O desmatamento, a poluição, a agricultura e a construção de
hidrelétricas como a de Belo Monte, no Pará, estão ameaçando os rios da
Amazônia, que formam a maior bacia de água doce do mundo. A afirmação é
do pesquisador da universidade americana Virginia Tech, Leandro
Castello. "A degradação dos rios vai afetar as populações locais, e isso
tem sido observado em outros lugares do mundo. Está acontecendo no rio
Mekong, no Vietnam, e no rio Ganges, em Bangladesh. E será o futuro da
Amazônia, caso nada seja feito", diz.
Na visão do cientista,
não há uma estrutura ou política de manejo adequada às bacias
hidrográficas da região. "A previsão é infeliz e esse quadro só tende a
piorar. O Brasil tem sido pioneiro em questões terrestres e de
preservação das florestas, mas em relação aos rios da Amazônia, nada
está sendo feito", diz.
"Os corpos de água doce do mundo estão
em profundo risco. Então, é claro que a Amazônia não fica fora, pois
também acaba sendo contemplada com um enorme conjunto de problemas que
afeta a bacia hidrográfica", diz a pesquisadora do Inpa (Instituto
Nacional de Pesquisas da Amazônia), Maria Teresa Fernandez Piedade.
Imagens da Amazônia
A
Amazônia tem 4.196.943 milhões de quilômetros quadrados e a maior bacia
hidrográfica do mundo, que cobre 6 milhões de quilômetros quadrados com
seus 1.100 afluentes, segundo dados do Ministério do Meio Ambiente. O
maior bioma do Brasil é fundamental para o equilíbrio ambiental e
climático do planeta e a conservação dos recursos hídricos Miguel von Behr/Arpa
Os sistemas de água doce são os mais degradados do mundo. E muitos
deles já não são como antigamente graças à ação do homem. Na Amazônia,
por exemplo, a pesca excessiva levou algumas espécies à extinção. O
tamanho dos peixes também diminuiu ao longo dos anos.
Segundo a cientista do Inpa, estudos realizados pela entidade apontam que,
das últimas décadas para cá, as cheias e as secas estão cada vez mais intensas e severas naquela região. "Isso indica que as mudanças climáticas já podem estar se fazendo sentir nestes sistemas", sugere Maria.
Para Castello e Maria, os problemas da Amazônia não estão restritos à
região norte do país. "Se os rios secam, o transporte de grãos como a
soja, que é exportada, pode ser comprometido, impactando a economia
nacional. A seca nos rios também afeta a produção de energia elétrica em
represas como Belo Monte. Se essas represas param, o Sul e o Sudeste
podem enfrentar apagões", lembra Castello.
Já os efeitos do
desmatamento em larga escala, seja para o extrativismo madeireiro ou
para propósitos agrícolas, pode mudar o balanço hídrico do território,
que é ligado ao de outras regiões, lembra a pesquisadora do Inpa. Maria
Victoria Ramos Ballester, do Centro de Energia Nuclear (Cena) da USP,
campus Piracicaba, lembra a importância da Amazônia para outros países.
"A Amazônia tem um papel importante na redistribuição da umidade, não só
no Brasil, mas na América Latina. Trata-se de um sistema de circulação
regional", destaca.
Veja registros do desmatamento na Amazônia nos últimos anos
abr.2014
- O Ibama, em parceria com a Fundação Nacional do Índio (Funai) e o
Batalhão de Policiamento Ambiental (Bpam), realizou operação na Terra
Indígena Rio Manicoré, localizada no município de Manicoré, sul do
Estado do Amazonas. Durante a ação, foram apreendidos aproximadamente 85
m³ de madeira em toras e foram aplicadas multas de R$ 30 mil. A
madeira, em sua maior parte, angelim-pedra, estava sendo transportada na
balsa Navezon B29, que também foi apreendida Ditec/Ibama
Floresta Amazônica pode virar cerrado
Outro estudo, que envolve cientistas brasileiros e americanos, aponta
numa direção semelhante. A pesquisa irá analisar três eventos extremos
que ocorreram na Amazônia na última década a fim de
prever o impacto das mudanças climáticas e do desmatamento no ecossistema da região.
A investigação receberá um milhão e meio dólares da Nasa, a agência
espacial americana. Participam do estudo pesquisadores da Universidade
Estadual de São Paulo (Unesp), e das federais de Alagoas (Ufal) e Rio
Grande do Norte (UFRN).
A previsão do estudo em relação à ocorrência de eventos extremos é negativa. "
Acreditamos que as mudanças climáticas irão, no futuro, contribuir para enchentes e secas cada vez mais severas e frequentes",
afirma Michael Cohe, um dos cientistas envolvidos no projeto. Em outras
palavras, secas como as de 2005 e 2010, e a enchente de 2009, que
ocorreram na Amazônia, poderão se tornar cada vez mais comuns. Para
Maria, este e outros trabalhos revelam "a preocupação com a manutenção
da integridade desta imensa bacia hidrográfica".
Outro ponto que
preocupa os cientistas é a construção de represas e hidrelétricas.
"Isso só vai piorar os efeitos das mudanças climáticas e do
desmatamento", aponta Castello, que lidera a investigação feita em
parceria com pesquisadores brasileiros. Segundo ele,
o desmatamento em larga escala faz com que chova menos e a região fique seca. "Isso pode fazer com que a floresta da Amazônia se transforme em uma floresta de cerrado", prevê.
Cheia em rios da bacia amazônica alaga bairros de Manaus
4.jun.2013
- Ruas do centro de Manaus, próximas ao porto da cidade, já estão
debaixo d"água, devido à cheia do Rio Negro. O nível do rio chegou na
última segunda-feira (3) a 29,28 metros e já é o oitavo maior da
história, podendo atingir a cota de 29,71 metros até o final deste mês,
conforme foi anunciado pelo CPRM (Serviço Geológico do Brasil). Se isso
acontecer, será a terceira maior enchente já registrada, ficando atrás
apenas das cheias de 2012, a maior já documentada, com 29,97, e a de
2009, com 29,77 metros
Leia mais Antônio Lima / A Crítica
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