSU), onde a pesquisa foi realizada.


"Infelizmente, não podemos proporcionar mais informações nesta etapa", acrescentou.
De acordo com a publicação, que cita um dos cientistas da equipe, os experimentos permitiram demonstrar que é possível corrigir de forma eficaz e sem riscos os defeitos genéticos responsáveis por doenças hereditárias.


Os cientistas deixaram estes embriões modificados se desenvolverem apenas por poucos dias.


Pesquisadores chineses foram os primeiros a modificar, em 2015, os genes de um embrião, obtendo resultados variados, segundo um relatório publicado pela revista britânica "Nature".
A técnica Crispr-Cas9, mecanismo descoberto em bactérias, representa um imenso potencial na medicina genética, permitindo modificar os genes de forma rápida e eficiente.


O mecanismo de edição gênica é uma espécie de tesoura molecular que pode, de maneira muito precisa, eliminar as partes não desejadas do genoma para substituí-las por novos fragmentos de DNA.
Se esta técnica é capaz de corrigir os genes defeituosos responsáveis por doenças, também poderia, teoricamente, produzir bebês com características físicas determinadas (cor dos olhos, força muscular) e mais inteligentes, o que apresenta importantes problemas éticos.



Em dezembro de 2015, um grupo internacional de cientistas e especialistas em ética convocados pela Academia Nacional de Ciências americana (NAS) em Washington considerou que seria "irresponsável" utilizar a tecnologia Crispr para modificar o embrião com fins terapêuticos até que as questões legais, de segurança e de ética não fossem resolvidas.
Mas em março de 2017, a NAS e a Academia de Medicina americana consideraram que os avanços realizados na técnica de edição genética das células humanas de reprodução "abrem possibilidades realistas que merecem sérias considerações ".


A premissa de avaliar a eficácia da técnica sobre os embriões humanos também é apoiada na França pela Sociedade de Genética Humana e pela Sociedade de Terapia Celular e Gênica.


O Reino Unido, por outro lado, já validou projetos de pesquisa que utilizam essa técnica.

Ambientalistas lançam nota contra proposta que recorta Jamanxim


Por Daniele Bragança
Vista de reabanho de gado na Flona de Jamanxim, alvo da Operação Boi Pirata II . Foto: Nelson Feitosa/Ibama.
Vista de reabanho de gado na Flona de Jamanxim, alvo da Operação Boi Pirata II . 
Foto: Nelson Feitosa/Ibama.


As principais organizações ambientalistas do país lançaram nesta quinta-feira (27) um pedido para que o Congresso Nacional rejeite a nova proposta do governo Temer de reduzir a proteção da Floresta Nacional do Jamanxim. Segundo os ambientalistas, a medida proposta beneficia grileiros e pode dobrar o desmatamento na região.


Antes do Congresso entrar em recesso, o governo reencaminhou a proposta de transformar parte da Floresta Nacional de Jamanxim em Área de Proteção Ambiental (APA) - unidade de conservação que permite atividades como pecuária e agricultura. Dessa vez, ao invés de Medida Provisória, o governo enviou um projeto de lei em caráter de urgência.


O PL substitui a polêmica Medida Provisória 756, que originalmente tiraria 305 mil hectares da unidade de conservação (e o Congresso estendeu para tiraria 486 mil) e foi vetada no mês passado pelo presidente Michel Temer.


Demorou quatro semanas para o governo ceder às pressões da bancada ruralista. Em resposta, organizações ambientalistas - Greenpeace Brasil, ICV, Imaflora, Imazon, IPAM, ISA, TNC Brasil e WWF Brasil - se uniram e lançaram uma nota sobre as consequências destrutivas desta medida para o meio ambiente e o país.


“Repudiamos o PL apresentado pelo governo federal ao Congresso Nacional e pedimos, como representantes da sociedade civil, a sua rejeição. Qualquer redução dos limites acarretará em mais conflitos na região e também em mais desmatamento, que, por sua vez, coloca em risco o futuro econômico do Brasil e o futuro climático da região”, diz a nota.


Na nota, as organizações alertam que:
  • O PL representa um subsídio de pelo menos meio bilhão de reais aos grileiros que dominam a região.
  • O PL não visa atender às pequenas propriedades (até 4 módulos fiscais) ou à agricultura familiar. A área média requerida por ocupantes da Flona é de 1.700 hectares, ou seja, quase 23 vezes um lote da agricultura familiar, que naquela região tem 75 hectares.
  • A Flona do Jamanxim foi a Unidade de Conservação mais desmatada entre 2012 e 2015. Com a medida, o desmatamento na região pode mais que dobrar até 2030, com corte extra de 138 mil hectares e emissão de 67 milhões de toneladas de gás carbônico.
  • Dentro dos 354 mil hectares, há 312 embargos ambientais, resultado de grandes operações realizadas pelo Ibama na região. Ou seja, ao conceder a regularização fundiária dessas áreas, o Estado brasileiro desmoraliza ainda mais a própria política pública de controle do desmatamento, premiando com terra os criminosos.
  • A redução da Flona de Jamanxim se junta a outras medidas conduzidas por Temer e pelo Congresso Nacional, que desmontam todo o trabalho realizado nos últimos anos para reduzir o desmatamento na Amazônia. Ao usar o meio ambiente como moeda de troca para se manter na cadeira da presidência, Temer tem favorecido grileiros e grandes desmatadores, e segue na direção contrária às políticas nacionais e aos compromissos internacionais assumidos pelo Brasil para a proteção de florestas e do clima.

Confira  a íntegra da nota.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

Mineração: medidas destravam setor, mas não deixam clara a proteção ao meio ambiente





25 Julho 2017   |   
por Jaime Gesisky

Três Medidas Provisórias assinadas nesta terça-feira (25) pelo presidente Michel Temer formam a base do que o governo batizou de Programa de Revitalização da Indústria Mineral Brasileira. O pacote, antecipado em maio pelo WWF-Brasil, cria a Agência Nacional de Mineração (ANM), atualiza regras do Código de Mineração e altera legislação que trata da Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais (CFEM) - os royalties.

As medidas visam atrair investimentos em uma tentativa do governo de responder a uma das maiores recessões da história do Brasil. A expectativa é aumentar em 50% a participação mineral no PIB brasileiro e reverter a paralisia em que o setor se encontra nos últimos anos. Uma das promessas do pacote é dar segurança jurídica ao setor.

Sua principal fragilidade é não garantir salvaguardas socioambientais claras e participação social nas decisões.

“O país vive um clima de instabilidade política com graves retrocessos na área ambiental, sobretudo em relação aos direitos de povos indígenas e comunidades tradicionais, redução de áreas protegidas e tentativas de flexibilizar o licenciamento ambiental”, lembra Maurício Voivodic, diretor executivo do WWF-Brasil.

“Neste contexto, é preocupante um pacote de medidas com potenciais impactos sociais e ambientais vir à tona sem um debate aberto com a sociedade”, diz Voivodic.

O Código de Mineração em vigor está sendo alterado em 23 pontos com a finalidade de destravar e estimular a atividade mineradora. Segundo o governo, o objetivo é “melhorar o ambiente de negócios e a atratividade do país para investimento em pesquisa e novas tecnologias de mineração”.

No quesito ambiental, as mudanças previstas na lei incluem a previsão da responsabilidade do minerador de recuperar as áreas ambientalmente degradadas e a obrigatoriedade de executar, antes da extinção do título, o plano de fechamento de mina, o qual passa a integrar o conceito de atividade minerária. Outro ponto é ampliação da multa, que passa a ter um teto máximo de R$ 30 milhões.

No entanto, na avaliação do WWF-Brasil, essas medidas só serão efetivas se houver controle e fiscalização rigorosos por parte do governo e compromisso por parte das empresas.

Renca suspensa

De acordo com as medidas, a nova Agência Nacional de Mineração (ANM) assumirá as funções atualmente exercidas pelo Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM), para “criar um ambiente de estabilidade e previsibilidade quanto aos atos do poder público na gestão dos direitos minerários”. O foco é beneficiar o mercado.

Já a liberação de uma área de 46 mil km2 entre os estados do Pará e do Amapá proibida à mineração desde 1984 prevista para fazer parte do anúncio acabou sendo retirada do pacote na última hora.

A região conhecida como Reserva Nacional de Cobre e Associados (Renca) tem elevado potencial de ouro e outros metais, dois grandes depósitos de fosfato e centenas de garimpos de ouro. O governo, no entanto, informou que pretende  retomar a medida em breve.

Royalties da discórdia

O pacote do governo trouxe ainda mudanças na legislação que trata da Compensação Financeira pela Exploração Mineral (CFEM), que corresponde aos royalties da mineração.

O reajuste do royalty tem dois componentes: a base de cálculo é alterada, ou seja, a CFEM passará a incidir sobre o faturamento bruto das mineradoras e não mais sobre o faturamento líquido, o que eleva significativamente a contribuição das empresas; além disso, as alíquotas da CFEM de vários minérios serão reajustadas.

