17/10/2015
..A degeneração da política chegou a tal ponto que declarações, negociações e acordões que deveriam provocar repulsa são feitos à luz do dia
Nem
Cícero, cuja prosa esplêndida ajudou a elevar uma língua de
alcoviteiros às glórias de um idioma épico, foi capaz de convencer os
romanos da pureza permanente de seus propósitos. Na sua disputa fatal
com Marco Antônio, mesmo Cícero usou seu latim para fazer o que todos os
políticos fazem desde os primórdios da civilização – esconder, enganar,
despistar e selar negociações, trocas e acordos que, examinados à luz
do dia, causam embaraço e constrangimento. Por isso, profissionais e
amadores concordam: a política é o território do cinismo. Mas, na semana
passada, exacerbando uma tendência que se agiganta ano após ano, a
política brasileira atingiu um patamar de descompostura capaz de
impressionar os bárbaros e escandalizar os romanos.
Até em discursos na ONU, já foi declarado que o Brasil é o ‘país dos políticos corruptos’, a maior vergonha de todos os tempos. seríamos um país de primeiro mundo se não fosse tantos roubos, declara o homem mais poderoso do mundo, que hoje é orgulho dos Estados Unidos, Obama.
Em encontro com sindicalistas da CUT, a
presidente Dilma Rousseff fez seu discurso mais contundente contra a
ameaça de impeachment e atacou seus adversários chamando-os de
“moralistas sem moral”.
Referia-se ao fato de que, nas fileiras da
oposição, há flor mas também há pântano, a começar pela aliança sempre
envergonhada com o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha,
acusado de manter quatro contas secretas na Suíça.
O raciocínio fazia
sentido: querem limpar o governo com faxineiros enlameados? Ocorre que,
antes do discurso moralista, Dilma deu uma demonstração daquela moral de
conveniência que tanto desacredita os políticos: autorizou seus
ministros a negociar um acordo de salvação mútua com o mesmo Eduardo
Cunha das contas secretas na Suíça.
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