quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Comércio bilateral Cortes de Dilma provocam impacto na Argentina



Annabella Quiroga

O comércio bilateral continuará diminuindo em 2015 e assim a Argentina voltará a ter superávit depois de mais de uma década.

Buenos Aires, 04 de fevereiro de 2015

(Setor automotivo responde po mais de 60% do comércio bilateral e tem sido fortemente afetado por medidas argentinas e queda nas duas economias)



Em 2014 o intercâmbio comercial entre os dois principais parceiros do Mercosul registrou sua maior queda desde 2009.

Devido à recessão argentina e à desaceleração brasileira, as exportações para o Brasil encerraram o ano com uma queda de 14%, enquanto que as compras diminuíram 27,2%, o que levou a um déficit de US$141 milhões.

Dessa forma, o terreno ficou preparado para que em 2015 o saldo comercial passe a ser favorável para a Argentina, com um superávit estimado em US$160 milhões, o que marcaria um corte após mais de uma década no vermelho.

O comércio bilateral foi reduzido em 14,1% no ano passado e alcançou US$ 28,427 bilhões.

Para a consultoria abeceb.com, de Buenos Aires, essa diminuição se deve “à queda no nível de atividade brasileira, o que leva a uma menor demanda de produtos locais.

A ela se acrescenta o problema da perda de competitividade das exportações argentinas, explicada fundamentalmente por fatores internos como a inflação de custos combinada com um tipo de câmbio artificialmente baixo”.

O economista Mauricio Claverí diz que em 2015 as vendas argentinas para o Brasil serão de US$ 14,14 bilhões, um montante similar ao de 2014.

“As exportações deixariam de cair porque haveria uma pequena recuperação das automotivas. Assim, neste ano teríamos um superávit de US$ 160 milhões. Não vai ser um superávit grande porque estamos perdendo capacidade de inserção nesse país”, diz.

O déficit com o Brasil tinha sido de US$ 3,2 bilhões em 2013, quando os dois países ainda estavam crescendo.


Para Claverí, no curto prazo, “o ajuste que o Brasil deve fazer é um sinal negativo para a Argentina porque vai afetar o nível de atividade e o poder aquisitivo vai cair. A Argentina precisa de uma recuperação do nível de demanda do Brasil, sobretudo do setor automotivo. A médio e longo prazo, se o Brasil conseguir organizar a macro e sair do círculo vicioso, pode ser benéfico para nós porque a partir de 2016 poderia haver uma maior demanda, sobretudo para a produção industrial”.


A relação bilateral também está condicionada pelas restrições que a Argentina impõe para proteger a indústria local e pelas retaliações que o Brasil aplica para brecar os protestos de seus empresários.



A isso se agrega que, com as barreiras que o Banco Central coloca para a entrega de dólares, a Argentina mantém uma dívida de US$ 2 bilhões com os fabricantes de autopeças brasileiros, um elemento a mais que vai minando a “paciência estratégica” que caracterizou a diplomacia do Itamaraty na última década.

“Sem dúvidas, neste ano não vai haver fluidez nas relações bilaterais. A restrição externa da Argentina não dá lugar para que existam negociações”, diz Claverí.

As expectativas do mercado são de que o real continuará se desvalorizando neste ano, mas em ritmo baixo.

“Com o dólar quase fixo, para a Argentina a perda de competitividade se duplica, porque nós ficamos mais caros em dólares enquanto que os nossos parceiros e competidores comerciais ficam mais baratos em moeda forte”, diz Economía e Regiones.


O economista Juan Pablo Paladino, chefe de pesquisas da Ecolatina, diz que “embora o Brasil espere uma leve aceleração da inflação, também espera uma maior desvalorização do real. Isso implica que nós vamos estar relativamente mais caros em relação a um país que não cresce e que é o nosso principal demandante de produtos industriais. Essa não é uma boa notícia para a indústria argentina”.


O economista acrescenta que “o contexto internacional que a Argentina enfrentará em 2015 não é totalmente favorável. Um aspecto positivo é que a queda do petróleo reduziria os preços dos produtos energéticos e isso beneficiaria o país diante de suas necessidades de importar gás liquefeito. Mas é preciso levar em consideração que o impacto nas commodities agrícolas é forte, por isso a entrada de dólares se reduziria”.

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