A principal mudança altera da base de cálculo da CFEM, que, regra geral, passará de faturamento líquido para receita bruta de venda do minério. Logo após o anúncio das medidas pelo governo, o Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram) divulgou nota logo criticando o aumento dos royalties.

Segundo a nota minérios utilizados na fabricação de fertilizantes – destinados ao cultivo de alimentos – e também de ração animal, bem como água mineral, potássio, ferro e ouro são alguns exemplos de produtos que terão custos elevados com efeito imediato, em razão da MP.

Para o Ibram, a medida vai repercutir nos preços da indústria e da agroindústria. “Este efeito cascata inflacionário poderá atingir também o atacado e o varejo e, por consequência, os consumidores”.

De acordo com a entidade representativa do setor, as mineradoras se sentem pressionadas a repassar essa nova elevação de custos à cadeia produtiva industrial. Esta nova condição irá aumentar o risco de perda de competitividade no mercado internacional de minérios.

Já o regime de partilha entre os entes federativos não muda. União (12%), Estados (23%) e Municípios (65%) continuam recebendo pelo critério atual. (Colaborou Clarissa Presotti)


 
© Foto: Agência Brasil

Abertura de área para mineração na Amazônia colocará em risco nove áreas protegidas, diz WWF-Brasil





26 Julho 2017   |   
por Jaime Gesisky

Está pronto no governo o texto do decreto presidencial que deverá abrir uma área de 47 mil quilômetros quadrados entre o Pará e o Amapá para exploração mineral. A área equivale ao estado do Espírito Santo. A medida deverá ser anunciada em breve, conforme adiantou o ministro das Minas e Energia, Fernando Coelho Filho, ao comentar o pacote com novas regras para o setor de mineração divulgado ontem. A abertura dessa área, porém, poderá gerar uma série de conflitos entre a atividade minerária, a conservação da biodiversidade e os direitos indígenas.

O alerta consta de um relatório divulgado hoje pelo WWF-Brasil, produzido em parceria com a empresa Jazida.com, especializada em geoprocessamento.

Acesse o documento.

A área conhecida como Reserva Nacional do Cobre e seus Associados (Renca) engloba nove áreas protegidas: o Parque Nacional Montanhas do Tumucumaque, as Florestas Estaduais do Paru e do Amapá, a Reserva Biológica de Maicuru, a Estação Ecológica do Jari, a Reserva Extrativista Rio Cajari, a Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Rio Iratapuru e as Terras Indígenas Waiãpi e Rio Paru d`Este.

A Renca está bloqueada pelo governo brasileiro desde 1984, mas deve ser aberta para mineração como parte dos planos do governo Temer de atrair investimentos internacionais para a região e engordar o PIB. Uma portaria do MME publicada início de abril foi o primeiro passo para retomar a exploração mineral na região.

“Apesar do forte apelo econômico, o desenvolvimento da atividade minerária pode trazer impactos indesejáveis para as áreas protegidas inseridas na Renca, tais como explosão demográfica, desmatamento, comprometimento dos recursos hídricos, perda de biodiversidade, acirramento dos conflitos fundiários e ameaça a povos indígenas e populações tradicionais”, adverte Maurício Voivodic, diretor executivo do WWF-Brasil.

A legislação ambiental brasileira proíbe a mineração em unidades de conservação classificadas como de proteção integral – destinadas exclusivamente à preservação dos recursos naturais. Já as unidades de uso sustentável podem ser abertas à atividade, desde que haja um Plano de Manejo que indique claramente quais as atividades permitidas.

No caso das Terras Indígenas a proibição é total. O mesmo se aplica às Reservas Extrativistas.

Das nove áreas protegidas existentes na Renca, a legislação atual permite atividade mineral apenas na Floresta Estadual do Paru, já que a atividade está prevista no seu Plano de Manejo, e mesmo assim em apenas um trecho da Flota.

Potenciais conflitos

De acordo com o relatório, a principal área de interesse para a mineração na Renca coincide justamente com uma área de proteção integral, a Reserva Biológica (Rebio) de Maicuru, onde os dados da Serviço Geológico Brasileiro (CPRM) apontam fortes indícios da ocorrência de cobre e ouro.

O relatório do WWF aponta ainda que existem na Rebio três processos minerários registrados no Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM). Trata-se de duas autorizações para lavra e uma de pesquisa. Duas concessões de lavra de ouro pertencem à Mineração Transamazônica S.A. A de pesquisa é de domínio da Mineração Jatapu Ltda. Esses processos devem ser mantidos, segundo a portaria do MME que começar a reabrir a Renca.

Outra autorização de pesquisa a ser mantida pertence à Mineração Tucuri Ltda, e fica em uma área transfronteiriça que pega o trecho paraense da Estação Ecológica do Jari e a zona proibida à mineração na Floresta Estadual do Paru (PA). Outros 154 requerimentos de pesquisa protocolados junto ao DNPM serão analisados com a abertura da Renca. No total, a área requerida para estudos corresponde a cerca de 30 por cento de toda a reserva.

Na Floresta Estadual do Paru (PA) – de uso sustentável –, onde também há sinais de existência de ouro, o Plano de Manejo prevê apenas a atividade de pesquisa mineral, e mesmo assim em somente um trecho, na porção centro-sul da Renca.

Entretanto, o documento orientador das atividades na Flota deixa brechas para que o zoneamento da unidade seja alterado, estendendo a permissão para lavra se comprovado o interesse mineral. Nesse tipo de unidade de conservação, existe a possibilidade de mineração, mas deve-se considerar todas as salvaguardas para garantir o cumprimento de seus objetivos, conforme a legislação exige.

A Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Rio Iratapuru (AP) ainda não tem Plano de Manejo, sendo vulnerável a interesses contrários à conservação. Neste caso, o ideal seria elaborar o documento com as devidas restrições.

Outro potencial conflito é a existência de duas Terras Indígenas na Renca.

No lado paraense está a TI Rio Paru d`Este, onde habitam duas etnias, os Aparai e os Wayana. No lado do Amapá, encontra-se o território indígena do povo Wajãpi.

São povos que vivem em relativo isolamento, conservam modos de vida milenares e mantêm de pé uma área superior a 17 mil quilômetros quadrados de floresta amazônica.

“Uma eventual corrida do ouro para a região poderá causar danos irreversíveis a essas culturas e ao patrimônio natural brasileiro. Se o governo insistir em seguir abrindo áreas para mineração sem discutir as salvaguardas socioambientais poderá ser questionado internacionalmente”, alerta Jaime Gesisky, especialista em Políticas Públicas no WWF-Brasil.

Segundo ele, o Brasil não pode repetir os erros cometidos na década de 1970 – quando grandes empreendimentos foram levados para a Amazônia sem nenhum critério que levasse em conta o meio ambiente e os povos da região.
 

ONGs pedem que Congresso rejeite projeto de lei que reduz área protegida na Amazônia




27 Julho 2017   |  
 
 
Organizações ambientalistas lançaram nesta quinta-feira (27) uma nota técnica contra o projeto de lei que reduz 30% da Floresta Nacional do Jamanxim (Flona), no Pará. O PL 8107/17, enviado em regime de urgência pelo governo, trata-se de mais uma barganha com a bancada ruralista em busca de votos que possam livrar o presidente Michel Temer de processo por corrupção.

A proposta foi encaminhada ao Congresso Nacional apenas algumas semanas depois de Temer vetar a Medida Provisória 756, que propunha uma drástica redução da Flona do Jamanxim.

O novo texto é ainda pior que a Medida Provisória. Agora, a área a ser transferida para a categoria de Área de Proteção Ambiental (APA) – unidade de conservação que permite atividades como pecuária e agricultura – é maior: 354 mil hectares, contra os 305 mil hectares propostos inicialmente na MP.

Em resposta à mais esta ofensiva contra o patrimônio nacional, organizações ambientalistas – Greenpeace Brasil, ICV, Imaflora, Imazon, IPAM, ISA, TNC Brasil e WWF Brasil – se uniram para tentar barrar essa medida drástica para o meio ambiente e o país.

“Repudiamos o PL apresentado pelo governo federal ao Congresso Nacional e pedimos, como representantes da sociedade civil, a sua rejeição. Qualquer redução dos limites acarretará em mais conflitos na região e também em mais desmatamento, que, por sua vez, coloca em risco o futuro econômico do Brasil e o futuro climático da região”, diz a nota das ONGs.

As organizações alertam que o projeto representa um subsídio de pelo menos meio bilhão de reais aos grileiros que dominam a região. Além disso, o PL não visa atender às pequenas propriedades (até 4 módulos fiscais) ou à agricultura familiar. A área média requerida por ocupantes da Flona é de 1.700 hectares, ou seja, quase 23 vezes um lote da agricultura familiar, que naquela região tem 75 hectares.

Acesse o documento.

Para o coordenador de Políticas Públicas do WWF-Brasil, Michel Santos, se aprovado como está, o PL poderá incentivar mais reduções de áreas protegidas, puxando para cima as taxas de desmatamento na Amazônia e as emissões de gases que causam o aquecimento global.

