terça-feira, 5 de abril de 2016

Neocolonialismo ecológico é ameaça global, artigo de Reinaldo Dias


Publicado em abril 4, 2016 por




'comendo' o planeta

[EcoDebate] Um dos maiores desafios para a implementação, a partir deste ano, dos 17 objetivos do Desenvolvimento Sustentável (OS) é a permanência de relação perversa entre os países desenvolvidos (Norte) e os países em desenvolvimento (Sul) que pode ser caracterizada como de neocolonialismo ecológico.

Historicamente os países do hemisfério norte exploram de forma predatória a natureza dos países do sul, por meio de políticas econômicas agressivas ao meio ambiente.

Nessas relações de exploração, a natureza sempre foi a derrotada; perde quando os recursos naturais são extraídos de forma abusiva e quando recebe os resíduos que a sociedade de consumo produz em grande quantidade. Florestas são transformadas em cinzas para dar lugar a monoculturas e à pecuária.

É exemplo emblemático atual o que ocorre na Indonésia, onde as madeireiras estão destruindo as florestas para exportar madeira para os países em desenvolvimento. No local, plantam Palma para produção de óleo, que por ironia ainda rotulam o produto gerado –óleo de palma – como combustível ecológico (biodiesel).


Na Amazônia são destruídas grandes áreas de floresta para a criação de pastagens e, no cerrado do Brasil central, a destruição ocorre para a produção de soja e outras commodities para exportação.


A expressão concreta dessa nova forma de neocolonialismo é a dívida ecológica que pode ser entendida como a responsabilidade que tem os países industrializados pela destruição gradativa do planeta como resultado de seu modo de produção e consumo, característico de um modelo de desenvolvimento, fortalecido pela globalização e que ameaça a integridade dos ecossistemas e da biodiversidade. Inclusive a da espécie humana.


O nível de vida que ostentam os países desenvolvidos se deve ao imenso fluxo de bens materiais naturais e exploração da mão-de-obra dos países em desenvolvimento, acrescido dos danos sociais e ambientais que a extração destes bens provoca. É um modelo que, na realidade, é subsidiado pelos países do Sul.

Atualmente, os mecanismos de exploração dos países mais ricos, portanto o aumento da dívida ecológica, se aperfeiçoaram, utilizando, principalmente, a atividade das corporações transnacionais como ponta de lança dessa ação predatória.

Os novos mecanismos de dominação e consequentemente de geração de mais dívida ecológica são, entre outros: investimentos vinculados a posse de áreas naturais, programas de privatização de áreas sensíveis do ponto de vista social e ambiental, acordos de propriedade intelectual que não levam em consideração a apropriação histórica de conhecimentos pelas comunidades (ribeirinhas, indígenas, caboclos, extrativistas) e a biopirataria.

Além disso, há hoje um fluxo de minerais, recursos energéticos, madeira, produtos da agricultura e da pesca dos países em desenvolvimento para os países desenvolvidos muito superior ao fluxo de recursos naturais em sentido contrário. Isso pode ser descrito como um aumento da base natural de sustentação das economias industrializadas em detrimento das populações dos países em desenvolvimento afetadas.

Consequentemente, a pegada ecológica dos países ricos sobre a biosfera supera em muito o território que ocupam, não somente pelo volume e recursos que extraem dos outros territórios, mas, também pelos resíduos tóxicos que lhes deixam ou lhes exportam (muitas vezes ilegalmente), pelos nutrientes naturais e a água que levam os produtos agrícolas e pecuários importados pelos países do Norte e pela deterioração ambiental que provoca a obtenção desses recursos exportados. Os países desenvolvidos, além disso, fazem uso dos sumidouros dos gases de efeito estufa (florestas, por exemplo) em uma proporção muito maior que lhes corresponderia por sua população.


O problema dessa relação é agravado pela atribuição injusta de preços pelo atual sistema econômico aos distintos fatores produtivos. Enquanto os países em desenvolvimento se especializam nos processos de extração e elaboração fisicamente mais caros e degradantes e economicamente menos valorizados, os países do Norte o fazem nas fases de menor investimento e que são mais valorizadas do processo econômico e na gestão comercial e financeira.


Ao se valorizar pouco os recursos naturais e os serviços que prestam os ecossistemas, quem vive de sua venda é discriminado e fica mais pobre, e além do mais não há incentivo econômico para reduzir seu consumo.

Os países ricos, por sua parte, acumulam dinheiro pela venda de recursos supervalorizados (que proporcionam maior valor agregado), e ao fazê-lo acumulam uma capacidade aquisitiva desproporcional que os incentiva a consumir produtos e serviços naturais sem nenhuma consideração de sustentabilidade. Uma paralisante dívida externa (monetária) se mantém entre os países endividados e os empurra a explorar ainda mais intensamente seu meio natural para poder pagá-la.

*Reinaldo Dias é professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, campus Campinas. Doutor em Ciências Sociais e mestre em Ciência Política.

in EcoDebate, 04/04/2016
"Neocolonialismo ecológico é ameaça global, artigo de Reinaldo Dias," in Portal EcoDebate, ISSN 2446-9394, 4/04/2016, http://www.ecodebate.com.br/2016/04/04/neocolonialismo-ecologico-e-ameaca-global-artigo-de-reinaldo-dias/.

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Ibama rejeita projeto de mineração em MG que resultaria no maior reservatório de rejeitos do país


Publicado em abril 4, 2016 por



notícia

A Diretoria de Licenciamento Ambiental (Dilic) do Ibama rejeitou o projeto Vale do Rio Pardo, apresentado pela mineradora Sulamericana de Metais (SAM), por inviabilidade ambiental.

O complexo minerário, localizado nos municípios de Padre Carvalho e Grão Mogol, em Minas Gerais, teria o maior reservatório de rejeitos do país, além de uma adutora, um mineroduto até Ilhéus (BA) e uma estação de desaguamento em território baiano.


O parecer técnico que embasou a decisão aponta que “os impactos negativos e riscos ambientais aos quais podem estar expostas as comunidades vizinhas e o meio ambiente não permitem que se ateste a viabilidade ambiental do projeto”. A conclusão da equipe técnica foi informada à mineradora por meio de ofício no dia 22/03.


Entre as preocupações se destacam os impactos relacionados aos recursos hídricos e à qualidade do ar, que demandam medidas de mitigação complexas. O projeto resultaria na geração de volume muito grande de rejeitos, o que evidencia escolha tecnológica incompatível com as técnicas mais modernas de mineração, que buscam minimizar a dependência de barragens de rejeitos.


O complexo de mineração projetado pela SAM prevê a construção de três reservatórios. O maior deles, localizado na cabeceira do córrego Lamarão, tem capacidade para 1,3 bilhão de metros cúbicos de rejeitos. Os outros dois teriam 524 milhões de m³ e 168 milhões de m³, totalizando 2,4 bilhões de m³.


O maior reservatório do país hoje, segundo dados do Cadastro Nacional de Barragens de Mineração, pertence à Barragem do Eustáquio, da Rio Paracatu Mineração, em Minas Geais, com capacidade para 750 milhões de m³. A segunda maior atualmente em operação é a de Santarém, com 672 milhões de m³, da mineradora Samarco, responsável pelo desastre provocado pelo rompimento da barragem de Fundão, em Mariana (MG).



O projeto Vale do Rio Pardo foi avaliado pela primeira vez em 2013. Na época, pareceres elaborados pela Dilic indicaram a necessidade de complementação e esclarecimentos. Ao analisar o novo estudo realizado pela SAM, a equipe concluiu que estava diante de um projeto completamente diferente e que, por esse motivo, seria necessária uma nova avaliação de impacto ambiental e um novo Plano de Recuperação de Áreas Degradadas (PRAD), além da realização de uma quarta audiência pública.


A última versão do projeto foi protocolada no Ibama em outubro de 2015 e reprovada em fevereiro deste ano.


“Não entramos na discussão sobre segurança de barragem, que é uma atribuição do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM). Nossa avaliação é que a área impactada pelo grande volume de rejeitos inviabiliza o projeto”, disse o diretor da Dilic, Thomaz Toledo.


Fonte: Ibama


in EcoDebate, 04/04/2016

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A caminho de uma Terra sem água?


