quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Quase três anos depois do maior desastre ambiental do Brasil, só agora é fechado acordo de indenização das vítimas

Quase três anos depois do maior desastre ambiental do Brasil, só agora é fechado acordo de indenização das vítimas

mar de lama bento rodrigues
Em poucos minutos tudo foi destruído. Dezenove pessoas estavam mortas, o vale do Rio Doce sem vida e o pequeno vilarejo de Bento Rodrigues em ruínas, sob a lama.

A maior tragédia ambiental do Brasil aconteceu no dia 5 de novembro de 2015,  quando houve o rompimento da barragem de Fundão, da mineradora Samarco, que despejou um mar de resíduos tóxicos na bacia do Rio Doce, próximo à Mariana, em Minas Gerais.

Nenhuma sirene de alerta foi soada. Os moradores simplesmente viram uma mar de lama chegando em sua direção e carregando tudo pela frente.

E apenas esta  semana – quase três anos após o desastre – finalmente foi fechado o acordo com a empresa para a indenização das vítimas.

O documento foi assinado pelo Ministério Público Federal de Minas Gerais, a Defensoria Pública, a Samarco e os atingidos, acompanhados da Assessoria Técnica Cáritas, escolhida por parte deles para representá-los.

A Fundação Renova, formada por membros da Samarco, fruto da sociedade de duas gigantes do setor petrolífero – a brasileira Vale e a anglo-australiana BHP Billiton -, e entidades do setor público, além de organizações não governamentais, foi criada para administrar a crise e ajudar a população que ficou desamparada.

Pelo termo ficou decidido que cada morador – individualmente – terá que negociar diretamente com a Renova o valor de sua indenização. Apesar da decisão parecer bastante desfavorável para as vítimas, em entrevista ao jornal Estadão, o promotor Guilherme de Sá Meneghin, responsável pelo acordo, afirmou que “asseguramos assessoria jurídica a todas as vítimas. Não há problema. Tudo vai ser acompanhado. As famílias serão orientadas”, garantiu.

Ainda segundo Meneghin, o custo total das indenizações chegará a R$ 2 bilhões.

Durante o processo de levantamento de danos, feito pela Fundação Renova, foram feitas diversas reuniões com as vítimas e a entrega de um cadastro de indenização. Todavia, os moradores de Bento Rodrigues e região (que tiveram tudo destruído) não aceitaram o modelo e pediram alterações, por isso, neste caso, o cadastro será conduzido pela Cáritas.

De acordo com a Fundação Renova, entre os municípios de Barra Longa até a Foz, mais de 7.000 famílias já teriam recebido suas indenizações finais.

Mas ainda faltam os 3 mil atingidos de Bento Rodrigues e municípios vizinhos que, na verdade, podem chegar a ser até 4 mil, afirma Guilherme de Sá Meneghin.

O que mais causa estranheza no documento é o prazopra lá de longo – para o pagamento das indenizações que ainda faltam. Algo que parece inaceitável. O “calendário” tem previsão para que os cadastros para as futuras negociações sejam entregues até fevereiro do ano que vem. Isso mesmo, 2019!

Depois disso, são mais três meses para que a Fundação Renova apresente uma proposta e a partir daí, tenha ainda UM ANO para concluir todo o processo. Ou seja, somente em 2020, cinco anos após o acidente.

É muito tempo para reparar um crime social e ambiental de tão grandes proporções.

Procurada pelo Conexão Planeta para confirmar as datas do calendário divulgadas pelo Estadão, a assessoria de imprensa da Fundação Renova enviou a seguinte resposta: “Desde que concluídas as etapas do cadastro (formulário e vistoria), os atingidos, se assim desejarem, já podem procurar a Fundação Renova para negociar e dar sequência ao seu processo de indenização final. Caso queriam, poderão também aguardar o relatório elaborado pela Caritas para então negociar a indenização“.

Em março deste ano, mostramos aqui, neste outro post, uma denúncia publicada pelo jornal britânico The Guardian, o procurador da República José Adércio Leite Sampaio, coordenador da força-tarefa criada pelo Ministério Público Federal (MPF) para investigar o inquérito sobre o desastre ambiental, afirmou que seis meses antes do colapso da barragem, a Samarco recebeu uma avaliação de risco sobre os impactos do possível acidente.

Mas segundo Sampaio, mesmo tendo conhecimento da tragédia iminente, a companhia não fez nada. Pelo contrário, aumentou o ritmo da produção e decidiu cortar custos.

“Eles priorizaram lucros e deixaram a segurança em segundo lugar”, disse o procurador em seu parecer sobre o caso na época.

O resultado deste crime ambiental que jamais será esquecido pode ser visto nas fotos comoventes, feitas na época, pelo fotógrafo Leonardo Merçon:





rio doce



*Com informações do jornal Estadão 

Fotos: Antonio Cruz/Fotos Públicas (abertura) e demais Leonardo Merçon/Instituto Últimos Refúgios

 
Jornalista, já passou por rádio, TV, revista e internet. Foi editora de jornalismo da Rede Globo, em Curitiba, onde trabalhou durante seis anos. Entre 2007 e 2011, morou na Suíça, de onde colaborou para várias publicações brasileiras, entre elas, Exame, Claudia, Elle, Superinteressante e Planeta Sustentável. Desde 2008 , escreve sobre temas como mudanças climáticas, energias renováveis e meio ambiente. Depois de dois anos e meio em Londres, acaba de mudar para os Estados Unidos

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