Santos alertou ainda que é bem provável que a redução final da Flona de Jamanxim seja ainda maior, como ocorreu com a MP 756 durante a sua passagem pelo Congresso Nacional. “Há uma grande ofensiva em curso contra as áreas protegidas no Brasil comandada pela bancada ruralista para atender ao lobby dos setores ruralista e de mineração”.

Segundo Santos, esse projeto de lei não pode avançar sem que haja um amplo debate com a sociedade, já que segue na direção contrária de políticas de conservação e coloca em risco um dos maiores programas de áreas protegidas do mundo, o Arpa.

Comissão especial

O texto será analisado por uma Comissão Especial, antes de seguir para o Plenário da Câmara. Existem grandes chances do colegiado – a ser criado na próxima semana – ser dominado por parlamentares da bancada ruralista do Pará e comandado pelo deputado José Priante (PMDB-PA).

Priante foi relator da MP 756 na Comissão Mista composta por senadores e deputados, que incluiu no pacote de desafetação diversas áreas protegidas aumentando o dano para quase 1,3 milhões (saiba mais).

Como proposta tramita em regime de urgência, poderá ir diretamente para o Plenário e lá ter o parecer da comissão especial analisado.

Força Nacional vai reforçar equipes do Ibama no combate ao desmatamento no Pará

quarta-feira, 26 de julho de 2017


Um grupo de 100 agentes da Força Nacional seguiu ontem (25), de Brasília para Novo Progresso (PA), para apoiar equipes do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) no combate à devastação de florestas e o comércio ilegal de madeira na região, no âmbito da Operação Onda Verde. A previsão é que as equipes cheguem até o fim de semana ao local da operação, que tem prazo de duração ainda indeterminado.




Na ações, os homens da Força Nacional irão usar equipamentos como GPS. Foram enviados também camionetes e micro-ônibus. A Polícia Federal e a Polícia Federal Rodoviária também irão atuar na operação.




O reforço na segurança ocorre após um ataque a 16 veículos do Ibama, que estavam sendo transportados por caminhões-cegonhas, no início deste mês. Em junho do ano passado, um sargento da operação foi assassinado em uma tocaia.


Segundo o Ministério da Justiça e Segurança Pública, responsável pela Força Nacional, o envio do grupo de agentes não se trata de “nenhuma intervenção”. E informou à Agência Brasil que os profissionais irão fortalecer a “fiscalização e repressão ao desmatamento e comércio ilegal e qualquer outro crime relacionado”.




De acordo com o diretor de Proteção Ambiental do Ibama, Luciano Evaristo, após o ataque às viaturas, serrarias locais foram bloqueadas. Ele informou que o bloqueio será interrompido. “É um bloqueio de ordem pública, para garantir a ação do órgão na fiscalização. O cenário é complexo. Agora, com a Força Nacional, vamos atrás da grilagem, dentro das unidades de conservação, atrás do roubo de madeira de terras indígenas. Essa guerra vai até a próxima chuva. Chove, eles diminuem, a gente volta”, afirmou.





O Sistema de Alerta de Desmatamento, do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), revelou que, em junho, o Pará acumulou 38% do total da área desmatada da Amazônia Legal, liderando a lista.




A região é marcada há anos por conflitos entre produtores rurais, indígenas e ambientalistas.  A tensão aumentou no mês passado, quando produtores rurais protestaram contra veto do presidente Michel Temer à Medida Provisória 756/16. O texto reduzia a área de proteção da Floresta Nacional (Flona) do Jamanxim, que fica no município de Novo Progresso. Na ocasião, Temer argumentou que, diante da “contrariedade do interesse público e inconstitucionalidade” decidiu por não sancionar a medida. Agora, a mesma matéria tramita na Câmara dos Deputados, sob a forma do Projeto de Lei 8107/17.




A Flona abrange 1,3 milhões de hectares. Cada hectare corresponde às medidas aproximadas de um campo de futebol oficial. Criada em 2006, a unidade de conservação está enquadrada no grupo de Unidades de Uso Sustentável e onde predominam espécies nativas, além de representar 0,31% do bioma amazônico.



Divergências
Contrário ao veto de Temer, o presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Novo Progresso, Agamenon Menezes, entende que o governo deve reconhecer a complexidade da questão e ser o mediador. “Nós estamos perdendo mais de 70% de área preservada. Eles querem botar pressão sobre a sociedade, à força, com a Força Nacional. Ele [o governo] desapropria sem indenizar. Não está preocupado com as pessoas que estão lá“, disse.



“O PL [projeto de lei] não atende às nossas necessidades e a sociedade vai continuar reagindo. Nós temos a lei que regulamenta a conservação, e essa lei não foi respeitada, desde a sua criação. Esse PL vem contrariar o que a lei já existente está dizendo”, argumenta.




Em nota, o ICMBio informou que a MP foi “completamente desfigurada pelo Congresso”, mas que as circunstâncias que provocaram sua proposição ainda requerem atenção, “ainda mais em um contexto do agravamento dos conflitos”. “A opção do governo de apresentação deste Projeto de Lei não é uma medida isolada. Faz parte de um conjunto de ações já em desenvolvimento que buscam estancar o desmatamento na região, diminuir os conflitos e promover o uso sustentável dos recursos florestais”, informou o orgão.




O Índice de Progresso Social (IPS), criado pela organização internacional Social Progress Imperative, aponta que a prática do desmatamento pode não resultar em melhorias econômicas para a cidade. No relatório mais recente, de 2014, a cidade de Novo Progresso ocupa o 640º lugar e a renda per capita anual de 2010 era de R$ 7.900, ocupando a 51ª posição dentre 772 municípios, com base em 43 indicadores.




Fonte: EcoDebate

Coleta Seletiva Solidária nos órgãos de governo do Distrito Federal

RB AMBIENTAL



Posted: 25 Jul 2017 02:32 PM PDT
O governo de Brasília publicou o Decreto nº 38.246/2017, que regulamenta a Coleta Seletiva Solidária, que é a coleta dos resíduos recicláveis descartados e separados na fonte geradora para destinação às associações e cooperativas de catadores de materiais recicláveis, e prevê a participação de todos os órgãos e entidades da administração pública direta e indireta. 

A nova regulamentação determina que cada órgão componha uma comissão parar gerir o processo. Caberá a ela repassar resultados da coleta trimestralmente. No caso de prédios que acomodam mais de uma entidade, deverá haver apenas uma comissão, com pelo menos um representante de cada uma delas.

A responsabilidade pela coleta dos resíduos passa a ser do Serviço de Limpeza Urbana (SLU), que distribuirá o material entre as cooperativas e associações de catadores.

A Secretaria do Meio Ambiente (Sema-DF) tem a função de mobilizar, sensibilizar e orientar os órgãos do DF para a implementação da coleta seletiva solidária. Os contatos podem ser feitos pelo e-mail: coletaseletivasolidaria@sema.df.gov.br e pelo telefone (61) 3214-5674.

As informações que estão sendo colocadas à disposição do público esclarecem de forma prática como preparar os resíduos em um folheto digital e uma apresentação sobre o assunto. Por exemplo, ao explicar como o servidor público pode colaborar, orienta-se que podem utilizar duas lixeiras: uma para os recicláveis secos (plásticos, isopor, papel, papelão, metal, embalagem longa vida) e outra para os orgânicos e rejeitos (restos de comida, cascas de frutas, filtro de chá e de café, papel engordurado, lixo de banheiro, tecidos e vidro).

É sugerido separar os papeis em um saco só, para que não sejam contaminados por outros resíduos. “Desmonte caixas (papelão, leite e suco) para ocuparem menos espaços. Remova o excesso de alimentos e bebidas das embalagens”.

A Sema-DF tem a responsabilidade de coordenar a sensibilização e da mobilização para implementação da coleta seletiva solidária nos órgãos públicos do DF, mas a responsabilidade da implementação dentro de cada órgão é da própria autarquia por meio da Comissão de Coleta Seletiva Solidária que será constituída por cada organização. 

Acesse o Folder Coleta Seletiva Solidária - Sema/DF clique aqui

Acesse a Apresentação Coleta Seletiva Solidária - Sema/DF clique aqui

Acesse a íntegra do Decreto nº 38.246/2017 clique aqui

Fonte: Agência Brasília / Sema-DF

Oficio do Comitê da Reserva da Biosfera do Cerrado para a SEGETH sobre a LUOSs



quarta-feira, 26 de julho de 2017

Criança e Natureza: Precisamos trazer áreas verdes para nossas cidades







É necessário pensar em novos modelos para nossas cidades, com mais áreas verdes e natureza, pois ninguém quer morar em um lugar onde não consegue estar

MARIA ISABEL BARROS*
08/06/2017 - 08h28 - Atualizado 08/06/2017 09h09

Crianças brincam com elementos naturais. São oportunidades raras no espaço público urbano (Foto: Renata Ursaia - Instituto Alana - divulgação)


Em 2008, pela primeira vez na história foi registrado que a maior parte da população mundial morava em cidades. No Brasil, esse número chegava a 84% da população, segundo dados do IBGE 2010. O estilo de vida apressado, que adotamos ao morar em centros urbanos, nos afasta, e também nossas crianças, do convívio com a natureza.


