terça-feira, 11 de novembro de 2014

"Limpo meu rabo cheio de porra com sua bíblia, crente de merda" -

Marcelo Mirisola

O Arquiduque na boca da caçapa

Silas Malafaia e Jean Wyllys (Fotos: Estadão Conteúdo)Silas Malafaia e Jean Wyllys (Fotos: Estadão Conteúdo)Eles devem ter vinte e poucos anos, vestem camisas xadrezes e tênis all star esgarçados, cultivam barbas à la Rasputin. No intervalo entre um beijo e outro, se distraem com seus notebuques customizados. Nada do que eu disser irá interessá-los. Posso cantar o hino à Bandeira, comer ranho e atear fogo em Roma.  Nem eu, nem qualquer outro escritor que passe de cento e quarenta caracteres tem o poder de dizer qualquer coisa que desperte o interesse do casal de barbudinhos - que se beija voluptuosamente logo à minha frente. O restaurante está lotado.

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Uma senhora interrompe o idílio do casal de barbudinhos.

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Creio que só existe um livro capaz de subverter a modorra, de gerar desconfiança e fazer “ouvir uma dúvida”. Ou seja, provocar atritos e deslocamentos e, em última análise, chamar a atenção do casal de barbudinhos. Foi a conclusão que cheguei depois de presenciar a cena que, daqui a pouco, pretendo dichavar para vocês.

O mais assustador, porém, é que as mensagens desse livro não primam exatamente pela tolerância e nem são muito conciliadoras, ao contrário: o conteúdo é confuso, repulsivo, ameaçador, beligerante e nitidamente anti-barbudinhos apaixonados.

Antes de contar o que presenciei, me ocorre o seguinte: desde a gênese a Bíblia foi pensada para a tecnologia de nossos dias. A maior parte dos seus versículos conta  menos de 240 caracteres. Todos nós que temos uma conta no tuíter (menos eu) estamos – inopinadamente -  reescrevendo o livro sagrado. Não vai demorar muito para chegarmos ao apocalipse.

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Aos fatos.
A senhora a que me referi acima dirige-se à mesa dos barbudinhos, e os reprime citando Coríntios, 6:17: “Não sejais desencaminhados. Nem fornicadores, nem homens mantidos para propósitos desnaturais..."

Os meninos recorrem ao gerente do estabelecimento. O gerente pede para eles respeitarem a senhora, que continua vociferando: "nem homens que se deitem com homens, nem ladrões, nem gananciosos, nem beberrões, nem injuriadores herdarão o reino de Deus". O barbudinho nº1 liga para a polícia.                                  
                                                            
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Um livro que contém a palavra de Deus, seguramente tem a participação do seu inimigo mais amado, Satã.  Daí o sucesso milenar, eu acho.

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Nos últimos anos, diferentemente da manisfestação de junho do ano passado que se dissipou em várias outras e virou coisa nenhuma, as paradas gay e neo-evangélicas arrastaram multidões que continuam na ativa – sem contar os passivos, os enrustidos e os infiltrados, de ambos os lados. Se nos últimos dez anos, o gado aparentemente era pacífico e estava sob controle, hoje, a coisa mudou.
O botão do Start nunca deu tanta sopa.

Quem acompanhou os tuiters de Silas Malafaia e Jean Wyllys na infeliz campanha presidencial de outubro sabe do que eu estou falando.

Não adianta nada invocar a legalidade, a paz, o amor e a tolerância se, no frigir da omelete, tanto o pastor como o deputado, oferecem a milhares de seguidores hostilidade e ódio recíprocos.
Malafaia  e Wyllys se opõem furiosamente um ao outro, e os seus respectivos rebanhos refletem essa fúria nas ruas, nas redes sociais,e nos bares & restaurantes que eu tenho a infelicidade de frequentar. Quando os dois lados tem razão e não abrem mão dela em nome de Deus ou em nome da Purpurina, a resolução ou o único termo a que podem chegar é a guerra.

Falta pouco para o final da picada, quando, por um descuido ou uma fagulha qualquer, as duas forças ( aqui não me interessa saber quem está do lado do "bem" ou do "mal", estou apenas conjecturando sobre o final da picada) chegarão às vias de fato. Se um dos lados não abrir mão das fundamentais certezas - creio que não abrirá - o primeiro arquiduque que vacilar muito em breve será sacrificado. Vai pra caçapa outra vez.

E aí, bem, aí eu não vou dizer mais nada, ou seja, minha impotência - a mesma que me paralisou quando o barbudinho nº 2 avançou na direção do pescoço da inconveniente senhora, e disse: "limpo meu rabo cheio de porra com sua bíblia, crente de merda" - enfim, minha impotência será refletida no destino de quem, hoje, me ignora porque eu falo demais, sou preconceituoso e "julgo" por antecipação.

Eu? Ora, logo eu?

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