Publicado em julho 21, 2015 por



Crise hídrica brasileira é parte de fenômeno global. Consumo abusivo de recurso renovável, porém limitado, pode gerar, em trinta anos, inferno de desabastecimento e guerras.

seca

A reportagem é de Elianne Ros, publicada por Outras Palavras, 16-07-2015.
Em 2030, a população mundial deverá ser de uns 8,5 bilhões de pessoas e, se a humanidade continuar a viver do mesmo modo, o déficit de água doce do planeta chegará a 40%, diz informe das Nações Unidas sobre os recursos hídricos divulgado em março em Nova Deli. Todo o nosso sistema vital e econômico gira em torno de um recurso natural limitado. Maximizá-lo e geri-lo de forma eficaz constitui o grande desafio do século XXI.


Cada vez que abrimos a torneira, acontece um pequeno milagre. Por trás deste gesto tão cotidiano há muito mais que um jorro de H2O (elemento composto de dois átomos de hidrogênio e um de oxigênio) em estado líquido. A água é o sistema sanguíneo deste planeta; um ciclo natural sobre o qual a atividade humana exerce enorme pressão.


“A quantidade de água doce na Terra hoje é praticamente a mesma que na época em que César conduzia o império romano. Mas nos últimos 2000 anos, a população pulou de 200 milhões para cerca de 7,2 bilhões, e a economia mundial cresceu ainda mais rapidamente (desde 1960, o PIB aumentou a média de 3,5% anual).


A conjunção da demanda de alimentos, energia, bens de consumo e água para este grande empreendimento humano requereu um grande controle sobre a água”, resume Sandra Postel, diretora da organização norte-americana Global Water Policy Project.


“Há muito pouca água no planeta azul”, constata Elias Fereres, catedrático da Universidade de Córdoba que exerceu numerosos cargos relacionados com a agricultura e a ecologia. Fereres refere-se a que, embora 70% da superfície da Terra esteja coberta de água, somente cerca de 1% é água doce, além daquela presa como gelo nas calotas polares e geleiras. Sobre esse 1% não apenas repousa nossa principal fonte de vida, mas também o motor do mundo desenvolvido.

“A água tem tanto valor que não tem preço, e a chave do seu uso está em obter o máximo aproveitamento sem aumentar as desigualdades econômicas, sociais e ambientais”, sustenta o catedrático.

Onde residem essas desigualdades? “O avanço da população global e do crescimento econômico ocorrido nos anos cinquenta deve-se em grande parte à engenharia de água: barragens para reservatórios, canais para movê-la, bombas para extraí-la do subsolo.


Desde 1950, o número de barragens passou de 5 mil a 50 mil. Construíram-se uma média de duas por dia durante meio século. Na maior parte do mundo, a água já não circula seguindo fisicamente o processo natural, mas de acordo com a vontade do homem”, sublinha Postel.

No século passado, essas infraestruturas permitiram cobrir as necessidades da agricultura – que consome 70% da água doce –, a indústria – representa 20% – e o uso doméstico – os 10% restantes – em grande parte do globo. Mas o aumento da demanda, devido em grande medida ao desenvolvimento dos países emergentes, está rompendo um equilíbrio que já é muito precário. “Prevê-se que em 2030 o mundo terá de confrontar-se com um déficit de 40% de água em uma situação climática em que tudo continua igual”, alerta o último informe da ONU sobre recursos hídricos.

Seu autor, Richard Connor, lamenta a “escassa importância” que os governos outorgam à água, espalhando a ideia de que se trata de um bem comum inesgotável. “É um serviço essencial para o crescimento, mas as pessoas não têm essa percepção. Ao invés disso, veem a energia como fator econômico de primeira ordem e inclusive geopolítico, para a segurança de um país, razão pela qual recebe muito mais apoio. Relegar a água na ação política é um erro que, no final, se paga caro e compromete o desenvolvimento”, argumenta.

Os acontecimentos deram razão a aqueles cientistas que, como Postel, prenunciaram que “a água será para o século XXI o que o petróleo foi para o XX”. Se o chamado ouro negro é cobiçado – a ponto de provocar conflitos bélicos – isso se deve a que suas reservas são finitas e não estão nas mãos de todos. O mesmo sucede com a água doce, uma vez alcançado um volume de demanda superior a sua capacidade de regeneração, o que se define como estresse hídrico.

Alexandra Taithe, responsável pela Fundação para a Investigação Estratégica e especialista na interação entre água e energia, traça um panorama inquietante. “Nos países do Sul e do Leste do Mediterrâneo”, adverte, “os poderes públicos optaram por soluções consistentes para aumentar a água disponível. Esta política, que recorreu tanto à dessalinização da água do mar como à exploração dos aqüíferos ou transferências massivas, tem um custo energético muito elevado.”

Segundo seus cálculos, em 2025 a demanda de eletricidade para abastecimento de água destes países representará cerca de 20% do total do que precisam os estados. Hoje, supostamente são 10%. A dessalinização, às vezes apresentada como uma panacéia para combater a escassez, é o sistema que mais energia devora. Nem todo o mundo pode permirtir-se. A Arábia Saudita, o pais com maior capacidade de produção, gera 5,5 milhões de metros cúbicos por dia. Pois bem, para obter essa quantidade, consome o equivalente a 350 mil barris de petróleo diário.


Por sua vez, a fabricação de eletricidade e a extração de combustíveis fósseis precisam de grandes quantidades de água. Por exemplo, segundo Taithe, na França 60% do caudal dos rios destina-se ao processo de esfriamento das centrais térmicas e nucleares. É preciso dizer que a França é o segundo país em produção de energia atômica do mundo e que esta água – em princípio não contaminada – é devolvida às bacias e aos lagos
com alguns graus a mais, o que favorece a proliferação de algas e reduz a população de peixes. No ciclo de água, tudo está interrelacionado. Qualquer manipulação da ordem natural tem efeitos colaterais.

A extração de gás das camadas mais profundas por meio da fraturação hidráulica, o fracking, ganha a taça. Graças a essa tecnologia, os Estados Unidos alavancaram sua economia e mudaram o equilíbrio geopolítico, posto que já não dependem do petróleo árabe. Mas, para perfurar cada um dos mais de 500 mil poços em atividade – muitos dos quais em zonas de estresse hídrico –, precisam de 75 a 180 milhões de litros de água, misturada com uns 36 quilos de produtos químicos, alguns dos quais cancerígenos.


Sacrificamos a água – e a saúde – no altar da economia. Em escala mundial, os dados sobre o aumento da demanda são estonteantes: no horizonte de 2050, enquanto a demanda de água doce crescerá 55%, a de eletricidade avançará 70%. E isso, tendo em conta que o acesso não é universal. Umas 800 milhões de pessoas vivem alijadas de fonte de água limpa e 1,3 bilhão carecem de conexão elétrica. Para Taithe, a crescente necessidade de energia para obter água supõe “um obstáculo de primeira ordem para o desenvolvimento de muitos países e um risco para sua segurança energética.”

Até que ponto a água pode levar a uma escalada bélica? Taithe recorda que para os povos esse recurso “é algo irracional” que historicamente tem originado tensões e continua sendo “centro de tensão diplomática”. A seu ver, os Estados têm mais interesse em cooperar – assinaram 250 tratados multinacionais –, mas outros especialistas preveem que “as guerras do futuro serão por água”. Para Connor, esse futuro já chegou. Ele sustenta que a grande seca na região da antiga Mesopotâmia entre 2006 e 2009, que provocou uma subida radical no preço do trigo, e portanto no da farinha e do pão, teve um papel chave na guerra da Síria. Como consequência da seca, 1,5 milhões de pessoas emigraram das zonas rurais para cidades já estavam submetidas a fortes pressões, quando começaram os protestos contra Bashar el Assad.

Connor observa a mesma relação de causa-efeito entre a seca, acompanhada de grandes incêndios, que assolou a Rússia em 2010 e as primaveras árabes. “A Rússia é o grande provedor de trigo dos países árabes, e como pode apenas exportar, o preço da farinha duplicou, o que gerou descontentamento social”, resume. Sem esse mal-estar, teriam as mobilizações pró-democracia recebido tanto apoio? Connor acredita que não.

Na margem sul do Mediterrâneo, os focos de tensão se multiplicam. A construção, na Etiópia, da grande barragem do Renascimento causou um confronto com o Egito, que se opõe à obra porque garante que afetará o fluxo do Nilo e agravará seus problemas de abastecimento.