No livro A última criança na natureza, o autor, Richard Louv, aponta que o aumento de doenças modernas, que já atingem as crianças, como hiperatividade, déficit de atenção e depressão, tem origem no modo de vida urbana e na falta do contato com a natureza. Provavelmente, você se recorda de ter brincado em uma área livre, em sua infância. Mas, se não mudarmos nossa forma de agir e pensar, as próximas gerações talvez não tenham essa oportunidade.

>> A série completa Criança e Natureza


Existem movimentos em diversos países promovidos por pessoas ou organizações que sonham reverter anos e anos de declínio no convívio com a natureza. No entanto, precisamos, todos, fazer nossa parte para tornar as cidades espaços mais ricos em natureza. Cultivar uma árvore ou planta nativa no jardim de casa, cobrar políticas públicas que priorizem a preservação e instalação de parques ou outras áreas verdes, também são parte de nossos deveres como cidadãos. Afinal, queremos ser lembrados pelas gigantes selvas de pedra que construímos ou pelas gigantes selvas verdes que preservamos?

>> Belo Horizonte é a grande capital com menor taxa de áreas verdes


Precisamos transformar nossas cidades em cidades biofílicas, que melhoram nossa saúde física e psicológica, nossa sensação de prazer e felicidade e nossa capacidade de aprender, além de promover encontros abundantes com a natureza em nosso cotidiano. O jornalista e especialista em advocacy pela infância Richard Louv, conversou com o Criança e Natureza, do Instituto Alana, e falou sobre a importância de pensar o futuro garantindo a presença da natureza nas cidades, escolas, ambientes de trabalho e lazer. O mundo do futuro precisa ser um lugar para onde todos queiram ir.

Veja  video:

 https://youtu.be/Yond9PDzVVg

*Maria Isabel Barros é engenheira florestal e mestre em conservação de ecossistemas, trabalha com educação e conservação da natureza. Desde 2015 integra a equipe do Criança e Natureza, do Instituto Alana.

Meio ambiente: “As ações do governo mancham a imagem do Brasil”


26 Julho 2017

Há 37 anos estudando a Amazônia, mudanças climáticas e povos indígenas, o antropólogo americano Steve Schwartzman teve o seu primeiro contato com o Brasil nos anos 80, quando iniciou uma pesquisa de campo com os índios da tribo Panará no Parque Indígena do Xingu, onde viveu por dois anos e aprendeu a língua da tribo.

Essa experiência forma uma trajetória que o coloca como um dos grandes especialistas em povos indígenas, florestas tropicais, desmatamento e redução de emissões de carbono.

Para Schwartzman, que é conselheiro do IPAM desde 2005 e também diretor sênior do Environmental Defense Fund, o presidente Temer “joga um jogo muito perigoso” ao atender a bancada ruralista, freando as demarcações de terras indígenas. De acordo com o pesquisador, são atitudes como essa que colocam em xeque a credibilidade do Brasil no mundo.

O antropólogo concedeu entrevista ao  Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), 20-07-2017.

Steve Schwartzman


Eis a entrevista.


Na contramão de garantir a floresta em pé, o presidente Temer assinou um parecer que pode parar a demarcação de terras indígenas. Qual o risco dessa ação?
Essa é uma profunda e grave questão. Quem se diz representante dos produtores rurais no congresso tinha de ter consciência que eles dependem da chuva para produzir e já é comprovado que a floresta em pé é uma garantia. A demarcação de terras, além de assegurar um direito dos indígenas, é uma forma de controlar o desmatamento e permitir a produtividade agrícola. Esse parecer é não só uma injustiça como um contrassenso enorme. Esse é um jogo muito perigoso do presidente com a bancada ruralista. São ganhos fictícios que vão manchar seriamente a imagem do Brasil internacionalmente.


Qual a importância de territórios indígenas para o clima mundial?
Os territórios indígenas têm um peso decisivo na conservação do meio ambiente, protegendo 30% do carbono na Amazônia. Porém, grande parte dessas florestas está sob pressão. Se perdermos esse estoque de carbono, ficará mais difícil atingir a meta de conter o aquecimento em 2ºC. Mas se conseguirmos defender essas terras e viabilizar a economia sustentável, isso significará um grande passo para conter a fronteira agrícola e o desmatamento.


O governo brasileiro tem colocado em prática medidas que vão na contramão do discurso, como a redução da Floresta Nacional do Jamanxim, na Amazônia. Falta credibilidade e sobram incentivos a favor do desmatamento?
Propor a redução de Jamanxim por meio de medida provisória, vetar e transformar em projeto de lei, além da MP de grilagem, tudo isso é um sinal preocupante. É um cálculo de curto prazo muito prejudicial que irá impactar o Brasil a longo prazo.

Ampliando para o cenário internacional, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anulou os compromissos assumidos pelos EUA na COP 21. Como isso impacta diretamente nas metas mundiais e como os estados americanos estão respondendo a isso?
É um sinal péssimo, porém precisamos levar em consideração algumas questões. As emissões de gases de efeito estufa dos EUA estão caindo, o que está relacionado com a transformação do mercado de energia. A Califórnia e outros estados mantêm as políticas firmadas, inclusive organizando alianças que envolvem centenas de municípios para participar da Conferência do Clima esse ano.


Apesar dessas iniciativas, a postura de Trump é um prejuízo muito grande para os EUA, afinal China e Europa continuam investindo em um desenvolvimento sustentável. Mesmo economicamente não é interessante apostar em um modelo energético ultrapassado.


Como você se sente dentro do conselho de uma instituição como o IPAM?
É uma honra e um prestígio compor o corpo de conselheiros do IPAM, uma instituição que contribui efetivamente em defesa do meio ambiente. O Brasil e o mundo precisam de um IPAM cinco vezes maior.

"Um acerto de contas para a nossa espécie": o filósofo profeta do antropoceno


26 Julho 2017

Timothy Morton quer que a humanidade desista de algumas das suas crenças fundamentais, desde a fantasia de que podemos controlar o planeta até a noção de que estamos "acima" dos outros seres. Suas ideias podem parecer estranhas, mas estão ganhando força.

A reportagem é de Alex Blasdel, publicada por The Guardian, 15-06-2017. A tradução é de Luisa Flores Somavilla.

Alguns anos atrás, Björk começou a se corresponder com um filósofo cujos livros ela admirava. "Oi timothy", foi sua primeira mensagem para ele. "Faz muito tempo que eu quero escrever esta carta". Ela estava tentando nomear seu gênero singular, para classificar seu trabalho para a posteridade antes que os críticos o fizessem. Ela pediu ajuda a ele para definir a natureza de sua arte - "não só para definir para mim mesma, mas também para todos os meus amigos e, na verdade, toda uma geração".


Acontece que o filósofo, Timothy Morton, era fã de Björk. Sua música, ele contou-lhe, tinha sido "uma influência muito profunda no meu modo de pensar e na vida em geral". A sensação de estranha intimidade com outras espécies, a fusão de atmosferas em suas músicas e vídeos - ternura e horror, estranheza e alegria - "é o sentimento de consciência ecológica", disse ele. O próprio trabalho de Morton trata das implicações dessa estranha consciência - o conhecimento de nossa interdependência com outros seres -, que ele acredita comprometer os pressupostos que sustentam há muito tempo uma separação entre humanidade e natureza. Para ele, esta uma característica define a nossa época e nos leva a mudar nossas "ideias fundamentas sobre o significado da existência, sobre o que é a Terra e o que é a sociedade".


Ao longo da última década, as ideias de Morton vêm ganhando espaço nos círculos mainstream. Hans Ulrich Obrist, diretor artístico da galeria Serpentine de Londres e talvez a figura mais poderosa da arte contemporânea no mundo, é um de seus principais incentivadores. Ele disse aos leitores da Vogue que os livros de Morton estão entre as obras culturais mais preeminentes do nosso tempo e que os recomenda a muitos de seus colaboradores. O aclamado artista Olafur Eliasson tem viajado o mundo com Morton para falar nas principais aberturas de suas exposições. Trechos de correspondências entre Morton e Björk foram publicados como parte de sua retrospectiva de 2015 no Museu de Arte Moderna de Nova York

A linguagem de Morton está "infectando todas as Humanidades pouco a pouco", disse seu amigo e também filósofo Graham Harman. Embora muitos acadêmicos sejam conhecido por escrever exclusivamente para seus colegas mais próximos, o vocabulário conceitual peculiar de Morton - "Ecologia Sombria" o estranho- estranho", "a malha" - foi incorporado por escritores em uma série de áreas, de literatura e epistemologia à teoria legal e à religião. No ano passado, ele foi incluído em uma lista muito discutida dos 50 filósofos vivos mais influentes. Suas ideias também ganharam repercussão em veículos de imprensa tradicionais, como Newsweek, New Yorker e New York Times.


