terça-feira, 29 de janeiro de 2019

É sempre o dinheiro que inviabiliza o negócio, nunca o risco humano ou o ambiental’


É sempre o dinheiro que inviabiliza o negócio, nunca o risco humano ou o ambiental’

28/01/2019 10h47 Atualizado há 19 horas 


Está difícil parar de pensar sobre a nova tragédia que se abateu sobre uma região tão rica no solo, agora tão devastada. Fico imaginando a dor das pessoas ao perceberem o momento em que ficaram imóveis, a falta de ar. Quase adivinho o espanto dos bichos, muitos deixados para trás pelas famílias que, por pouco, não conseguem se salvar a si próprias. Plantações sob lama, uma terra arrasada, um rio que não se salvará, o medo que a sujeira invada o Velho Chico. 

E me pergunto: em nome de quê? Do desenvolvimento, claro. 


O melhor a fazer é buscar parcerias para refletir e tentar sair do básico, do senso comum. Não há nenhuma dúvida que a Vale é culpada, que não aprendeu nada com a lição de Mariana, e que sofre da mesma doença que costuma acometer grandes empresas em países pobres: a arrogância. Não fosse assim, teria ouvido com atenção o alerta dado por especialistas do Ibama e de moradores com relação à falta de segurança da barragem. Não fosse assim, já teria resolvido as pendências deixadas para trás com outras vítimas que causou em Mariana, três anos atrás. Tudo isto já sabemos. O que quero é ampliar pensamento, imaginar um jeito de a gente não ter mais que conviver com isso. 


Ciro Torres — Foto: Arquivo Pessoal
Ciro Torres — Foto: Arquivo Pessoal 

Convido Ciro Torres, professor da IAG da PUC-Rio, ex-coordenador do Ibase, que durante muito tempo coordenou o processo dos balanços sociais das empresas na ONG do Betinho e atuou em diferentes Estudos de Impacto Ambiental em diversas cidades de Minas Gerais e Espírito Santo. 


Ainda no Ibase, Ciro foi a Barcarena com a ONG norueguesa Ajuda das Igrejas da Noruega, em 2009, para avaliar a situação da cidade por causa da denúncia de que enormes tanques com rejeitos tóxicos da Alunorte (na época, a mineradora Vale tinha 57% de participação na empresa) estavam a ponto de vazar. 


Fizemos a reportagem no “Razão Social”, suplemento que atualizava o tema e que editei por nove anos no jornal “O Globo”. Ciro prosseguiu trabalhando no tema. E, desde então, tenho hábito de costurar pensamentos sobre a (in)sustentabilidade de nossa era com ele. 

Não poderia ser diferente agora. Prontamente Ciro aceitou meu convite, conversamos pelo telefone durante quase uma hora. O que aconteceu em Mariana, em Brumadinho e em Barcarena, segundo Ciro, tem como base a nossa raiz de exportação de natureza. “Quando se ouve dizer que exportamos 300 milhões de toneladas de minério, é preciso entender que isso significa que foram gerados 300 milhões de toneladas de rejeitos!” Como administrar isso? Só tendo uma gestão responsável, que não dê mais atenção ao lucro do que às pessoas. 

A entrevista, na íntegra, está abaixo: 

Estou me lembrando da reportagem que fiz com você sobre aquele tanque de rejeitos tóxicos que estava para se romper em Barcarena, isso foi em 2009. Em 2018 se constatou uma contaminação na cidade. Depois teve Mariana... Pode-se dizer que há um histórico de negligência com esse tipo de situação no país? 

Ciro Torres – No fundo estamos falando da nossa raiz de exportação de natureza. Um país que tem riqueza natural numa quantidade imensa e uma lógica totalmente antissustentável. 

Como é que funciona esta lógica antissustentável? 

Ciro Torres - É uma lógica onde a riqueza humana, social, ambiental, ecológica não entra nos cálculos. Só o que conta é o volume de toneladas que é exportado. Mas é preciso entender que quando se está falando em exportar 300 milhões de toneladas de minério por ano, estamos falando também na criação de 300 milhões de rejeitos por ano que ficam na região onde aconteceu a mineração. Com o passar do tempo, é uma situação totalmente insustentável. No Pará temos a Alunorte, a Albrás, a Norsk Hydro, todas geram muita riqueza econômica, financeira, mas a região é de muita pobreza, miséria, violência, grilagem de terra, solo contaminado. A mesma coisa acontece em Minas. Há autores que chamam a isso de “A maldição da riqueza”. A base dessa nossa economia, que junta loucura de aumento de produção, aumento de consumo. 

O rejeito é como se fosse nosso lixo? É como se fosse um garimpo? 

Ciro Torres - Mal comparando é sim, como se fosse um garimpo. O garimpeiro tira uma pepita e o que sobra é lama. Na indústria, faz-se um processo eletrolítico e sobra a lama vermelha, no caso do alumínio. Ela não pode ser usada em outra coisa porque é tóxica. 

Durante muito tempo se guardava isso em bacias, tentando secar uma parte, aumentando as paredes dessas barragens. Imagina isso na região amazônica, um temporal subtropical, lá vai a lama e contamina tudo! E isso aconteceu várias vezes. Teve um caso parecido no leste europeu há anos. No caso do minério de ferro é parecido, você tira o minério de ferro junto com a terra, então vai jateando aquela terra para tirar só o que interessa. 