“Nos poucos lugares onde ainda se podem construir reservatórios, o impacto ecológico é demasiado negativo. É necessário pensar outras soluções”, opina Fereres. Na Índia e no nordeste da China os agricultores encontraram uma solução alternativa na extração de água do subsolo.

Uma atividade subvencionada que levou o progresso a muitas regiões, mas não sem conseqüências. A venda de bombas elétricas a diesel para extrair água disparou nos últimos anos (calcula-se que na China existam 20 milhões em funcionamento, e na Índia, 19 milhões), o que eleva o consumo de energia. Em algumas regiões, representa entre 35% e 45% do total.

Taithe relaciona esse fenômeno com “os gigantescos cortes de eletricidade que, em julho de 2012, deixaram sem energia 670 milhões de pessoas no nordeste da India”. Assinala que esse ano as monções foram menos chuvosas e as autoridades cederam à pressão dos irrigantes para ampliar as cotas para áreas mais profundas de água, onde se encontram os bolsões de água fóssil, que são camadas geológicas não renováveis, como aquelas onde está o petróleo”.De acordo com o relatório da ONU, 20% dos aquíferos da Terra estão sendo superexplorados. “Estamos consumindo hoje a água de amanhã”, previne Postel.

Ao aumento da população e à pressão que exercem os países emergentes sobre as reservas de água soma-se o aquecimento global do planeta. “Em períodos de grandes inundações os recursos hídricos parecem não ter fim, mas depois vêm grandes secas, e a escassez volta a ser o grande motivo de preocupação. Essa bipolaridade está se acentuando na região mediterrânea. Essa é a mudança climática!, descreve Maitê Guardiola, engenheira geóloga especializada em aproveitamento da água com ampla experiência em projetos humanitários.

No Brasil – que possui a maior bacia hídrica do mundo, Amazônica – a falta de água tem obrigada a racionar o fornecimento em São Paulo, cidade que ilustra o problema causado pelo crescimento descontrolado das periferias. Segundo o informe da ONU, “o aumento das pessoas sem acesso à água e ao saneamento nas áreas urbanas está diretamente relacionado ao rápido crescimento dos bairros marginais nos países em vias de desenvolvimento. Essa população, que se aproximará de 900 milhões de pessoas em 2020, é mais vulnerável ao impacto dos fenômenos climáticos extremos”.

É preciso agir, mas como? Enquanto cientistas do porte de Stephen Hawking apostam em “colonizar” outros planetas – ele afirma que dentro de cem anos a espécie humana enfrentará a extinção devido ao “envelhecimento de um mundo ameaçado pelo aumento de habitantes e limitação de recursos –“, os menos catastrofistas optam por racionalizar o consumo.

“Há água suficiente para satisfazer as crescentes necessidades do mundo, mas não sem mudar a forma de geri-la”, sustenta o informe da ONU, que, entre outras medidas, reclama um marco legal universal para administrar este recurso de forma mais equitativa e respeitando os fluxos ecológicos.

Para Connor e Fereres, a chave está em poupar por meio de sistemas de irrigação inteligentes e culturas adequadas a cada região. Em sua opinião, para considerar soluções inovadoras, tais como a remoção de água do ar ou a obtenção de sementes que precisem apenas de rega, faltam “entre 20 e 30 anos de pesquisa”. Maitê Guardiola, por sua vez, enfatiza a reutilização de águas residuais tratadas. De acordo com essa especialista, se destinadas à irrigação, isso “significaria uma redução de 30% da água para a agricultura” na Espanha.

O catedrático Fereres defende também uma “mudança de dieta”, com menos proteínas – um quilo de carne de porco representa um consumo de três quilos de grãos – como uma forma “de reduzir a demanda hídrica”. E promove uma atitude militante contra a água engarrafada. “A sociedade gasta muito dinheiro purificando a água para que chegue às casas de forma potável. Quando vou a um restaurante peço um copo da torneira”. Para Guardiola, “é triste que a Espanha seja um dos maiores consumidores. Seu preço é de 500 a mil vezes superior ao da torneira, sem contar o impacto ambiental do plástico e do transporte.

O ator Matt Damon trata de sensibilizar a opinião pública com ações tipo derrubar um balde de água do vaso sanitário, enquanto se dirige à câmera e diz: “Para aqueles que, como minha esposa, acreditam que isso é nojento, lembre-se de que a água nos banheiros do Ocidente é mais limpa do que aquela à qual tem acesso a maioria das pessoas nos países em desenvolvimento. “Por meio de sua Ong Water.org, é uma das poucas celebridades a combater a crise da água e profundas desigualdades que acarreta.

No Sudão, uma menina de 12 anos dedica entre duas e quatro horas diárias para recolher e transportar sobre a cabeça apenas cinco litros de água doce para sua subexistência, uma quarta parte da quantidade (20 litros por pessoa/dia) que tanto a Organização Mundial de Saúde como a Unicef julgam suficientes para cobrir as necessidades básicas. Enquanto no Canadá uma adolescente da mesma idade consome entre 300 e 400 litros diários
“A água não é cara o suficiente. Purificá-la e canalizá-la tem um custo muito mais alto do que o que pagamos na conta de consumo, por isso as pessoas não lhe dão valor”, censura Connor. Na Espanha, o consumo médio é de 142 litros por pessoa/dia, mas segundo Guardiola, estima-se que, devido ao mau estado das redes de abastecimento, perde-se uma média de 17,5% da água distribuída. Na Alemanha, esse percentual é de 5%.

Se implementadas, não está claro que todas essas medidas compensariam o aumento da demanda. Um futuro sem água, no qual os humanos se vejam obrigados a abandonar a Terra, como o que prediz o filme de animação Wall.E, não está longe do que vislumbra Hawking. “Devemos nos antecipar às ameaças e ter um plano B”, insiste o famoso astrofísico. E por que não mudar o planeta azul pelo planeta vermelho? Segundo um estudo da Universidade do Novo México, Marte poderia ter grandes reservas de água em seu interior.

(EcoDebate, 21/07/2015) publicado pela IHU On-line, parceira editorial da revista eletrônica EcoDebate na socialização da informação.

[IHU On-line é publicada pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, em São Leopoldo, RS.]

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América Latina desperdiça até 348 mil toneladas de alimentos por dia


Publicado em abril 5, 2016 por



Com os alimentos que se perdem na região latino-americana anualmente seria possível alimentar 37% daqueles que sofrem com a fome em âmbito global, de acordo com a FAO.

desperdício de alimentos

Na América Latina, perde-se ou se desperdiça até 348 mil toneladas de alimentos por dia, cifra que precisa ser reduzida pela metade nos próximos 14 anos caso a região pretenda alcançar os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), apontou a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) na quarta-feira (30).


terceiro boletim “Perdas e Desperdícios de Alimentos na América Latina e Caribe”, da FAO, lembrou que o Objetivo de Desenvolvimento Sustentável número 12 (ODS 12) está justamente voltado para a necessidade de se garantir hábitos de consumo e produção sustentáveis.


Esse objetivo estabelece a meta de se reduzir pela metade, até 2030, o desperdício mundial de alimentos per capita tanto no momento da venda, quanto por parte dos consumidores, assim como nas cadeias de produção e distribuição.


De acordo com a agência da ONU, 36 milhões de pessoas da região poderiam suprir suas necessidades calóricas somente com os alimentos perdidos nos pontos de venda direta aos consumidores – número que representa um pouco mais que a população do Peru e é maior que o número de pessoas que ainda passam fome na América Latina.

A FAO e outras agências parceiras estão atualmente elaborando o Índice Global de Perdas e Desperdícios de Alimentos, que será importante para os países quantificarem as perdas e definirem suas estratégias para alcançar o ODS 12.

América Latina e Caribe se mobilizam para reduzir perdas

Cento e vinte e sete milhões de toneladas de alimentos, 223 quilos por cada habitante da região, são os montantes totais anuais de desperdícios na região da América Latina e Caribe.

Esses alimentos seriam suficientes para satisfazer as necessidades alimentares de 300 milhões de pessoas, cerca de 37% de todas as pessoas que passam fome em âmbito global.

A região já trabalha para reduzir esse desperdício. Com o apoio da FAO, durante 2015 os governos estabeleceram uma rede de especialistas, uma estratégia regional e uma aliança regional para a prevenção e redução de perdas e desperdícios de alimentos.

