quinta-feira, 17 de julho de 2014

Brasil, Brics e a "cláusula FMI" - VINICIUS TORRES FREIRE


FOLHA DE SP - 17/07


Governistas exageram importância do banco miudinho; acordo de fundo dos Brics 'aceita' FMI

O BANCO e o fundinho financeiro criado nesta semana pelos Brics tem, repita-se, alguma relevância política e, quem sabe, daqui a uma década, pode ter alguma relevância econômica. Talvez. Mas há exagero ridículo a respeito dos acordos de Fortaleza, que são miudinhos e, note-se de passagem, contêm cláusulas de sujeição a "instituições do império", como o FMI.

A gente ouve e lê, de adeptos abestados do governismo e do esquerdismo rudimentar, que Fortaleza sediou os acordos do Bretton Woods da "nova ordem". A coisa toda é de uma pobreza tão ignorantinha que causa constrangimento comentar. Mas se difunde.

Bretton Woods, explique-se, foram os acordos que puseram alguma ordem na finança internacional entre o fim da Segunda Guerra e mais ou menos até o início dos anos 1970, arranjo acertado entre 44 países, em 1944, sob domínio dos Estados Unidos, e que resultou, entre outras coisas, na criação de instituições como o FMI e o Banco Mundial.

Na reunião de terça, em Fortaleza, criou-se um banco multilateral de desenvolvimento, o Novo Banco de Desenvolvimento (NBD), e um fundo virtual de socorro financeiro a países em crise de pagamentos externos ou turbulências afins.

Pelo acordo de empréstimos para países com dificuldades de fechar contas externas, os bancos centrais dos Brics emprestariam dólares em troca da moeda local do país avariado, com prazo de retroca, até um certo limite de dinheiro.

Mas parte do dinheiro (70%) apenas sai se o país mal das pernas tiver um acordo com o FMI, ora vejam. Sim, FMI, instituição dominada por americanos e europeus e criticada pelos Brics, motivos que também levaram os Brics a criar "seus" banco e fundo multilaterais.

É verdade que, pelos termos do tratado desse fundo virtual de reservas, os Brics podem mudar todas as regras de acesso ao dinheiro. Mas a "cláusula FMI" acaba por dar um tempero ridículo às ideias de "rebeldia" e "ordem alternativa".

Além do mais, o dinheiro não é grande coisa. Por exemplo, o Brasil, em crise, poderia "sacar" no máximo US$ 18 bilhões; apenas US$ 5,6 bilhões se não tiver acordo com o FMI (nesta semana, o Brasil tinha US$ 380 bilhões em reservas).

Talvez esse fundo virtual possa ajudar países mais pobrinhos, caso eles não sejam obrigados a entrar com cotas tão relevantes quanto a dos Brics.

Quanto ao banco, ele será um projeto experimental por pelo menos meia década, digamos.

Lá por 2022, os países dos Brics terão acabado de pingar um capital de US$ 10 bilhões. Em 2016, quando deve funcionar, começa com um capital de US$ 750 milhões, o que não dá para financiar umas estradinhas. Pode ser que o banco tenha mais dinheiro para emprestar devido a lucros acumulados ou levantamento de empréstimos.

Tudo pode dar muito certo e a capitalização pode ser revista para cima. Mas, de início, trata-se de coisa miúda, com perspectiva de poder emprestar uns US$ 40 bilhões uma década depois de começar a funcionar, e olhe lá. O BNDES empresta US$ 333 bilhões. O Banco de Desenvolvimento da China empresta o quádruplo do BNDES.

Isso quanto a dinheiros. Resta saber como países tão diferentes vão se acertar politicamente no banco.


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