A popularidade de Morton advém, em partes, de seus ataques a modos instituídos de pensamento. Seu livro mais citado, Ecology Without Nature, diz que precisamos eliminar o conceito de "natureza" de modo geral. Ele defende que uma peculiaridade do nosso mundo é a presença de coisas gigantescas que ele chama de "hiper-objetos" - como o aquecimento global e a internet - que tendemos a pensar como ideias abstratas, porque não conseguimos entendê-las, apesar de serem radicalmente reais. Ele acredita que todos os seres são interdependentes e defende a hipótese de que tudo no universo tem uma espécie de consciência, desde as algas e as pedras até facas e garfos.


Ele afirma que os seres humanos são um tipo de ciborgue, já que somos constituídos por todos os tipos de componentes não humanos. Ele gosta de salientar que justamente o que supostamente nos torna quem somos - nosso DNA - contém uma quantidade significativa de material genético advindo de vírus. Segundo ele, já somos governados por uma inteligência artificial primitiva: o capitalismo industrial. Ao mesmo tempo, acredita que existem alguns "produtos químicos experimentais estranhos" no consumismo que ajudarão a humanidade a evitar uma crise ecológica total.



As teorias de Morton podem parecer bizarras, mas estão em sintonia com a ideia do século XXI que mais abalou estruturas: a de que estamos entrando em uma nova fase da história do planeta - agora chamada por Morton e muitos outros de "Antropoceno".



Nos últimos 12.000 anos, os seres humanos viveram em uma época geológica chamada Holoceno, conhecida por climas temperados relativamente estáveis. Pode-se dizer que foi a Califórnia da história planetária. Mas está chegando ao fim. Recentemente, começamos a modificar a Terra tão drasticamente que, de acordo com muitos cientistas, estamos vivendo o começo de uma nova época. Após as mais curtas férias geológicas, parece que estamos entrando em um período mais volátil.



O termo antropoceno, do grego antigo anthropos, que significa "humano", reconhece que os seres humanos são a principal causa da atual transformação da Terra. Condições meteorológicas extremas, cidades submersas, escassez aguda de recursos, espécies extintas, desertos onde antes havia lagos, precipitação radioativa: se ainda houver vida humana na Terra daqui a dezenas de milhares de anos,sociedades que não podemos imaginar terão de enfrentar as mudanças que estamos causando hoje.



Morton observou que 75% dos gases de efeito estufa que estão na atmosfera neste momento ainda estarão lá daqui a meio milênio. Daqui a 15 gerações. Levará mais 750 gerações, ou 25 mil anos, para que a maior parte desses gases seja absorvida pelos oceanos.



O antropoceno não é apenas um período de ruptura causada pelo homem. Também é um momento de autoconsciência intermitente, em que a espécie humana está se conscientizando de que é uma força planetária. Não estamos apenas levando ao aquecimento global e à destruição ecológica; nós sabemos disso.



Uma das ideias mais poderosas de Morton é que estamos condenados a viver com essa consciência o tempo todo. Não apenas quando os políticos se reúnem para discutir acordos ambientais internacionais, mas quando fazemos algo tão comum quanto conversar sobre o tempo, pegar uma sacola de plástico no supermercado ou regar a grama. Vivemos em um mundo com um cálculo moral que não existia antes. Agora, qualquer coisa que se faça é uma questão ambiental. Não era assim há 60 anos - ou pelo menos as pessoas não estavam conscientes disso. Tragicamente, apenas degradando o planeta é que percebemos o quanto somos parte dele.



Morton acredita que isso constitui uma revolução na compreensão do nosso lugar no universo comparável às promovidas por Copérnico, Darwin e Freud. Ele é apenas um dos milhares de geólogos, cientistas do clima, historiadores, escritores e jornalistas que escrevem sobre essa turbulência, mas talvez consiga, melhor do que ninguém, colocar em palavras o sentimento perturbador de presenciar o surgimento dessa era extrema.
"Você gira a ignição do seu carro", ele escreve. "E se assusta."


Cada vez que você liga o motor, você não quer causar danos à Terra", muito menos causar a Sexta Extinção em Massa na história de quatro bilhões e meio de anos de vida nesse planeta ", mas "é justamente isso que está acontecendo". Parte do desconforto vem do fato de que nossos atos individuais podem ser estatisticamente e moralmente insignificantes, mas ao multiplicá-los milhões e bilhões de vezes - já que são realizados por toda a espécie - são um ato coletivo de destruição ecológica. O branqueamento dos corais não ocorre apenas lá na Grande Barreira de Corais; está acontecendo onde houver um ar condicionado ligado. Resumindo, segundo Morton: "tudo é interligado".



À medida que seu trabalho se espalha para além dos gigantes da cultura, como Björk, para as páginas da grande mídia, Morton torna-se o guia mais popular para a nova época. Sim, ele tem algumas ideias que parecem loucas sobre como é estar vivo nesse momento - mas o que significa estar vivo agora, no Antropoceno, é muito louco.



Ao longo de sua juventude, o Antropoceno tornou-se um conceito com um alcance tão amplo como qualquer outro paradigma histórico-mundial que se preze (o que, se é sal marinho, inclui agora uma boa dose de resíduos sintéticos em pequenas partículas chamadas Microplasticos). O que começou como um debate técnico nas ciências da terra levou, na opinião de Morton, algumas das nossas formas mais básicas de entender o mundo a serem confrontadas. No Antropoceno, segundo Morton, estamos passando por "uma perda traumática de coordenadas".



Sua criação é atribuída a Paul Crutzen, vencedor do Prêmio Nobel especialista em química atmosférica, e ao biólogo Eugene Stoermer, que contribuiu no início da popularização do termo, em 2000. Desde o início, muitos levaram o conceito de Crutzen e Stoermer a sério, apesar de não concordar com ele. Desde o final do século XX, os cientistas consideravam o tempo geológico como um drama pontuado por grandes cataclismos, não apenas um acúmulo gradual de mudanças incrementais, e fazia sentido considerar a própria humanidade como o último cataclismo.



Imagine geólogos de uma civilização no futuro examinando as camadas de rocha que estão em lento processo de formação hoje, como nós examinamos os estratos de rocha que se formaram quando os dinossauros foram exterminados. Essa civilização verá evidências de nosso impacto (geologicamente) repentino no planeta - como plásticos fossilizados e camadas tanto de carbono, pela queima de combustíveis de carbono, e de partículas radioativas, pelos testes nucleares e explosões - de forma tão clara quanto as evidências do rápido desaparecimento dos dinossauros. Já podemos observar a formação dessas camadas.



Por alguns anos, houve um debate acalorado sobre a utilidade do conceito. Pessoas que discordam da ideia argumentaram que o "sinal geológico" da humanidade ainda não evidente o suficiente para justificar o surgimento de uma nova época, ou que o termo não tinha utilização científica. Apoiadores se questionavam qual seria a data do início do antropoceno. De acordo com o advento da agricultura, há muitos milênios atrás? Ou a invenção da máquina a vapor no século XVIII e o início da Revolução Industrial? Ou ainda o dia 16 de julho de 1945, às 5:29, quando primeiro teste nuclear explodiu sobre o deserto do Novo México? (Morton, com sua maneira abrangente de ver as coisas, trata todos esses momentos como cruciais).



Depois, em 2002, Crutzen apresentou seus argumentos na revista científica Nature. A ideia de um momento na história planetária em que a influência humana era predominante parecia juntar tantos desenvolvimentos diferentes - desde o recuo das geleiras até o pensamento moderno sobre os limites do capitalismo - que o termo começou a se espalhar rapidamente para outras ciências da terra e não parou mais.



Desde então, foram fundadas pelo menos três revistas acadêmicas especializadas no Antropoceno, várias universidades criaram grupos de pesquisa para refletir sobre suas implicações, estudantes de Stanford começaram a produzir um podcast conhecido chamado Generation Anthropocenee milhares de artigos e livros foram escritos sobre o assunto, em áreas desde a economia até a poesia.



Alguns pensadores se opõem ao termo, argumentando que ele reforça a visão antropocêntrica do mundo que nos levou à beira de um desastre ecológico. Outros dizem que a destruição da Terra deve ser atribuído não à da humanidade em geral, mas ao capitalismo (predominantemente branco, ocidental e masculino). Foram criados termos alternativos, como "Capitaloceno", mas nenhum pegou. Eles não têm o apelo existencial inquietante de antropoceno, que enfatiza nossa culpa e nossa fragilidade como seres humanos.



Em torno de 2011, o Antropoceno "começou a surgir nos jornais pela primeira vez", de acordo com a história recente do conceito descrita pelo estudioso Jeremy Davies. A BBC, o The Economist, a National Geographic, a Science, entre outros, abordaram o conceito. As mudanças no planeta haviam feito com que jornalistas levassem reportagens sobre o meio ambiente cada vez mais ao contexto da geo-história - níveis de dióxido de carbono na atmosfera não chegavam a 400 partes por milhão desde o Plioceno, há três milhões de anos - e o Antropoceno tornou-se uma forma rápida e útil de colocar a atividade humana na perspectiva geológica do tempo profundo.