Na Costa Rica e na República Dominicana, foram criados comitês nacionais dedicados ao tema, e Argentina, Brasil, Chile, Colômbia, México, Peru, São Vicente e Granadinas e Uruguai estão discutindo iniciativas semelhantes.

A luta contra o desperdício de alimentos também faz parte do principal acordo de combate à fome na região, o Plano de Segurança Alimentar, Nutricional e Erradicação da Fome da Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos (CELAC). O plano considera a eliminação das perdas e desperdícios como uma condição fundamental para acabar com a fome até 2025.

Argentina desperdiça 12% da produção agroalimentar

O Programa Nacional de Redução de Perda e Desperdício de Alimentos da Argentina estima que o país não aproveite 16 milhões de toneladas de alimentos, cerca de 12,5% da produção nacional agroalimentar. Mais de 40% do volume desperdiçado correspondem a produtos hortifrúti.

A FAO está desenvolvendo um projeto de cooperação técnica com o governo argentino para desenhar uma metodologia de diagnóstico sobre o desperdício de alimentos. Também atua para aumentar o nível de conscientização do setor agroalimentar e dos consumidores por meio de manuais que ensinam como aproveitar ao máximo os alimentos.

Avanços no Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica e República Dominicana

No marco das políticas de segurança alimentar, o Brasil tem apresentado projetos de lei para criar uma rede nacional de especialistas, uma política nacional e uma estratégia coordenada para a redução de perdas e desperdícios. Outro projeto de lei busca regulamentar a doação de alimentos.

O Chile desenvolveu estudos preliminares para medir a perda de alface, pão, arroz, batata e produtos do mar, além de atividades de recuperação de alimentos em pontos de vendas e a criação de conselhos para prevenir o desperdício doméstico.

O governo da Colômbia solicitou apoio técnico da FAO para formular políticas públicas para abordar o tema no país. Já na Costa Rica, a Rede para a Diminuição de Perdas e Desperdícios de Alimentos – SAVE FOOD Costa Rica desenvolveu estudos nas cadeias de tomate e lácteos e realizou ações para diminuir os desperdícios em restaurantes e empresas.

O Comitê Dominicano para Evitar as Perdas e os Desperdícios de Alimentos trabalha com o setor público, privado, organismos internacionais e a sociedade civil. O país também desenvolveu um estudo para a consolidação de um Banco de Alimentos.

Da ONU Brasil, in EcoDebate, 05/04/2016

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segunda-feira, 4 de abril de 2016

17º Fórum do Plano de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais.


New study documents shocking collapse of gorilla subspecies during 20 years of civil unrest

Home » news » New study documents shocking collapse of gorilla subspecies during 20 years of civil unrest Grauer's gorilla. Credit: Stuart Nixon/FFI.


Posted on: 04.04.16 (Last edited) 4 April 2016
Urgent action needed to reverse the decline of the world’s largest primate.
A shocking new report by Fauna & Flora International and the Wildlife Conservation Society (WCS) documents a catastrophic collapse of the world’s largest primate – the Grauer’s gorilla – due to a combination of illegal hunting, civil unrest, and habitat loss from mining.


The results of the report point to a 77% drop in gorilla numbers, from an estimated 17,000 in 1995 to just 3,800 individuals today. Grauer’s gorillas – the world’s largest gorilla subspecies weighing up to 400 pounds – are closely related to the better known mountain gorilla.

 The subspecies is restricted to eastern Democratic Republic of Congo (DRC).
ICCN, WCS, Fauna & Flora International and other partners are calling for the following additional actions to reverse the decline of Grauer’s gorillas:

1. Legally gazette the boundaries of Itombwe Reserve and Punia Gorilla reserve
2. Tackle illegal mining inside protected areas and pursue the legal establishment of artisanal mining cooperatives in areas close to gorilla habitats
3. Disarm militia groups operating in the region
4. Support park staff and community ecoguards that they are protecting gorillas and their habitat
5. Find alternative sources of income for local people other than employment from mining
6. Lobby mobile phone/tablet/computer companies and others to ensure that source minerals from this region are purchased from mining sites that do not hunt bushmeat and are conflict free


The research design was led by experts from Fauna & Flora International and WCS, with data gathered from across the Grauer’s gorilla range by a group of collaborating organisations. The report, funded by ARCUS Foundation analysing data collected with support from Critical Ecosystem Partnership Fund, KfW (German Development Bank), ICCN, Newman’s Own Foundation, Rainforest Trust, UNESCO, USAID, US Fish and Wildlife Service and World Bank was presented at a press conference in Kinshasa.


The authors of the report say that their findings justify re-categorising the Grauer’s gorilla as Critically Endangered on the IUCN Red List of Threatened Species, highlighting the perilous position these great apes are in, and the need to act now to prevent a further decline in numbers. This would put all four gorilla subspecies in the Critically Endangered category.


Grauer's gorilla. Credit: Stuart Nixon/FFI.
Grauer’s gorilla. Credit: Stuart Nixon/FFI.

Casualties of war

The decline in Grauer’s gorillas can be traced back to the Rwandan genocide in 1994, which forced hundreds of thousands of refugees to flee to the DRC.


 This in turn led to the DRC civil war in 1996, which continued until 2003 with devastating consequences, including an estimated 5 million people killed. But beyond the human tragedy, the war has also taken its toll on the DRC’s wildlife as a result of insecurity, heightened illegal bushmeat trade and increased deforestation.


The authors of the report sought to assess the impact of the civil war on Grauer’s gorilla numbers, which were estimated at 17,000 before the conflict. Field teams conducted widespread surveys, the most intensive ever for this ape, in regions beset by insecurity, searching for ground nests and other signs of this elusive ape.

In addition, the authors employed a novel method that allowed them to rigorously assess data collected by local community members and rangers to estimate Gorilla abundance.
The survey results confirmed their worst fears: numbers had plummeted to an estimated 3,800 individuals – a shocking 77% decline.


One of the primary causes of the decline in Grauer’s gorilla numbers has been the expansion in artisanal mining for coltan (a key mineral used in the manufacture of mobile phones and other electronics) and other minerals in the gorilla’s range.


Most of these artisanal mining sites are remote, which means that the miners often turn to local wildlife for food. Although protected by law, gorillas are highly prized as bushmeat due to their large size and because they are easily tracked and killed as they move in groups on the ground in their small home ranges.


Grauer's gorilla. Credit: Stuart Nixon/FFI.
Grauer’s gorilla. Credit: Stuart Nixon/FFI.

Turning the tide

The authors say that halting and reversing the decline of Grauer’s gorilla will take considerable effort and will require more funding than is currently available. Artisanal mining must be controlled and the various armed groups that control mines disarmed. To accomplish this, it will be necessary to halt mining in protected areas, as it is known that miners subsist on bushmeat and hunt gorillas around their camps.


Three areas are now particularly crucial for the gorilla’s survival: Kahuzi-Biega National Park, the adjacent Punia Gorilla Reserve, and the remote unprotected Usala Forest which has no support currently. The Itombwe Reserve and the Tayna regions also support highly-important outlying populations. It is critical to formally gazette the Itombwe and Punia Reserves, which have community support but are not yet legally established.


“We urge the government of DRC to actively secure and manage this part of the country for both human welfare as well as the survival of this gorilla,” said the study’s lead author Andrew Plumptre of WCS. “Significantly greater efforts must be made for the government to regain control of this region of DRC. In particular, the government needs to quickly establish Reserve des Gorilles de Punia and the Itombwe Reserve, and reinforce Kahuzi-Biega National Park efforts, which have community support, and to establish strong coordination between ICCN and the DRC military to tackle armed militias that control mining camps in Grauer’s gorilla heartland.”


Stuart Nixon of Fauna & Flora International (now at Chester Zoo where he has continued his analysis of the survey data), one of the co-authors involved in the study stated, “Grauer’s gorilla is found only in the eastern Congo – one of the richest areas on our planet for vertebrate diversity. As one of our closest living relatives, we have a duty to protect this gorilla from extinction. Unless greater investment and effort is made, we face the very real threat that this incredible primate will disappear from many parts of its range in the next five years. It’s vital that we act fast.”



Grauer's gorilla juvenile. Credit: Alison Mollon/FFI.
Grauer’s gorilla juvenile. Credit: Alison Mollon/FFI.


