terça-feira, 18 de março de 2014

Passageiros cobram solução do transporte público em manifestação


Após protestos, ANTT anuncia que contratará empresas e ônibus
 
Ludmila Rocha e Patrícia Fernandes, com agências
redacao@jornaldebrasilia.com.br



Depois do caos, a reação. A Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) vai publicar hoje um chamamento público para contratar uma ou mais empresas de ônibus interessadas em operar as linhas da Região Metropolitana Sul -  Distrito Federal. 

A medida tem caráter emergencial e prevê que 220 ônibus entrem em funcionamento, a partir do início de abril, paralelamente às atuais empresas. Diariamente, 103 mil passageiros transitam, entre ida e volta, das cidades da Região Metropolitana para o DF.

O objetivo da ANTT é dividir o mercado entre quatro grandes lotes de serviços, de modo que sejam contratadas quatro empresas. De acordo com a agência, as empresas  deverão cumprir critérios como regularidade jurídica e fiscal, capacitação técnica, além de ter veículos de boa qualidade, como tempo de uso médio de cinco anos. 

Terão de observar regras como ocupação máxima de passageiros, pontualidade e eficiência nos serviços. Porém, uma solução definitiva, com a concessão das linhas por licitação, deve ocorrer até o fim do ano.


O anúncio da agência ocorreu após mais uma manhã de protestos nas principais vias de ligação entre o DF e Goiás. 

Por volta das 6h, manifestantes fecharam os dois sentidos da BR-040 próximo a Santa Maria, e mais à frente, às margens de   Valparaíso. Eles pediam mais linhas de ônibus e veículos em melhor estado de conservação. O engarrafamento chegou a   30km.

Bloqueio

Dois ônibus da Viação Anapolina (Vian) foram depredados e outros dois queimados. Nem motos e carros de socorro passavam pelas barreiras de contenção. 

Houve confronto entre os manifestantes e os policiais da PRF e do Batalhão de Choque. Pessoas acusadas de incitar a desordem e atirar objetos contra a polícia foram detidas. As pistas só foram liberadas ao meio dia.

Cansados de esperar por ônibus que só passavam lotados e não paravam nos pontos, os cerca de 50 manifestantes resolveram interditar a rodovia, utilizando o próprio material das obras da pista para fazer fogueiras. 

Outras cem pessoas observavam a movimentação e esperavam uma resolução em uma passarela.

Segundo os usuários, após a greve dos rodoviários da Vian – que estariam há um mês sem receber –  usuários passaram a lotar os ônibus ainda no terminal de Santa Maria, de modo que os veículos já chegam lotados à BR. 

“Depois de horas esperando ônibus, que só passavam entupidos,   cansamos e resolvemos protestar”, reclama Priscila Ninaut, 26, operadora de telemarketing.

Milhares de prejudicados

Motoristas também sofriam com a espera no engarrafamento. O auxiliar de manutenção  Nilson Santos,   31 anos, contou que tentava chegar ao trabalho, em Brasília, desde as 7h. “Apesar de ter me atrapalhado, sou a favor da manifestação, porque o transporte público daqui é horrível, mas sem vandalismo”, comentou.

Ricardo Rocha, de 36 anos, tentava entregar uma carga. “Vim de São Paulo. Estou desde as 6h30 tentando chegar a Brasília. Atrasou o trabalho do dia inteiro”, disse.

Quinze homens da PRF foram designados para tentar negociar com os manifestantes. “Vocês já chamaram a atenção para a situação, mas essa não é a melhor forma de manifestar. Façam um documento com as reivindicações e encaminhem para as autoridades”, dizia o inspetor Bonfim.

 “Precisamos de uma garantia de resposta, queremos um representante da ANTT aqui. Os ônibus de Valparaíso, Luziânia, Cidade Ocidental, Pedregal e Jardim Ingá estão caindo aos pedaços”, respondeu o manifestante Igor Putrim, de 20 anos.  

O líder comunitário de Santa Maria Júlio Frateli ainda tentou, auxiliado pela PRF, elaborar um documento com os pleitos. Antes da conclusão das negociações, no entanto, cerca de 60 homens da Polícia Militar do DF foram chamados e retiram os espectadores da passarela. Segundo o capitão Urbene, à frente da operação, “havia revoltosos infiltrados atirando pedras”.  

Na sequência, tropas do Patamo e do Choque, ambas da PMDF, foram acionadas para dar fim ao movimento, que já ocorria há mais de cinco horas. Para dispersar a multidão, os policiais do batalhão de Choque utilizaram jatos de água e, em seguida, bombas de gás lacrimogêneo. Segundo a corporação, 23 manifestantes acusados de agredir a polícia e incitar a violência foram presos. 

Liberação

Às 10h, uma das faixas no sentido da Brasília já havia sido liberada. Engenheiros responsáveis pela reforma da rodovia disponibilizaram uma escavadeira para recolher o material utilizado no bloqueio das vias. Após a conclusão do trabalho, as faixas dos dois sentidos foram liberadas. 

Um dos ônibus   depredados da Vian voltou a circular com passageiros, mesmo com as janelas dianteiras, laterais e traseiras quebradas. O outro, em mesmo estado, foi direto para a garagem da empresa. 

Acidente deixa 18 feridos

Um micro-ônibus  da Cooperativa de Habitação e Transportes (Cooptha), responsável pelo transporte circular dos moradores da Cidade Ocidental (GO), na Região Metropolitana, perdeu o controle e capotou na manhã de ontem. O veículo, transportando cerca de 20 pessoas, deixou 18 feridos. 

As vítimas com menor gravidade foram encaminhadas para o Hospital Municipal da Cidade Ocidental. As que precisavam de atendimento especial foram levadas para os hospitais regionais do Gama e da Asa Norte.

Segundo o diretor do Hospital da Cidade Ocidental, Helemon Araújo, as vítimas estavam em estado estável. “A de maior gravidade era uma criança de 6 anos, que teve fratura exposta no pulso”, explicou. 

A estudante Iandra Rebeca, 12, que estava no ônibus, relata que jamais esquecerá os momentos de pânico que viveu. “Quando ele (motorista) falou que estava sem freio, todos começaram a gritar. Foi horrível”, relembra. 

Para ela, o acidente era uma tragédia anunciada. “Sempre reclamam do problema nos freios, mas nunca fazem nada”, lamenta.  Ela diz que o fato não deve ser encarado como um acontecimento isolado. “Todos os ônibus estão em péssimo estado”, diz.

Revolta

 Na opinião de Vera Nogueira Vieira, 48 anos, mãe de um dos passageiros, um adolescente de 14 anos, o péssimo estado do transporte público deve ser encarado com seriedade. “Até quando isso vai acontecer? Queria ver se fosse um dos filhos desses governantes”, disse, revoltada.
Segundo ela, além dos graves problemas no transporte público, o filho ainda vai ser obrigado a lidar com o caos na saúde pública. “No hospital daqui não tem estrutura. Ele está com algumas fraturas e por isso teve de ser transferido para o Gama”, diz.

Falta de atenção

 A estudante Ester Aragão, 13 anos, vítima do acidente, acusa a prefeitura de omissão e condena a falta de atenção dada aos passageiros. “Ela (a prefeita) não foi ao local do acidente nem veio aqui (hospital). Cadê ela? Estamos jogados e sem auxílio algum”, destaca.


Fonte: Da redação do Jornal de Brasília

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