terça-feira, 11 de novembro de 2014

Em entrevista a alguém mais esquerdista do que ele próprio, Carvalho critica Dilma, a sua chefe; prega que governo vá ainda mais para a esquerda e defende militância na rua contra o Congresso. Quem tem de ir para a rua é ele!

1/11/2014 às 5:39


Gilberto Carvalho, secretário-geral da Presidência, concedeu uma entrevista à BBC Brasil. O rapaz que o entrevistou está notoriamente à sua esquerda, e isso fez com que o petista parecesse até sensato às vezes. Na verdade, não se trata exatamente de uma entrevista, mas de um diálogo de fundo moral entre um jovem radical, o tal rapaz, e o velho militante, que já conhece a vida. Os fatos deixam de ter importância, e o que vale é a agenda. A quantidade de bobagens que há nas perguntas e nas respostas diz um tanto da qualidade de certa imprensa e da qualidade do governo. Mas cuido desses aspectos outra hora. Agora, quero dar relevo ao Gilberto Carvalho que milita contra Dilma Rousseff.


A presidente tem alguns pepinos gigantescos pela frente, e é claro que ela sabe disso. Num cenário hoje realista, a economia pode crescer menos de 1% no ano que vem e com pressão inflacionária. Ninguém sabe o que vai sair da caixa de Pandora da Operação Lava Jato. Pode estar sendo gestada a maior crise política desde a volta da democracia. As demandas sociais tendem a crescer, e a mandatária não tem mais folga fiscal para fazer milagres. Se não chover o suficiente, há risco de crise energética, que só não deu as caras porque o país parou de crescer. Será que dá para ter alguém como Gilberto Carvalho conspirando contra o governo na cozinha do Palácio do Planalto? Acho que não.


Na entrevista à BBC Brasil, o ministro não se fez de rogado. Aproveitando que falava a alguém ainda mais esquerdista do que ele próprio, com ainda mais viseiras, Carvalho se sentiu à vontade para criticar o governo Dilma na comparação com o antecessor. Afirmou: “O governo da presidenta Dilma deixou de fazer da maneira tão intensa, como era feito no tempo do Lula, esse diálogo de chamar os atores antes de tomar decisão; de ouvir com cuidado, e ouvir muitos diferentes, para produzir sínteses que contemplassem os interesses diversos. Há uma disposição explícita da presidenta em alterar essa prática”.

Ocorre que a farra que permitiu a Lula “dialogar” acabou. O modelo ancorado no consumo entrou em colapso, e o erro da presidente, ao contrário do que diz Carvalho, foi tentar insistir em mais do mesmo, em vez de mudar. Dilma não errou ao se afastar do modelo Lula. Ela errou foi em insistir no modelo Lula. Se Carvalho não estivesse apenas fazendo baixa política, estaria dizendo uma tolice. Burro ele não é.

Num país que viverá dias turbulentos na economia, Carvalho deixa claro que a sua agenda é exacerbar as questões indígena e agrária, por exemplo. Não só isso: ele quer também a militância na rua, atropelando e pressionando o Congresso. Leiam o que disse: “Outro aspecto é a governabilidade social. A eleição mostrou o quanto a militância social está disposta a ir para a luta. É um fator que teremos de trabalhar para fazer avançar processos, sobretudo a reforma política. Se não tiver rua, se não tiver mobilização, não tem nenhuma esperança de passar nesse Congresso”.

Entenderam por que, crescentemente, os deputados querem Eduardo Cunha (PMDB-RJ) na Presidência da Câmara?

O governo tem hoje dificuldade para conseguir fazer com que o partido oficial consiga emplacar o presidente da Casa, e Carvalho, o secretário-geral da Presidência, está sonhando com modelos que levem as ruas a pressionar o Parlamento — tudo, aliás, conforme aquela resolução aloprada do PT.


Se Dilma não demitir Gilberto Carvalho e não isolá-lo, criando um cordão sanitário que o impeça de chegar no governo, ela vai se meter numa grande enrascada. Na entrevista, ele aproveita para pedir emprego: diz que continua no governo se for convidado. Indagado se poderia ir para alguma embaixada, brinca: “Só se for a do Afeganistão”.

Não precisa tanto. Dilma pode mandá-lo para o Cazaquistão. Quem sabe ele não se encontre com o Borat por lá.

Por Reinaldo Azevedo

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