Para Morton, que tinha acabado de começar a escrever sobre isso, encerrava sua preocupação com a forma como os diferentes seres, incluindo os seres humanos, dependem uns dos outros para a sua existência - fato que as várias calamidades do Antropoceno destacavam.


Em 2014, a palavra Antropoceno (em inglês, Anthropocene) foi introduzida no Oxford English Dictionary e, no ano passado, foi formalmente aprovada por um grupo de trabalho dentro da Comissão Internacional de Estratigrafia, que monitora o tempo geológico oficialmente. O ano de 1950 foi escolhido para ser uma data estimada, em que uma das marcas mais claras da atividade humana global na crosta terrestre apareceu: isótopos de plutônio de vários testes nucleares.


O anúncio do grupo de trabalho foi tão importante que estampou a primeira página do jornal britânico The Guardian. (Em toda a mídia, o conceito de Antropoceno agora é usado para enquadrar tudo, desde críticas de ficção até discussões sobre a presidência de Donald Trump.) Como disse Jan Zalasiewicz, presidente do grupo e um dos principais especialistas do Antropoceno, essa nova época "estabelece uma trajetória diferente para o sistema terrestre" e só agora estamos "percebendo as dimensões e a persistência da mudança".


Já houve outros períodos de intensa flutuação climática, juntamente com a extinção em massa. O mais recente foi há 66 milhões de anos, quando um meteorito de dez quilômetros de diâmetro atingiu o que hoje é a Península de Yucatán. Estima-se que seu impacto seja de 2 milhões de vezes a força da bomba atômica mais poderosa já detonada, alterando a atmosfera do planeta e eliminando três quartos das espécies existentes. Mas em comparação foi um evento simples, que as ciências físicas têm plenas condições de entender.



Para entender a mudança histórica que está sendo conduzida pela atividade humana, precisamos de mais do que geologia, meteorologia e química. Se isso é um acerto de contas para nossa espécie, precisamos de um guia intelectual - alguém que nos diga se devemos entrar em pânico ou não e o quanto o reconhecimento de que estamos mudando o planeta nos fará mudar.



A consciência que ganhamos no antropoceno, de modo geral, não é feliz. Muitos ambientalistas estão alertando sobre uma iminente catástrofe global e exigindo que as sociedades industriais revejam sua trajetória. Morton se posiciona de forma mais iconoclasta. Em vez de alarmar ainda mais a respeito das questões ecológicas como se fosse um Paul Revere do apocalipse, ele defende o que chama de "ecologia sombria", que afirma que a tão temida catástrofe já ocorreu.



O que significa não somente que um aquecimento global irreversível já está acontecendo, mas também algo mais abrangente. "Nós, Mesopotâmicos" - como ele chama as últimas 400 gerações de seres humanos vivendo em sociedades agrícolas e industriais -, pensamos que estávamos apenas manipulando outras entidades (através da agricultura e da engenharia, e assim por diante) no vácuo, como se trabalhássemos em um laboratório e elas estivessem em alguma placa de petri gigante chamada "natureza" ou "ambiente".



No Antropoceno, segundo Morton, devemos despertar para o fato de que nunca nos separamos ou controlamos as coisas não-humanas do planeta, mas sempre estivemos intimamente ligados a elas. Não podemos nem queimar ou jogar nada fora sem que as coisas voltem para nós de alguma forma, como a poluição nociva. Nossas ideias mais estimadas sobre a natureza e o meio ambiente - de que são separados de nós e relativamente estáveis - foram destruídas.


Morton compara esta constatação com histórias de detetives em que o caçador percebe que está atrás de si mesmo (seus exemplos favoritos são Blade Runner e Édipo Rei). "Nem todos estão preparados para se assustar o suficiente" com essa epifania, diz ele. Mas há uma outra coisa: apesar de os humanos terem causado o Antropoceno, não podemos controlá-lo. "Meu Deus!" exclamou Morton para mim fingindo horror. "Minha tentativa de escapar da teia do destino foi a rede do destino ".



Para Morton, a principal razão para estarmos enxergando a nossa estreita relação com o mundo que estamos destruindo é o nosso encontro com a realidade dos hiper-objetos - termo criado por ele para descrever os ecossistemas e os buracos negros, "distribuídos no tempo e no espaço de forma maciça"em comparação com seres humanos. Os hiper-objetos podem não parecer objetos da mesma forma, por exemplo, que bolas de bilhar, mas são igualmente reais e agora estamos encontrando-os conscientemente pela primeira vez.


O aquecimento global pode ter aparecido para nós como um tempo um tanto engraçado em algum lugar e depois como uma série de manifestações independentes (uma enchente mais forte ali, uma onda de calor mortal lá). Porém, agora o consideramos um fenômeno unificado, e as condições meteorológicas extremas e a quebra das antigas estações do ano são apenas seus elementos.



É através dos hiper-objetos que começamos a enfrentar o Antropoceno, argumenta Morton. Um dos seus livros mais influentes, intitulado Hyperobjects, examina a experiência de estar envolvido por essas entidades - realmente, fazer parte delas-, que são grandes demais para conseguirmos entender e controlar. Podemos vivenciar hiper-objetos como o clima em suas manifestações locais ou através de dados produzidos por cálculos científicos, mas sua escala e o fato de estarmos presos dentro deles significa que nunca podemos conhecê-los completamente. Por causa de tais fenômenos, estamos vivendo em um momento de mudanças literalmente impensáveis.



Isso leva Morton a um de seus argumentos mais impressionantes: que o Antropoceno está levando a uma revolução no pensamento humano. Os avanços na ciência estão ressaltando o quanto estamos "enredados" com outros seres - dos micróbios que representam cerca de metade das células do nosso corpo, à dependência da proteção térmica eletromagnética da Terra para a nossa sobrevivência. Ao mesmo tempo, os hiper-objetos, em sua grandeza, nos chama a atenção para os limites absolutos da ciência e, portanto, para os limites do domínio humano.



A ciência só consegue nos levar até aqui. Isso significa mudar nossa relação com as outras entidades do universo - sejam animais, vegetais ou minerais -, da exploração por meio da ciência à solidariedade na ignorância. Se não conseguirmos, continuaremos causando danos ao planeta e ameaçando estimados modos de vida e até a nossa própria existência. Ao contrário das fantasias utópicas de que seremos salvos pelo surgimento da inteligência artificial ou de alguma outra tecnologia, o Antropoceno nos ensina que não podemos superar nossas limitações ou a dependência de outros seres.



Só podemos conviver.
Pode até soar desolador, mas Morton vê isso como uma libertação. Se abandonarmos a ilusão de controlar tudo o que nos rodeia, poderemos nos reorientar a encontrar prazer a partir de outros seres e da própria vida. Morton acredita que o prazer pode nos levar a uma nova política. "Você acha que a vida ecologicamente correta significa ser totalmente eficiente e puro", diz no tuíte no topo de sua linha do tempo. "Errado. Significa que você pode ter uma discoteca em cada cômodo da casa."



Essas palavras são típicas de seu pensamento, que muitas vezes parte da desolação comum e dá uma guinada surpreendente. "Há uma verdadeira esperança em seu trabalho", diz Hans Ulrich Obrist sobre Morton. "Esperança e até mesmo otimismo estão presentes de alguma forma". Morton tem uma história curiosa sobre quando colocou energia eólica em casa, na zona rural de Houston, onde ele dá aulas em uma cadeira na Rice University. Depois de um ou dois dias "sentindo-se muito correto e santo", ele percebeu que poderia ter "estroboscópios potentes, decks e festas por horas e horas, o dia todo, todos os dias", causando muito menos impacto ao planeta.


"E esse é o verdadeiro futuro ecológico".
Em uma manhã de sábado no outono passado, saí para procurar Morton no festival de ideias da Serpentine Galleries, que acontece todos os anos, onde ele falaria naquele dia. Nas semanas anteriores, ele havia estado em Seul para ajudar Olafur Eliasson a abrir uma exposição individual; em Singapura, para falar na conferência Future Cities; em Bruxelas, para dar uma palestra intitulada "Nature Isn’t Real" em um parque à noite (ele disse que 250 pessoas compareceram); na Universidade de Exeter, onde ele abordou sua nova teoria de ação, "rocking", descrita por ele como "uma queerificação das categorias teístas de ativo versus passivo"; em Roma, onde, entre outras coisas, ficou bebendo martini e em Paris, onde ele foi a algumas raves com sua amiga Ingrid e ficou tão emocionado e exausto que passou a noite toda deitado no meio da pista de dança.



Se você tivesse que escolher um avatar para o Antropoceno, Morton poderia uma boa opção. Ele tem olhos azuis da cor do Ártico que espantam e parecem espantados ao mesmo tempo. Um pouquinho rechonchudo, sugerindo vulnerabilidade física, seu rosto tem um rubor eczemático e seu cabelo loiro fino tem formato de cardo, parecendo ter sobrevivido a algum inesperado. Na verdade, ele parece um tanto aflito. Entre outras coisas, ele sofre de uma grave apneia do sono, depressão profunda, enxaquecas graves e, pareceu ao longo de nossas conversas, ocasionais episódios de paranoia leve. Obrist, que gravou mais de 2.500 horas de entrevistas com artistas e filósofos, me disse que Morton foi o único que se "emocionou tanto que começou a chorar". (Eles estavam discutindo a extinção em massa.)