Radar Nishuli, Chief Park Warden for the Kahuzi Biega National Park and another co-author, said: “What we have found in the field is extremely worrying. We are urging a strong and targeted response that addresses the following: Train, support and equip ecoguards to tackle poaching more effectively; build intelligence networks, and support the close daily monitoring of gorilla families to ensure their protection; engage customary chiefs who hold traditional power in the region to educate their communities to stop hunting these apes.”


Jefferson Hall, staff scientist at the Smithsonian Tropical Research Institute and another co-author, said: “The bright spot in all this is that we have seen, over and over again, dedicated Congolese conservationists risk their lives to make a difference,” said Hall. “Thanks to these individuals, there is still hope and the opportunity to save these animals and the ecosystems they represent.”


For more information, read the media release (PDF).
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Sarah Rakowski
Sarah is Fauna & Flora International's Communications Manager. With a BSc in Environment, Economics and Ecology, she has long been fascinated with the challenge of balancing human needs and environmental protection.

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GDF questiona na Justiça lei que favorece grilagem de terra


A norma impede o embargo imediato de obras e retarda a derrubada de edificações irregulares



postado em 04/04/2016 19:04

O Governo do Distrito federal questionou na Justiça, lei nº 5.646, que dificulta demolições em áreas públicas no Distrito Federal. A norma impede o embargo imediato de obras e retarda a derrubada de edificações irregulares. A Procuradoria-Geral (PGDF) entrou hoje com pedido de liminar para tornar a norma sem efeito.

Leia mais notícias em Cidades.

Para o órgão, com o impedimento de embargo e demolição de obras irregulares, a lei torna inviável o controle da ocupação do solo urbano, além de lesar princípios previstos na Lei Orgânica do DF.

De acordo com a lei, o DF não pode mais retirar invasores de áreas públicas sem antes abrir processo administrativo. Já quanto às edificações particulares, mesmo que a administração identifique uma obra irregular e impossível de ser adequada à legislação vigente, deverá ser concedido prazo para a regularização do imóvel.

Veto

A Lei nº 5.646 é de autoria da deputada Telma Rufino (sem partido). O projeto de lei foi aprovado pela Câmara Legislativa em novembro de 2015, mas o governador Rodrigo Rollemberg vetou a matéria na íntegra apontando vício de iniciativa — quando a proposta é feita por quem não tem competência legal para tanto. Em março, o veto do chefe do Executivo foi derrubado pelos parlamentares distritais, e a lei entrou em vigor no dia 31.

Com informações da Agência Brasília.

Indiana que criou banco de sementes propõe um novo pacto com o planeta

Quarta-feira, 30/03/2016, às 18:10,


Vandana Shiva
A primeira vez que ouvi falar da indiana Vandana Shiva foi há cerca de dez anos, quando eu editava o "Razão Social* e uma repórter freelancer, Giselle Paulino, ofereceu-me a entrevista com ela. Giselle estava cursando o Schumacher College, na Inglaterra, e Vandana fora contratada para dar uma palestra aos estudantes. Prontamente aceitou o pedido de entrevista e eu, quando recebi o texto, prontamente fiquei bastante impactada com as palavras dela.

Vandana era e continua sendo uma ativista do meio ambiente, além de física de formação. Na década de 70,  esteve entre as camponesas que se amarraram nas árvores das florestas do Himalaia para tentar impedir o desmatamento na região, movimento bem-sucedido que ficou conhecido como Chipko. Sua crítica mais feroz vai para as grandes corporações que se apossaram dos bens naturais como se estes a elas pertencessem:

“O ser humano esqueceu-se que a água vem da chuva e a comida vem do solo. Passamos a acreditar que a água e nosso alimento são produtos de uma corporação. As empresas querem tomar o lugar da terra, esse sistema vivo ao qual chamo de Gaia. Elas não são criadoras, são exploradoras. É hora de perceber que tudo o que nos mantém vivos vem da terra e não das empresas”, disse ela à repórter na entrevista que publicamos no dia 6 de outubro de 2006.

De lá para cá, passei a acompanhar de perto o trabalho de Vandana Shiva. No filme documentário “Zugzwang”, dirigido por Duto Sperry em 2009, ela foi uma das entrevistadas e não poupou o sistema econômico por ter ajudado a espalhar uma ideia falsa de desenvolvimento e a definir a cultura não ocidental como subdesenvolvida.

“Estamos em uma situação em que a escassez de alimentos está sendo sentida por todos devido ao aumento de preços mas as causas estão concentradas em poucas mãos. A globalização econômica permitiu a ganância e a destruição. A vida tem um sentido maior do que isso”, disse ela.

Há três décadas, Vandana Shiva ajuda a manter a fazenda Navdanya, no norte da Índia, cujo objetivo maior é defender a soberania alimentar. O que significa, entre outras coisas, impedir que as grandes corporações entrem em territórios indianos para patentear sementes, degradando grande parte do território do país, inundando o mercado com importações e empurrando para o suicídio cerca de 300 mil produtores.**

Para Vandana Shiva, ainda existe um tempo para que se faça “Um novo pacto com o planeta”, título do artigo que tenho agora em mãos, escrito por ela  e publicado na última edição impressa da revista “Resurgence & Ecologist”.

“A sobrevivência da humanidade depende deste pacto que seria baseado numa nova visão de cidadania planetária. Um pacto baseado em reciprocidade, cuidado e respeito. Baseado em tomar e devolver, em dividir os recursos do mundo de maneira equitativa entre todas as espécies vivas. Ele começa quando se percebe o solo como uma entidade viva, a Terra Viva, cuja sobrevivência é essencial para todos nós. O futuro será cultivado a partir do solo, e não mais do mercado global de finanças fictícias, consumismo e pessoas jurídicas. Precisamos sair deste ponto de vista corporativo para outro que tenha o centro na família Terra. Onde quer que estejamos neste planeta, o solo é nossa base. A Terra é nossa casa. Nós precisamos recuperar isto da manipulação e da ganância das corporações  e   cuidar disso, juntos”, escreve Vandana Shiva.

Este “Pacto com o Planeta” proposto pela indiana que criou o primeiro dos atuais 122 bancos de semente comunitários no seu país, tem dez pontos principais:

1 – No solo vivo está a prosperidade e a segurança de uma civilização. Na destruição deste solo está a destruição desta mesma civilização;

2 – Nossas sementes e biodiversidade, nossos solos e água, nosso ar, atmosfera e clima são bens comuns;

3 – Liberdade de sementes e biodiversidade é o primeiro passo para se ter alimentos também livres e resiliência climática;

4 – Agricultura industrial globalizada é a maior contribuição para a crise climática;

5 – Sistemas de alimentos locais, agricultura em pequena escala e ecológica podem alimentar as pessoas e esfriar o planeta;

6 – O “livre comércio” é uma ameaça para o planeta e para as nossas próprias liberdades;

7 – Economias locais protegem a Terra, dão mais sentido ao trabalho, nos abastece e nos causa bem-estar;

8 – Participação e democracias vivas são o primeiro fundamento da Terra democrática;

9 – Somos membros de uma mesma comunidade chamada Terra, na qual todas as espécies, pessoas e culturas têm direitos e deveres;

10 – Vamos criar jardins de esperança em todos os lugares.

Essas são as soluções, alerta Vandana Shiva, para a crise climática, para a crise hídrica e para a crise alimentar que se está vivendo hoje, quando cerca de 800 milhões de pessoas ainda passam fome no mundo. É um texto otimista, escrito por uma mulher que compra briga também contra a Revolução Verde, que nos anos 70 espalhou a ideia de que o uso de agrotóxicos e pesticidas é fundamental para se ter boas safras. A fazenda que dirige é também uma espécie de escola para ensinar pequenos agricultores a se habituarem ao cultivo orgânico, sem uso de tais venenos. E tem dado certo.

Ouvir e ler Vandana Shiva é um bálsamo a ouvidos e olhos que acreditam em outras possibilidades. Seus escritos fornecem um bom material para reflexões sobre o momento que estamos vivendo. No artigo “Resources” (“Recursos”) que ela escreveu para o livro “The Development Dictionary (Ed. Zed Books), organizado por Wolfgang Sachs, Vandana Shiva lembra a necessidade de se realinhar os modelos de produção com a lógica da natureza, não com a lógica dos lucros, da acumulação de capital e retornos de investimentos.

