quarta-feira, 23 de abril de 2014

?? Proposta de 'tombamento' do céu de Brasília ganha força e adeptos na cidade

Tradicional no imaginário brasiliense, inspiração para poetas e compositores, elogiado por moradores e visitantes. Especialistas defendem que o azul, o nascer e o pôr do Sol na capital federal devem fazer parte da Paisagem Cultural Brasileira


Thaís Paranhos
Roberta Pinheiro

22/04/2014 23:23



No início, a ideia não foi levada a sério. Parecia não passar de uma brincadeira e se tornou motivo de risadas. Mas, com o passar dos anos — dos elogios e da presença em letras de músicas —, a proposta de tombar o céu de Brasília como Paisagem Cultura Brasileira ganhou força e adeptos na cidade. Nada mais justo do que proteger a imensidão azul, continuidade do traçado de Oscar Niemeyer e parte importante do cenário. O projeto é do arquiteto Carlos Fernando de Moura Delphim. A campanha teve novo fôlego após a publicação de um suplemento especial do Correio, na última segunda-feira, sobre o céu da capital na última segunda-feira.

Além do especial em comemoração ao aniversário de 54 anos da capital, a campanha Pega bem clicar o céu de Brasília despertou entre os admiradores um olhar ainda mais apaixonado. As fotografias enviadas foram colocadas à disposição no hotsite. Agora, servem como combustível para retomar a antiga ideia de tornar o céu Paisagem Cultural Brasileira. “O céu de Brasília sempre me impressionou. Ficava aflito, tudo em Brasília era muito longe e sentia falta de alguma referência, mas, ao olhar para o céu, entrava em êxtase”, contou o arquiteto Carlos Fernando de Moura Delphim. “Seja o crepúsculo, o nascer do Sol, as chuvas, tudo me impressionava. Meu consolo era o céu, e queria protegê-lo.”




A ideia foi levada a sério pelos defensores mais entusiastas de Brasília. “Se as curvas em concreto podem ficar protegidas, por que não a paisagem azul? A proposta do projeto é definir regras de cores, gabaritos, alturas e volumes de construções para não impedirem a vista do céu. Cada lugar tem uma identidade, uma marca. E a de Brasília é o céu”, completou Carlos. O ex-secretário de Cultura Silvestre Gorgulho se recorda que, quando a TV digital começou a operar no Brasil, ele brigou com as emissoras para que apenas uma torre fosse instalada no DF. “Imagina ter um paliteiro de antenas encobrindo o céu? Se houvesse uma proteção, isso não seria necessário”, acredita.

Segundo a Portaria nº 127/2009 do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), a Paisagem Cultural Brasileira é “uma porção peculiar do território nacional, representativa do processo de interação do homem com o meio natural, à qual a vida e a ciência humana imprimiram marcas ou atribuíram valores”. Para que o céu de Brasília receba o título, o governo e a sociedade devem oferecer vantagens sociais e econômicas e divulgá-lo. É preciso, por exemplo, produzir e vender artesanato que tenha como tema o céu da cidade, assim como criar um site para divulgar a ideia. Além da obediência às escalas de construção, o projeto obrigaria a instalação de mirantes e belvederes, com lunetas e telescópios, e o ensino do assunto nas escolas do DF.

De acordo com a assessoria de imprensa do Iphan, oficialmente, não existe projeto sobre o tombamento do céu de Brasília no órgão. Segundo a nota, o tombamento da capital, com as escalas de altura de prédios e as limitações das construções, principalmente no Plano Piloto, dá um certo grau de proteção ao céu. A ideia é compartilhada pela arquiteta Maria Elisa Costa, filha do urbanista Lucio Costa. O cuidado com o centro histórico da capital teria como consequência a proteção do céu. “O projeto do centro histórico da capital e as características originais permitem que haja a convivência natural e permanente de todo mundo com o céu deslumbrante do Planalto Central do Brasil.”

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