Dependendo do processo, pode ser 1 tonelada de minério para 1,5 tonelada de rejeitos. Tem que pensar que o recorde de exportação de minério de ferro também será recorde de acúmulo de rejeito. É uma operação complexa. 

Você sempre trabalhou na mediação, conversando com empresários, mostrando os riscos de operações desta natureza. Onde está o nó? Onde é que eles não conseguem chegar para evitar uma tragédia socioambiental? 

Ciro Torres – O cerne disso aí é uma lógica ultrapassada mas que estamos no meio dela: um desenvolvimento relacionado ao crescimento econômico. Independe de governos, todos querem aumentar as exportações. Para usar uma frase que está na moda, não tem viés ideológico, estão todos irmanados. Porque a China pressiona, os Estados Unidos pressionam. E as empresas funcionam assim. 

Trabalhei muito tempo nesse diálogo entre empresas e sociedade, mostrando os riscos. Os gerentes entendem bem. O gargalo está quando se chega aos conselhos e à alta direção. Aí é que entra a lógica econômico financeira, ainda com o curto prazo se sobrepondo a todo o resto.

É o famoso ‘business as usual’ que opera totalmente, né? 

Ciro Torres – O cálculo dos conselheiros e CEOs é sempre de curto, no máximo médio prazo. E quando se apresenta relatórios técnicos sobre flora, fauna, as pessoas, as comunidades, os riscos, eles põem em segundo plano. Dizem que vai inviabilizar o negócio. É sempre o dinheiro que inviabiliza o negócio, nunca o risco humano ou o risco ambiental. Aí é que está o entrave da história. Precisa criar uma nova geração de altos executivos, de conselheiros, de investidores, que percebam isso de maneira diferente. Provavelmente a Vale recebeu um relatório de alguma empresa séria mostrando que a barragem tinha risco, aconteceu lá na Samarco. Os conselheiros agradecem, pagam o relatório, e botam na gaveta. Eu já trabalhei em estudos de análise ambiental assim: a gente faz um trabalho seríssimo, apresenta para o conselho da empresa, eles escutam, agradecem e pedem para a gente se retirar porque eles vão decidir depois. A decisão não nos cabe. Isso é angustiante!

E o debate nas redes sociais, depois da tragédia, começa a ser sobre a necessidade de a Vale parar de operar no Brasil. Mas isso vai deixar muito desemprego e acaba criando uma distorsão. As próprias vítimas pensam duas vezes. O que é melhor? 

Ciro Torres – Esta é a pergunta que acaba o jogo, né? Se alguém der uma solução simples, está querendo te enganar. Demonizar a Vale por si só é bom para fazer campanha. Ela é uma empresa que está dentro dessa lógica, como todas as outras. A dificuldade está no fato de estarmos falando de sustentabilidade, porque o fator econômico financeiro não é menos importante. Está faltando dar a mesma importância ao fator humano, social, ao fator ambiental e ecológico. Uma das soluções seria discutir como se pode criar uma outra lógica de uso de materiais. A lógica atual não se desliga no botão de um dia para a noite, é um processo. Porque não é desligar a Petrobras, a Vale, que tudo vai melhorar. A China está lá pedindo: me mandem mais minério, mais soja, mais frango. Tem que pensar numa outra mudança. Ao mesmo tempo que se levou 50 anos para montar essas barragens, essa lógica de produção, talvez seja preciso demorar mais 50 anos para desmontar isso. 

Como seria? 

Ciro Torres - Criando um processo de transição para uma nova lógica sobre o que é riqueza. Riqueza é somente ouro, minério, é somente dinheiro? Como reconstruir isso? Não é só destruir. Vamos fazer uma campanha pra acabar com a Vale? A Prefeitura, os parlamentares, vão ser contra e eu não posso dizer que eles estão errados. É muito cômodo para mim, sentado aqui no meu escritório, no meu apartamento, vilanizar dessa forma. É preciso trocar uma lógica pela outra, e isto, vou falar de novo, é um processo. O Brasil minera para o mundo, a bacia de rejeito de minério é pra o mundo. Nas várias regiões do Brasil o que se faz é exportar natureza. A gente exporta água. Se a gente manda minério de ferro, a gente deixou aqui água contaminada de refeito de minério. Outros países não vão precisar contaminar sua água porque nós já fizemos isso aqui. A primeira questão que se pensa é que a gente tem que mudar essa nossa forma de agregar valor às coisas. Uma nova lógica que fosse acertando as coisas não pela quantidade, mas pela qualidade e por uma nova riqueza local. São formas muito boas mas o que se percebe é que, na lógica global, acabam se tornando marginais economicamente. 

Em vez de pensar nesse desenvolvimento local, o que se vê é uma produção louca que viaja oceanos afora, né? 

Ciro Torres – Sim! O que se vê é uma quantidade de navios levando coisas para os outros países. É por isso que a barragem explode. Eu diria que é quase impossível fazer gestão de risco com uma quantidade de rejeitos que aumenta do dia para a noite!

Amelia Gonzalez

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