“Desenvolvimento deveria ficar restrito pelos limites da natureza. No entanto, um outro – e perigoso – significado está sendo dado à sustentabilidade.  Diz respeito não à sustentação da natureza, mas do desenvolvimento em si. Sustentabilidade, assim, quer dizer assegurar o fornecimento contínuo de matérias primas para a produção industrial”, escreve Vandana Shiva.

*Suplemento sobre sustentabilidade publicado no jornal “O Globo” de 2003 a 2012
**Informações pinçadas do site Navdanya

Foto: Elke Wetzig/Creative Commons

Pai de homem foi cruel com cachorros - então ele salvou um 'inadotável'

Por Elizabeth Alberts / Tradução de Alda Lima
INGLATERRA caoinadotaveL 01Fotos: Rossendale Responsible Rescue
Quando Paddy Lawson viu a fotografia do cão de abrigo desfigurado em Rossendale Responsible Rescue, ele soube que queria lhe dar um lar. O terrier Patterdale teve seções de sua mandíbula e nariz perdidas, e seus dentes apontavam em ângulos estranhos. Por mais que o Rossendale Responsible Rescue tenha uma rígida política de não matar, Paddy sabia que este cão não seria facilmente adotado.
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Michaela Holt, fundadora da Rossendale Responsible Rescue, inicialmente expressou sua preocupação.

 "Tem certeza de que pode lidar com isso?" ela escreveu em um e-mail para Paddy, que era amigo próximo dela. Embora Michaela soubesse que Paddy tinha muita experiência com cães, ela ficava preocupada por causa da história deste cão.


O terrier Patterdale - chamado "Sab" pelo resgate - havia sido encontrado vagando por um reservatório em Rossendale, Inglaterra. Com base nas lesões faciais do cão, os socorristas acreditam que o terrier tinha sido utilizado como “Badger baiting”, ou "isca texugo", uma prática cruel onde seres humanos treinam cães para arrastar texugos de suas tocas e para que eles possam rasgar texugos. Badger baiting é ilegal no Reino Unido desde 1835, mas o esporte sangrento tem feito um retorno preocupante nos últimos anos.


INGLATERRA caoinadotaveL 03
O que mais preocupava Michaela era como Sab pode se comportar perto de crianças, assim como de outros cães.


Paddy escreveu de volta, contando a Michaela como seu falecido pai era o tipo de pessoa que maltratava cães, e que ele queria fazer qualquer coisa que pudesse para ajudar Sab.


"Passei minha vida trabalhando com cães tentando corrigir os pecados de meu pai", escreveu Paddy. "Eu tenho tempo para investir neste cão. Eu não teria me oferecido se não tivesse certeza."
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Então, depois dos sete dias obrigatórios de Sab no abrigo (para o caso de alguém alegar ser dono dele), os Lawson levaram Sab para casa para conhecer seus filhos e outros dois cães de resgate, Tarka e Abby.


A princípio, Sab praticamente vivia debaixo da mesa da cozinha dos Lawson. "Ele simplesmente não era como um cão deve ser", contou Natalie Lawson ao Dodo.

"Ele não sabia brincar nem ficar perto de pessoas”. Para ajudar Sab a se ajustar à sua nova vida, Paddy sentou-se debaixo da mesa com ele, acariciando seu pelo e fazendo-o perceber que era amado.


Lenta mas seguramente, Sab ganhou confiança e começou a seguir Paddy a qualquer lugar que ele fosse. Ele também ficou amigo rapidamente de Tarka e Abby, e das crianças dos Lawson. "Assim que Sab chegou em casa", diz Natalie, "ficou muito claro que Paddy não seria capaz de se separar dele".

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Agora Sab não apenas tem um lar adotivo - ele tem um lar definitivo. Mas ele ainda tinha muitos problemas físicos a serem superados. Além dos ferimentos em seu nariz e boca, Sab tinha velhas feridas no pescoço e na parte traseira do corpo, que os veterinários disseram que poderiam levar anos para cicatrizar. Sab também precisava de uma cirurgia dentária cara, mas os Lawson foram capazes de fazer isso acontecer com generosas doações do público.


Mesmo com esta cirurgia dental, Sab sempre terá um visual de dentes tortos. Natalie explica que Sab também vai continuar a ter problemas respiratórios por causa de sua lesão no nariz: "Ele sopra bolhas pequenas de catarro sempre que está animado."


Mas, para os Lawsons, ele é perfeito. Ou talvez perfeitamente imperfeito.
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Os Lawson inscreveram Sab na categoria “perfeitamente Imperfeito” da RSPCA's Ruff's Alternatives Dog Show, que oferece prêmios para os cães “ ‘diferentes que nunca serão perfeitos” de acordo com um conjunto de “padrões da raça” — mas que são perfeitos aos seus olhos.

 " Não surpreendentemente, Sab foi escolhido para ser um dos finalistas na competição. Quando o período de votação de 10 horas começou em um domingo, Paddy e Natalie sentaram-se ao lado de seus telefones e laptops, esperando ansiosamente a notícia.


"Todos nós nos recusamos a ir para a cama até saber se Sab tinha vencido ou não", conta Natalie. "O tempo todo, Sab permaneceu ao nosso lado”.


Às 22:00, os Lawson receberam a notícia — Sab tinha vencido. "Sab estava tão animado quando recebemos a notícia", diz Natalie, "mas provavelmente era porque estávamos fazendo tanto barulho perto dele."
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Para saber mais sobre Sab visite sua página no Facebook.
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Fonte: The Dodo

Homem mata cavalo a pauladas em Araranguá, SC

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Na manhã desta sexta-feira, dia 01 de abril uma crueldade foi registrada por testemunhas, na localidade de Manhoso, interior de Araranguá. Segundo um homem que passava pelo local, um cidadão seguia de carroça, quando o cavalo, já fraco negou-se a continuar a andar, o mesmo desceu, pegou um pedaço de pau e desferiu um golpe fatal na cabeça do animal.

O autor, após o barbárie, fugiu abandonando a carroça e o cavalo morto. A Polícia Militar foi acionada.
SC ararangua cavalo pauladas WA0003
Fonte: Revista W3

Exausto, cavalo cai no meio da rua após puxar carroça carregada com entulhos

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Uma cena chocou os moradores de Itapecerica/MG, em frente a Igreja do Rosário na tarde deste sábado (2). 

Por Wellington Vieira
MG Itapecerica cavalo exaustoFotos: WhatsApp
Um cavalo caiu no meio da rua, exausto de tanto trabalhar. O animal estava preso a carroça carregada de entulhos.

O dono da carroça com a ajuda de outro homem levantaram o animal que teve a carroça colocada de volta sobre o cavalo que seguiu o trajeto, exausto do trabalho forçado e embaixo do sol e calor deste sábado.

Animais continuam a ser explorados para o uso da tração de veículos.

A legislação brasileira e portuguesa permite a exploração de certas espécies para a tração animal: bovinos, equinos, muares e asininos – ou seja: bois, cavalos, mulos e asnos, sejam machos ou fêmeas.
MG Itapecerica cavalo exausto2
No entanto, esta forma de transporte ainda é comum, ou por comodismo ou porque a exploração do animal é economicamente mais viável. Nos grandes centros, uma das razões da permanência deste tipo de veículo é que possibilita aos usuários se manter à margem da lei.

Por exemplo, enquanto que para dirigir um veículo motorizado o cidadão necessita de uma permissão legal para guiar (como carteira de motorista, veículo com equipamentos básicos de segurança, etc) e obedecer as leis de trânsito, o condutor de carroça em geral, permanece sem que dele seja exigido qualquer um dessas exigências. Por exemplo, em certa porcentagem das carroças, os condutores são menores de idade, encontram-se embriagados, desrespeitam as leis de trânsito, etc.

As legislações existentes são ineficazes para dar qualquer proteção, mínima que seja, aos animais explorados para esse fim, simplesmente porque não há qualquer órgão de fiscalização que atue especificamente para esse tipo de caso.

Na prática, proprietários de animais usados para tração exploram seus animais até a exaustão, abusando do peso, de distâncias percorridas, sob circunstâncias de tempo e clima mesmo que desfavoráveis, sem manutenção básica necessária, como o de alimento ou água ou de assistência veterinária. Além disso, em geral, os proprietários de animais de tração, quando não estão de uso do animal para si, de forma comum, o aluga para terceiros. Ou seja: o animal em geral, trabalha durante um período do dia para o proprietário e em outro período para um locatário.

