quinta-feira, 27 de março de 2014

Com a Palavra o Exército, a Marinha e a Aeronáutica.Inclui comentarios.

Wadih Damous Diário do Poder

Publicado: 27 de março de 2014 às 13:09 
Diferentemente do que ocorreu em outros países latino-americanos que viveram também ditaduras militares, no Brasil as próprias Forças Armadas conduziram o processo de redemocratização do país.

Desde a posse do general Ernesto Geisel na Presidência, em 15 de março de 1974, começou a ser posta em prática a chamada “distensão” do regime.

Mesmo com seus altos e baixos, esses últimos evidenciados pelo Pacote de Abril, foi sendo desenvolvida uma estratégia “lenta, gradual e segura”, para a saída de cena do regime militar.

Os objetivos dessa política, que visava à manutenção do controle no processo de transição, eram essencialmente dois: impedir mudanças sociais mais profundas no país e evitar que os crimes da ditadura pudessem ser punidos.

Essa situação explica o porquê do atraso na criação da Comissão da Verdade, só criada em 2011, 25 anos depois do fim da ditadura. Uma situação inteiramente diferente da enfrentada por países vizinhos.

Mas, bem ou mal, com ou sem atraso, o lixo empurrado para baixo do tapete começa a aparecer. Seja pelo trabalho das várias comissões da verdade, seja por reportagens na imprensa, seja porque alguns dos militares envolvidos com sequestros, torturas e assassinatos de presos políticos começam a falar.


Esses depoimentos devem ser tomados com a devida cautela.

Em alguns casos, há uma nítida preocupação de inocentar-se dos crimes, atribuindo-os a colegas de farda já mortos. Em outros, certamente há um esforço de desinformação. Afinal, estamos tratando de profissionais de inteligência e contrainteligência.

Mas o fato é que muita coisa começa a aparecer.

O primeiro desses depoimentos relevantes foi dado pelo coronel da reserva Raymundo Ronaldo Campos à Comissão da Verdade do Rio. Ele confirmou ter montado uma farsa para encobrir o assassinato do ex-deputado Rubens Paiva sob tortura nas dependências do DOI-Codi.

Recentemente o coronel Paulo Malhães, que já havia fornecido informações à Comissão da Verdade do Rio, admitiu em entrevista à imprensa que foi o responsável por dar sumiço ao corpo de Rubens Paiva, entre outros crimes que cometeu quando era figura importante no Centro de Informações do Exército (CIE), durante a ditadura.

Esses depoimentos são importantes e ajudam a lançar luz sobre nossa história recente, propiciando a recuperação da memória histórica do país.

Mas deixam um desafio ao Exército: cada vez é mais insustentável a decisão de não comentar fatos dessa natureza e manter suas versões mentirosas sobre o destino de desaparecidos políticos.

A ninguém interessa Forças Armadas desmoralizadas e achincalhadas. Ao contrário: elas são uma instituição permanente e fundamental para o país. Mas têm que se adequar aos novos tempos, de democracia.

Por isso, têm o dever de vir a público manifestar-se sobre os relatos de seus integrantes que comprovam os crimes cometidos durante a ditadura.

Com a palavra, o Exército, a Marinha e a Aeronáutica

*Presidente da Comissão da Verdade do Rio de Janeiro e da Comissão Nacional de Direitos Humanos da OAB

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