No início do ano, ao conversar com Morton por vídeo, ele estava em ebulição. Agora, sentado na parte de trás do restaurante da galeria, que havia sido reformado para ser um salão de shows, ele parecia estar quase sem combustível para queimar. Ele já havia publicado 14 ensaios durante o ano e continuava trabalhando em seus dois próximos livros. Nas próximas semanas, ele daria palestras em Chicago, em Yale, em Seul (novamente), em Munique e, finalmente, se reuniria com membros do Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa contemplando as mensagens que devemos enviar ao espaço em uma possível nova edição da missão Voyager.


(A original, em 1977, enviou duas sondas espaciais, que ultrapassaram o nosso sistema solar. Cada uma carregava consigo um disco de 12 polegadas revestido a ouro com sons e imagens representando a humanidade e outros seres terrestres.) No final de 2016, como Morton depois escreveu em seu blogue,ele completou 350 mil milhas de voo.



O itinerário de Morton representa a popularidade que a noção de Antropoceno adquiriu e a profundidade com que sua abordagem ressoa na nossa experiência cada vez mais inquietante do mundo. Analisando seus livros ou falando com ele pessoalmente, começa-se a suspeitar que a extravagância de seu pensamento e sua personalidade na verdade reflete algo muito estranho sobre o mundo.


Durante o almoço, Morton pediu um sanduíche natural de frango - tinha encerrado uma experiência anterior com veganismo - e discutimos o desenvolvimento de seu pensamento. Enquanto ele comia, fui lembrado de um relatório recente que concluiu que quase 60 bilhões de frangos são abatidos por ano no mundo inteiro, o que, nas palavras de Jan Zalasiewicz, significa que suas carcaças foram "fossilizadas em milhares de aterros sanitários e em várias esquinas no mundo todo".


Esse pensamento leva imediatamente a outro: sobre as "superbactérias" que criamos pelo uso generalizado de antibióticos, principalmente na produção pecuária industrial. A partir daí, é um pulo para pensar em outros fenômenos estranhos da nossa nova época, como pedras feitas de plástico e conchas marinhas e as mudanças na rotação da Terra causadas pelo derretimento de lençóis de gelo. A lista desses fatos inquietantes do antropoceno não acaba mais.



É possível, na primeira ou segunda vez que se encontra Morton, que se questione se há uma mistura de seu ar meio hippie, sua emotividade, seu talento intelectual. Mas seus amigos de infância e familiares dizem que o engajamento visceral com a ecologia e sua habilidade acadêmica remontam à infância.  


Morton nasceu no noroeste de Londres, em 1968, em um período em que uma crescente conscientização da ameaça ecológica ainda andava de mãos dadas com a sensação de que as pessoas poderiam mudar o mundo para melhor, possivelmente sob a influência do LSD. Depois que seus pais, ambos violinistas de concertos, se divorciaram no final da década de 1970, seu pai partiu em uma embarcação para protestar com o Greenpeace. Sua mãe era uma feminista comprometida que atuava na Campanha do Desarmamento Nuclear.



Desde cedo, Morton destacou-se nos estudos. Ele recebeu a principal bolsa de estudos da escola de elite St Paul's School, em Londres, por cinco anos seguidos e depois foi para Oxford para estudar inglês. Suas notas eram as mais altas da disciplina em toda a universidade em seu primeiro ano e teve excelente desempenho em suas provas. Ir em nos estudos era importante para Morton, mas ele acabou chegando à conclusão de que é "secundário em relação a outra coisa: estar vivo".


Sua vida assumiu traços da forma que seu trabalho adotaria mais tarde. Era mais do que acumular conhecimento; tratava-se também de buscar prazer e intimidade. No segundo ano de graduação, ele e seu colega de quarto, Mark Payne, agora estudioso da Universidade de Chicago, "tiveram experiências com ácido ouvindo Butthole Surfers e conversando sobre Blake".


(Payne diz que eles usavam ácido e falavam sobre Milton.) Ele também se apaixonou pela primeira vez. Na pós-graduação, Morton usava cabelo comprido, jaqueta de camurça e miçangas. Sua tese de doutorado, reconhecida como uma importante contribuição para o Romantismo, mostrou que o vegetarianismo de Percy e Mary Shelley estava intimamente entrelaçado com sua política e sua arte. Paul Hamilton, orientador de grande parte da pós-graduação de Morton, me disse que, em relação aos Shelley, Morton "mudava".
Apesar do sucesso de sua dissertação, foi difícil para Morton conquistar uma posição acadêmica, e ele chegou a pensar em se matar.


No fim, ele conseguiu um emprego na Universidade do Colorado, Boulder, antes de passar para a Universidade da Califórnia, em 2003, em Davis, no nordeste de São Francisco. Estar no norte da Califórnia parecia aguçar seu pensamento e ele passou a se concentrar em questões explicitamente ecológicas, como o que se escreve quando escrevemos sobre a natureza. Em um certo marketing pessoal, ele também passou a se intitular Professor de Literatura e Meio Ambiente.


Durante os anos seguintes, Morton publicou seu livro desafiando a ideia de "natureza", bem como sua continuação, em que questionava o que significa para nós confiar em inúmeros outros seres de forma insondável e complexa. Ele também se juntou a um pequeno e controverso movimento filosófico chamado Ontologia Orientada aos Objetos (OOO), que afirma que todo ser, inclusive humano, só pode compreender o mundo em suas próprias formas limitadas. (Em outras palavras, nunca saberemos o que as moscas sabem, e vice-versa.) Em 2012, Morton mudou-se da Califórnia para atuar na Rice University, uma das universidades mais reconhecidas dos EUA.



Com a segurança da estabilidade e as infusões sucessivas do budismo e do OOO na mente, Morton começou a escrever em um estilo mais divertido e pessoal. Sua conversa sobre ter uma discoteca em sua casa, movida a energia eólica, não é por acaso. "A consciência ecológica inevitavelmente tem esse ar dos anos 70", diz ele. É uma estética que ele abraça, "em toda a sua estranheza". Seu estilo intelectual também é um tanto riponga. Ele pode muito bem ser a única pessoa cujo nome dá o ar da graça em uma lista dos filósofos vivos mais influentes e também nos créditos de um álbum que foi o quarto mais vendido do Reino Unido como compositor (Stacked Up,Senser, de 1994).



Ele seguiu os passos de pensadores como Jacques Derrida e Edward Said por ter participado da prestigiada palestra Wellek Lecture, na Universidade da Califórnia, em Irvine - e também se apresentado em Glastonbury, tocando música para artistas fazendo malabares com fogo e foi consultor na série de Steve Coogan de The Trip to Italy. Embora esteja prestes a publicar um livro tentando unir ecologia sombria e marxismo ("é uma viagem bem intensa e nem todo mundo vai gostar", diz ele), ele também vai lançar um livro pela Pelican books, "Being Ecological", que deve encantar o público em geral. A primeira frase é: "Este livro não contém fatos ecológicos".


Embora vários de seus livros tenham dedicatórias normas (esposo, filhos, irmãos), ele também dedicou um livro ao seu gato, o falecido Allan Whiskersworth. Uma das postagens mais fascinantes do seu blog, que tem atualizações regulares, é a critical inquiry into giant penises(Uma investigação crítica sobre pênis gigantes), com desenhos nos telhados que possam ser vistos pelo Google Earth. Ele está profundamente ligado ao budismo Shambhala e circunvalou o Monte Kailash no Tibete. Há não muito tempo, uma leitura de Tarô o tocou profundamente.



Se as pessoas acharem ridículo isso tudo, melhor ainda. "Eu gosto de pensar em mim mesmo como a coisa mais tosca e pavorosa que se poderia imaginar", contou. Ele superou as armadilhas do sucesso acadêmico e agora que passou as barreiras da sociedade educada, Morton tem um objetivo diferente. "Quero ser bem conhecido e soltar essa coisa anarquista-hippie que eu tenho guardado como se fosse um líquido muito precioso, com todo o cuidado, sem derramar nada, por anos e anos", disse ele. "E agora vou derramá-lo por aí."



Na hora de sua palestra na Serpentine Galleries, Morton apareceu com uma camisa Versace, justa e prateada, do estilo que um vilão do James Bond usaria. Sua palestra foi intitulada "Stuff Can Happen" (As coisas podem acontecer).



"Não é de se acreditar na quantidade de filósofos que têm medo do movimento", começou ele. Ele seguiu discutindo duas vertentes de pensamento no trabalho do filósofo Hegel. Um problema com Hegel, Morton disse, "o problema que eu chamo de macro-Hegel, é que o macro-Hegel faz com que o discreto movimento escada acima seja improvável. E, lá em cima da escada, como o assassino do filme Psicose, está esperando - adivinhe o quê? - isso mesmo, o patriarcado branco ocidental disfarçado de estado prussiano." (Eu não adivinhei, era pra ter adivinhado?) "Então macro-Hegel estraga tudo."