Certas cidades brasileiras já começaram a adotar carrinhos elétricos para a substituição das carroças, como em Brasília (DF) e Foz do Iguaçu (PR). É uma ótima opção para que de forma rápida, se melhore as condições dos animais, dos próprios carroceiros e do trânsito.

Fonte: Destak News

Projeto da Unesp mostra eficácia na redução de mortandade de abelhas

 23/03/2016 07h16


Pesquisadores de Rio Claro monitoram apiário experimental em Araras (SP).


Em dez anos, 50 mil colmeias foram dizimadas pelo uso de agrotóxicos.

Do G1 São Carlos e Araraquara

O uso de defensivos agrícolas principalmente em áreas de plantio de cana-de-açúcar já dizimou 50 mil colmeias nos últimos dez anos, aponta um estudo da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Rio Claro (SP). Para tentar reverter o problema, pesquisadores criaram um projeto de monitoramento que tem mostrado eficácia na redução da mortandade de abelhas.

Dez produtores e a Usina São João, em Araras, participam da pesquisa, iniciada no ano passado, até agora nenhuma colmeia foi perdida. “Nós entendemos que a agricultura necessita da aplicação dos defensivos químicos, mas os apicultores e as abelhas nativas também precisam sobreviver. Então, pensamos em um projeto que pudesse haver uma coexistência entre as duas partes”, disse o biólogo da Unesp Osmar Malaspina.
Projeto
O sistema é simples: o usineiro envia um alerta antes de começar a fazer a pulverização. Assim, os apicultores têm tempo para proteger as colmeias. “A usina comunica a associação dias antes de aplicação, e a associação comunica os apicultores para que eles tomem as medidas preventivas nos apiários. As abelhas são fechadas naquele momento, evitando o risco de contaminação”, explicou o gerente agrícola da usina, Fernando Palma.

Presidente da Associação de Apicultora de Araras e Região, Carlos Celano tem mais de 300 colônias. Ele contou que até agora não perdeu nenhuma abelha por conta do veneno e acha importante receber o aviso. “Excelente alternativa. O apicultor vai perder umas horas do dia, mas é melhor do que perder as caixas”, ressaltou.
Apicultores aprovaram a ideia do projeto criado pela Unesp (Foto: Marlon Tavoni/EPTV)Apicultores aprovaram a ideia do projeto criado pela Unesp de Rio Claro (Foto: Marlon Tavoni/EPTV)
 
 
Monitoramento
Agora o projeto entra numa nova fase. Os pesquisadores montaram um apiário experimental bem ao lado da plantação de cana. A ideia é que ele seja monitorado pelo menos uma vez por mês. “A gente vai fazer uma série de medidas dessas colmeias, como quantidade de mel produzido, quantidade de abelhas, de crias, várias medidas para ver o comportamento dessas colmeias ao longo do ano”, disse o biólogo. O monitoramento deve durar três anos.

O apicultor João Franco, que cria abelhas há 30 anos, já teve mais de 200 colônias, mas hoje tem apenas 60 colmeias. Segundo ele, o veneno jogado por avião nas plantações é o que mais prejudicou o trabalho dele nos últimos anos.

Mortandade
Em 2012 e 2013, mais de cinco milhões de abelhas morreram em apiários de Gavião Peixoto. Laudos confirmaram que isso aconteceu por causa de agrotóxicos. Nos últimos quatro anos, Leme passou duas vezes pela mesma situação. Pelo menos dez apicultores perderam centenas de colmeias. Isso também aconteceu em apiários de Brotas e de Tambaú. Em Santa Cruz da Conceição, cinco milhões de abelhas também morreram pelo mesmo motivo há dois anos.
Agrotóxicos causaram a morte de milhões de abelhas na região (Foto: Marlon Tavoni/EPTV) 
 
Uso de agrotóxicos causou a morte de milhares de abelhas em cidades da região (Foto: Marlon Tavoni/EPTV)

Tigres ainda podem sobreviver à ameaça do maior predador da natureza, mostra estudo

Sexta-feira, 01/04/2016, às 18:35,


Quadrigêmeos do tigre siberiano se sentam na grama durante apresentação ao público no zoológico Tierpark em Berlim, na Alemanha
Vamos começar pela boa notícia, já que andamos precisando de alguma. Os tigres, espécie que alguns estudos já davam quase como competindo com os ursos polares no tocante à falta de espaço para viver no planeta, ainda têm lá seus territórios. 

Um estudo publicado hoje pela revista “Science Advances”  mostra que a população mundial de tigres, que atualmente não passa de 3.500 animais, tem mais florestas onde se abrigar do que se previa. Foram analisados dados sobre perda de florestas dos últimos 14 anos em 76 paisagens  com cerca de 280 mil quilômetros quadrados, e a conclusão é que há menos supressão do que os dados apontavam.  Mais ou menos assim: num subconjunto de 29 desses lugares, 19 apresentam alteração mínima, com perda de 1.5%, enquanto outras dez têm perda maciça, de 98%. Com isso, acreditam os cientistas, fica mais fácil tentar reverter a privação dos tigres.

A má notícia? Ora, não é uma só, claro, são várias. Começa assim: uma das principais  causas da extinção dessa espécie tão importante para a biodiversidade é a caça. As outras causas também estão ligadas às atividades do maior predador da natureza.   O impacto causado pelas madeireiras, a expansão da agricultura e o desenvolvimento das cidades estão contribuindo para que os tigres não tenham mais corredores por onde correr, caçar, comer, viver. A ponto de, em 2010, representantes da Índia, China e Rússia terem se reunido em São Petersburgo para debater sobre o tema. Chegaram a um acordo e firmaram o compromisso de duplicar a população de tigres no mundo até 2022. É a chamada Declaração de São Petersburgo. Ainda neste mês, a Índia vai sediar uma conferência ministerial sobre o tema, e a boa notícia, sobre a existência de territórios, será analisada.


Os locais onde os tigres estão mais ameaçados são Malásia e Sumatra, onde há uma perda extensa de territórios para esses animais por causa da expansão de plantio de palmeiras que fornecem óleos. Em 2012, ambientalistas fizeram um estudo no Parque Nacional Kerinci Seblat em Muko-Muko, província de Bengkulu da Indonésia, onde descobriram mais de 120 armadilhas para pegar tigres.  O impacto nessas áreas foi considerado devastador.

Se você, caro leitor, em meio à crise política, diante da espetacular manifestação popular, pacífica, que aconteceu ontem em todo o país, está se perguntando qual a importância de se preocupar com a vida dos tigres a essa altura, posso tentar lhe dizer.

A diversidade de espécies é responsável pela manutenção de uma série de serviços que a natureza nos presta: polinização e conservação de solos, além do controle de pragas e doenças são apenas alguns exemplos. No livro “Seria melhor mandar ladrilhar?”(Ed. UnB), a bióloga Nurit Bensusan escreve:

“Acredita-se, hoje, que, com o desaparecimento de muitas das espécies que compõem um ecossistema ou um ambiente, seu colapso é garantido. Podemos afirmar, assim, que cada espécie é um produto único e insubstituível da natureza”.

É possível ilustrar o que ela diz, contando o caso dos elefantes nas savanas africanas. Há alguns anos, acreditando que os elefantes estavam prejudicando a vegetação, alguns ambientalistas fizeram um experimento e decidiram cercá-los numa área isolada. Poucos anos depois, havia só uma espécie de capim na área que ficou livre das patas dos animais. Sua alimentação é que permite que as várias espécies de capim convivam, evitando que uma suprima a outra.

Portanto, é de vida que se está tratando aqui. De vidas humanas, sim, além de vidas de todas as outras espécies. Mas, não se iludam: ninguém sabe quais são e quantas são as espécies necessárias para sustentar a vida humana, garante Bensusan. Logo, por que não começar a se preocupar até mesmo com os tigres da Sumatra? Aliás, aqui vale uma informação importante: a pesquisa feita pela bióloga para seu livro, publicado em 2008, chegou a um total de 6.400 tigres no mundo, quase o dobro do número publicado pela “Science Advances”. Se não for uma questão de conflito de dados, nos últimos oito anos a humanidade conseguiu abater cerca de três mil tigres.

