sexta-feira, 14 de março de 2014

'Não é possível um piloto desligar todos os sistemas de comunicação', diz especialista

 

 

Mistério no ar 

 

VEJA

 

Para engenheiro que trabalha há 18 anos com a manutenção do modelo Boeing 777, o avião voou sim após sumir do radar

 

 

 Parente de passageiro a bordo do avião da Malaysia Airlines, desaparecido desde o último sábado (7), espera por notícias no Aeroporto Internacional de Kuala Lumpur - Damir Sagolj/Reuters


O avião desaparecido voou por mais algumas horas após sua última localização revelada, diz Joselito Souza, engenheiro com mais de 20 anos de experiência em manutenção de aviões e que desde 1996 trabalha com o modelo Boeing 777, o mesmo utilizado no voo MH370 que desapareceu no último sábado com 239 pessoas a bordo. 

Em entrevista ao site de VEJA, o especialista, que também trabalhou como consultor do Boeing 777 para o desenvolvimento do jogo Flight Simulator, esclareceu dúvidas técnicas que surgiram no decorrer das buscas. 

Afirmou também que é “praticamente impossível o piloto desligar todas as formas de comunicação da aeronave”, pois muitas são automáticas e independem da ação humana. 

Para que tais sistemas parassem, o avião teria de ter caído ou explodido no ar. 

O especialista salienta, contudo, que não é possível saber o que houve de fato – uma vez que não há quaisquer vestígios da aeronave. 

Ainda segundo Souza, é praticamente impossível que uma aeronave exploda sem deixar rastros.


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“Há apenas alguns sistemas que ficam sob controle do piloto e podem ser desligados. 


O transponder [aparelho de identificação das aeronaves que emite um sinal para os radares] é um deles. 

É possível ficar invisível ao radar. 

Mas não é possível o piloto desligar o todo sistema que envia informações sobre a situação do avião para outras fontes”. 

De acordo com Souza, o envio de dados necessariamente vai para a companhia aérea e, dependendo do contrato da empresa com a fabricante da aeronave, as informações também são enviadas para a Boeing e para a fabricante dos motores. 

As informações enviadas para as companhias independem da vontade do piloto. 

Nesta quinta, o Wall Street Journal revelou que o avião teria voado por cerca de quatro horas após sumir dos radares. As autoridades malaias negaram a informação.


O especialista crê que o transponder realmente possa ter sido desligado e isso explica seu último ponto de localização captado pelos radares, sobre o Mar do Sul da China, cerca de uma hora após a decolagem em Kuala Lumpur. 

E crê também que o avião seguiu voando após o desligamento do aparelho. “Parece-me que não há um comando centralizado para revelar as informações. 

Então, cada autoridade do país [Malásia] fala o que quer para imprensa. 


O Wall Street Journal é um jornal extremamente confiável e não teria motivos para inventar uma história dessa gravidade”, afirma Souza. 

“Não tenho conhecimento desse desencontro de informações na história da aviação. 

Nem mesmo no acidente da Air France [em 2009], que foi muito complicado do ponto de vista técnico, tivemos essa confusão de comunicação”, avalia. 

“Eles [as autoridades malaias] negaram as informações do jornal, mas ampliaram as áreas de busca, numa ação contraditória que nos confunde ainda mais. 

Está muito difícil acreditar em qualquer coisa”, lamenta.

Além do sistema de identificação pelo transponder, captado pelos chamados radares secundários, há outro sistema de varredura dos céus feita pelos radares primários. 

De acordo com o Souza, esse tipo de radar capta tudo o que voa, mas não identifica as imagens com precisão, pois não recebe respostas dos objetos captados.

 “Esses radares são ultrassensíveis e podem captar até uma revoada de pássaros”, diz. 


Para diferenciar pássaros de aviões e helicópteros, esses radares calculam a velocidade de deslocamento dos objetos captados e outros dados. 

Um desses radares primários pode ter captado o avião dirigindo-se para fora da rota, como foi divulgado – e em seguida negado – pelas autoridades malaias.



Explosão no ar e outras hipóteses – O modelo 777 é uma aeronave considerada muito segura, com diversos sistemas redundantes – ou seja, sistemas que se repetem para o caso de algum deles falhar. 


“Já tivemos um caso de um modelo anterior, um 737, que perdeu parte da cobertura do corpo da aeronave durante o voo. 

O avião ficou como um carro conversível, mas não caiu e o piloto conseguiu pousar”, diz Souza. 

“É tudo tão redundante que é difícil acreditar que um 777 cairia por uma falha técnica ou estrutural”, completa. 

Ele foi o primeiro avião com tamanho similar ao do Jumbo, mas que voa apenas com dois motores. 

Por isso, de acordo com o especialista, a Boieng teve de reforçar os sistemas de segurança no modelo para que ele fosse aprovado e homologado para a aviação civil.


“Não dá para o 777 perder todos os sistemas de segurança, a menos que haja uma ação ilícita”. 

Aí entram as hipóteses de uma bomba detonada a bordo, sequestro da aeronave ou ação intencional dos pilotos. 

“Porém, o que chama a atenção é que não foi encontrado nenhum vestígio e as aeronaves têm vários componentes que boiam, é praticamente impossível explodir no ar e não deixar rastros”, explica.​


A última mensagem – A tranquilidade da última mensagem de rádio registrada – “Está tudo bem, entendido” – e a ausência de pedidos de socorro não chegam a ser um mistério, diz Souza. 

“Se houve algum problema que causou um colapso na aeronave, a primeira preocupação dos pilotos é mantê-la no ar e não falar no rádio”. 

Para exemplificar, Souza lembrou que a caixa preta do avião Boeing 737 da Gol, que caiu em 2006 no Mato Grosso após ser atingido por um jato Legacy da Embraer, revelou que os pilotos não conversaram com a torre de comando durante a queda.


Souza afirma que para haver um acidente com um 777 sem um fator externo – terrorismo, sequestro ou ação deliberada dos pilotos – é preciso três fatores: uma falha humana, uma falha técnica e uma coincidência. 

“Só uma falha técnica não derruba o avião, pois há vários sistemas redundantes. Só uma falha humana também não á capaz de fazer isso, pois o piloto nunca está sozinho, ele tem ao menos um co-piloto”, diz.

 “Está difícil acreditar nas autoridades malaias. 

Segundo eles, o avião não foi para o chão. Também não foi para o mar no local próximo da última localização. 

Não se desintegrou porque não acharam pedaços. 


Para eles o avião realmente desapareceu!”, exclama. 

“Com as informações que eles passaram até agora está muito difícil tirar qualquer conclusão sobre o destino do voo”, finaliza.

O desaparecimento do Boeing 777


Fonte: agência Reuters

Cronologia do desaparecimento do voo MH370


Desaparecimento

Mulher chora enquanto fala ao celular em busca de informações de um parente que estava no avião da Malaysia Airlines


  No dia 7 de março, a companhia aérea Malaysia Airlines comunicou que havia perdido o contato com o voo MH370, que decolou do aeroporto de Kuala Lumpur, na Malásia, com destino à capital chinesa Pequim. 

O anúncio foi feito após as autoridades do Vietnã confirmarem que o avião não se encontrava mais em seu espaço aéreo, onde o piloto trocou a última mensagem com os controladores. 


Segundo o relato inicial da empresa, o Boeing B777-200 transportava 239 pessoas de treze nacionalidades, sendo 227 passageiros, incluindo dois menores de idade, e doze tripulantes.

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