Parecia uma abordagem estranha para uma palestra a um grupo heterogêneo de artistas, ativistas, estudantes e músicos. Mesmo tendo interesse no trabalho de Morton, logo fiquei entediado e distraído. Um homem que estava em pé ao meu lado, um estudioso estadunidense com um senso de humor ácido, revirou os olhos e sussurrou um comentário do tipo "Que porcaria é essa?".



Apesar da popularidade de Morton, esta resposta ao seu trabalho não é rara. Algumas pessoas que discordam de Morton com quem falei acusaram-no de não entender a ciência contemporânea, como a mecânica quântica e a teoria dos conjuntos, e disseram que as distorções serviam como base para suas ideias malucas. Elas compartilharam uma crítica ampla que me lembrou o ditado cético: "Devemos manter a mente aberta, mas não tão aberta a pontodo cérebro cair". A pasta de ideias interessantes no trabalho de Morton não se mantém se for analisada cuidadosamente, afirmam. O filósofo Ray Brassier, que já fez parte da OOO, acusou Morton e os seguidores do seu blogue de gerarem "uma orgia de estupidez on-line".



Outros críticos, especialmente da esquerda, reclamam que a concepção de Morton do Antropoceno passa por cima de questões de raça, classe, gênero e colonialismo, culpando toda a espécie pelo dano infligido por uma minoria privilegiada. O foco no ser humano consagrado no termo Antropoceno é um alvo especial para os críticos. Eles argumentam que ao se referir aos seres humanos como um todo unificado, Morton destrói as diferenças entre o oeste rico e os outros membros da humanidade, muitos dos quais já viviam em um estado de catástrofe ecológica muito antes de a noção de Antropoceno se popularizar nos campi da Europa e da América do Norte.



Outros dizem que a noção de política de Morton é muito vaga ou que a última coisa que precisamos ao enfrentar desafios ecológicos é uma série de reflexões abstratas sobre a natureza dos objetos. Os defensores de Morton, no entanto, veem nele uma espécie de Ralph Waldo Emerson para o Antropoceno: a sua escrita tem valor, mesmo que nem sempre resista à análise filosófica. "Ninguém em um departamento de filosofia vai levar Tim Morton a sério", disse Claire Colebrook, professora de inglês da Pennsylvania State University, que tem um extenso trabalho sobre o Antropoceno. Mas ela ensina o trabalho de Morton na graduação e os alunos adoram. "Por quê? Porque eles são assim: "Cale a boca e me traga ideias!"



Nem tudo o que Morton me disse no decorrer das nossas conversas pareceu filosoficamente ou ecologicamente plausível. ("Você e eu, nossos computadores e aquela pintura atrás de você, e talvez um pombo da rua - vamos nos reunir e fazer um coletivo anarquista, e o foco desse coletivo anarquista será ler, hum, as cartas de Beethoven.") Mas o que atrai muitas pessoas não é a convicção de suas ideias, mas a profusão e a diversão delas. Hans Ulrich Obrist e os artistas Philippe Parreno e Olafur Eliasson usaram a mesma expressão para descrever sua obra: é uma "caixa de ferramentas" de onde podem surgir ideias úteis.



Essa caixa de ferramentas pode ser útil para todos nós também. À medida que o aquecimento global e outras características do Antropoceno se intensificam, nossa experiência dessa nova e séria era será cada vez mais estranha e pesada. Quando isso acontecer, cada vez mais pessoas devem buscar textos - como os de Morton - que ecoam suas experiências de alienação, bem como o desejo de esperança.



Alguns pensadores parecem acreditar que podemos ajeitar o mundo apenas com ideias melhores, mais lógicas e mais rigorosas. Morton diz que podemos organizar nossas ideias como quisermos, mas o mundo continuará sendo um lugar fundamentalmente bagunçado que sempre resistirá à simplificação filosófica. Pelo contrário, o que precisamos é conviver com essa estranheza. Em uma de nossas primeiras conversas, eu disse a Morton que eu gostava do seu trabalho, na medida em que achava que entendia. "Eu acho que também entendo, às vezes", ele respondeu.

Não há nada como a perspectiva de um homem autoritário para fazer intelectuais, hippies e, acima de tudo, intelectuais hippies parecerem irremediavelmente ineficazes. Se compararmos com organizar protestos ou uma doação recorrente para a União Americana pelas Liberdades Civis, falar de tempos profundos ou da eliminação da falsa divisão ontológica entre humanidade e natureza pode parecer bastante tolo.



Em novembro, na semana após a eleição de Donald Trump, Morton foi para Nova York para confabular com a Nasa sobre o conteúdo de um novo Disco de Ouro. Ele ficou arrasado com a vitória de Trump, mas não necessariamente surpreso com a escolha pelo que ele considerou o equivalente político de uma dieta baseada em vicodin e pãezinhos de canela. Em seu quarto de hotel, ele teve um "momento particular de lágrimas" ao ler o romance Fly Away Peter, de David Malouf.



Depois, ele saiu para comer um pouco de sushi - em que o mercúrio das usinas de energia a carvão, metais fundidos e lixo queimado tende a se acumular, às vezes ocasionando mal-estar - e foi arrastado por uma multidão. "Eu estava nesse primeiro protesto, cara", ele me contou. "Eu estava naquele primeiro maldito protesto anti-Trump na Trump Tower". Ele brincou com seus seguidores do Twittere na reunião com a Nasa que queria colocar o presidente eleito na próxima sonda Voyager.



Perguntei a mim mesmo o quão potente a política animista de Morton pareceria sob uma nova distribuição. No dia seguinte à sua palestra na Serpentine Galleries no outono, eu havia almoçado com ele, a artista Kathelin Gray e John Polk Allen, mais conhecido como Johnny Dolphin, o principal responsável por trás do Projeto Biosfera 2, um microcosmo planetário construído dentro de um gigantesco tubo de ensaio no deserto do Arizona. A conversa, que foi desde lugares no mundo com uma energia especial (Himalaias, Canyon Chaco) até o "asilo lunático para pessoas inteligentes" que é Oxford, voltou-se para a solidariedade a outras espécies em um dado momento.



"Sempre chamei as coisas de 'pessoa'", disse Gray. "Meus amigos indígenas americanos ficaram muito contentes".


"Como você pode não chamá-los de pessoas?", perguntou Morton.



Ela contou uma história sobre cobras que havia conhecido. Morton evidentemente se comoveu e colocou a mão no peito. "Você tinha dois amigos chamados de Cobra?", disse ele. "Que maravilha!"



Tudo isso parecia um pouco ridículo, mesmo antes de Trump ter sido eleito. Mas, em algum lugar nessas tentativas adocicadas de expressar afinidade com outras criaturas, havia um desejo genuíno de avançar para a política radicalmente pluralista que Morton defende.



"Não se esconda atrás de uma pedra, pelo amor de Deus", disse Morton em determinada altura. "Saia por aí e tente fazer todo que de afiliação política que puder, com todos os tipos de seres, humanos ou não, para criar um ambiente menos violento e mais justo, para todos, para todo o mundo ecológico." Era difícil argumentar com esses objetivos. Não podemos debater com outras espécies, mas o Antropoceno deixa claro que precisamos incluir seu bem-estar em nossos objetivos.



A própria ênfase política de Morton pareceu ter mudado depois das eleições. As festas movidas a energia eólica e os grupos de leitura com seres de diferentes espécies ficaram de fora. Agora, a questão, segundo ele, era "atrapalhar esses fascistas várias vezes".



Ainda assim, o Antropoceno não está desaparecendo apenas porque um troll corrupto em um terno folgado está sentado na Casa Branca. A acumulação de carbono no ar e nitrogênio no solo; a acidificação dos oceanos e a desertificação de terras que já foram férteis; os isótopos radioativos (de ensaios nucleares) e plástico (das embalagens) que recobrem o globo; a extinção de espécie após espécie - a lista de mudanças dramáticas do planeta não para. A política atual pode ser mais urgente do que nunca, mas a necessidade de uma política para o amanhã não desapareceu.



Poucos dias depois das eleições, Morton recuperou o senso de humor e começou a rir do presidente eleito, "esse homenzinho laranja com uma pilha amarela de Cheetos na cabeça". Sim, Morton passaria os próximos meses, ou o tempo que fosse necessário, lutando contra os fascistas no campus e onde mais ele pudesse ser ouvido, mas também continuava proclamando sua rara visão sobre a ecologia.



"Vamos colocar uma música tecno", disse Morton no final de uma de nossas conversas mais longas. "Mesmo que realmente estejamos ferrados, não vamos passar o resto da vida nesse planeta repetindo para nós mesmos que estamos ferrados".



O que deveríamos fazer então?



"Cumprimentar um ouriço e dançar ".