Nurit Bensusan, no entanto, escreve que não é possível fazer uma estimativa precisa do número de espécies que estão desaparecendo. Para a International Union for Conservation of Nature ,  organização fundada em 1948 com foco na conservação da biodiversidade, os índices de extinção de espécies estão de mil a dez mil vezes superiores ao que seriam naturalmente, sem a interferência da atividade humana. Entre os seres vivos ameaçados estão, segundo a IUCN, 21% dos mamíferos.

Um último dado publicado pela organização estima ainda  que 35% das espécies de aves, 52% dos anfíbios e 71% dos corais construtores de recifes serão particularmente vulneráveis ??aos efeitos das mudanças climáticas.

Dados e informações sobre o impacto da atuação do homem, não só colaborando para extinguir outras espécies, como para aquecer o planeta, não nos faltam. O que se precisa é destruir menos. No livro de Bensusan há referência, por exemplo, da descoberta de 27 espécies novas de plantas na Floresta Estadual do Rio Doce, que fica no Parque do mesmo nome, localizado nos municípios de Marliéria, Dionísico e Timóteo, no Vale do Aço. Ali estava a maior reserva de mata atlântica de Minas Gerais, reconhecida como Reserva da Biosfera pelas Nações Unidas. Estava. Assim mesmo, com o verbo no passado.

Ocorre que na noite de sexta-feira, 6 de novembro de 2015,  o Serviço Geológico do Brasil informava a todos que um mar de lama, fruto do rejeito de mineração que estava numa das duas barragens da Samarco que se rompeu estaria atingindo o Parque dentro de pouco tempo. A lama percorreu mais de 600 quilômetros e, no caminho, possivelmente terá derrubado as 27 novas espécies que os biólogos tinham tido tanto trabalho para descobrir.

Só para atualizar, as últimas notícias que nos chegam da tragédia de Mariana, que praticamente já desapareceu das páginas e sites de notícias, é que 306 famílias atingidas, que perderam tudo na lama, receberam um cheque de R$ 2.614,38. Não imagino que cada uma das vítimas tenha sido ouvida para se chegar a esse valor, arbitrado entre o Ministério Público e o município de Mariana.

Há leis internacionais que tentam defender a biodiversidade, como a Convenção sobre a Diversidade Biológica (CDB), em vigor desde 1993, que tem como objetivo estabelecer as normas e princípios que devem reger o uso e a proteção da diversidade biológica em cada país, dos 194 signatários. É, sim, para comemorar, embora não esteja conseguindo livrar do mal os tigres, tampouco os ursos pandas, que hoje já não se pode contar mais de mil.

Mas, pensando bem... Existe também uma Declaração Universal dos Direitos Humanos, assinada em 1948, que de pouco ou nada adianta quando, por exemplo, uma mineradora desgoverna, compromete, arrisca, por deslize de gestão, a vida de tantas pessoas. É sempre tempo de refletir. Mas quando estamos em crise parece que a vontade é maior. As informações aqui no texto podem ajudar.

Zoológico de Bauru faz trabalho de preservação de primata em extinção

 03/04/2016 15h51


Zoológico é referência na reprodução do sauim-de-coleira.
Espécie rara é oriunda do estado do Amazonas.

Do G1 Bauru e Marília
Sauim-de-coleira é oriundo da região de Manaus. (Foto: Heloísa Casonato/G1)Sauim-de-coleira é oriundo da região de Manaus (Foto: Heloísa Casonato/G1)
Primata vive de 10 a 15 anos e a gestação tem duração máxima de 152 dias. (Foto: Heloísa Casonato/G1)Primata vive de 10 a 15 anos e é da família do sagui (Foto: Heloísa Casonato/G1)
 
O zoológico de Bauru (SP) faz um trabalho de preservação ambiental que é considerado referência nacional devido à reprodução em cativeiro do sauim-de-coleira (Saguinus bicolor), um primata amazônico de espécie rara que está ameaçado de extinção, e reconhecido internacionalmente. A colônia bauruense possui oito indivíduos, sendo que parte deles foi resgatada de cativeiros ilegais. (Veja a galeria de fotos).

O sagui bicolor, que possui uma coleira branca na região do pescoço, tem este nome devido à sua pelagem. Ele vive em uma área de preservação natural que abrange a região de Manaus (AM).

No Amazonas, os sauins são criados até mesmo como animais domésticos. Entretanto, as ameaças à espécie são frequentes e se dão por meio de queimadas em florestas, atropelamentos, predação natural e cativeiros ilegais. O livro "Sauim de Coleira. A história de uma espécie ameaçada de extinção” dos autores Mauricio Noronha e Dayse Campista, que estida a espédie, cita o zoológico de Bauru como destaque na reprodução desse primata.

Devido a estes fatores, o zoológico de Bauru mantém o trabalho de cuidados ao sauim-de-coleira há aproximadamente cinco anos. Para que haja a reprodução do animal é necessária  uma dieta balanceada, além da privacidade do habitat. "Nós não só  buscamos a sobrevivência dessa espécie em vida livre, como também em cativeiro, de modo que possamos ter sob cuidados humanos uma reserva desses animais", explica o diretor do zoológico Luiz Pires.
Larvas são distribuídas aos animais como alimentação complementar. (Foto: Heloísa Casonato/G1)Larvas são distribuídas aos animais como alimentação complementar (Foto: Heloísa Casonato/G1)
Zoológico de Bauru cultiva e alimenta os animais com a larva de tenébrio. (Foto: Heloísa Casonato/G1)Zoológico de Bauru cultiva e alimenta os animais com larva de tenébrio (Foto: Heloísa Casonato/G1)
 
A ração, alimento principal da espécie, é dada duas vezes ao dia. Frutas e a larva são considerados petiscos. Para que a alimentação saúdável seja realizada diariamente, o zoológico do interior do estado de São Paulo cultiva o tenébrio, que é uma larva da espécie de um besouro que possui 47% de proteína.

"Inicialmente temos que dominar toda a questão da biologia, do uso do espaço que esses animais necessitam e principalmente da nutrição. Então quando a gente domina todos estes aspectos, conseguimos manter dentro dos princípios do bem-estar animal. Aí sim a reprodução vem como quase que um agradecimento a todos estes esforços que aqui são desenvolvidos", afirma Luiz Pires.
Zoológico de Bauru possui oito sauins-de-coleira e trabalha na reprodução do animal. (Foto: Heloísa Casonato/G1)Zoológico de Bauru possui oito sauins-de-coleira e trabalha na reprodução do animal
(Foto: Heloísa Casonato/G1)
 
Reprodução
De acordo com o diretor do zoológico, cinco sauins-de-coleira são naturais de Bauru, os outros três são provenientes de apreensões. Os oito animais do zoológico são divididos em duas colônias: uma com seis e outra com dois animais.

A menor colônia é a mais recente. Nela vive uma fêmea adulta resgatada de um cativeiro ilegal no estado do Amazonas e um filhote nascido em Bauru. Ele foi separado da família para crescer e ter maior contato com a fêmea. Quando adulto, o casal estará adaptado para procriação. “Os [animais] que formaram estas colônias infelizmente são oriundos do comércio ilegal dessa espécie. São animais que foram apreendidos não tinham mais condições de retorno ao seu ambiente e vieram aqui para o zoológico de Bauru", conta o diretor.

Ainda segundo Luiz Pires, a fêmea oriunda da região norte do país não conseguiria viver na colônia maior, pois nela já existe uma fêmea líder. “É como uma disputa. A fêmea mais forte reproduz e as outras são rejeitadas. A que perde a briga é expulsa e ela forma uma colônia dela. O que fizemos foi criar um ambiente artificial."
Fêmeas disputam por território e procriação. (Foto: Heloísa Casonato/G1)Fêmeas disputam por território e procriação (Foto: Heloísa Casonato/G1)
Ameaças
 
O primata, natural do estado do Amazonas, vive de 10 a 15 anos. Entretanto, diversos são os motivos para que a vida do sauim-de-coleira seja interrompida. O sauim-de-mão-dourada é o predador natural do animal em extinção. Eles competem entre si em busca de território, que está cada vez mais devastado.

Cidades e estradas cortam as florestas da região de Manaus e, na região, é comum encontrar sauins-de-coleira atropelados. O desmatamento também destrói o habitat dos animais presentes nas áreas verdes.

Infográfico sauim-de-coleira  (Foto: Arte/G1 AM)Infográfico sauim-de-coleira (Foto: Arte/G1 AM)